Capítulo I Percurso da pesquisa, descrição inicial do caso empírico e dos contornos
1.2. O primeiro campo
1.2.1. Período em Manaus e surgimento de novos planos
Após quatro dias na RDS Tupé, percorrendo as diversas comunidades e aplicando entrevistas exploratórias, retornei a Manaus. Nos dias seguintes, percorri agências de turismo na cidade, para verificar que atrativos eram oferecidos ao turista. Visitei nove agências de turismo, onde não me identificava como pesquisadora, mas sim como uma turista a procura de atividades na região. Optei por esse tipo de comportamento pois, considerando que isso não
36
Trata-se de um fenômeno natural que ocorre na confluência do Rio Negro, de água de coloração escura, com o Rio Solimões, de água de coloração barrenta. Por questões ligadas à temperatura, densidade e velocidade das águas, os dois rios correm lado a lado sem se misturar, por mais de 6 quilômetros.
37
De fato, isso foi confirmado em na segunda pesquisa de campo (realizada entre maio e junho de 2014), quando o resort já não estava mais na RDS Tupé.
feria os princípios éticos do fazer científico, tinha o objetivo de não correr o risco de qualquer tipo de influência enviesada na sugestão de pacotes. Queria saber, de fato, quais opções o turista interessado em conhecer a Amazônia encontrava ao procurar as agências de turismo situadas em Manaus e acreditei que me passar por turista seria a melhor maneira de alcançar isso.
O observado foi que em todas as agências visitadas havia muitas semelhanças. Além de todas serem negócios locais38, os pacotes e passeios proporcionados eram muitos parecidos. Predominantemente, ofereciam pacotes com duração de um dia, para visitação de botos cor-de-rosa, almoço em restaurante de culinária regional e visita ao que chamam de “ritual indígena”. Para pacotes de duração de dois a cinco dias o oferecido eram os “jungle tours”, nos quais o turista fica hospedado em pousadas (ou lodges, como são referidos nas agências). Refeições, transporte e passeios estavam incluídos. Esses últimos se constituiriam em: pescar piranhas, fazer trilhas, um pernoite em acampamento na floresta, focagem noturna de jacarés, observação de animais, visita ou pernoite em “casa do caboclo”39
.
A seguir, as imagens dos folders de algumas das agências40 visitadas ilustram o que era proposto e vendido como passeio.
Conforme se confere, o verso do folheto promocional da Agência de Turismo A (Imagem 2) é todo escrito em língua inglesa. Pacotes como visita ao Encontro das Águas e City Tour são oferecidos. Algumas fotos ilustram esses passeios. No passeio chamado de Negro River Beauties (Belezas do Rio Negro) há duas fotos: uma do Museu da Borracha, e a outra que recebe o título Indigenous Ritual (Ritual Indígena).
38 Interessante destacar que em Manaus as agências de turismo tratam-se de empreendimentos locais. Se
entendermos por operadora de turismo a empresa que foca sua atuação na criação de roteiros e na negociação das diferentes escalas que envolvem o negócio turismo e, se entendermos por agências de turismo as empresas que trabalham atendendo aos clientes pessoalmente, no varejo, por assim dizer, oferecendo o melhor pacote conforme os desejos e a disponibilidade financeira de cada turista, teremos que, em Manaus, a maioria massiva das agências de turismo atua também como operadoras de turismo. Ou seja, são empresas cujos proprietários são pessoas residentes na região e que prestam serviços de operadora e agência de turismo. Assim, diferentemente do que ocorre em algumas cidades turísticas brasileiras, dominadas por grandes empresas, agentes turísticas, em Manaus o que foi observado é que as empresas do ramo de turismo não se tratam de franquias ou de agências que atuam em sistema de parceria com grandes operadoras de turismo nacionais ou internacionais e sim, de negócios tocados por empresários locais que operam e agenciam, muitas vezes pessoalmente, esse tipo de serviço.
39
Termos que os agentes de turismo utilizam para se designar à casa do morador local.
40
Por questões éticas, todos os nomes dos estabelecimentos turísticos utilizados nesta tese serão preservados. Exatamente por isso, há algumas alterações (caracterizadas por marcas em branco) nos folhetos de propaganda. Essas alterações, realizadas pela autora da tese, aparecem nos lugares correspondentes aos nomes das agências, endereços e telefones de contato. Pelas mesmas razões, os nomes das comunidades em que as pousadas estão inseridas, quando surgirem, também serão fictícios.
Imagem 2: Verso do Folheto Promocional da Agência de Turismo A
Na Imagem 3, o folheto, escrito em língua portuguesa, está carregado de expressões em língua inglesa (City Tour, River Tour, dentre outros):
Imagem 3: Folheto Promocional da Agência de Turismo B
Dentre as atividades listadas na Imagem 3, podemos destacar “pacotes para eventos típicos da região” e “visita comunidade indígena” (sic). Das sete fotos presentes no folheto, duas são do ritual de dança indígena.
As Imagem 4 e 5, correspondem a partes de folhetos publicitários de diferentes Agências que trabalham de forma parecida. Com algumas fotos, os folhetos são escritos majoritariamente em língua inglesa e detalham sobre a estadia nos lodges, na floresta:
Imagem 5: Parte do folheto promocional da Agência de Turismo D
Paralelamente à visita às agências de turismo, e conforme dito em nota anterior, ainda no dia 03 de fevereiro, assisti à Reunião ordinária das Comunidades da RDS Tupé, na sede da SEMMAS. Ao que me foi informado, tais reuniões vinham ocorrendo desde o ano de 2013 com uma frequência bimestral. Nessa reunião, com a presença de diversos atores envolvidos nas dinâmicas da região, pude observar de maneira mais evidente os conflitos, questões e demandas que envolviam a RDS Tupé.
Mais detalhadamente, os temas e comentários presentes foram: discussão sobre um levantamento de atividades de geração de renda (na comunidade Julião, fabricação de doces artesanais; na Agrovila, peças de artesanato; em São João do Lago do Tupé foram mencionados tanques de criação peixes); questão de preservação ambiental da área e meios de
sobrevivência; questão em torno de tirar licença ambiental para fazer roçado; questão de controle e posse responsável de animais domésticos (cães e gatos). A questão do turismo foi muito pouco tocada, apenas uma senhora solicitou rapidez para resolver a questão do turismo na praia de São João (referente a licenças para venda de bebidas e comidas), justificando a realização da Copa do Mundo para tal pressa. Os moradores indígenas não estavam presentes na reunião.
Assim, os conflitos percebidos no local, através da observação da reunião, foram: conflitos entre moradores e prefeitura no que diz respeito a uso dos recursos naturais da Reserva; conflitos e disputas entre moradores pertencentes a grupos da religião católica e grupos evangélicos, referente a discriminação religiosa; conflitos em torno de disputa entre as diferentes comunidades da RDS, com os diversos líderes das comunidades visando angariar benefícios para suas comunidades específicas, mais do que trabalhando numa ação em conjunto para o bem de toda a população da RDS; conflitos dentro das próprias comunidades, disputas entre famílias rivais. Conflitos diretamente ligados ao turismo não apareceram nessa reunião.
Com todo esse quadro que se delineava - e sempre considerando que a grande questão de fundo que movia a pesquisa era compreender como a região amazônica se insere e se entrelaça na cultura e economia de um mundo globalizado, tendo como ponto de partida a realidade local do turismo voltado ao público internacional -, decidi passar quatro dias na área onde se realizam os “jungle tours” para ver mais de perto como funcionava a dinâmica das chamadas pousadas de selva. Mais uma vez, Michele me acompanhou. Fechamos um pacote de quatro noites e cinco dias numa das pousadas. Para os funcionários da Agência onde fechamos o pacote, nos identificamos como duas turistas que queriam conhecer a Amazônia. Optei pela Agência que me pareceu mais famosa41 na cidade.
Conforme posteriormente constatado de modo empírico, essas pousadas estavam localizadas a cerca de 100 quilômetros (em linha reta) a sudeste da capital amazonense, numa dinâmica turística que, em termos físicos, envolve o Rio Paraná do Mamori até o Rio Juma (o que significa, do município de Careiro até os limites com o município de Autazes). Careiro está inserido na sub-região Rio Negro-Solimões e possui uma população de aproximadamente 30 mil habitantes, de acordo com o Censo Demográfico de 2010. O município é dividido por
41 Para esse julgamento, conversei com atendentes de alguns hotéis e postos de informações turísticas de
Manaus. Explicava que éramos turistas e que estávamos a procura de jungle tours, e, então, solicitava uma indicação de uma Agência para isso.
muitos lagos e rios, que formam diversas ilhas, onde vivem diversas comunidades ribeirinhas de maneira dispersa.