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Capítulo I Percurso da pesquisa, descrição inicial do caso empírico e dos contornos

1.2. O primeiro campo

1.2.3. Nova estadia na RDS Tupé

Imagem 8: Vista da Oca na RDS Tupé, a partir do Rio Negro

Fotografia: Maria Teresa Manfredo, fevereiro de 2014.

Após esses quatro dias de vivência do “jungle tour”, voltei a Manaus e, visando otimizar o tempo que ainda me restava na região, do dia 13 a 18 de fevereiro retornei à Reserva Tupé. O objetivo era estreitar contato com a população local, a fim de levantar mais informações a respeito da dinâmica turística na área, aprofundando o conhecimento, também, sobre a questão do turismo de visitação aos indígenas.

Fiquei hospedada na casa de uma família que havia conhecido durante os dias que passei com a equipe do Projeto Biotupé, na comunidade São João do Lago do Tupé. Naqueles primeiros dias, após uma entrevista que fiz com a moradora Iara51, expliquei minha situação de pesquisadora, dizendo que nos próximos dias necessitaria de um abrigo na comunidade. Perguntei se ela saberia de algum lugar onde eu poderia pernoitar. Comentei que eu já havia entrado em contato com outra família (a qual os próprios pesquisadores do projeto Biotupé tinham me recomendado), mas o senhor indicado para esse contato pareceu não compreender (ou não quis entender) minha situação de pesquisadora, me tratando mais como uma turista

51 Por questões éticas, todos os nomes dos informantes, entrevistados e dos estabelecimentos turísticos utilizados

nesta tese, quando não suprimidos, são fictícios. Entendo que tal artifício não invalida, entretanto, suas posições na arena turística em foco.

que queria passar um tempo na RDS - disse então, que para eu pernoitar na casa de sua família, eu deveria pagar uma diária de cerca de 70,00 reais, que incluiria três refeições.

Sabendo e compreendendo a situação, ao conversar com seu esposo, Iara me ofereceu para passar cinco dias em sua casa. Combinamos que eu ajudaria nas despesas com alimentação, comprando da própria venda da família alguns alimentos que consumi quando estive por lá hospedada (como macarrão, latas de sardinha, pacotes de biscoito, dentre outros). Agradeci, e comprometi-me a telefonar para seu celular52, confirmando exatamente a data da estadia.

Nessa segunda estadia na RDS Tupé fui sem minha companheira de campo até então. Contei com a colaboração de agentes da SEMMAS, sobretudo no que diz respeito a transporte, pois me deram carona de ida e volta à RDS. Durante os dias que passei em Manaus, em todos os contatos que estabeleci com os funcionários da SEMMAS, eles foram muito solícitos comigo, sempre demonstrando interesse em ajudar no que fosse possível. Quando conversei com os secretários e técnicos que lá trabalham sobre a situação de minha pesquisa (que até então estava projetada para focar nas relações que envolvessem o resort que estava em vias de se retirar da RDS Tupé), eles tentaram auxiliar com algumas sugestões de ideias, demonstrando que gostariam que pesquisas fossem desenvolvidas no local. Nesse período, mesmo ainda não sabendo qual seria exatamente o redirecionamento do meu projeto de doutorado (que, devido às imposições empíricas, seria necessariamente remodelado), iniciei os trâmites para obter o documento de autorização de pesquisa na Reserva, junto à SEMMAS.

Durante esses cinco dias em São João do Tupé apliquei entrevistas exploratórias semiestruturadas com residentes ribeirinhos53 e indígenas54; também fiz o registro de histórias

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Pela sua proximidade com Manaus, em alguns pontos da comunidade é possível o acesso ao sinal de celular.

53 O roteiro dessas entrevistas semiestruturadas se encontra no Apêndice 4. Devo também destacar que,

conforme o que observei em campo, na região de Manaus, os moradores residentes rurais tanto em áreas de várzea, quanto nas margens ou redondezas dos rios e igarapés utilizam, de maneira geral, a referência indentitária “ribeirinhos”. Dessa forma, à exceção das populações que se identificam como pertencentes a algum grupo étnico, os demais moradores recorrem à referência de ribeirinhos para afirmar sua identidade perante os que residem na área urbana. Assim, no que encontrei, os termos de autoatribuição de maior visibilidade são o índio, em oposição a brancos ou civilizados; e ribeirinho, em oposição às categorias acima citadas. De acordo com Alencar (2005) - ainda que tratando da região do Alto Solimões - identitariamente estariam também em oposição ao ribeirinho os proprietários de terras, os grandes agricultores ou criadores de gado, os donos de embarcações, os políticos, os grandes comerciantes e, mais recentemente, os indígenas. Isso porque, esses últimos, desde a década de 1980 vêm tendo acesso a certos direitos garantidos constitucionalmente que não abarcam os ribeirinhos, que não se consideram indígenas. Assim, segundo a autora, o termo ribeirinho também tem sido utilizado recentemente por grupos sociais que buscam afirmar uma identidade política que se constrói pela consciência de fazer parte dos estratos de população rural a quem historicamente tem sido negado o acesso a serviços sociais básicos, como saúde educação e saneamento. Em muitas maneiras, e conforme veremos em

de vida, tentando captar histórias a respeito da constituição da comunidade e da dinâmica turística em questão; registrei práticas cotidianas e impressões da vivência no local, em diário de campo, além de registro fotográfico.

Observei que as principais atividades econômicas da comunidade, em geral, eram agricultura, pesca e coleta (visando suprimir as necessidades alimentares familiares), além de alguns ganhos com turismo e pequena produção de artesanato. Como fazem parte de uma Unidade de Conservação, os moradores devem solicitar permissão ao órgão gestor para a realização de qualquer atividade que venha, de alguma forma, a explorar o ambiente natural. Ouvi queixas muito comuns referentes à grande demora em saírem essas licenças. Muitos moradores alegaram que, em virtude dessa delonga, praticam tais atividades de exploração, mesmo de maneira ilegal. Além disso, muitos moradores disseram ter emprego em Manaus, voltando para a comunidade aos finais de semana. Por manter essa forte ligação com a cidade, a comunidade parecia muito uma extensão rural de Manaus. Outras fontes de renda na comunidade eram o programa do Governo Federal Bolsa Família, ou ainda, a aposentadoria.

Em termos de equipamentos públicos, a comunidade São João do Tupé possuía, à época, uma escola municipal; uma quadra de esportes; um espaço conhecido como centro social; um posto de saúde. Além disso, havia duas igrejas (uma católica e uma evangélica); duas Associações Culturais Indígenas; três estabelecimentos comerciais que vendiam alimentos; além de algumas dezenas de lotes residenciais (Figura 3).

melhor detalhes ao longo desta tese, essas questões tocadas por Alencar (2005) também são verificáveis na arena de Manaus.

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Figura 3: Localização dos lotes e equipamentos comunitários em São João do Tupé Fonte: Instituto de Pesquisa Ambiental do Amazonas (IPAAM), 2006.

Não havia rede de energia elétrica na comunidade, na ocasião. Alguns moradores possuíam placas de energia solar, gerando o suficiente para uso da televisão. Desse modo, a única fonte de energia elétrica existente em São João do Tupé era o gerador da escola municipal, que permanecia ligado das 18 às 22 horas, durante a semana. A fim de ter eletricidade nos finais de semana, os moradores faziam uma cota mensal para a compra de óleo diesel para o gerador da escola. Observei que pelo menos duas residências possuíam acesso à internet, que lhes chegava via satélite. Como já dito em nota anterior, pela sua proximidade com Manaus, em alguns pontos da comunidade era possível o acesso ao sinal de telefone celular. Em se tratando de água encanada e rede de esgoto, este era um serviço que também não existia na comunidade.

No que diz respeito ao turismo internacional na comunidade, de fato, confirmei que o atrativo maior vinha sendo a visita às famílias indígenas que lá se instalaram desde o começo da década de 2000. Nas duas Associações Culturais Indígenas55 eram desenvolvidas atividades turísticas, sobretudo a apresentação de danças ao público interessado, conforme agendamento prévio.

Nessas atividades participavam famílias indígenas da etnia Desana. Elas tinham o turismo como sua fonte principal de renda e residiam na própria comunidade de São João do Tupé, em casas de madeiras, no estilo arquitetônico comum às casas dos demais moradores da região. Isso fazia com que, no interior da comunidade, não fosse possível a diferenciação entre o que fosse a casa dos indígenas e a casa de ribeirinhos. O que se destacava na paisagem, enquanto uma construção arquitetônica visivelmente indígena (ao menos no que diz respeito ao estereótipo do senso do comum, do que seja uma arquitetura “tipicamente” indígena) eram as Ocas. Essas eram uma das únicas construções possíveis de se visualizar quando ainda se estava no Rio Negro, aproximando-se de São João do Tupé. Isso porque haviam sido construídas na parte mais elevada da margem do rio – mais especificamente em cima de uma falésia existente no local.

Dessa forma, foi-me explicado que, quando o rio estava em fase de seca, e a falésia aparecia mais alta, os indígenas construíam uma ponte para os visitantes caminharem até a Oca. Quando o rio estava em época de cheia, as embarcações chegavam muito próximas do núcleo turístico, de forma que só era necessária a subida de uma pequena ribanceira para se

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Termo conforme os próprios indígenas se referiam àquele espaço. O local também era chamado de Oca ou Maloca pelos habitantes locais – essa última referência, com conotação mais pejorativa. Trata-se de um galpão amplo, de formato retangular, sem divisórias internas, construído pelos indígenas com estrutura de madeira e cobertura de maciça palha, com o teto em forma triangular.

chegar à Oca. Interessante destacar que os turistas que chegavam dessa forma não precisavam passar pelo interior da comunidade São João do Tupé, o que levava muitos deles a concluírem que se tratam de terras exclusivamente indígenas.

Ainda no que diz respeito à dinâmica local do turismo em São João do Tupé, pelo que foi levantado no trabalho de campo, houve uma cisão entre dois irmãos indígenas quando já estavam em São João do Tupé, trabalhando com turismo. Daí o motivo pelo qual no local existiam duas Associações Culturais Indígenas, com indígenas oriundos da mesma etnia. As Associações tratam-se de empresas, registradas no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ).

Imagem 9: Associação Cultural Indígena ou Oca na RDS Tupé

Fotografia: Maria Teresa Manfredo, junho de 2014.

Em média, as Ocas recebiam quatro grupos de turistas por dia, com cerca de até 30 pessoas por grupo. Assisti à apresentação da Associação de um dos irmãos, o líder Umuko Kumu56, mas, de acordo com relatos colhidos, as apresentações nos dois núcleos eram muito

56 De acordo com o texto de autoria do antropólogo Stephen Hugh-Jones, disponível no web site “Povos

Indígenas no Brasil” - parte do portal do Instituto Socioambiental (ISA) -, na Amazônia, é comum a referência aos especialistas rituais com poderes especiais e acesso a conhecimentos esotéricos indígenas como "xamãs". Entre os povos Tukano, do qual a etnia Desana faz parte, todos os homens adultos devem ser, em alguma medida, xamãs. Aqueles que são reconhecidos publicamente dessa forma têm maior conhecimento ritual, sendo reconhecidos como especialistas. A nomenclatura "xamã" englobaria dois especialistas rituais, os yai e os kumu. Os yai corresponderiam ao xamã típico da Amazônia ou o pajé. Suas principais tarefas seriam lidar com as

parecidas. Nelas, cerca de 15 pessoas (homens e mulheres) cantavam e dançam acompanhados por instrumentos de sopro e tambores. Os trajes e instrumentos eram confeccionados por eles mesmos.

Após a apresentação, o líder do grupo sugeria que os turistas apreciassem as peças de artesanato (pequenos objetos de decoração, assim como colares, pulseiras e brincos) que estavam expostas para a venda, dentro da Oca. Essas peças de artesanato não eram confeccionadas pelos próprios indígenas, eles as compravam de outros artesões das redondezas, ou mesmo de artesões de Manaus e as revendiam na Associação. Muitos turistas compravam esses produtos.

Também logo depois do término das danças, Umuko entregava o seu cartão de visitas aos turistas. Feito em papel couchê, o cartão possuía impressão fotográfica colorida, com a imagem de Umuko e a praia do Tupé ao fundo. Em destaque, estava escrito seu nome, e na linha abaixo “curandeiro pajé”. Havia também o número de telefone celular para contato, seu endereço de email e seu endereço de perfil na rede social Facebook. Umuko explicava que estava deixando o contato para o caso de alguém querer agendar outra visita, ou mesmo para o caso de alguém querer fazer uma pajelança. Dependendo da situação e do preço negociado, ele poderia viajar até o local indicado, para fazer esse ritual.

Pelo que observei no primeiro campo, os demais moradores do Tupé pareciam não se apropriar ou não se identificar com essa atividade turística, não a enxergando como uma atividade da comunidade de São João do Tupé, preferindo classificá-la como “atividade dos índios”. Apesar de os moradores ribeirinhos terem declarado que não viam suas atividades e as atividades dos indígenas como necessariamente concorrentes, muitos se ressentiam do sucesso dos moradores indígenas nessa empreitada.

pessoas e o mundo dos animais e da floresta. Ele desempenharia um papel importante também na caça. O pajé seria também um especialista na cura de moléstias causadas pela feitiçaria de criaturas vingativas e seres humanos ciumentos. A cura se daria jogando água sobre o corpo do paciente ou soprando-lhe fumaça de tabaco, envolvendo sempre a sucção de objetos ou substâncias do corpo do paciente. Sempre de acordo com a mesma fonte, teríamos que tanto o yai como o kumu são especialistas, contudo o kumu seria mais um sábio e sacerdote do que propriamente um xamã. Seus poderes e autoridade seriam baseados no intenso conhecimento da mitologia e dos procedimentos rituais, após anos de treinamento e prática. Assim, os reconhecidos como kumu geralmente seriam homens mais velhos, com pais ou tios paternos detentores do mesmo status. O kumu comumente é também um líder político de sua comunidade e com autoridade considerável sobre uma área mais ampla. O kumu também desempenharia papel importante nos ritos de passagem e cerimônias de nascimeto, iniciação e morte. Também seria o responsável por presidir as festas de dança e conduzir e supervisionar os rituais. Disponível em: <https://pib.socioambiental.org/pt/povo/desana/1411>, acessado em 23 de janeiro de 2015.

Esses aspectos serão melhor detalhados e analisados nos próximos capítulos desta tese.

1.3. Balanço geral do primeiro campo, revisão e construção de parâmetros concei-