CAPÍTULO 2 – O USO DE SMARTPHONES NO ENSINO DE LÍNGUAS – O
2.1 O Estado da Arte: Mobile Learning e Mobilie Assisted Language Learning
Trato neste primeiro momento de questões mais amplas da aprendizagem móvel, a saber: os aspectos sociais e as possíveis transformações e paradigmas do
mobile learning (doravante m-learning), para entrarmos, então, em questões mais
específicas de sala de aula, como mobilidade e modelos de ensino e aprendizagem baseados na aprendizagem móvel.
De fato, estamos em pleno ano de 2019 na era da mobilidade, por isso, temos a oportunidade de projetar e pensar a aprendizagem de maneira diferente, ou
seja, vinculando pessoas em espaços e tempos diferentes. Para compreender como as pessoas aprendem por meio de um dispositivo móvel, em primeiro lugar, existe a necessidade de entender as implicações do aprendizado com tecnologia móvel e construir teorias educacionais que incorporem de forma apropriada as possibilidades trazidas pelas tecnologias mais atuais, apropriadas no sentido de partir das possibilidades dessas tecnologias para pensar como utilizá-las na educação.
O m-learning é quem possibilita a ocorrência do processo de ensino e
aprendizagem por meio das diversificados dispositivos móveis, tais como tablet ou smartphone, além de outras menos convencionais – como um pocket PC, por exemplo –, que se “baseiam na conectividade sem fio para permitir que haja comunicação entre aprendiz e educador e cuja finalidade seja interação que vise a um processo de ensino e aprendizagem” (COLL e MONEREO, 2008, p. 45).
Um primeiro passo para postular uma teoria da aprendizagem móvel (m-
learning) é distinguir o que ela tem de especial em comparação a outros tipos de
aprendizagem. M-learning é definida de forma diferente por diferentes autores. Aqui, irei me ater a perspectivas que enquadro em três categorias, estipuladas com base em minhas leituras, a saber: tecnocêntrica, de relação com e-learning e centrada no aluno, que passo a discutir a seguir.
Na perspectiva tecnocêntrica, M-learning é definida como a possibilidade
de ocorrência do processo de ensino e aprendizagem por meio das dos diversos dispositivos móveis. Na perspectiva da relação com o eletronic learning14 –
aprendizagem eletrônica (doravante e-learning) – caracteriza o m-learning como uma extensão do e-learning. Temos como exemplo Kadirire (2009) que define m-learning como uma forma de e-learning – a aprendizagem pode ocorrer a qualquer hora e em qualquer lugar com a ajuda de um smartphone.
Na perspectiva centrada no aluno, O’Malley et al. (2003) afirmam que m-
learning é qualquer tipo de aprendizagem que acontece quando o aluno não está em
um local fixo, predeterminado. Centrada no aluno, aqui, significa que acontece onde
14 E-learning pode ser definido como o uso de tecnologia de rede de computadores, principalmente,
intranet ou através da internet, para fornecer informações e instruções aos indivíduos. Para Horton (2000, p. 6), o e-learning faz parte da maior mudança na forma de como nossa espécie conduz a aprendizagem desde a invenção do quadro-negro ou talvez do alfabeto. Com o desenvolvimento de computadores e eletrônicos, as comunicações eliminaram as barreiras do espaço e do tempo. Podemos obter e entregar informação a qualquer hora e de qualquer lugar.
o aluno estiver, e não onde estiver a escola, a biblioteca ou qualquer outro espaço escolar.
Revisei os trabalhos combinados de Sharples, Taylor, O’Malley et al. (2005) em suas primeiras pesquisas, e o conceito de aprendizagem móvel foi fortemente ligado ao dispositivo usado (Sharples et al., 2005). No entanto, logo ficou claro que, em vez do dispositivo, o foco deveria estar na mobilidade do aprendiz, o que, por sua vez, levou ao pensamento da aprendizagem móvel do ponto de vista do aluno e à definição de aprendizagem móvel centrada no aluno:
Qualquer tipo de aprendizagem que acontece quando o aluno está em um local fixo e predeterminado, ou aprendizagem que acontece quando o aluno aproveita as oportunidades de aprendizagem oferecidas pelos dispositivos móveis e suas tecnologias (O’Malley et al., 2003, p. 234).
Cabe-me aqui ressaltar que o conceito de mobilidade em si é uma problemática dentro de qualquer definição de m-learning. Por exemplo, o que seria mais importante: a mobilidade dos alunos – a possibilidade de que possam aprender em qualquer lugar, a qualquer hora, usando dispositivos portáteis disponíveis nesses lugares – ou a mobilidade/portabilidade dos próprios dispositivos?
É Pegrum (2014) quem oferece uma maneira útil para conceituar esses aspectos inter-relacionados de aprendizagem móvel. O pesquisador sugere que o uso de dispositivos móveis na educação, frequentemente, cai em uma das três categorias, o que corresponde à ênfase em dispositivos / alunos / contexto, ou seja, quando os dispositivos são móveis, quando os alunos são móveis e quando a própria experiência de aprendizagem é móvel.
Na primeira categoria – quando os dispositivos são móveis –, os alunos utilizam seus próprios dispositivos, ou conjuntos de classes de dispositivos, para acessar a internet, criar conteúdo etc. Nesse caso, os aprendizes trabalham dentro dos limites das paredes da sala de aula. É dessa situação que se trata esta tese.
Na segunda – quando os alunos são móveis –, estes podem se mover ao redor da sala de aula ou das instalações da escola enquanto aprendem.
A terceira – quando a experiência de aprendizagem é móvel – refere-se a alunos usando dispositivos através de uma variedade de contextos do mundo real para acessar informações necessárias naquele momento ou para criar registros de
multimídia da sua aprendizagem onde quer que estejam naquele momento. É o caso, por exemplo, de excursões, jogos de realidade alternativa ou trabalhos de campo.
Claramente, todos esses aspectos ora discutidos são importantes, e as definições também salientam a importância do contexto em que a aprendizagem móvel pode ocorrer, tanto em ambientes formais de sala de aula quanto em ambientes informais, através de inúmeros dispositivos, em uma variedade de espaços físicos e regimes temporais (SHARPLES et al., 2009 e KUKULSKA-HULME et al., 2009).
No entanto, nesta tese, o que mais importa é pensar que a mobilidade, tanto dos alunos e professores quanto dos dispositivos, possibilita a construção de conhecimento em diferentes contextos e, com frequência, transforma a aprendizagem. O contexto da aprendizagem móvel envolve mais do que as circunstâncias de tempo e espaço. Em consequência, tomamos como pressuposto que m-learning é uma intervenção em termos de orientar o que o aluno está aprendendo/construindo por meio de um dispositivo móvel que permite deslocar objetivos, interesses, fontes de conteúdo, seres humanos e outros atores, constituindo uma rede que antes não existia e que, de alguma maneira, ao constituir-se, modifica também os elementos nela entrelaçados.
Ainda discorrendo sobre as questões mais amplas do m-learning, Traxler e Kukulska-Hulme (2016) tratam da próxima geração da aprendizagem móvel, documentando projetos inovadores em m-learning com o propósito de desenvolver melhor compreensão teórica desse tipo de aprendizagem. Pela primeira vez na literatura, podemos encontrar textos em que o uso das tecnologias leva em consideração a presença do aluno em determinado lugar, sua história naquele lugar ou em relação a outras pessoas e objetos, a fim de adaptar experiências de aprendizagem.
Uma discussão que nos parece ser importante para a questão principal da pesquisa é o modelo sugerido por Koole (2006) para a aprendizagem móvel, chamado
Frame – The Framework for the Rational Analysis of Mobile Education, uma
estrutura/moldura para a análise racional da educação móvel que descreve m-learning como um processo resultante da convergência das tecnologias, capacidades de aprendizagem humana e interação social. Sua relevância para esta tese dá-se pelo fato de que tal modelo descreve as relações entre os aprendizes humanos, seu contexto, suas interações sociais e como os dispositivos móveis de aprendizagem
podem influenciar essas relações, o que leva em consideração os vários atores dentro da rede sociotécnica que é a sala de aula.
O uso de dispositivos móveis pode afetar drasticamente o tempo, o local e os meios de interação do processo de aprendizagem. Embora os dispositivos móveis removam algumas restrições, eles apresentam outros desafios. Em essência, a aprendizagem móvel pode representar um novo paradigma na educação (KOOLE, 2006, p. 14).15
Na opinião de Koole, a aprendizagem humana está relacionada à interação social, o que é refletido no modelo Frame. A palavra racional refere-se à “crença de que a razão é a principal fonte de conhecimento e que a realidade é construída e não descoberta” (SMITH e RAGAN, 1999 p. 15 apud KOOLE, 2006, p. 32). Além disso, esse modelo descreve um modo de aprendizagem em que os alunos podem participar e interagir uns com os outros, embora física e temporalmente separados (KOOLE, 2006, p. 32).
Para Koole (2006), os três principais elementos do modelo Frame são os aspectos de usabilidade do dispositivo, do aprendiz e do social. O primeiro descreve características das tecnologias móveis; o segundo, as características individuais dos alunos; e o último, os mecanismos de interação entre os indivíduos. Esses três aspectos combinam-se para produzir uma descrição da aprendizagem móvel.
O contexto para o modelo Frame é a informação. Estas informações podem ser internas ou externas ao aluno; isto é, podem ser derivadas de estímulos pessoais, sociais, tecnológicos ou quaisquer outros ambientais, ou seja, por qualquer ator. Todas essas informações constituem o ambiente de aprendizagem. Nesse contexto, Koole (2006) representa o modelo Frame por meio de um diagrama de Venn, no qual três aspectos cruzam-se, consoante com a Figura 1.
15 “Learning and social interaction are complex processes that, in themselves, are difficult to define. The
use of mobile devices can dramatically affect the time, place, and means of interaction of the learning process. While mobile devices remove some constraints, they introduce other challenges. In essence, mobile learning may represent a new paradigm in education” (KOOLE, 2006, p. 14. Trad. nossa).
Figura 1 – O modelo Frame
Fonte: Koole (2006, p. 33).
O aspecto de usabilidade do dispositivo (A) refere-se à sua descrição física – tamanho, peso e composição –, técnica e funcional dos dispositivos móveis.
O aspecto do aprendiz (B) refere-se às situações e às tarefas em que o aluno deseja ou precisa ter sucesso. Leva-se em consideração suas habilidades cognitivas, memória e conhecimento prévio. Esse aspecto descreve como os alunos usam o que já sabem e como codificam, armazenam e transferem informações.
O aspecto social (C) leva em consideração os processos de interação e cooperação social. Muitos dispositivos móveis vêm equipados com várias capacidades técnicas que facilitam a interação social. A maneira pela qual as pessoas trocam informações afeta o modo como os grupos desenvolvem conhecimento e sustentam práticas culturais.
O cruzamento dos aspectos de usabilidade do dispositivo (A) e social (C) forma a base da interseção da computação social. Essa interseção diz respeito à capacidade de os usuários se comunicarem entre si e obter acesso a outros sistemas e informações.
A interseção (BC) representa uma síntese das teorias de aprendizagem e instrução que, no trabalho de Koole, está fortemente baseada na filosofia do Construtivismo Social. Nessa visão, a aprendizagem é vista como colaborativa e com significado negociado a partir de aspectos como interação e negociação de significados.
A aprendizagem móvel efetiva é definida pela integração dos aspectos de usabilidade do dispositivo (A), aprendiz (B) e social (C) e, se eficaz, pode ajudar a
capacitar os alunos, permitindo-lhes avaliar melhor e selecionar informações relevantes, redefinir seus objetivos e reconsiderar sua compreensão dos conceitos dentro de um quadro de mudança.
Como já exposto, o modelo Frame descreve a aprendizagem móvel como um processo resultante da convergência de tecnologias móveis, capacidades de aprendizagem humana e interação social. Isso nos permite inferir que esse modelo aponta para a questão da disrupção e transformação do ambiente e dos fluxos de interação, pontos importantes ao pensarmos em atividades com o uso do smartphone em sala de aula que não descaracterizem seu potencial.
Ao colocar foco no ensino de línguas, mais precisamente neste ensino mediado pelos dispositivos móveis, volto nossas atenções para um tipo específico de aprendizagem móvel, em inglês sugerido pela sigla MALL, sobre o qual passo a discorrer a seguir.