• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 6 – SEGUINDO OS VÍNCULOS DO SMARTPHONE COM A

6.3 As tarefas como atores e suas materializações

6.3.2. A Segunda Tarefa – Videoclipe

6.3.2.1 Tarefa 2

6.3.2.1.2 Síntese dos achados da Tarefa 2

A Professora Alegria e eu, no papel de professoras, tínhamos em mente, quando formulamos a tarefa, realizar a primeira parte com toda a sala, contando com fatores que contribuíram com seu sucesso: a sala estava quase com sua totalidade de alunos, o que aumentava a possibilidade de mais interação e mais vozes a se pronunciarem, mas também talvez ao fato da tarefa ser realizada fora do espaço. A reespacialização do espaço da aula em um outro ambiente promoveu curiosidade e um sentido de liberdade, renovação e novidade, sendo aparatos eletrônicos audiovisuais fundamentais para conectar os dois espaços, e não apenas para trazer “estímulos sensoriais”.

Quiçá a confluência tenha se dado também pelo caráter diferencial de a professora não conduzir a atividade, mas de fato deixar que os alunos fossem, por um momento, os atores focais. Usando a TAR, pude perceber que aquele foi apenas um momento de encontro entre duas problematizações concorrentes afinal, na realidade, a escola continuou a ter muros físicos e institucionais. Prosseguiram com a crença de que eram vítimas e a escola é opressora. Apenas nos fizeram ver que, como professoras, Alegria e eu estávamos convidadas a assumir esse mesmo papel. Ou seja, na verdade, buscavam nos atrair, enquanto actantes, para a sua própria problematização.

A fala de Maria, no Excerto 32, sugere um mediador que tenta compatibilizar essas duas problematizações: o respeito à dor uns dos outros, referido no discurso da professora entrevistada no excerto 31, a percepção dos sentimentos e das formas mútuas de oprimir e ignorar uns aos outros, a necessidade de empatia e da solidariedade, a ética e convívio, enfim, diversas formas de figurativizar o actante “cidadania”.

A translação caminhou, pois os atores: alunos, professora, pesquisador, equipamentos e tarefa estavam de fato presentes num mesmo espaço e a relação entre eles proporcionou engajamento, reflexão e, sobretudo, deslocou os alunos e as professoras para outro lugar discursivo. A problematização, what’s education for? ofereceu ao aluno outra identidade na rede provisoriamente configurada, a possibilidade de estar em outro lugar que não fosse o lugar de aluno passivo, pela produção de um outro espaço físico, pedagógico e discursivo. Nesse momento da tarefa, o smartphone não apareceu como um ator de destaque, como a caixa-preta

que faz de tudo, mas multiplicou-se em diversos atores correspondentes a suas partes e competências agregadas, como as lentes, os microfones e os softwares de captura e edição de vídeo. Esses, por sua vez, funcionaram como mediadores que trouxeram outros atores vinculados aos alunos pelo afeto (música, vídeo, a comunidade, o esporte etc.) para posições privilegiadas na rede. Assim posicionados, esses atores de fato “afetaram” os alunos, foram mediadores capazes de tirar o aluno daquele lugar estéril e confinado que era a sala de aula de Alegria usualmente, mesmo que intermitentemente, já que houve momentos de dispersão e desinteresse, embora muito poucos em comparação com o usual daquela turma.

Juntos, a tarefa e o smartphone permitiram fazer convergir interesses dos alunos, da professora e os da pesquisadora, em um fluxo de ações e significações, efetivamente, chamado de aula. Posso inferir que isso seja creditável, em grande parte, ao design da tarefa: um ator central da aula que permitiu, ao mesmo tempo, emoldurar as ações localmente e trazer, para a aula, os elementos subjetivos, semióticos e didáticos articulados ali. Simultaneamente, essa forma de organizar as agências disciplinou o smartphone, de modo que a tarefa proporcionou a ele assumir diferentes papéis em que suas próprias capacidades, além de possibilitar que interesses fossem atendidos em um arranjo produtivo de agências humanas e não humanas.

De espaço estéril em que os professores e alunos ignoravam-se em copresença, a “aula” transformou-se em uma interlocução tensa entre os atores enredados. A tensão emergiu quando a problematização, trazida pelos próprios alunos com seus vídeos, confrontou diretamente os ideais da professora e da pesquisadora sobre a escola e a educação no que tangia o próprio lugar de professor que nós atribuíamos. Finalmente, houve um engajamento entre professor e aluno, não só dentro como a respeito da escola e, no processo, o inglês assumiu um papel de ator auxiliar para que os atores aluno e professor estabelecessem algum tipo de solidariedade ao perceberem-se igualmente desrespeitados uns pelos outros.

Em um segundo momento da análise, focando no artefato, ainda durante a tarefa, observo que houve ocasiões em que o aparelho ajudou a desmontar a rede que a tarefa ajudara a emergir e, portanto, contribuiu para desestabilizar aquilo que havíamos concebido como percurso de aprendizagem. Esses momentos ocorriam quando alguns alunos, ao se sentirem ociosos, desmotivados ou não interessados na aula (muitas vezes, pelo cansaço do dia de trabalho e pelo hábito de simplesmente

repousar seus corpos e mentes enquanto realizavam cópias mecânicas), utilizavam o smartphone para ouvir músicas, entrar em redes sociais, conversar com amigos, jogar etc., ainda que a tarefa tivesse o potencial necessário para engajá-los. Assim o mesmo smartphone que a tarefa disciplinava, como todo ator, pertencia a outras redes e translações e, usando-o, também os alunos se soltavam da rede da aula e agarravam- se a outras redes que os constituíam como outro tipo de ator (amigo, namorado, trabalhador, parceiro etc.) fora da sala.

Reativamente, por não enxergar o engajamento efetivo dos alunos em alguns exercícios (como o da troca mensagens em inglês) ao longo da execução da tarefa, a Professora Alegria, algumas vezes, colocava a tecnologia em xeque, “ameaçando” voltar aos exercícios do livro didático e às cópias da lousa dando pontos para aqueles que realizassem (excerto 10).

Ao cogitar trazer esses outros atores, que por vezes eram capazes de fixar a atenção e canalizar a produção dos alunos no tempo e no espaço, ela demonstrava não ter percebido o “recado” de que ela e eu, como o ator professor, éramos parte da prisão, também oprimidos e maltratados (psicologicamente) por ela, por isso, jamais teríamos acesso à “realidade” dos alunos fora da escola. A Professora Alegria, com essa postura, de certa maneira reduzia a TBL a uma mera sequência de atividades mecânicas. Se o fazia, contudo, era porque o smartphone, usado como parede, também a desconstituía como professora, a transformava em “marginal”, parte da paisagem atrás do velho muro.

Por outro lado, observei que houve momentos de estabilidade no fluxo da aprendizagem, proporcionados pelo smartphone, maiormente, no que tange à filmagem, à elaboração do videoclipe e à discussão sobre a maneira de elaborar o videoclipe em sala de aula. Por meio do aparelho, os alunos conseguiram articular os atores que constituíam sua realidade cotidiana e seus sentimentos a respeito da sala de aula, fazendo convergir as vozes, as metáforas e as narrativas encontradas como seus alidados, modificando-as e amalgamando-as pelas agências constitutivas do aparelho como um todo.