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Capítulo II – O percurso espiritual de Madre Teresa de Calcutá

2. A noite de um Deus aparentemente ausente

2.1. Estado da questão

Segundo as fontes disponíveis, tudo indica que logo desde o início da sua nova missão231, Madre Teresa terá atravessado por aquilo que o carmelita do séc. XVI, São João da Cruz232, denomina por “noite escura da alma”, sendo que esse período ter-se-á estendido, sem grandes mudanças233, até ao dia da sua morte. Quando comparado com outras vidas de santos

228 Da Madre Teresa para o Arcebispo Périer, 3 de Dezembro de 1947. B. KOLODIEJCHUK (Ed.), Madre

Teresa: Vem, sê a minha Luz, 111.

229 Da Madre Teresa para o Arcebispo Périer, 18 de Março de 1953. B. KOLODIEJCHUK (Ed.), Madre Teresa:

Vem, sê a minha Luz, 159.

230 Acerca deste tema: Cf. F. MARXER, Au péril de la nuit: Femmes mystiques du xxe siècle, Les Éditions du

Cerf, Paris, 2017, 407-463; Cf. H. D. EGAN, Soundings in the christian mystical tradition, Liturgical Press, Minnesota, 2010, 368-372; Cf. C. ZALESKI, “The dark night of Mother Teresa”, First Things 133 (2003) 24-27.

231 Logo em 1949, o que escreveu no seu diário parece dar a entender que o vazio espiritual já era uma realidade:

“Hoje – meu Deus – que torturas de solidão. – Pergunto-me quanto tempo aguentará o meu coração. O Pe. Bauwens […] veio abençoar a casa. As lágrimas corriam-me sem parar. Toda a gente se apercebe da minha fraqueza.” (Do diário da Madre Teresa, 28 de Fevereiro de 1949. B. KOLODIEJCHUK (Ed.), Madre Teresa:

Vem, sê a minha Luz, 145.)

232 Madre Teresa conhecia bem os seus escritos: “[…] As obras de São João da Cruz são livros que sou capaz de

compreender um pouco e de ocasionalmente apreciar. – São escritos que me aumentam a fome de Deus confrontando-me em seguida com a terrível sensação de ser «indesejada por Ele».” (Da Madre Teresa para o Padre Neuner, 27 de Novembro de 1969. B. KOLODIEJCHUK (Ed.), Madre Teresa: Vem, sê a minha Luz, 269.)

233 A única exceção assinalável aconteceu durante o ano de 1958, por ocasião da morte do Papa Pio XII. Durante

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e santas, que passaram por experiências semelhantes, uma coisa torna-se clara. Aquilo por que teve de passar Madre Teresa, no que toca à duração, cerca de quarenta e oito anos de escuridão, é algo de único na história da tradição espiritual234.

Para alguém que imaginasse o caminho da santidade como um percurso envolvido em consolações constantes, o confronto com esta fase da vida de Madre Teresa serviria, certamente, de correção e, para alguns, poderá mesmo ser fonte de alguma incompreensão. Efetivamente, quando confrontados com uma vida assim não há dúvida que são inúmeras as questões que se impõem. Se, de facto, Deus continuava próximo de Madre Teresa, então porque é que ela se sentia tão abandonada? Porquê um percurso tão doloroso? Se viveu sempre mergulhada na escuridão espiritual, como é que depois foi capaz de testemunhar em público, com tanto impacto e convicção, aquilo em que acreditava?235 Não será que a melhor leitura desta experiência da ausência de Deus é de que se trataria de algo do foro psicológico, como uma depressão? Será que Madre Teresa deixou de ter fé?236

Se olharmos pelo prisma daqueles que habitualmente criticavam Madre Teresa, a revelação deste período noturno foi tomado como evidência de que a sua santidade era uma farsa e que as suas intervenções públicas em nome da fé não passavam de uma hipocrisia. Um dos que mais se destacou, Christopher Hitchens, afirmou mesmo que as cartas reveladas demonstravam que Madre Teresa era apenas uma mulher idosa imersa nas suas confusões interiores e que teria simplesmente perdido a fé. Argumentava também que a interpretação eclesial da experiência de Madre Teresa, ao defender que se tinha tratado de uma noite escura

Deus estaria satisfeito com a nova congregação: “Nesse preciso momento desapareceu a prolongada escuridão, a dor da perda – da solidão – aquele estranho sofrimento de dez anos. Hoje, a minha alma está cheia de amor e de uma alegria indescritível – de uma inquebrantável união de amor.” (Da Madre Teresa para o Arcebispo Périer, 7 de Novembro de 1958. B. KOLODIEJCHUK (Ed.), Madre Teresa: Vem, sê a minha Luz, 184.) Tratou-se de um período altamente consolador mas de pouca duração. Tendo passado um mês, Madre Teresa voltou a sentir que Jesus tinha desaparecido da sua vida e estava novamente mergulhada na escuridão. (Cf. B. KOLODIEJCHUK (Ed.), Madre Teresa: Vem, sê a minha Luz, 185.)

234 O testemunho que mais se aproxima à experiência de Madre Teresa é talvez a de São Paulo da Cruz. Pelo que

se sabe, terá passado por trinta e cinco anos de escuridão interior. (Cf. T. MESSIAS, O Desejo e a sua

Transformação no Seguimento de Jesus – Uma Leitura dos Escritos de Sebastian Moore, O.S.B., nota de rodapé

186, 510.)

235 Cf. P. MURRAY, I Loved Jesus in the Night: Teresa of Calcutta – A Secret Revealed, 31-32. 236 Cf. K. WALTERS, St. Teresa of Calcutta – Missionary, Mother, Mystic, 92.

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da alma, tal como é conhecido pela Teologia Espiritual, era um mecanismo perverso de marketing que procurava apenas mascarar o desespero individual com a ilusão de ser uma experiência extraordinária de fé. Não vale a pena negar que estamos perante uma vivência, em parte, perturbadora. Se Deus pode parecer tão ausente a uma mulher como esta, o que restará de esperança para o crente comum? Também não negamos que, ao longo da sua vida, Madre Teresa possa até ter experimentado momentos de maior cansaço ou debilidade psicológica. Dada a natureza do seu trabalho, quem não o experimentaria? Mas concluir que a longa escuridão espiritual foi apenas o resultado de uma forte depressão ou da perda de fé, seria cair num olhar superficial e incapaz de assimilar o seu verdadeiro significado espiritual.237 Mesmo tratando-se de um período doloroso, acreditamos ser possível, à luz da Teologia Espiritual, descobrir aí uma paradoxal intensificação da união com Deus.