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CAPÍTULO I AS VARIÁVEIS PSICOLÓGICAS DA INVESTIGAÇÃO

4. ESTRATÉGIAS DE COPING 1 O CONCEITO

4.3 ESTILOS DE COPING

À semelhança do que sucede com a definição de coping, também não existe consenso em relação à organização dos diferentes tipos ou estilos de coping.

Uma das classificações mais frequentemente representadas na literatura é a de coping

focado nas emoções e coping focado no problema, em que o coping focado no problema é

definido como os esforços deliberados e conscientes para gerir ou alterar a situação problemática fonte de stress e o coping focado nas emoções se refere aos esforços realizados

modificação da própria situação (Bennett, 2002; Folkman & Lazarus, 1988; Folkman et ai., 1986; Justice, 1988; Lazarus, 1993; A.V. Serra, 2002).

A investigação sugere que a maioria dos stressores desencadeia os dois tipos de

coping, porém, o coping centrado no problema tende a predominar quando as pessoas

sentem que algo construtivo pode ser feito, enquanto o coping centrado nas emoções tende a predominar quando a pessoa percebe o stressor como algo que deve ser meramente suportado (Carver et ai., 1989; Folkman & Lazarus, 1980; Kessler et ai, 1985).

Esta distinção entre coping centrado no problema e coping centrado nas emoções é importante, todavia, provou ser demasiado simplista. Folkman e Lazarus (1988) consideram que, apesar dessa classificação poder ser útil, fracassa por não reflectir a riqueza e complexidade dos processos de coping e por não permitir enquadrar estratégias que podem pertencer simultaneamente aos dois tipos de coping. Essas respostas podem ser muito diferentes umas das outras, podendo ter implicações no sucesso com que a pessoa lida com a situação stressante (Carver et al., 1989).

O coping focado nos problemas e o coping focado nas emoções merecem ser alvo de uma análise mais aprofundada. Se, à primeira vista, cada um destes estilos de coping parece constituir um processo simples, a uma observação mais cuidadosa, demonstram envolver uma série de actividades distintas. Por exemplo, o coping focado no problema pode envolver tarefas tão diversas como o planear, agir directamente, procurar ajuda, procurar outras actividades e, por vezes, forçar-se a esperar antes de agir. As estratégias relacionadas com as emoções podem ser tão diferentes quanto a negação, a reinterpretação dos acontecimentos ou a procura de apoio social (Carver et ai., 1989).

Lazarus e Folkman (1991) consideram dois grandes grupos de estratégias de coping: o coping de evitamento e o coping vigilante. No coping de evitamento, a atenção é desviada do problema, enquanto, nas estratégias de coping vigilante, a atenção é dirigida para o problema, na tentativa de o prevenir ou controlar. Mas estes autores vão mais além, propondo uma classificação mais extensa das estratégias de coping, que envolve os seguintes tipos:

- Coping de confronto, que engloba os esforços agressivos para alterar a situação e que sugere algum grau de hostilidade e de risco;

- Distanciamento, caracterizado por descrever esforços negativos para se desligar da situação e para minimizar o significado desta;

- Auto-controlo, que envolve os esforços para regular os sentimentos e acções;

- Procura de apoio social, que se refere aos esforços para procurar apoio informativo, apoio instrumental (tangível) e apoio emocional.

- Escape-evitamento, estratégias que passam pelo sonhar acordado {wishful thinking) e pelos esforços comportamentais para escapar ou evitar o problema. Este estilo de coping contrasta com o distanciamento, que sugere separação.

- Aceitação da responsabilidade, caracterizado pelo reconhecimento do papel que tem no problema, tentando melhorar ou corrigir a situação.

- Resolução de problemas planeada, que se refere aos esforços deliberados, focados no problema, para alterar a situação, juntamente com uma abordagem analítica de resolução de problemas.

- Reavaliação positiva, que envolve os esforços para criar um significado positivo e o foco no crescimento pessoal, incluindo a dimensão de religiosidade.

O Iff et ai. (1993) realizaram um estudo com o objectivo de analisar a possibilidade das estratégias que as pessoas usam para lidar com situações stressantes poderem ser agrupadas em estilos de coping globais, isto é, num conjunto limitado de dimensões interpretáveis. O seu estudo conduziu à dedução de quatro factores de coping:

(1) O primeiro factor, coping orientado para a mestria instrumental, abrange as expectativas gerais acerca da capacidade para lidar com o ambiente. O estabelecimento de expectativas de resposta positiva depende da percepção de controlo da situação. As pessoas que acreditam que podem controlar aspectos da sua situação de vida usam com maior probabilidade o coping instrumental, focado no problema, reflectindo a sua expectativa de que tais comportamentos são eficazes. O pólo oposto da dimensão abarca a falta de confiança total nas suas capacidades. Este tipo de coping abarca as expectativas, bem como as estratégias de coping activo, instrumental e não de evitamento. Encontra-se relacionado com o conceito de coping focado no problema, por contraste com o coping focado nas emoções. O coping focado no problema ou a acção directa tem como objectivo mudar a situação ou o stressor. Envolve respostas que procuram modificar ou eliminar a fonte de stress lidando com a realidade da situação (Lazarus & Folkman, 1984; Olff et ai., 1993).

(2) O segundo factor, defesa cognitiva, representa um estilo de coping cognitivamente internalizador, defensivo, sendo um traço essencial destes comportamentos a percepção distorcida da realidade, que afecta a avaliação da situação. A defesa cognitiva é um factor próximo do que Vaillant (1986) define como defesa neurótica e caracteriza-se por uma tendência para ignorar contrariedades e pela dificuldade em reconhecer os aspectos dolorosos da situação.

(3) O terceiro factor, hostilidade defensiva, é um estilo de coping defensivo dirigido para o exterior, que contém elementos de raiva, hostilidade e acting out e que é considerado

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(4) Por fim, o quarto factor, coping focado nas emoções, representa um estilo de

coping emocional activo que tem por objectivo reduzir os sentimentos negativos acerca da

situação, quer pela distracção intencional de si mesmo ou pela comunicação do distress, quer, em contraste, pela repressão das emoções negativas e pela dificuldade em relembrar. Essas estratégias são abarcadas por aquilo que Lazarus e Folkman (1984) denominam, também, como coping focado nas emoções, isto é, estratégias que têm como objectivo a regulação das emoções ou stress negativos, em vez do enfrentar directo do problema.

Os factores 3 e 4 partilham variância estatística, o que os autores do estudo atribuem ao facto de ambos os factores abarcarem aspectos emocionais. Porém, o factor 3 parece lidar sobretudo com as estratégias defensivas, que têm como objectivo proteger das emoções negativas, dirigindo-as contra outras pessoas, enquanto o factor 4 .parece consistir essencialmente em estratégias de coping que têm como objectivo fazer activamente algo em relação às emoções negativas. Olff et ai. (1993) defendem que o coping focado nas emoções, tal como é percebido por Lazaras, abarca ambos os factores que têm como objectivo a regulação das emoções ou stress negativos, negligenciando se a estratégia adere à realidade, e salientam a utilidade de distinguir esses factores.

Endler et ai. (1998) demarcam quatro reacções de coping com problemas de saúde distintas: (1) coping por distracção, (2) coping paliativo, (3) coping instrumental e (4) coping de preocupação emocional. Estas dimensões de coping têm sobreposições conceptuais com construtos de considerável importância na literatura sobre coping:

(1) O coping paliativo envolve uma variedade de respostas de auto-ajuda com objectivo de aliviar o desconforto da situação, que constituem tentativas de auto-cuidado e podem incluir crenças acerca da doença.

(2) O coping instrumental envolve respostas orientadas para a tarefa, tais como procurar activamente informação sobre saúde/ doenças ou procurar conselhos. Este tipo de resposta de coping está intimamente relacionado com o que poderá ser designado, na literatura, por coping focado no problema.

(3) As estratégias de coping por distracção envolvem a tentativa de uma pessoa que está a experimentar problemas de saúde pensar acerca de outras experiências, possivelmente mais agradáveis, envolver-se em actividades não relacionadas com a saúde ou procurar a companhia de outros. Este tipo de resposta é considerado como coping de evitamento na generalidade da literatura sobre coping.

(4) As respostas de coping por preocupação emocional envolvem uma fixação nas consequências emocionais do problema de saúde, sendo um tipo de resposta que está conceptualmente relacionado com o coping focado nas emoções. A investigação na área do

coping sugere a existência de uma associação entre os comportamentos de coping focados

nas emoções e variáveis como o nível de stress psicológico negativo e tempo de recuperação do problema de saúde. Para além disso, segundo Endler et ai. (1998), alguns aspectos da preocupação emocional parecem sobrepor-se ao construto de ruminação.