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CAPÍTULO II QUALIDADE DE VIDA E

A A QUALIDADE DE VIDA

1. QUALIDADE DE VIDA: NASCIMENTO DE UM CONCEITO

A felicidade ou bem-estar subjectivo mereceu, desde tempos imemoráveis, profunda atenção de filósofos e moralistas, sendo considerada a meta última das aspirações humanas.

Bech (1993, p.l) considera a qualidade de vida um conceito político, dado ter sido introduzido na vida do dia a dia com a declaração do presidente americano Lyndon B. Johnson, em 1964, de que "...Goals cannot be measured in the size of our bank balance.

They can only be measured in the quality of the lives that our people lead...". Esta afirmação

é o reconhecimento de uma enorme mudança social em relação ao valor do indivíduo e à importância da perspectiva subjectiva na avaliação da vida, e o reconhecimento de que o bem-estar inclui forçosamente elementos positivos que transcendem a prosperidade económica (Diener, Suh, Lucas & Smith, 1999; Rapley, 2003).

Para a difusão do conceito de qualidade de vida contribuiu o movimento ecológico ou "verde", através das suas reacções contra o uso mdiscriminado de pesticidas, que se veio a transformar num movimento psicológico, ecológico e filosófico que concebe a natureza como insubstituível e defende os aspectos ecológicos da qualidade de vida (Bech, 1993).

Um marco notável na história do conceito de qualidade de vida foi, sem dúvida, a proposta da Organização Mundial de Saúde (OMS) para se encarar a saúde pela positiva. A saúde deixou de ser percebida como mera ausência de doença ou disfunção física, passando a ser percebida como um estado de completo bem-estar físico, mental e social (Bullinger & Ravens-Sieberer, 1995; Fagulha, Duarte & Miranda, 2000; Hickey, O'Boyle, McGee & Joyce, 1999; M.R. Ryan & Deci, 2001; M. Testa & Simonson, 1996a), estando subjacente a esta definição o pressuposto de que o Homem é um ser biopsicossocial, em que todos estes sistemas se encontram integrados.

A qualidade de vida assume notável importância a partir da década de 70, em consequência da Segunda Revolução da Saúde e da subsequente valorização da saúde positiva, do bem-estar e da funcionalidade, ao invés da presença ou ausência de doença, de patologia, de limitações funcionais e sintomas, como até então comummente sucedia (Bech, 1993; Bowling, 1994; Bullinger & Ravens-Sieberer, 1995; Diener et ai, 1999; Fagulha et ai, 2000; Ferreira, 2000a; J.L.P. Ribeiro, 1994; M.R Ryan & Deci, 2001).

Ao longo das últimas décadas, verificou-se um aumento exponencial no uso da avaliação da qualidade de vida na investigação. Se a pesquisa sobre artigos relativos à qualidade de vida na base de dados Medline, entre 1960 e 1970, permite encontrar apenas 8 artigos em que este termo é utilizado, entre 1970 e 1980 apresenta já 1393 referências, entre 1980 e 1990 refere 6389 artigos e, na última década 43259. Todavia, apesar das publicações e investigação sobre qualidade de vida terem aumentado significativamente desde o final dos anos 70, ao nível da prática clínica, as referências a este tipo de informação parecem ser, ainda hoje, raramente incluídas no processo clínico e de difícil acesso aos prestadores de cuidados (Bech, 1993; Ferreira, 2000a; Jenkinson & Ziebland, 1999; M. Testa & Simonson,

1996a).

Durante décadas, os psicólogos ignoraram o bem-estar subjectivo, as causas e consequências do funcionamento positivo, explorando amplamente a infelicidade ou sofrimento humanos e o funcionamento e emoções negativos. O bem-estar, enquanto dimensão essencial da vida do Homem, foi desvelado pela Psicologia apenas recentemente, tendo sido representado por esta sob a forma de construtos como o de satisfação com a vida, felicidade, bem-estar subjectivo ou psicológico, optimismo e começado a ser abordado de forma empírica (Diener, 1984; Ferreira & Simões, 1999; Grégoire, 1995; Novo, 2000; Oliveira, 2000; Ryff, 1989b; Ryff & Singer, 1996; Seligman & Csikszentmihalyi, 2000; A. Simões et ai, 2000).

A qualidade de vida passou a ser conceptualizada não só enquanto objectivo individual, mas também como objectivo social relevante, o que se reflecte nos estudos epidemiológicos (que descrevem a saúde subjectivamente percebida e o nível social de uma dada população), nos ensaios clínicos (que comparam intervenções tendo em conta a qualidade de vida) e estudos de economia da saúde (que avaliam os benefícios dos tratamentos em termos de qualidade de vida) (Power, Bullinger, Harper & The World Health Organization Quality of Life Group, 1999).

A partir dos anos 80, a qualidade de vida tornou-se um conceito de interesse geral e do senso comum, tendo vindo a assumir uma importância crescente no domínio do sistema

"qualidade de vida" passou a ser utilizada por políticos, clérigos, economistas, ecologistas, entre outros profissionais, para se referirem ao seu interesse pelo bem-estar das pessoas, ainda que a conceptualização e a forma como a inferem no sentido de a estimular, os conteúdos focados e a forma como efectuam a sua avaliação sejam diferentes de acordo com as várias áreas de interesse (Fallowfield, 1990; J.L.P. Ribeiro, 1994).

Em todo o mundo as pessoas atribuem cada vez maior importância ao bem-estar subjectivo. Assim que as necessidades materiais estão satisfeitas, os indivíduos movem-se para uma fase pós-materialista, em que se passam a preocupar com a auto-realização e, mesmo nas sociedades não completamente ocidentalizadas, os estudantes universitários parecem avaliar a felicidade e a satisfação com a vida como sendo muito importantes e dizem pensar nelas com frequência (Diener, 2000; Diener et ai., 1999; Diener, Lucas & Oishi, 2002).

A terminologia da qualidade de vida tornou-se, ao longo da última década, quase condição sine qua non dos resultados da investigação na Medicina e na Psicologia da Saúde, sobretudo na área das doenças crónicas, o que se terá ficado a dever, em parte, ao reconhecimento de que as intervenções médicas, cirúrgicas ou medicamentosas não têm todas os mesmos efeitos sobre os doentes e de que não é suficiente considerar apenas os resultados fisiológicos objectivos das doenças quando se pretende avaliar a eficácia de intervenções, sendo essencial a avaliação dos aspectos subjectivos (Bech, 1993; Hays, Afonso & Coons, 2000; Lydick & Yawn, 2000; J.L.P. Ribeiro, 1994; S.J. Wright, 1994). O facto de, nos últimos anos, a Psicologia da Saúde ter vindo a desenvolver estudos na área da qualidade de vida invulgarmente abrangentes em termos de populações e de número de indivíduos estudados é reflexo desta preocupação (A. Simões et ai., 2000).