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Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Mecanismo de Desenvolvimento Limpo

3 ENERGIA EÓLICA E CONCRETIZAÇÃO DO PROJETO CONSTITUCIONAL

3.6 ENERGIA EÓLICA E MEIO AMBIENTE

3.6.3 Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Mecanismo de Desenvolvimento Limpo

O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) é um instrumento da Política Nacional de Meio Ambiente que tem por objetivo aferir o impacto ambiental causado por determinado projeto. Seu escopo e metodologia são regulados pela Resolução CONAMA nº 001, de 23 de janeiro de 1986, e necessariamente consiste em diagnóstico da área de influência considerando os aspectos físicos, biológicos e socioeconômicos, análise especificada dos impactos ambientais, definição de medidas mitigadoras de impactos negativos e elaboração de um programa de monitoramento e acompanhamento dos impactos positivos e negativos. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) consiste na fundamentação do Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) e ambos são instrumentos condicionantes para o licenciamento ambiental de um projeto. Assim, esses documentos devem ser aprovados pelo órgão estadual e pelo IBAMA em caráter supletivo para fins de licenciamento ambiental de atividades modificadoras do meio ambiente. Dentre as atividades modificadoras do meio ambiente citadas pela Resolução CONAMA nº 001 como de licenciamento ambiental prévio obrigatório, estão “usinas de geração de eletricidade, qualquer que seja a fonte primária, acima de 10 MW” (CONAMA, 1986, art. 2º, XI), situação à qual se enquadra a geração de energia eólica no país. Assim, toda e qualquer iniciativa de instalação de usina eólica no Brasil deve necessariamente ser precedida de um Estudo de Impacto Ambiental (EIA).

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Essa resolução, de 1986, ganhou relevância no ordenamento jurídico brasileiro e foi constitucionalizada, de modo que o art. 225 da Constituição Federal incumbe como dever ao Poder Público a exigência de “estudo prévio de impacto ambiental” para qualquer atividade potencialmente causadora de degradação ambiental. Isso concedeu eficácia plena para essa norma constitucional, pois os termos em que o Poder Público deve exercer essa prerrogativa foram definidos anteriormente ao texto constitucional pelo CONAMA, sendo atualmente atribuições corriqueiras das Secretarias Estaduais de Meio Ambiente, bem como do IBAMA.

Além do Estudo de Impacto Ambiental (EIA), outro mecanismo para mitigar impactos ambientais é a classificação do projeto enquanto Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) é uma das hipóteses de flexibilização das restrições impostas pelo Protocolo de Quioto, e seu ambiente de execução é o Mercado de Carbono. O Protocolo de Quioto, com vistas a diminuir o custo para o cumprimento das metas de não emissão, estabeleceu três hipóteses de flexibilização das restrições impostas à emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE): a) Comércio de emissões, sistema de comércio de certificados de redução de emissões de GEE apenas entre os países do Anexo I (países desenvolvidos), o que gerou o EU ETS (Sistema Europeu de Comércio de Emissões) que atualmente é o maior mercado de carbono; b) Joint Implementation (Implementação Conjunta), também destinada aos países do Anexo I, que consiste em parcerias comerciais entre esses países visando diminuir o custo de projetos de redução das emissões, dando origem às Unidades de Redução de Emissões. Por conseguinte, seus certificados de não emissão podem ser comercializados pelos investidores enquanto o país sede obtém o investimento estrangeiro e a possibilidade de transferência de tecnologia; c) Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL ou Clean Development

Mechanism) destinado aos países em desenvolvimento, que consiste na possibilidade de projetos

de não emissão realizados nos países em desenvolvimento gerarem créditos de carbono (chamados offsets) que podem ser comercializados com os países do Anexo I e assim contabilizados na meta de redução das emissões dos países obrigados pelo Protocolo de Quioto (MAY, 2010, p. 319). Ou seja, os países centrais podem comprar créditos de carbono dos países periféricos e assim atingirem suas metas de compromisso ambiental.

Para que um projeto seja enquadrado como um Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), é necessário que o projeto comprove a redução das emissões de GEE através “de atividades de desenvolvimento sustentável em países em desenvolvimento”, e que tal

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comprovação se dê com a demonstração de que as emissões são menores do que aconteceria sem aquele projeto e que ocorre para responder aos imperativos do desenvolvimento sustentável, não sendo apenas uma prática usual de países em desenvolvimento. O processo de comprovação da redução de emissões passa pelo seguinte roteiro: elaboração do documento de concepção do projeto (DCP); validação (verificação da compatibilidade com o Protocolo de Quioto); aprovação pela Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima (verifica se o projeto contribui para o desenvolvimento sustentável); submissão ao Conselho Executivo para registro; monitoramento; certificação; emissão de unidades. A redução de emissões de GEE através de MDL é mensurada através de unidades de Reduções Certificadas de Emissões (RCE) e cada unidade corresponde à redução de uma tonelada métrica de emissões de CO² (SALINO, 2011). Assim, a conclusão do próprio processo de MDL é originar as unidades de RCE equivalentes ao projeto e essas unidades são utilizadas pelos países do Anexo I para atingir suas metas de não emissão.

É perceptível a possibilidade da instalação de usinas eólicas no Brasil aderirem ao MDL, o que possibilita ao investidor do empreendimento outro potencial de lucro: a comercialização dos certificados de não emissão com os países do Anexo I. Fruto desse potencial, diversos projetos de usina eólica no país fazem parte do MDL; O projeto do Parque Eólico de Osório, do Rio Grande do Sul, foi aprovado pela Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima (CIMGC) em 2006 com a estimativa de redução das emissões de CO² em 148.325 toneladas por ano (SALINO, 2011). Em 2012, foi aprovado como MDL o projeto do complexo de energia eólica do Rio Grande do Norte e Ceará, incluindo as usinas das empresas Eólica Mar e Terra Geração e Comercialização de Energia S.A., Eólica Bela Vista Geração e Comercialização de Energia S.A. e EMBUACA Geração e Comercialização de Energia S.A.(GIMGC, 2012).

O encaixe dessa política ambiental internacional implementada através do MDL no projeto de superação do subdesenvolvimento brasileiro tem caráter ambíguo. Se por um lado a existência de projetos eólicos brasileiros no MDL contribui diretamente para a redução da emissão de GEE no mundo e o potencial brasileiro de energia eólica amplia as possibilidades de projetos brasileiros no MDL agregando mais um valor na política internacional do país, por outro lado a política de MDL não contribui com o rompimento das diversas relações de subordinação entre centro e perifeira, pois permite que os países centrais (desenvolvidos) continuem na dianteira do crescimento econômico e produção tecnológica sem grandes limitações ambientais,

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enquanto os países semiperiféricos e periféricos executam projetos de desenvolvimento sustentável de interesse dos países centrais.

Contudo, mesmo no aspecto de não contribuição com a autonomia nacional, as variadas possibilidades de o Brasil ser um parceiro no MDL trazem ao país um tipo de valor no sistema mundo que países centrais não conseguem oferecer. Essa valoração é capaz de ser utilizada trazendo benefícios nacionais, não só pecuniários, mas também de parcerias de transferência de tecnologia, nesse caso podendo transformar a energia eólica numa “janela de oportunidade”. Para tanto, é necessário que a política para o setor eólico estabeleça esse tipo de contrapartida.

No geral, ao se analisar a energia eólica como hipótese de concretização do aspecto do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado dentro do projeto de superação do subdesenvolvimento, percebe-se que a energia eólica configura uma hipótese ótima de concretização desse direito. Para tanto, basta considerar como elemento primeiro a não emissão de GEE e, também, os ruídos como impacto ambiental negativo não significativo o suficiente para causar a extinção de espécies, registrando a necessidade da ampliação de estudos no sentido da inovação tecnológica em aerogeradores com vistas à diminuição dos ruídos como solução viável para esse problema de impacto ambiental. Além disso, o impacto ambiental no uso da terra é relativo e permite a utilização de mais de 90% da área da usina eólica para fins agriculturáveis e, também, não há a possibilidade de instalação de usinas eólicas no Brasil sem um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) prévio com vistas a mitigar os impactos negativos. Por fim, deve-se considerar a possibilidade das usinas eólicas no Brasil serem admitidas como projetos de MDL.