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Estudo de segmentos e seqüências consonânticas

NOS TEXTOS IMPRESSOS

5.1.2. Estudo de segmentos e seqüências consonânticas

5.1.2.1. Variação entre <s>, <z>, <ç>, <ss>

Dada a impossibilidade de se proceder a um levantamento exaustivo de todas as ocorrências de variação entre <s>, <z>, <ç>, <ss> nos textos impressos, pelo volume do corpus, o que geraria listas intermináveis de vocábulos, optamos por fazer esse levantamento somente nos textos manuscritos.

NOS TEXTOS MANUSCRITOS

Vocábulo Total de ocorrências Linhas

certo (ou variações) 10 137, 155, 456, 210, 253, 1152

serto (ou variações) 08 60, 123, 397, 491, 778, 844

açinar (ou variações) 02 357, 364

asinar (ou variações) 10 25, 359, 406, 431, 527, 534

facil (ou variações) 04 57, 105, 107, 838, 915

fasilmente 01 179

falço (ou variações) 02 744, 889

falso (ou variações) 07 901, 916, 930, 931, 933, 936

merse 03 106, 108, 120

nascimento 03 485, 744, 995

nassimento 02 379, 394

ocasiam 01 53

ocazião (ou variações) 04 62, 1043, 1175, 1204

parecer (ou variações) 13 80, 161, 319, 427, 510, 884 pareser (ou variações) 16 60, 395, 438, 511, 731, 851

sertão (ou variações) 12 14, 593, 598, 651, 709, 842

certam (ou variações) 06 157, 211, 216, 220, 239, 894

A Ortographia de Vera (1631) tem um capítulo especialmente dedicado ao <ç>, diferenciando-o do <c> (como em açude, verbo, e açude, substantivo) e tratando-o como grafema tão distinto do <c> que, deveria fazer parte de nosso alfabeto. Adverte não ser necessária a cedilha no <c> que antecede <e> ou <i> (como em cinto, certo), “mas se se puser não será erro, visto ser esta sua forma” (7 r.). As Regras Gerais (1666), além das informações apresentadas na Ortographia, acrescentam que a maior dificuldade não é saber quando se deve ou não usar a cedilha, mas quando diferenciar o <ç> do <ss>, “visto terem estes dous modos a mesma toada” (77). Segundo Bento Pereira, se o vocábulo tiver origem latina, sempre será grafado com <s>, mas “se forem palavras totalmente Portuguezas”, deverão ser grafadas com <ç>, esteja ele no início ou no interior do vocábulo. Se estiver no fim, deve-se observar se o vocábulo termina em –aça, -eça, -iça, -oça, -uça; -ança, -ença, -inça, -onça, -unça;-arça, -erça, -orça, - urça.(idem).

Sobre o uso do <s>, a Ortographia (17 r.) diz que só se dobra tal grafema entre vogais, “pronunciando a modo de ç”. Mais adiante (36 r.), adverte ser erro dobrar-se o <s> dos pronomes enclíticos (seguese, e não seguesse).

Pelos vocábulos extraídos dos manuscritos, parece não haver preocupação com um tipo de escrita calcado na etimologia, dada a proximidade numérica entre as flutuações gráficas de vocábulos como <serto> (08 ocorrências) e <certo> (10); <nascimento> (03) e <nassimento> (02); <parecer> (13) e <parecer> (16); <sertão> (12) e <certam> (06). Algumas dessas flutuações acontecem num mesmo manuscrito, como é o caso de < falças> (linha 889) e < falsao> (linha 901); <mercês> (linha 120 e

<mersse> (idem); <ocasiam> (linha 53) e <ocazioins> (linha 62); <parecer> (linha 510) e < paressa> (linha 511).

Pelo exposto, percebe-se que, embora os tratados de ortografia recomendem que se observe a etimologia, pelos exemplos extraídos do corpus, parece não haver outro critério senão o fonético para as variações gráficas encontradas.

5.1.2.2.Variação entre <gu>, <g>, <c>, <qu>, <q>

NOS TEXTOS MANUSCRITOS

Vocábulo Total de ocorrências Linha

agora 15 94, 160, 240, 710, 1005, 1291 Aguora 01 68 branco(s) 02 317, 739 branquos(s) 03 602, 607, 837 Callidades 01 55 Qualidade 02 941, 1048 cantidade (s) / contia 04 346, 347, 473, 664 quantidade (s) 04 154, 541, 940, 955 Cargo 01 522 Carguo 01 35 Castigo 01 321 Castiguo 01 117 coal/coalquer 03 509, 575, 758 qual/qualquer 06 361,516,533, 942, 1173, 1225 (por)coanto 04 332, 637, 712, 725 (por)quanto 23 216,307,499, 684, 1111, 1226 Goarde 01 63

guardar (ou variações) 13 108, 123, 199, 265, 324, 1294

pagar (ou variações) 08 81, 480, 640, 704, 1029, 1083

Ocorrências sem flut. gráfica

Efiqazes 01 557

comuniq(u)a 02 541, 542

Serquo 01 673

Soroquaba 01 699

NOS TEXTOS IMPRESSOS

Impresso nº 1 – Jorge Benci Não há ocorrências

Impresso nº 2 – Eusébio de Matos Vocábulo

Não há ocorrências

Impresso nº 3 – Diogo Gomes Carneiro

Vocábulo Total de ocorrências Linha

calidades / calificar 02 126, 1435/6

Qualidades 01 1466

Ocorrência sem flut. gráfica

antiguamente 01 348/9

Impresso nº 4 – Antonio de Sá Não há ocorrências

Impresso nº 5 – Antonio da Silva Não há ocorrências

Impresso nº 6 – Ruperto de Jesus

Vocábulo Total de ocorrências Linha Ocorrências sem flut. gráfica

Impresso nº 7 – Simão de Vasconcelos

Vocábulo Total de ocorrências Linha Ocorrências sem flut. gráfica

antiguo (ou variações) 06 01, 04, 14, 25 (2x), 16

Raros nos textos impressos, as variações entre <qu>, <c>; <gu>, <g> são freqüentes nos textos manuscirtos.

Das gramáticas e tratados de ortografia seiscentistas consultados, somente a Ortographia de Vera faz referência ao uso dos grafemas <q> e <g>, advertindo que sempre se deve usar <u> depois do <q> e depois do <g>, quando se quiser dar a ele “meia pronunciação de, o; como se vê nestas palavras, aguarda, agua, lingua, mingua” (8 v.). No final da obra, num capítulo intitulado Regras da Orthographia da lingua Portuguesa, Vera condena variações de pronúncia de vocábulos cuja pronúncia se mantêm semelhantes à latina:

"As palavras Latinas, de que usamos incorrutas, ou pouco corrutas, não devemos corrõper mais, quãdo a pronunciação Latina he a mesma, que a Portuguesa, por não escurecer sua origem, que não he propriedade da lingua fazer maiores corruções; como em Deus, lingua, qualidade, quantidade, quantia, cinquo, melhor, & não milhor, sinco, lingoa, contia, calidade, Deos, que he diversa pronunciação da Portuguesa propria" (44 r.).

No grupo <qu>, a vogal tende a desaparecer, absorvida pela vogal seguinte. Câmara Jr. (1985) adverte que esta redução remonta ao latim. De fato, se observarmos a relação de palavras do Appendix Probi92, percebemos que lá já existe a advertência de palavras que se deviam grafar com <qu> ao invés de <c>: “exequiae non execia; equus non ecus; coquus non cocus; coquens non cocens;coqui non coci”. Nunes (1969: 68) informa-nos ser comum a perda do u tanto na língua arcaica, quanto na dos quinhentistas e que “na linguagem popular o –a, oral ou nasal, que se segue à

92 SILVA NETO, Serafim da. Fontes do Latim Vulgar: o Appendix Probi. 3.ed., Rio de Janeiro:

semivogal, assimila-se a esta, reduzindo-se depois as duas a uma só.” Também nos diz Mattos e Silva (1991: 68) que

“em face dessa assimetria gráfica em que q e g, seguidos de ua, uo representam ditongos crescentes e em que ue, ui, precedidos de q e g não representam, se encontram na escrita arcaica grafias do tipo guanhar por ganhar, paguar por pagar, vaqua por vaca espelhada nas grafias do tipo que, queria e, talvez, hipercorretas, já que dialetalmente era provável a existência de pronúncias do tipo gardar ou calquer.”

Comparando-se o que diz a autora com a advertência expressa por Vera sobre a correta pronúncia das palavras, é realmente provável que tenha havido, ainda no português seiscentista, variações de pronúncia como cantidade/quantidade.

Excetuando-se <antiguo> (e variações) que aparece nos textos impressos, sem flutuação gráfica, somente o vocábulo <calidade> apresenta flutuação gráfica com <qualidade>, sendo a primeira forma mais freqüente que a segunda.

Nos textos manuscritos, o que mais nos chama a atenção é a flutuação entre <branco> e <branquo>, esta, em 60% dos casos; <coal> e <qual>, predominando a primeira forma em 33,33% dos casos; e duas únicas ocorrências de <comuniqa / comuniqua>, uma delas escrita da forma condenada pelos ortógrafos seiscentistas.

5.1.2.3. Variação entre <b> e <v>

NOS TEXTOS MANUSCRITOS