3 AMOR ESTRANHO AMOR: TEORIA QUEER
3.4 ESTUDOS QUEER: POR UMA TEORIA DO ESTRANHAMENTO
Como ressalta Miskolci (2009, p. 154), “[a] lista de teóricos queer é extensa e há nomes difíceis de situar”. O sociólogo paulista elenca três importantes nomes “inclassificáveis” que de- senvolveram trabalhos inovadores na França, nos Estados Unidos e no Brasil acerca do tema, mas que não se enquadram propriamente no que posteriormente se convencionou chamar de “estudos
queer”. São eles: o filósofo e militante francês Guy Hocquenghem, a antropóloga cultural norte-
americana Gayle Rubin e o sociólogo brasileiro José Fábio Barbosa da Silva.
Miskolci (2016, p. 22) refere-se a Guy Hocquenghem como parte do “impulso crítico ini- cial [que] originou obras acadêmicas dispersas em vários países”. Sua obra seminal Le désir ho-
mosexuel, publicada em português com o título Homossexualidade, opressão e liberdade sexual
(1974 [1972]), reúne uma série de reflexões sobre desejo, sexualidade, subjetividade, identidade, poder, Estado e capitalismo. Consiste em uma crítica ácida e sagaz à suposta ameaça homossexu- al e à maneira como o desejo gay é deformado pelo capitalismo falocrático, reproduzindo costu- mes e valores heterossexistas e burgueses.
Com base nas ideias de Deleuze e Guattari sobre a reinvenção do inconsciente como pro- dução desejante ao invés de falta a ser preenchida, Hocquenghem (1974) critica os modelos então predominantes da psique e do desejo sexual, elaborados por Lacan e Freud. “O que constitui pro-
blema não é o desejo homossexual, é o medo da homossexualidade”, sentencia o autor logo na abertura de seu livro (Hocquenghem, 1974, p. 5). Para o estudioso, o próprio termo “desejo ho- mossexual” somente pode existir em uma sociedade que se encontra assentada na ditadura da “paranoia anti-homossexual” (Hocquenghem, 1974, p. 11). Por causa disso, é que o desejo gay só pode ser vivenciado em grupos restritos, já que qualquer manifestação libidinosa homoerótica é proibida e abominada por todos os que temem uma “conspiração homossexual”.
Considerado o “primeiro modelo da apropriação gay da teoria pós-estruturalista” (Moon, 1993, p. 9), Le désir homosexuel mantém-se relevante mesmo após mais de quatro décadas de sua publicação. Isso devido não só ao seu acurado relato histórico do ativismo e do pensamento gay e lésbico nos anos 1960/1970, mas sobretudo por ainda hoje poder ser visto como um potente ma- nifesto político em favor da liberação homossexual e contra a opressão do desejo gay pela socie- dade. Para Miskolci (2017b, p. 87), o “livro de Hocquenghem constitui uma análise política de como a ordem social poderia ser compreendida como uma ordem sexual baseada na recusa e no temor da homossexualidade”.
Além disso, Hocquenghem (1974) também aborda a relação do capitalismo com as sexua- lidades, dissecando criticamente os hábitos do homossexual que vive em um mundo capitalista e incorpora as normas convencionais de consumo e a fetichização de mercadorias, perpetuando um desejo polimorfo, não diferenciado e heteroimitativo. Segundo Weeks (1993), a questão fulcral do livro é que a sociedade capitalista não conseguiria viver com infinitas possibilidades de rela- ções (sociais, afetivas, sexuais, identitárias, consumeristas, etc.) que fugissem ao controle da or- dem neoliberal e, por isso, impõe restrições regulando quais dessas expressões são ou não permi- tidas e de que forma podem ser realizadas.
Desse modo, o padrão heterossexista é infligido aos homossexuais pelas grandes institui- ções sociais, tais como família, Estado, escola, igreja, mídia, política e assim por diante. Esses agentes passam a exigir que gays e lésbicas, para serem aceitos, adotem um modelo homonorma- tivo de identidade, conduta, relacionamento, consumo, etc., mimetizando ao extremo a estandar- dização hétero e se adequando às regras da sociedade capitalista neoliberal. Mas Hocquenghem (1993, p. 66) protesta veementemente: “[n]ão podemos aceitar essa atitude do liberalismo: claro que existem leis, mas elas são um reflexo retardado do posicionamento da sociedade, elas repre- sentam uma ideologia ultrapassada; vamos esquecê-las ou vamos mudá-las”.
Outra acadêmica desbravadora citada por Miskolci (2009) como sendo “difícil de situar” entre os estudos queer é a antropóloga Gayle Rubin. De acordo com o sociólogo, Rubin – embora seja uma referência queer crucial – posiciona-se criticamente diante da própria teoria queer, co- mo deixa claro na entrevista à Judith Butler (2003). Em todo caso, artigos influentes como The
Traffic in Women (1975) – que será brevemente discutido a seguir – e Thinking sex (1984) são
imprescindíveis em qualquer bibliografia queer, por procurarem compreender os mecanismos sócio-históricos que produzem o gênero e a heterossexualidade compulsória, e que rebaixam as mulheres a uma posição secundária na sociedade.
No texto O tráfico de mulheres: notas sobre a “economia política” do sexo, Rubin (1975) reflete sobre um modo diferente de se conceber a organização social do sexo biológico e a cons- trução do sexo feminino e masculino, o que a estudiosa denomina de “sistema sexo/gênero”. Também apresenta o conceito de heterossexualidade obrigatória, sustentando que a heterossexu- alidade é fabricada, e não natural.15 Partindo do debate sobre o pensamento de Freud, Marx, En- gels e Lévi-Strauss, a antropóloga norte-americana conclui que a sexualidade está imbricada com a cultura:
As necessidades da sexualidade e da procriação precisam ser satisfeitas tanto quanto a necessi- dade de comer, e uma das deduções mais óbvias que podem ser formuladas a partir dos dados antropológicos é que essas necessidades quase nunca são satisfeitas de qualquer forma “natural” [...]. Fome é fome, mas o que se considera comida é determinado e obtido culturalmente. Sexo é sexo, mas o que se considera sexo é igualmente determinado e obtido culturalmente. Toda soci- edade possui um sistema sexo/gênero – um conjunto de arranjos por meio do qual a matéria- prima biológica do sexo e da procriação humanas é moldada pela intervenção humana e social, e satisfeita de maneira convencional, pouco importando o quão bizarras algumas convenções possam parecer (Rubin, 1975, p. 165).
Rubin (1975) fundamenta a sua proposta a partir de três argumentos principais. Primeira- mente, a noção de gênero está atrelada à divisão de sexos imposta pela sociedade, sendo decor- rente de um processo cultural através do qual os seres do sexo masculino e feminino se transfor- mam em homem e mulheres “domesticados”. Conforme O tráfico de mulheres, a ideia de “sexos opostos” diz respeito a uma construção social que cerceia nos homens a sua dimensão feminina, e nas mulheres a sua dimensão masculina. A divisão social do trabalho não advém de uma distin- ção natural entre os sexos; antes, foi criada pela invenção dos gêneros.
15 Na mesma direção de Rubin (1975), a crítica feminista Adrienne Rich publicou seu célebre ensaio Compulsory
heterosexuality and lesbian existence (Rich, 1980), argumentando que nossa sociedade se assenta no que designou de “heterossexualidade compulsória”. A autora sustenta que a heterossexualidade não é natural, e sim o resultado de um conjunto de práticas sociais que a impõem como a maneira “correta” de relacionar sexual e afetivamente. Bento (2017b) amplificou esse conceito, denominando-o de “heteroterrorismo”, o qual prescreve que, se você não seguir os caminhos da família heterossexual, estará fora da Nação.
Em segundo lugar, Rubin (1975) assevera que a heterossexualidade estabelece uma pro- dução sistemática e coerciva de um eros entre os sexos: a heteronormatividade. Apoiando-se nos estudos do antropólogo Lévi-Strauss, a pesquisadora defende que a finalidade maior da divisão social do trabalho é propiciar e garantir o enlace entre homem e mulher, tornando esta união a menor unidade econômica viável. A heterossexualidade obrigatória acarreta, portanto, a produção da “anti-homossexualidade”, uma vez que está fundada na negação do elemento homossexual na sexualidade humana a fim de assegurar a manutenção do sistema sexo/gênero.
Finalmente, em terceiro lugar, Rubin (1975) discorre acerca do controle da sexualidade feminina, resultado de uma organização social em que historicamente as mulheres são possuídas, dominadas e permutadas como presentes por homens, evidenciando como as interações sociais nas relações heterossexuais são concebidas. A autora afirma que essa dinâmica se conserva até a contemporaneidade, como se observa, por exemplo, no rito do matrimônio, quando o pai “entre- ga” a filha ao noivo. Mesmo que posteriormente criticada por atrelar “gênero” ao “sexo” (Nichol- son, 2000), não resta dúvida de que essa análise constitui um marco na teoria feminista ao usar a noção de gênero para buscar explicar a subordinação das mulheres na sociedade.
Além de Guy Hocquenghem e Gayle Rubin, Miskolci (2017) também destaca o ineditis- mo no Brasil da monografia de especialização Homossexualismo em São Paulo: estudo de um
grupo minoritário, do sociólogo paulista José Fábio Barbosa da Silva (2005), escrita em 1958,
sob orientação do sociólogo Florestan Fernandes (da Universidade de São Paulo). Uma versão resumida da pesquisa foi publicada na revista Sociologia, com o título Aspectos sociológicos do
homossexualismo em São Paulo (Barbosa da Silva, 1959) e sua versão integral foi republicada
recentemente no livro Homossexualismo em São Paulo e outros escritos, organizado pelo brasili- anista James N. Green e pelo antropólogo Ronaldo Trindade (2005a).
Em sua investigação, Barbosa da Silva (2005) realiza um minucioso retrato etnográfico da cena gay paulistana dos anos 1950. A exposição é bem detalha, relatando como se travava a soci- abilidade dos homossexuais naquela época: as primeiras descobertas sexuais na pré-adolescência, os recônditos pontos de “pegação” no centro da cidade, as badaladas festas de travestis na resi- dência das “rainhas”, o intrincado vocabulário privado para designarem os membros da comuni- dade, tais como “badalú” (prostituto), “cachêt” (jovem gay sustentado por velho rico), “peixão”
(homossexual ativo e viril), “tia” (homossexual efeminado que gosta de “caçar” rapazes), entre tantos outros códigos da vida social da comunidade gay nesse período.
Mas a obra também esquadrinha o que passava na mente dessas pessoas, seus questiona- mentos sobre amor e desejo, solidão e discriminação, a cobrança da ascensão social como condi- ção de participar dos círculos mais seletos do mundo “entendido”, a dúvida entre a “assumição” (e ser um “ostensivo”) e a “vida dupla” (e ser um “dissimulado”), etc. Um aspecto curioso do estudo é a percepção da frivolidade e da ausência de consciência política da classe média gay paulistana. Isso refutava a hipótese inicial do orientador Florestan Fernandes de que os homosse- xuais, por serem marginalizados, se identificariam com os ideais da esquerda e da contracultura:
Florestan queria saber se existia uma contraestrutura, se havia uma dimensão política, se os homossexuais tinham uma simpatia pela esquerda. Essa contraestrutura era considerada uma convergência de marginais. Se eram marginais, talvez se interessassem pelo socialismo. Flores- tan era socialista e queria saber se os gays simpatizavam com a esquerda ou se já podiam ser ativistas.
As dimensões mais importantes de sua vida [dos homossexuais entrevistados para a pesquisa] são a roupa, a aparência, as coisas bonitas, a cultura. São pessoas que gostam de ir aos concer- tos, ao teatro, à ópera. Em geral, não gostam de abraçar as massas, a não ser que seja na cama e de noite. Para muitos gays ricos, seus bofes eram um problema, pois estes não sabiam como se comportar e não tinham um traje black tie (Barbosa da Silva apud Green e Trindade, 2005b, p. 36-37).
Em 2005, quando teve seu trabalho republicado, Barbosa da Silva – então com 70 anos – concedeu uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. Nela, contou que mora há mais de 40 anos nos Estados Unidos, trabalhando com demografia no Departamento de Sociologia da Universida- de de Notre Dame, no estado de Indiana. Relembrando sua inovadora monografia, o sociólogo conclui que, de fato, naquele tempo “os gays eram conservadores, não estavam preocupados em mudar a sociedade. [...] Nos anos 50, o importante era o sexo. Hoje, o comportamento é mais político, e os gays estão preocupados sobretudo com o discurso” (Barbosa da Silva apud Mena, 2005).
Após a arrojada pesquisa de Barbosa da Silva, Miskolci (2016) assinala o surgimento no Brasil, a partir da década de 1980, de um grupo de estudiosos interessados em analisar a sexuali- dade como práticas socioculturais, contestando perspectivas essencialistas e naturalizadoras. São eles: Peter Fry, Edward MacRae, Luiz Mott, Carmen Dora Guimarães, entre outros. Em comum, os trabalhos produzidos nesse período consideravam o desejo e a sexualidade inseridos no con- texto cultural e histórico. O enfoque consistia em salientar a homossexualidade como “minoria sexual” diferente, que a sociedade deveria aprender a conhecer e respeitar. Não se cogitava, por-
tanto, questionar a parcialidade da visão da heterossexualidade como algo natural e parâmetro de “normalidade”.
Na verdade, esse tipo de questionamento só vai se realizar no início da década de 1990 nos Estados Unidos, quando são lançados os livros fundadores da teoria queer: Epistemology of
the closet, de Eve Kosofsky Sedgwick (1990); Problemas de gênero, de Judith Butler (2003a
[1990]); e One hundred years of homosexuality, de David M. Halperin (1989).
Em linhas gerais, essas obras tensionam dois pontos principais, até então aceitos inclusive pelos estudos gays e lésbicos. Em primeiro lugar, é refutada a ideia de que a maioria da popula- ção é “naturalmente” heterossexual. Ora, se a homossexualidade é uma construção sociocultural, então a heterossexualidade – e o próprio binarismo hétero-homo – também o é, argumentam esses pensadores. Várias pesquisas já haviam comprovado que boa parte das pessoas transitavam entre diferentes formas de amar e de se relacionar sexualmente, o que ultrapassava a ótica dicotômica até então vigente.
Em segundo lugar, é importante salientar que a teoria queer é concebida por (mulheres e homens) feministas. Enquanto os estudos gays eram realizados por homens que não estudavam as feministas, os estudos queer são uma vertente do feminismo. É bem verdade, diga-se de passa- gem, que é uma vertente feminista que problematiza, inclusive, a categoria “mulher”. Como para a teoria queer o gênero é uma construção social, então “masculino” e “feminino” são característi- cas passíveis de serem atribuídas/observadas em homens e mulheres, bem como nas diversas pos- sibilidades de identidades e expressões sexogendéricas.
Em termos históricos, o rótulo “teoria queer” só foi criado posteriormente. Como aponta Miskolci (2016), o termo foi concebido por Teresa de Laurentis, escritora e acadêmica italiana (radicada nos Estados Unidos), em fevereiro de 1990, durante uma conferência na Universidade da Califórnia. A expressão “teoria queer” foi usada no título da palestra da pesquisadora, que questionava, no domínio dos estudos gays e lésbicos, as identidades sexuais ancoradas numa perspectiva binarista. A abordagem crítica promovida pelos estudos queer problematiza a ideia de identidades sexuais pré-definidas e afixadas, contrapondo-se à ordem sociocultural responsável por produzir discursos que categorizam essas identidades como sendo aceitáveis/normais x abje- tas/patológicas (Pelúcio, 2014).
Como aludido anteriormente, a agenda queer foi gradativamente se constituindo no decor- rer dos anos 1980, no contexto da epidemia da aids. Apesar da rápida propagação da doença, o governo norte-americano do então presidente Ronald Reagan se recusava a prover assistência e a procurar soluções para o problema. A inércia das autoridades públicas acabou incitando uma con- tundente resposta contrária por parte dos movimentos gays e lésbicos. Para Jagose (1996), a epi- demia da aids foi, portanto, responsável por fomentar a procura por direcionamentos teóricos alternativos, além de implicar profundas transformações na condução das políticas gays e lésbicas nos Estados Unidos.
Por sua vez, no que diz respeito à conjuntura brasileira, Louro (2001) enfatiza que, ao longo da década de 1980, a aids revelou a face cruel da homofobia nacional e, simultaneamente, deixou clara a urgência de que a militância homossexual promovesse novas táticas de oposição às múltiplas formas de discriminação social sofridas pelas chamadas “minorias sexuais”. Consoante a estudiosa, esse quadro evidenciou as deficiências das políticas identitárias, suscitando, paulati- namente, “proposições e formulações teóricas pós-identitárias. É precisamente dentro desse qua- dro que a afirmação de uma política e de uma teoria queer precisa ser compreendida” (Louro, 2001, p. 546).
Desse modo, o termo queer vem sendo utilizado como um marcador da instabilidade e da fluidez da noção de identidade. Ademais, como argui Gamson (2006, p. 347),“a teoria queer e os estudos queer propõem um enfoque não tanto sobre populações específicas, mas sobre os proces- sos de categorização sexual e sua desconstrução”. Nesse sentido, Silva (2010) ressalta que a gui- nada epistemológica encetada pelos estudos queer confunde e desarranja as tradicionais formas de pensar e conhecer. Além disso, a premência pela mudança e pelo devir é o que confere potên- cia ao pensamento queer, cujo enfoque se concentra em produzir uma compreensão mais acurada e problematizadora sobre as forças provenientes da cultura normativa (Schlichter, 2007).
Como mencionado, o filósofo francês Michel Foucault (1999) é um dos principais pilares para as formulações queer. Isso é averiguado principalmente quanto à teoria foucaultiana da his- tória da sexualidade, a qual põe em xeque o binômio sexo/natureza, lançando um olhar eminen- temente sócio-histórico sobre o tema. A partir da leitura de Foucault (1999), pesquisadores queer como Sedgwick (1985) propõem desconstruir conceitos naturalizados como gênero e sexualidade e, concomitantemente, advogam uma política antiassimililacionista. Além disso, muitos passam a
aplicar a lógica desconstrucionista queer a diversas áreas do conhecimento (como Educação e Teoria Literária, por exemplo), que não necessariamente tratam de modo direto de sexo ou sexua- lidade, mas que recebem influência do ideário heteronormativo (Stein e Plummer, 1997).
Em suma, a pauta teórico-política assumida pelos pensadores queer se volta particular- mente para dois pontos basilares: a) o questionamento acerca do caráter estável e preestabelecido das identidades sexuais; e b) a problemática da integração das pessoas homossexuais à cultura
mainstream heterossexual, sobretudo no que tange à reivindicação do direito à adoção e ao casa-
mento (Preciado, 2011). Evidentemente, isso não implica negar esses direitos aos LGBTs, fazen- do com que não consigam valer-se dos benefícios legais do casamento e da adoção, por exemplo. Antes, interessa à teoria queer indagar os motivos da ausência de legitimidade e reconhecimento social pertinente a certos estilos de vida que não têm como meta a formação de uma família mo- nogâmica e com filhos.
Miskolci (2016, p. 65) salienta que existem questões relevantes “que um olhar queer pode trazer sobre nossa vida em sociedade, como: Os pais precisam se casar para terem filhos? Uma mulher pode decidir não ser mãe?”. Assim sendo, sob o ponto de vista queer, torna-se necessário desarranjar a maneira como discursos normatizantes são engendrados, desestabilizando os precei- tos que dão sustentação à heteronormatividade. Nesse sentido, os estudos queer reiteram ser im- prescindível a construção de estratégias de resistência que atuem inteiramente na elaboração das marcas da abjeção (Miskolci, 2016). Também cabe frisar que a abjeção constitui o lugar relegado àqueles indivíduos tidos como um risco à manutenção da ordem sociopolítica, o que se traduz pelo gesto de ser socialmente temido e rejeitado (Butler, 2003).
Sob a ótica queer, a heteronormatividade desqualifica os relacionamentos homoafetivos, exigindo que todos adotem o estilo de vida do cânone heterocentrado, considerado o correto e natural. Tanto a homossexualidade quanto a heterossexualidade são “naturais” – o que vai variar é o traço estigmatizante atribuído à primeira e o caráter positivo e “normal” associado à segunda.
Isso ocorre em razão de múltiplas regras sociais de conduta e juízos de valor impingidos sobre os corpos, gêneros e sexualidades. Louro (2004, p. 78) esclarece que é um engano supor “que o modo como pensamos o corpo e a forma como, a partir de sua materialidade, „deduzimos‟ identidades de gênero e sexuais seja generalizável para qualquer cultura, para qualquer tempo e lugar”. Seria necessário admitir igualmente que os discursos a respeito das sexualidades são cons-
truídos e chancelados simultaneamente pela ciência, pela justiça, pela religião, por grupos con- servadores, além de outras entidades e grupos sociais.
Em nossa sociedade heteronormativa, inúmeras prerrogativas e vantagens legais são con- feridas a todos que se propõem a abraçar o padrão heterossexual como estilo de vida. Contudo, nem todas as pessoas ambicionam um relacionamento monogâmico heterossexual com fins re- produtivos objetivando constituir uma família tradicional. Isso é um problema até mesmo dentro do meio LGBT. Por isso, Colling (2013) enfatiza que é necessário que a comunidade sexodiversa esteja atenta para não empregar contra si própria as mesmas fórmulas discriminatórias utilizadas contra ela pelo regime heteronormativo.
Isso acontece quando, “por exemplo, enaltecemos apenas quem deseja constituir família, casar e ter filhos, os gays masculinizados e ativos, as lésbicas femininas e criticamos as pessoas que consideramos promíscuas, os gays afeminados, as passivas, as lésbicas masculinizadas” (Col- ling, 2013, p. 419). Esse comportamento heteroimitativo assumido – conscientemente ou não – por pessoas LGBT é denominado homonormatividade. Em contrapartida, a teoria queer contesta essa estandardização de masculinidades e feminilidades – inclusive entre LGBTs – e a legitima- ção de um padrão ideal de família na atualidade. Assim, os estudos queer promovem a descons- trução das categoriais gay/lésbica, fêmea/feminino, macho/masculino, “afirmando a indetermina- ção e a instabilidade de todas as identidades sexuadas e „generificadas‟” (Salih, 2013, p. 20).
Finalmente, cabe encerrar o capítulo discorrendo brevemente sobre as principais contri- buições da estudiosa queer que se tornou a mais célebre no Brasil: Judith Butler. De acordo com Spargo (2017), uma das principais motivações de Butler (2003 [1990]) para escrever o texto se- minal Gender trouble: feminism and the subversion of identity decorreu de uma certa insatisfação entre as feministas diante do trabalho de Foucault, uma vez que o enfoque do filósofo francês se concentrava tão somente em questões de sexualidade. Butler (2003), em contraponto, faz do gê- nero o principal tópico no debate a respeito de identidades.