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* Professora Emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). Coordenadora do Conselho e co-fundadora do Núcleo de Pesquisas sobre Ensino Superior da USP. [email protected]
ma das mais perigosas iniciativas do Ministério da Educação, inventada por Cristovam Buarque e continuada pelo atual ministro da Educação Tarso Genro, que está presente tanto na medida provi- sória que criou o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), quanto no atual projeto de lei de reforma o ensino superior, consiste na mal definida exigência de que as instituições cumpram suas “responsabilidades sociais”.
Até agora, pensávamos que a responsabilidade social das instituições de ensino superior consistia no cumpri- mento de três funções para as quais foram criadas. A mais fundamental de todas é o ensino, que se exige de qualquer instituição. A segunda, igualmente impor- tante, mas que só é exigida das universidades, consiste
na pesquisa. Há ainda uma terceira função, a exten- são, que decorre das anteriores e consiste na divulga- ção de conhecimento e das competências que as instituições detêm e produzem para o conjunto da sociedade, por meio de cursos livres, projetos de inves- tigação em parceira com órgãos públicos ou empresas privadas, acesso público a bens culturais como museus e bibliotecas e prestação de serviços associados às atividades regulares de ensino e pesquisa. A definição destas atividades todas era de competência das insti- tuições, sem ingerência política externa, a não oferta de estímulos e recursos para o desenvolvimento de áreas ou atividades consideradas estratégicas pelos governos e suas agências.
Esta tradição sempre foi particularmente forte no caso das universidades, mas se aplicava também ao conjun- to das instituições, no sentido de que não cabia ao governo uma ingerência nos objetivos que devessem estabelecer nem ao tipo de serviços que quisessem oferecer à população.
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60 ESTUDOS 34ESTUDOS 34ESTUDOS 34ESTUDOS 34ESTUDOS 34 ABRIL DE 2005ABRIL DE 2005ABRIL DE 2005ABRIL DE 2005ABRIL DE 2005
Agora, a situação parece ter se alterado e a educação superior, pública e privada, parece ter assumido a função de salvar o País.
Assim, em termos de responsabilidade social cabe-lhe:
• Aplicação de políticas afirmativas para a promoção da igualdade educacional, beneficiando os mais pobres e as minorias étnicas. O estranho é que esta responsabilidade não seja atribuída ao sistema educacional no seu conjunto, quando sabemos que a desigualdade de renda e de origem étnica que caracteriza o ensino superior resulta de fato de que a maioria de pobres e negros não completa o ensino básico e muito menos o médio. Faríamos mais no combate à desigualdade estabelecendo uma quota de 45% de egressos negros e pobres no ensino mé- dio público, e deixando de lado o ensino particular não filantrópico, que se sustenta legitimamente através de mensalidades.
• Contribuir para a eliminação das desigualdades sociais regionais, tarefa esta que está certamente muito além da capacidade de atuação das institui- ções de ensino.
• Implantação de políticas públicas na área de saúde e cultura, além da ciência e da tecnologia.
• Promoção da diversidade cultural e da identidade, ação e memória dos diferentes segmentos étnicos nacionais, em especial das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras. Certamente em alguns cursos e áreas de conhecimento, o reconhecimento
e mesmo a valorização de diferentes tradições culturais deve ser contemplado. Mais não cabe às instituições de ensino promover a diversidade. De fato, as instituições de ensino superior brasileiros, especialmente as universidades vêm cumprindo muitas dessas funções, mas no limite de sua capacidade e na adequação dessas atividades a certos cursos e áreas de pesquisa.
A promoção do exercício da cidadania e do respeito à dignidade da pessoa humana e dos direitos e garantias fundamentais, não constitui uma função ou obrigação específica do ensino superior mas de todo o sistema educacional, dos órgãos e agências governamentais e não governamentais e da sociedade em geral. Como obrigação específica, levaria à criação de disciplinas obrigatórias de educação moral e cívica ou de educa- ção política, tal como existiriam em todos os regimes autoritários tanto no Brasil como fora dele.
O ensino superior, além disto, deve fornecer formação e qualificação de quadros profissionais, inclusive por programas de extensão, em habitações especificamen- te direcionadas ao desenvolvimento econômico, social, cultural, científico e tecnológico regional ou de deman- das específicas de grupos e organização sociais, inclu- sive do mundo do trabalho urbano e do campo, voltados para o regime de cooperação. Cabe perguntar: quem define o tipo de desenvolvimento que se contempla? Nas instituições de ensino existentes, assim como na sociedade em geral, não há nenhum consenso sobre isto. Cabe também perguntar se o governo federal se propõe criar instituições que tenham como objetivo
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atender a demandas específicas de grupos e organiza- ções sociais (com ou sem exame de ingresso, gratuitas ou pagas?) ou espera que as instituições existentes, públicas e privadas o façam, abrindo um balcão para os pedidos desses grupos. Quem julga a legitimidade desses pedidos? Deveria uma instituição de ensino superior em obediência a esses objetivos fixados na lei, atender a uma solicitação do Movimento dos Trabalha- dores Rurais sem Terra (MST) para oferecer para seus dirigentes formação em propaganda e marketing? Muito do que está no projeto pareceu ser antes afirma- ções para expressar as boas intenções do governo na área social e no atendimento de reivindicações de mo- vimentos sociais do que preceitos a serem efetivamen- te cobrados. Nesse sentido, não passam de retórica vazia. Mas se forem “para valer”, se disserem respeito não a uma política de governo mas a uma responsabili- dade das instituições entramos em terreno muito peri- goso. Foi em termos da responsabilidade social que o governo de Margareth Thatcher atrelou as universida- des britânicas aos interesses das empresas privadas. Teremos agora um “thatcherismo” populista de es- querda. Mas com as mesmas formulações que estão hoje no projeto de direita para finalidades muito diver- sas, em outra concepção de interesse social e necessi- dades sociais.
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