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3.2 Determinantes do Investimento Directo Estrangeiro

3.2.2 Evidência Empírica sobre os Determinantes do IDE

A maioria dos estudos nesta área tem-se centrado na identificação e avaliação dos determinantes do IDE, procurando encontrar os factores chave explicativos dos fluxos de entrada e saída associados a este investimento. Estes estudos visam essencialmente responder a uma, de duas questões centrais: i) porque é que uma empresa decide investir no exterior, i.e., porque é que se realizam fluxos de saída de IDE; ou ii) quais os factores que tornam uma determinada localização atractiva de IDE, i.e., porque é que as entradas de IDE são específicas de um determinado país.

Como vimos atrás, a primeira questão é normalmente desenvolvida numa perspectiva microeconómica, tomando em consideração os factores associados às empresas investidoras e às características dos países de origem, sendo estes, vulgarmente, conhecidos por “push factors”. Os estudos que explicam o IDE em termos microeconómicos, no âmbito da organização industrial, focaram-se inicialmente nas imperfeições de mercado e no desejo das multinacionais em expandir o seu poder de mercado. Mais tarde, esta literatura passou a centrar-se essencialmente nas vantagens específicas das empresas, no contexto das decisões de IDE.

A segunda questão está relacionada com os determinantes locacionais (ou de atracção – “pull factors”) do IDE e com as características dos países recipientes, sendo discutida numa óptica macroeconómica, a qual será enfatizada ao longo do nosso trabalho. A análise teórica dos determinantes de localização do IDE, como referimos na

secção anterior, tem sido tradicionalmente desenvolvida e modelizada dentro da estrutura da teoria neoclássica e do comércio internacional39.

Razin e Sadka (2007) referem-se a este segundo tipo de estudos como macro- financeiros, uma vez que o IDE combina, não apenas aspectos de comércio internacional, mas, também, aspectos ligados aos fluxos financeiros internacionais. Segundo estes autores, esta corrente da literatura tem como objectivo a análise da composição do IDE em termos dos fluxos agregados internacionais, assim como a decomposição do IDE de acordo com os seus modos de entrada (F&A internacionais ou investimentos de raiz) e de financiamento.

Adicionalmente, a revisão da literatura empírica mostra uma grande extensão, tanto em termos de abordagens teóricas, como das metodologias e amostras utilizadas, para investigar a importância dos diversos factores que influenciam a decisão de investimento das empresas. Todavia, apesar da literatura tão extensa, e, ao mesmo tempo, tão controversa sobre os determinantes do IDE, a maioria tem adoptado uma perspectiva microeconómica e, poucos são os estudos que se têm dedicado à análise macroeconómica do IDE40. Por outro lado, dentro da perspectiva macroeconómica, a literatura empírica existente tem-se focado essencialmente nos factores de atracção ou locacionais (“pull factors”).

Constata-se, ainda, que dada a liderança dos EUA, quer ao nível dos fluxos de entrada, quer dos de saída de IDE, a maioria dos trabalhos tem-se centrado na distribuição geográfica do IDE nos EUA, assim como na localização do investimento directo dos EUA noutros países [Coughlin et al. (1991); Wheeler e Mody (1992); Friedman et al. (1996); Lehmann (2002); Biswas (2002)].

Todavia, nas últimas duas décadas, tem-se assistido ao florescimento de vários trabalhos empíricos que enfatizam a importância dos factores de localização do IDE nos países em desenvolvimento e nas economias em transição, como são exemplo os trabalhos de Serven e Solimano (1993), Milman (1996), Chen e Kwan (2000), Nunnenkamp e Spatz (2002), Nonnenberg e Mendonça (2005) e Amal (2005).

A maioria destes estudos, sobretudo os que analisam os determinantes do IDE na América Latina, enfatiza, como factores relevantes do IDE, os aspectos ligados à

39 Veja-se a este propósito Krugman (1991), Markusen e Venables (1998) e Venables (1999).

40 A este propósito, veja-se o trabalho de Razin e Sadka (2007), no qual é apresentada uma análise

estabilidade macroeconómica. Por exemplo, o trabalho de Serven e Solimano (1993) evidenciou um efeito positivo do crescimento económico sobre o IDE e um efeito negativo das despesas com a dívida externa e das flutuações macroeconómicas, na medida que provocam instabilidade e incerteza nas economias alvo. De igual modo, ao analisar os determinantes do investimento privado em quatro países da América Latina (Argentina, Chile, México e Venezuela), Milman (1996) constatou que as duas variáveis mais importantes na explicação do IDE eram a taxa de juro internacional (libor) e o crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB).

Não é, no entanto, nossa pretensão rever a vastíssima literatura sobre os determinantes do IDE. Em contrapartida, iremos proceder à sistematização dos trabalhos mais recentes que têm enfatizado os determinantes macroeconómicos na explicação do IDE agregado. Para uma revisão crítica da literatura empírica recente dos determinantes do IDE, discutindo quer os factores específicos à empresa, quer os factores locacionais, ver Blonigen (2005).

Chakrabarti (2001) procedeu a uma análise dos trabalhos empíricos realizados sobre os determinantes do IDE e constatou a existência de uma grande divergência quanto aos factores locacionais explicativos dos fluxos de investimento. Segundo ele, as diferenças em termos de enquadramentos teóricos, de metodologias, de selecção de amostras e dos próprios instrumentos de análise, poderão estar na base de tal controvérsia. Em resultado de tal diversidade, Chakrabarti (2001) procurou sistematizar um conjunto de hipóteses sobre os potenciais determinantes do IDE. Como podemos constatar a partir da tabela 3.2, Chakrabarti (2001) salienta que as principais variáveis utilizadas nesses estudos empíricos são a dimensão e o crescimento do mercado; os custos salariais; o grau de abertura ao exterior; as barreiras ao comércio; as taxas de câmbio; a carga tributária; o défice comercial, além de diversas variáveis institucionais.

Tabela 3.2 – Efeito controverso de algumas variáveis sobre o IDE

Efeito observado no IDE em diferentes estudos Determinantes

Potenciais do IDE Positivo Negativo Não Significativo

Dimensão do Mercado Root e Ahmed (1979) Dunning (1980) Culem (1988) Pearce (1990) Wheeler e Mody (1992) Tsai (1994) Billington (1999) Pistoresi (2000) Barreiras ao Comércio Schmitz e Bieri (1972) Lunn (1980) Culem (1988) Beaurdeau (1986) Blonigen e Feenstra (1996)

Custos Salariais Caves (1974) Swedenborg (1979) Wheeler e Mody (1992) Culem (1988) Pistoresi (2000) Lucas (1990) Tsai (1994) Taxa de Crescimento Económico Lunn (1980) Culem (1988) Billington (1999) Nigh (1988) Tsai (1994) Grau de Abertura ao Exterior Kravis e Lipsey (1982) Culem (1988) Edwards (1990) Pistoresi (2000) Schmitz e Bieri (1972) Wheeler e Mody (1992)

Défice Comercial Culem (1988) Tsai (1994)

Hein (1992) Lucas (1993) Pistoresi (2000)

Taxa de Câmbio Edwards (1990) Caves (1988) Froot e Stein (1991) Blonigen (1995) Blonigen e Feenstra (1996) Calderon-Rossell (1985) Blonigen (1997)

Impostos Swenson (1994) Guisinger (1995)

Barrel e Pain (1998) Billington (1999)

Wheeler e Mody (1992)

Porcano e Price (1996) Fonte: Resumo da tabela apresentada por Chakrabarti (2001, pp. 91-92)

Ainda dentro do grupo das variáveis que tradicionalmente são apontadas como factores explicativos do IDE, podemos encontrar outros factores, tais como a qualidade das infra-estruturas físicas e o nível educacional41.

Por exemplo, Chen e Kwan (2000), através da estimação dos efeitos dos determinantes do IDE em 29 regiões chinesas entre 1985 e 1995, descobrem que mercados regionais de grande dimensão, boas infra-estruturas e uma política de comércio preferencial têm um efeito positivo no IDE, enquanto os custos salariais exercem um efeito negativo. Quanto ao efeito do nível educacional, os autores constatam a existência de um impacto positivo, mas não significativo. Também Coughlin et al. (1991), com base num modelo logit relativo à decisão de localização das empresas estrangeiras que investem em indústrias norte-americanas entre 1981 e 1983, observaram que a existência de uma boa rede de infra-estruturas ao nível dos transportes aumenta o IDE. Por outro lado, verificaram que os estados norte-americanos com maiores rendimentos per capita e maior densidade da actividade industrial atraem relativamente mais IDE, enquanto salários e impostos elevados reduzem os fluxos de investimento. Friedman et al. (1996) analisaram o trabalho anterior e dividiram a análise nos dois principais fluxos de IDE (F&A e investimentos de raiz), obtendo, no entanto, coeficientes similares nos dois grupos.

Todavia, recentemente, têm sido desenvolvidos estudos que realçam a importância de variáveis não tradicionais na explicação do IDE. É o caso do trabalho efectuado por Nunnenkamp e Spatz (2002), os quais investigaram a importância de factores não tradicionais em 28 países em desenvolvimento. A evidência empírica obtida permitiu concluir que os factores tradicionalmente relacionados com o mercado (em particular, a dimensão e o crescimento de mercado e a população) continuam a ser determinantes da distribuição do IDE, enquanto os factores não tradicionais como as restrições ao comércio e os factores complementares de produção (relacionados, por exemplo, com as condições de acesso ao financiamento no mercado local e com as capacidades e a eficiência das empresas locais) começam a assumir uma maior importância.

41 Alguns estudos, nomeadamente os a seguir apresentados de Nunnenkamp e Spatz (2002), Lehmann

(2002), Biswas (2000) e Wezel (2003), distinguem entre variáveis tradicionais e não tradicionais na explicação do IDE. As primeiras ligadas essencialmente às variáveis de mercado e, as segundas, aos factores de índole institucional, política e legal.

Lehmann (2002), ao analisar as estratégias de multinacionais norte-americanas, encontrou evidência de que os factores tradicionais como o diferencial dos custos salariais, a dimensão do mercado e o grau de abertura comercial são factores relevantes para estimular o IDE nos países em desenvolvimento. De igual modo, a variável associada ao risco político, enquanto determinante não tradicional, parece também assumir um papel importante na explicação dos fluxos de IDE destinados a esses países.

Biswas (2002) analisou os determinantes do investimento realizado por empresas norte-americanas em 44 países durante o período 1983-1990. Mais especificamente, testou a importância de alguns factores tradicionais (como os custos salariais e as infra-estruturas) e não tradicionais (como o tipo e a duração do regime político e o índice de direitos de propriedade intelectual) no IDE. A investigação empírica conduzida permitiu concluir acerca da importância destes factores não tradicionais.

Num estudo sobre os determinantes do IDE de origem alemã na América Latina e nas economias emergentes da Ásia, Wezel (2003) dedicou especial ênfase aos factores não tradicionais. Os resultados evidenciaram que o risco do país e, parcialmente, o risco político são prejudiciais aos investimentos realizados pelas empresas alemãs.

Nonnenberg e Mendonça (2005) procuraram estimar, com base numa amostra em painel de 33 países, os principais determinantes do IDE nos países em desenvolvimento, no período 1975-2000. Apesar de não distinguirem os factores tradicionais dos não tradicionais, constataram igualmente a importância do risco do país na explicação destes fluxos. Adicionalmente, os autores concluíram que a dimensão e o ritmo de crescimento da economia, a qualificação da mão-de-obra, a receptividade relativamente ao capital externo e o desempenho das bolsas de valores internacionais, estão entre os principais factores que influenciam a decisão das EMNs nos países em desenvolvimento.

Os trabalhos que acabamos de analisar, para além de demonstrarem a importância crescente dos determinantes não tradicionais na explicação do IDE, permitem-nos constatar, ainda, que dentro deste grupo de determinantes, os factores institucionais começam a ganhar relevo. Os estudos de Basi (1963) e Aharoni (1966) foram os primeiros a considerar essas variáveis, os quais constataram que a instabilidade política foi considerada a variável mais relevante no processo de decisão

do investimento directo estrangeiro. Recentemente, outros trabalhos têm sido desenvolvidos neste sentido.

Wheeler e Mody (1992) utilizaram um índice composto por factores ligados ao risco que incluía variáveis como a burocracia, a instabilidade política, a corrupção e a qualidade do sistema legal. Todavia, não encontraram evidência suficiente que lhes permitisse concluir acerca da importância destas variáveis na explicação dos fluxos de entrada de IDE nos EUA.

Pelo contrário, Gastanaga et al. (1998) mostraram que variáveis como a corrupção, as distorções das taxas de câmbio, a carga tributária, a taxa de crescimento, o risco e a burocracia são estatisticamente significativas e influenciam directamente os fluxos de IDE nos países menos desenvolvidos.

Hausmann e Fernández-Arias (2001) examinaram os efeitos dos diversos factores institucionais sobre os fluxos de capital, utilizando como variáveis aquelas que foram compiladas por Kaufmann et al. (2007)42 e La Porta et al.43 (1998). Os resultados evidenciaram que outras formas de capital, como as joint ventures e as alianças estratégicas, são mais sensíveis à qualidade das instituições que o IDE. Dentro deste conjunto de variáveis institucionais, apenas o quadro regulatório, a eficiência do governo e os direitos dos accionistas são significativos.

Stein e Daude (2002) chegaram a resultados mais precisos quanto ao papel das variáveis institucionais na determinação da localização do IDE e, mostraram que a qualidade das instituições é estatisticamente significativa e tem um efeito económico positivo sobre os modos de entrada de IDE.

Adicionalmente, Amal (2005), na sua tese de doutoramento sobre o impacto do IDE na América Latina, constatou que, para além das variáveis macroeconómicas (como o PIB e a taxa de câmbio real), os factores institucionais, tais como o risco político, a liberdade política, os direitos civis e a inserção do país em acordos de

42 Kaufmann, Kraay e Mastruzzi (2007) desenvolveram, a partir de um trabalho inicial de Kaufmann,

Kraay e Zoido-Lobaton (1999), uma medida de grande amplitude relativa à governação de um país, composta por 6 indicadores governamentais: 1) participação do cidadão e liberdade de expressão; 2) estabilidade política e segurança; 3) eficiência governativa; 4) qualidade da regulação, 5) “força” da lei (“rule of law”) e 6) controlo da corrupção. Esta medida de governação será alvo de uma análise mais detalhada no capítulo seguinte.

43 Como salientamos mais à frente no Capítulo 4, estes autores construíram dois índices, um associado

integração regional, exercem um impacto significativo em 7 países da América Latina, no período 1984-2001.

Finalmente, outros autores, nomeadamente Crowley e Dodds (1998), salientaram a importância de variáveis financeiras na explicação do IDE e, descobriram que um bom sistema financeiro parece constituir um factor significativo na explicação dos fluxos de entrada e saída de IDE.

Em termos sucintos, a revisão da literatura empírica sobre os determinantes macroeconómicos do IDE evidenciou que, apesar de os resultados nem sempre se mostrarem consistentes, existe um conjunto de variáveis que usualmente são identificadas como relevantes na explicação da distribuição geográfica do IDE. Entre essas variáveis destacam-se os factores económicos, tais como a dimensão e o crescimento dos mercados, os custos salariais, o grau de abertura ao exterior, entre outros, e, mais recentemente, variáveis institucionais e financeiras parecem desempenhar igualmente um papel importante na decisão de localização deste tipo de investimento. Constatou-se, ainda, que dentro da perspectiva macroeconómica, a maioria dos estudos enfatiza os factores de localização do IDE, ou seja, as características dos países alvo, capazes de tornar a sua localização atractiva para este investimento. Ao invés, os factores específicos dos países de origem, susceptíveis de explicar os fluxos de investimento realizados a partir destes, têm sido estudados, regra geral, num contexto microeconómico.

Após a sistematização da literatura teórica e empírica sobre os determinantes do IDE, torna-se necessário, no âmbito do nosso trabalho, proceder à revisão dos principais contributos teóricos e empíricos associados à escolha do modo de entrada nos mercados estrangeiros, em particular, aos determinantes das F&A internacionais versus investimentos de raiz, enquanto modos alternativos de entrada do IDE.