3.2 Determinantes do Investimento Directo Estrangeiro
3.2.1 Perspectivas Teóricas
3.2.1.2 Teorias Microeconómicas do IDE
3.2.1.2.3 Teoria dos Custos de Transacção (TCT)
A teoria dos custos de transacção (TCT) remonta aos trabalhos de McManus (1972), Hennart (1977,1982) e Buckley e Casson (1976), embora, alguns autores considerem, erradamente, que ela é originária em Williamson (1975, 1985).
A relação entre a teoria da internalização e a teoria custos de transacção tem sido objecto de grande investigação. Embora muitas semelhanças sejam evidentes, a ponto de alguns autores [e.g. Hennart (1991)] utilizarem de forma indiscriminada os termos de teoria de internalização e teoria dos custos de transacção, vale a pena enfatizar as diferenças.
Partindo ambas do princípio de que os mercados são imperfeitos e as multinacionais são instituições económicas que existem para ultrapassar essas imperfeições, a teoria dos custos de transacção considera a hierarquia como um meio utilizado pelas multinacionais com vista a eliminar os custos de transacção31. Estes podem resultar, por exemplo, do comportamento estratégico dos agentes no mercado e da inexistência de informação perfeita. Para os autores da TCT, o IDE é realizado enquanto forma de reduzir estes custos de transacção.
Na mesma linha de pensamento, Williamson (1975) considera a hierarquia como uma alternativa ao mercado, enquanto forma de monitorizar e motivar os indivíduos. Perante a existência de imperfeições naturais do mercado, nomeadamente as associadas com a racionalidade limitada e o oportunismo dos agentes, a hierarquia torna-se a melhor forma de reduzir os custos de “governação” associados à gestão de uma equipa de indivíduos.
Em contraposição, a teoria da internalização enfatizou, num estágio inicial, que as relações hierárquicas não constituíam o único meio de resolver os problemas associados à manutenção dos indivíduos dentro de uma organização e de reduzir os custos de gestão. A ideia subjacente é a de que os gestores das filiais estrangeiras possuem, por norma, um melhor conhecimento das condições locais, relativamente à
31 Ou seja, através da hierarquia (i.e. contratos de trabalho), consegue-se transformar os agentes
independentes em empregados das multinacionais, reduzindo-se, deste modo, o incentivo destes em fazer “batota”.
gestão central e, desta forma, pode tornar-se difícil utilizar as formas tradicionais de autoridade para remover a sua discrição na tomada de decisão.
Apesar das diferenças de ênfase, estas duas aproximações teóricas são complementares de duas formas. Primeiro, partilham da ideia de que as organizações economizam custos de transacção; segundo, necessitam da utilização de um conjunto de assunções para explicar o suporte empírico. A maioria do suporte empírico resulta das hipóteses assumidas, acerca da incidência relativa dos custos de transacção nos mercados internos e externos.
Enquanto no modelo de Hymer-Kindleberger as multinacionais eram vistas como internalizadoras de externalidades pecuniárias32 devido a imperfeições estruturais de mercado, os autores da TCT consideram também a existência de imperfeições naturais33. Estas imperfeições naturais estão relacionadas com a racionalidade limitada (“bounded rationality”) e o oportunismo dos agentes, no sentido de que os indivíduos nem sempre têm informação perfeita sobre os preços e outputs e nem sempre podem confiar na honestidade dos outros34. Assim, quando as imperfeições naturais do mercado são elevadas, a expansão das empresas para além fronteiras pode constituir uma forma eficiente de internalizar as externalidades não pecuniárias.
Ou seja, enquanto Hymer e Kindleberger viam o IDE como forma de maximizar o poder de monopólio ou, por outras palavras, como forma de internalizar externalidades pecuniárias, para os teóricos dos custos de transacção, o IDE é realizado para reduzir os custos de transacção e internalizar externalidades não pecuniárias.
Neste sentido, os autores da TCT consideram que o argumento de Hymer e Kindleberger providencia apenas uma explicação parcial para a existência das multinacionais. Mais, consideram o argumento de Hymer e Kindleberger incompleto, isto porque o IDE não é o único método disponível de atingir a colusão, o mesmo pode ser conseguido através dos cartéis. Consequentemente, para os teóricos da TCT, o IDE
32 Estas externalidades correspondem aquelas que os concorrentes impõem uns aos outros, através do
impacto das suas acções sobre os preços que enfrentam, isto é, são as que resultam de imperfeições estruturais nos mercados caracterizados por monopólios ou monopsónios.
33 Segundo Teece (1981), estas imperfeições naturais devem-se ao facto de não serem verificadas as
hipóteses neoclássicas implícitas do conhecimento perfeito.
34 Neste contexto, Dunning e Rugman (1985) distinguem entre falhas de mercado estruturais e
transaccionais (ou naturais). As primeiras, enfatizadas por Hymer, dão lugar a rendas de monopólio como resultado da presença de barreiras à entrada. As segundas reflectem a incapacidade dos mercados em organizar as transacções de forma óptima e, resultam, essencialmente, da assimetria de informação.
não requer que as empresas investidoras possuam vantagens monopolísticas, requer apenas que nalguns mercados a coordenação hierárquica envolva custos inferiores que a coordenação através dos preços.
Nas últimas décadas, esta aproximação teórica tem sido alvo de grandes progressos, ao conseguir explicar a preferência das empresas por outras formas institucionais, como, por exemplo, as joint-ventures e os contratos de licenciamento, relativamente ao IDE.
Em suma, podemos afirmar que a TCT olha para as multinacionais como uma das formas de organizar a actividade económica e explica porquê e quando esta forma organizacional será escolhida em detrimento de outras alternativas.
Actualmente, a preocupação central dos investigadores da TCT relaciona-se com os factores que determinam os custos de transacção de mercado.
Todavia, convém salientar que a ocorrência de elevados custos de transacção nos mercados internacionais não é condição suficiente para explicar a existência de multinacionais, uma vez que se verificará situações em que as empresas, nas suas tentativas de internalizar as falhas de mercado, irão incorrer em custos organizacionais superiores aos de mercado.
Desta forma, Hennart (1991) refere que para a TCT ser completa, ela deve considerar, simultaneamente, os custos de conduzir as trocas no mercado (custos de transacção de mercado) e os custos de organização interna dentro da empresa e, mostrar como as empresas podem reduzir estes últimos. Concluindo, uma multinacional irá expandir-se para o exterior (organizando interdependências através da hierarquia) quando ela for capaz de organizar as interdependências entre os agentes localizados em países diferentes, de forma mais eficiente que os mercados.
Isto implica que três condições, já referidas anteriormente, sejam encontradas. Primeira, os agentes interdependentes têm de estar localizados em países diferentes (caso contrário, teremos uma empresa doméstica). Segunda, a multinacional tem de ser a forma mais eficiente para organizar estas interdependências (caso contrário, teremos transacções nos mercados internacionais). Terceira, dada a segunda condição, os custos incorridos pelas multinacionais, em termos de organização destas interdependências, devem ser inferiores aos benefícios obtidos com essa organização.
Assim sendo, a TCT baseia-se na comparação dos custos e benefícios de organizar interdependências nos mercados e nas empresas. Olhar apenas para as falhas de mercado não é suficiente, esta teoria procura também explicar porque é que as empresas podem ser mais eficientes que os mercados.