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3.2 Determinantes do Investimento Directo Estrangeiro

3.2.1 Perspectivas Teóricas

3.2.1.1 Teorias Macroeconómicas do IDE

As teorias macroeconómicas da produção internacional explicam basicamente a dispersão internacional de capital e de recursos produtivos, em termos das dotações dos países envolvidos no comércio e no investimento internacional.

Até finais dos anos 50, não existia nenhuma teoria estabelecida sobre as empresas multinacionais ou o IDE. Algumas das tentativas para explicar as actividades das empresas fora das suas fronteiras nacionais, encontravam-se ligadas à Teoria dos Movimentos Internacionais de Capitais, segundo a qual os fluxos de capitais fluíam entre países como resultado das diferenças cambiais e de taxas de juro24. A incapacidade desta teoria em prever os fluxos internacionais de capitais levou os economistas a desenvolverem hipóteses alternativas.

3.2.1.1.1 Teoria do Comércio Internacional

Essencialmente, as teorias do comércio explicam os padrões internacionais de comércio em termos das vantagens comparativas que resultam das diferenças relativas de preços entre países. Originariamente, a teoria das vantagens comparativas foi formulada por David Ricardo (versão original 1817) que argumentava que os padrões

24 Como refere Dunning (1973, p. 299) “(…) o capital flui entre as trocas comerciais, se a margem sobre

a qual é esperada que o juro exceda o custo de capital é superior à praticada nos projectos locais.” Até aos anos 60, esta teoria foi pensada pela maioria dos economistas, para explicar os movimentos dos investimentos de portfólio, sendo, por este motivo, também conhecida por teoria do investimento de portfólio.

de troca eram explicados pelas dotações de factores dos respectivos países envolvidos no comércio. Mais tarde, esta teoria foi expandida e sofisticada por Heckscher (1919) e pelo seu aluno Ohlin (1933), dando origem ao modelo clássico de Heckscher-Ohlin. Este modelo sustenta que as diferenças dos países em termos das suas vantagens comparativas são explicadas por diferentes custos relativos dos factores de produção. Assim, os países irão exportar os produtos intensivos no factor abundante e importar aqueles que dependem dos seus factores de produção mais escassos.

Contudo, o modelo de Heckscher-Ohlin não apresentava nenhuma referência ao IDE, uma vez que qualquer desequilíbrio nos preços dos produtos ou dos factores, decorrente das diferenças em termos de dotações de factores, seria imediatamente corrigido pelos fluxos internacionais de produtos [Castro (2000)].

Em ordem a incorporar a dinâmica imposta pelas alterações tecnológicas no modelo de Heckscher-Ohlin, a teoria do ciclo do produto foi aplicada por Vernon, no início dos anos 60, aos fluxos internacionais de capitais.

3.2.1.1.2 Teoria Internacional do Ciclo do Produto

Ainda dentro de uma perspectiva macroeconómica ligada à teoria do comércio internacional, Vernon foi o primeiro a reconhecer a relevância das novas teorias do comércio, colocadas nos anos 50 e 60, para explicar o fenómeno do IDE.

Vernon (1966), no seu artigo clássico, utilizou o conceito microeconómico – Ciclo do Produto – para explicar um fenómeno macroeconómico, ou seja, a actividade internacional das multinacionais norte-americanas, no período pós-guerra.

O seu ponto de partida foi que, adicionalmente à disponibilidade natural fixa e de recursos humanos, a propensão dos países para entrar no comércio dependia também da capacidade destes em desenvolver ou criar novos activos.

A capacidade tecnológica representa, neste modelo, o principal determinante da estrutura do comércio internacional e da afectação da produção entre diferentes países, sendo muitas vezes interpretada como uma forma de poupança do factor trabalho; quanto mais caro fosse o factor trabalho, maior seria o incentivo em inovar.

Além disso, Vernon considera que a importância relativa das vantagens de propriedade específicas da localização nos países alvo varia ao longo do tempo, consoante o produto se move ao longo do seu ciclo de vida. Consequentemente, a decisão das empresas quanto ao modo de entrada, nomeadamente a escolha entre as exportações, a produção através de filiais estrangeiras ou o licenciamento, também pode variar.

Desde a data de introdução do produto no mercado, a vida do produto pode ser dividida em três fases – Introdução, Maturação e Estandardização –, as quais, segundo Vernon, estão relacionadas com a decisão de localização das empresas e com a escolha que estas têm de fazer entre exportar ou produzir no exterior.

Na fase de Introdução, o novo produto – produto inovador – é produzido no e para o mercado de origem, próximo quer das actividades inovadoras, quer dos mercados, devido aos custos de comunicação. A inovação do produto é inicialmente desenvolvida por actividades localizadas nos mercados mais avançados, caracterizados por elevados custos salariais. No início, o produto não é estandardizado, devido à necessidade de sucessivas adaptações e melhorias do seu design e tecnologia, por forma a adaptar-se às necessidades dos consumidores. Logo, face à necessidade de uma comunicação contínua entre a produção e o marketing e, devido ao facto dos custos de comunicação aumentarem com a distância, é importante localizar a produção perto do mercado.

Numa segunda fase do ciclo de vida do produto – Maturação –, os designs e os métodos de produção menos eficientes são inutilizados como resultado do “learning by

doing” e a forma do produto acaba por ser estandardizada. Os conhecimentos do comprador aumentam, a procura torna-se mais preço-elástica e as empresas tornam-se mais sensíveis aos custos de rotina de produção. Neste contexto, e uma vez que a tecnologia já estabilizou, já não é tão importante que a produção esteja perto do mercado. O mercado expande-se com o aumento do rendimento e as oportunidades aparecem para explorar as economias de escala. Assim sendo, quando os mercados estrangeiros aparecem eles são servidos, em primeiro lugar, pelas exportações.

Por último, temos a fase da Estandardização, onde o produto é uniforme e homogéneo e a concorrência entre as empresas baseia-se exclusivamente nos preços. Aqui, a informação sobre o mercado já não constitui mais um problema, a questão

principal assenta na procura de fontes de oferta que ofereçam os custos mais baixos. Deste modo, podemos assistir a uma transferência dos estágios mais trabalho-intensivo para os países em desenvolvimento.

Segundo esta teoria, à medida que o produto se torna estandardizado ou maduro, as vantagens competitivas das empresas produtoras, deixam de estar associadas à detenção de um produto original, para se relacionar com sua capacidade em minimizar os custos de produção ou de marketing.

Assim sendo, quando os custos de produção no exterior tendem a ser inferiores à soma dos custos de produção no país de origem mais os custos de transporte, o IDE apresenta-se como a estratégia de internacionalização mais eficiente.

Resumidamente, Vernon defende que no primeiro estágio a produção de novos produtos é realizada no país de origem, depois, à medida que o produto vai amadurecendo, opta-se pela produção no país de origem e exporta-se em seguida e, no último estágio, onde já se verifica a estandardização do produto, opta-se pela produção no exterior. No contexto do mercado norte-americano, aquilo que se assiste é que, à medida que o produto se vai padronizando, as empresas norte-americanas tendem a desenvolver novos produtos e novas tecnologias, enquanto a produção de produtos maduros ou estandardizados seria deslocada, inicialmente, para outros países desenvolvidos e, futuramente, para países em desenvolvimento.

A decisão de investimento é considerada, neste modelo, como uma estratégia que visa manter as vantagens tecnológicas e de gestão, antes destas se difundirem para os mercados externos. Deste modo, a teoria do ciclo do produto consiste numa clarificação da teoria do comércio do IDE, sugerindo que a localização da produção será determinada pelos custos relativos do factor produção em diferentes fases do ciclo do produto.

No entanto, esta teoria não parece ser confirmada pelas tendências actuais. Em particular, Buckley e Casson (1976) salientam que o processo de desenvolvimento de produtos e de inovação tem-se tornado altamente organizado, no sentido em que os produtos já não são mais planeados para um mercado e depois transferidos para outro, mas sim planeados e diferenciados de modo a satisfazer diferentes gostos, em mercados diferentes.

Por outro lado, este modelo define apenas as condições pelas quais a produção internacional substitui as actividades de exportação, não permitindo explicar os factores e critérios que determinam o tipo de relacionamento que se estabelece entre a empresa multinacional e as suas filiais estrangeiras. Adicionalmente, esta teoria parece constituir uma análise mais adequada para explicar os novos fluxos de IDE, mas não apresenta argumentos suficientes para explicar os fluxos de investimento já existentes, uma vez que não permite explicar porque é que uma empresa multinacional (EMN) decide estabelecer uma filial no exterior, em vez de recorrer ao licenciamento ou a outras modalidades. Finalmente, a definição e a delimitação de estágios reduzem a capacidade explicativa do modelo. Ou seja, na medida em que o modelo estabelece uma sequência rígida das duas estratégias de internacionalização (exportação e IDE), não permite explicar como é que as EMNs escolhem, simultaneamente, as duas formas para atender a diversos mercados.

Em trabalhos posteriores, Vernon (1971, 1974) modificou substancialmente a teoria do ciclo do produto. A ênfase passou para o comportamento oligopolístico e o desejo das empresas em manterem uma estrutura de mercado oligopolística erguendo barreiras à entrada. Destacou também três fases, em que a primeira se designava de oligopólio baseado na inovação, a segunda de oligopólio baseado na maturação e a última fase de oligopólio baseado na senescência. O suporte empírico para esta segunda versão da teoria do ciclo do produto é dado pelo trabalho de Knickerbocker (1973), acerca da penetração das empresas norte-americanas nos mercados estrangeiros, no pós- segunda Guerra Mundial.

Em seguida, passaremos à sistematização das teorias microeconómicas da produção internacional.