3.2 Determinantes do Investimento Directo Estrangeiro
3.2.1 Perspectivas Teóricas
3.2.1.2 Teorias Microeconómicas do IDE
3.2.1.2.1 Teoria de Hymer e Kindleberger (HK)
A principal contribuição para este novo corpo teórico sobre os determinantes do IDE advém do trabalho de Hymer [(1976), (versão inicial 1960)], a partir da sua tese de doutoramento sobre as operações de IDE das empresas norte-americanas durante a II Grande Guerra, onde expressou a sua insatisfação com a Teoria dos Movimentos Internacionais de Capitais para explicar este fenómeno.
Hymer (1976) inaugura uma nova tradição nos estudos sobre as empresas multinacionais, associada ao Paradigma das Imperfeições do Mercado, o qual foi desenvolvido, posteriormente, por Kindleberger (1969) e Caves (1971).
O seu trabalho representou uma ruptura com as abordagens tradicionais dos fluxos internacionais de capital baseadas nas diferenças das taxas de juro entre países. Hymer considerou as abordagens fornecidas pela teoria do capital, assim como pelas
teorias do comércio internacional, insuficientes para explicar a expansão territorial das empresas.
O ponto de partida para a análise de Hymer, e de facto para todas as teorias microeconómicas, é a assunção de que as EMNs, quando comparadas com as empresas locais, enfrentam certos custos adicionais, em termos do conhecimento das condições do mercado local, das barreiras culturais, institucionais e linguísticas e dos custos de comunicação e transporte.
Sob a hipótese de concorrência perfeita, as empresas locais teriam o mesmo acesso ao capital e à informação que as empresas estrangeiras e, o IDE não ocorreria. Logo, como o IDE existe e está em franca expansão é porque se verificam imperfeições de mercado.
Neste contexto, Hymer considera que as multinacionais têm de possuir certas vantagens comparativas, muitas vezes designadas de vantagens específicas de propriedade (“ownership specific advantages”), capazes de superar o conhecimento superior que as empresas locais detêm sobre elas. Entre essas vantagens destacam-se as seguintes: vantagens tecnológicas, associadas à capacidade de investigação e desenvolvimento (I&D); vantagens organizacionais como as economias de escala; vantagens ao nível da gestão; vantagens financeiras e monetárias; e finalmente, vantagens associadas ao acesso privilegiado a fontes de matéria-prima.
Todas estas vantagens explicam, de acordo com Hymer, como é possível a uma multinacional competir de forma lucrativa nos mercados externos.
Quanto à questão do porquê que as multinacionais tendem a preferir o IDE, em vez do licenciamento, Hymer responde argumentando que as EMNs, de modo a protegerem e a aumentarem a sua posição de mercado, tendem a investir nos mercados estrangeiros. Segundo o autor, o IDE pode ser considerado como um instrumento para remover a concorrência, no sentido de que pode ser mais lucrativo ter uma empresa a controlar todas as outras (mesmo as que se situam no exterior), do que ter várias empresas separadas em cada país25.
25 Neste sentido, Hymer, num trabalho posterior (1970), afirma que o IDE tem uma dupla natureza. Por
um lado, é um instrumento que permite às empresas transferir capital e capacidades organizacionais de um país para outro; por outro, é também um instrumento para restringir a concorrência em indústrias onde tinham sido erguidas elevadas barreiras à entrada que estavam a sustentar monopólios locais.
Apesar dos méritos do modelo, em incluir a teoria do IDE no quadro de uma abordagem da organização industrial, este ficou limitado em termos de fornecer respostas claras sobre os factores locacionais que influenciam a decisão de investimento das EMNs. O modelo de Hymer não entra em consideração com a variação da dimensão localização, isto é, com as situações onde a função produção e a função de marketing se encontram localizadas separadamente (como é o caso das joint ventures e das exportações). Por outro lado, os estudos de Hymer foram orientados, sobretudo, para explicar a internacionalização das actividades das multinacionais norte-americanas, não providenciando um conjunto de razões necessárias e suficientes para a emergência das multinacionais, de uma forma geral.
Posteriormente, mantendo a ênfase na existência de imperfeições do mercado, Kindleberger (1969) modifica ligeiramente a análise de Hymer. Ao invés da conduta das EMNs determinarem a estrutura dos mercados, é a estrutura – concorrência monopolística – que vai determinar a conduta da empresa que irá internacionalizar a produção.
Para além das vantagens competitivas demonstradas por Hymer e Kindleberger (HK), outros autores salientaram a importância de outros tipos de vantagens associadas às empresas multinacionais. Em particular, Caves que, no seu trabalho de 1971, acrescentou às vantagens anteriormente identificadas, a diferenciação do produto, e Johnson (1970) que chamou a atenção para o papel desempenhado pelo conhecimento específico das empresas.
Caves (1971) desenvolve um argumento semelhante ao de Kindleberger (1969), ao afirmar que a estrutura – oligopólio – ditará a conduta. Isto é, o autor considera que o investimento directo estrangeiro ocorre, principalmente, em indústrias caracterizadas por certas estruturas de mercado do tipo oligopolístico, quer nos países recipientes, quer nos países de origem. Adicionalmente, para Caves (1971), a diferenciação do produto, isto é, a capacidade em desenhar um produto que possua um conjunto de atributos com um grande atractivo para os consumidores26, é considerada como uma característica necessária das indústrias onde ocorre um volume substancial de IDE. Neste sentido, o
26 O autor (p. 5) define um produto diferenciado como “(...) uma colecção de bens funcionalmente
similares produzidos por vendedores concorrentes, mas em que cada produto de distingue dos seus rivais, através de pequenas variações físicas, de marcas e de distinções subjectivas criadas pela publicidade, ou diferenças nos termos subordinados e nas condições de venda.”
autor observou uma correlação positiva elevada entre o grau de diferenciação do produto e a proporção de empresas que detêm filiais estrangeiras, numa determinada indústria.
Enquanto Hymer e Kindleberger defendem que, devido às imperfeições de mercado, pode ser mais lucrativo produzir no exterior, do que produzir localmente e licenciar as vantagens específicas a um produtor estrangeiro, Caves (1971) argumenta que a produção local é preferível, principalmente, porque os produtores locais estão melhor preparados para realizar modificações aos produtos, de forma a adaptá-los aos gostos e condições locais.
A teoria da diferenciação de Caves, como muitas vezes é designada, acaba por destacar uma outra vantagem competitiva da empresa – o conhecimento –, em particular, o conhecimento de como diferenciar um produto.
Johnson (1970) partilha da mesma opinião que Hymer, quanto ao facto do IDE resultar da concorrência monopolística e, neste sentido, salienta que a vantagem específica da empresa mais significativa é o conhecimento (e.g. resultados de I&D, conhecimentos do mercado, acesso a inputs mais baratos, etc.). Acrescenta ainda que o conhecimento tem a característica de bem público, no sentido de que a sua produção acarreta custos elevados, mas pode ser difundido a custo zero. Assim sendo, esta vantagem pode ser explorada por uma empresa filial, sem custos adicionais para a empresa mãe ou para as outras filiais que já a estejam a explorar. Consequentemente, a utilização e a produção do conhecimento por uma empresa privada, conduz-nos ao dilema insuperável do ponto de vista da maximização do bem-estar. Isto porque a eficiência no seu uso implica a inexistência de custos, mas os incentivos à produção requer um poder de mercado para gerar retornos médios elevados.
A partir do modelo de Hymer e Kindleberger, a aproximação microeconómica do IDE evoluiu para duas novas teorias – a Teoria da Internalização e a Teoria dos Custos de Transacção – que analisam o papel das EMNs, enquanto instituições capazes de ultrapassar as imperfeições de mercado. Embora sejam evidentes muitas semelhanças entre estas duas teorias vale a pena, como iremos ver, enfatizar as diferenças.