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1. INTRODUÇÃO

4.5 EXAME DO PROCESSO INTERSETORIAL NO ACOLHIMENTO DE CRIANÇAS

Ao reunir nesta seção os elementos sintetizados a partir do entrelaçamento entre as categorias, é possível examinar que o processo intersetorial no acolhimento institucional de crianças e adolescentes em Curitiba é executado com severas dificuldades, e como principal resultado, comete-se violência institucional com potencial de repercussão de longo prazo para a sociedade como um todo.

Contudo, sinaliza-se que um dos caminhos a serem seguidos na tentativa de sanar tais questões remete à implantação de um modelo colaborativo de atuação, verdadeiramente intersetorial, no qual os serviços de atendimento e proteção à

infância e adolescência atuem em conjunto com o Sistema de Justiça e os demais componentes do SGDCA nas situações nas quais sejam detectadas violações de direitos. Indica-se que este modelo colaborativo é capaz de reduzir o quantitativo de acolhimentos desnecessários e, consequentemente, redirecionar os esforços e os recursos disponíveis para o atendimento de situações que realmente demandem a medida protetiva integral.

Nesse sentido, dada a já mencionada dificuldade de entrelaçar as esferas locais, municipais, estaduais e federal no desenvolvimento de processos intersetoriais, supõe-se que uma estratégia bilateral de implementação de ações, nas quais ocorra a capilarização de setores de planejamento regionalizados atuando de maneira intersetorial nos territórios e aproximando os executores e desenvolvedores locais das esferas de poder tenha maiores chances de êxito. No âmbito da execução direta da medida de proteção, torna-se necessária a operacionalização do fluxo de acolhimento efetivamente obedecendo a lógica intersetorial, com a participação das demais políticas na elaboração do PIA, troca de informações sobre as famílias atendidas, estabelecimento de canais de comunicação permanentes, fóruns de discussão, reuniões intersetoriais periódicas para monitoramento/avaliação, entre outras ações.

Com base na fundamentação teórica utilizada e nas análises realizadas, realizou-se ao final de cada um dos entrelaçamentos entre as categorias uma síntese dos elementos propostos, o que permitiu a estruturação de sete eixos temáticos contendo intervenções necessárias à qualificação do processo intersetorial no Acolhimento Institucional de crianças e adolescentes em Curitiba. Tais eixos, apresentados a seguir, representam agrupamentos relacionados aos temas que se destacaram em cada um dos entrelaçamentos, procurando manter também o vínculo com o universo das categorias de análise propostas (I - interrupção do ciclo de violência institucional; II - garantia do direito à convivência familiar e comunitária; III - atuação preventiva; IV - qualificação dos serviços ofertados; V - qualificação das ações setoriais; VI - modalidades alternativas ao acolhimento; VII - desenvolvimento de estratégias intersetoriais).

Eixo 1 – Ações necessárias à interrupção do ciclo de violência institucional: • Efetivação da transição entre o paradigma da situação irregular e o paradigma

da proteção integral (minimização dos riscos de requisição de acolhimentos por pobreza ou outros motivos não pertinentes);

• Instituição de mudança da cultura de institucionalização de crianças e adolescentes;

• Reconhecimento do Estado como um dos agentes violadores de direitos de crianças e adolescentes, dadas das falhas na oferta de serviços;

• Promoção de discussões sistemáticas junto aos operadores do SGD (em especial, Conselheiros Tutelares) sobre os motivos justificáveis para o acolhimento;

• Promoção e divulgação de boas práticas voltadas à prevenção de acolhimentos indevidos;

• Capacitação dos profissionais atuantes nas políticas sociais setoriais para a não discriminação dos acolhidos e seus familiares em todos os atendimentos realizados por todas as políticas públicas;

• Proposição de que os serviços de acolhimento se voltem para um modelo relacional, no qual as necessidades emocionais dos acolhidos e o desenvolvimento de vínculos estáveis com seus cuidadores tomem o lugar central;

• Reconhecimento da existência de vulnerabilidade emocional e os padrões de comportamento adotados transgeracionalmente pelas famílias atendidas por parte do Estado;

• Sensibilização para a percepção de que processos de desorganização e necessidade de adaptação no ciclo de vida familiar não são exclusivos às famílias em situação de vulnerabilidade;

• Superação do silenciamento das crianças e adolescentes acolhidos praticado pelos componentes do Sistema de Garantia de Direitos em nome do atendimento do seu melhor interesse;

• Qualificação das ações voltadas à responsabilização imediata dos agressores, sem prejuízo do atendimento às necessidades psicossociais da família;

• Promoção da reorganização da disponibilização de vagas para grupos de irmãos, com reflexão sobre o olhar dos tomadores de decisão para a primazia de tal conduta;

• Sensibilização para as especificidades inerentes à inserção de crianças e adolescentes acolhidos nos serviços educacionais, assim como no acompanhamento das questões de saúde clínica e saúde mental.

Eixo 2 – Ações voltadas à garantia do direito à convivência familiar e comunitária:

• Estímulo ao desenvolvimento de uma rede de apoio eficiente para as famílias, com aprofundamento dos vínculos comunitários e o desenvolvimento de redes informais de assistência, pertencimento e convivência;

• Emprego de esforços para dirimir/minimizar o desalinhamento entre os tempos institucionais, judiciais e da família no processo de restauração da função protetiva;

• Realização de estudos para a restauração dos vínculos afetivos familiares que considerem o histórico e as vivências de abandono destas famílias, além da consideração das expectativas dos acolhidos após a saída do abrigo;

• Promoção da participação social e protagonismo do público atendido e dos profissionais da área nos processos de tomada de decisão, tanto no que tange ao acolhimento de um membro da família quanto na participação da comunidade nos espaços deliberativos e de tomada de decisão no âmbito das políticas públicas;

• Sensibilização das equipes técnicas para levar ao interior das unidades de acolhimento as redes sociais do acolhido, com o favorecimento das visitas dos familiares na unidade, a promoção de visitas domiciliares monitoradas e avaliadas pelas equipes técnicas das Unidades;

• Sensibilização para a importância da construção das redes primária e secundária dos acolhidos sem possibilidade de reintegração familiar;

• Realização de qualificação nos processos de monitoramento e avaliação da qualidade das visitas domiciliares.

Eixo 3 – Ações voltadas à atuação preventiva: • Qualificação das ações intersetoriais ainda na esfera preventiva;

• Realização de estudos diagnósticos da situação da criança/adolescente e sua família anteriores à aplicação da medida de acolhimento;

• Promoção de melhoria dos processos de tomada de decisão e para a oferta de serviços mais abrangentes e de resposta imediata, com vistas a evitar ou minimizar os acolhimentos ditos de emergência;

• Aprofundamento das ações de monitoramento e avaliação, tais como: identificar a prevalência de acolhimentos institucionais de curta duração, monitorar a entrada e re-entrada de crianças e adolescentes nos serviços de acolhimento, a duração da aplicação da medida, a repetição de denúncias de abusos/violência referentes a uma mesma família;

• Promoção de ações com vistas a evitar a prematuridade do afastamento do convívio familiar.

Eixo 4 – Ações voltadas à qualificação dos serviços ofertados pela política da Assistência Social:

• Desenvolvimento de estratégias visando o aumento dos percentuais de encaminhamento por parte das demais políticas setoriais para os serviços dos CRAS e CREAS;

• Elaboração e implementação de ações voltadas ao aumento dos índices de acompanhamento por parte do PAIF ou PAEFI às famílias antes, durante e após a aplicação da medida de proteção integral;

• Incentivo ao aumento do quantitativo de crianças e adolescentes egressos de serviços de acolhimento inseridos nos serviços dos CRAS e CREAS;

• Desenvolvimento de estratégias que possam propiciar o aumento da inclusão das situações prioritárias nos SCFV;

• Fomento de ações voltadas ao aumento dos índices de acompanhamento prévio por parte do CREAS junto à família ou à criança/adolescente acolhido.

Eixo 5 – Ações voltadas à qualificação das ações setoriais:

• Estruturação dos processos de atendimento, com a adoção de procedimentos metodológicos que uniformizem os atos praticados pelos atores institucionais desde o momento da determinação do acolhimento;

• Viabilização do aumento do quantitativo de profissionais para composição das equipes técnicas e qualificação de recursos humanos.

• Necessidade de promoção de aproximação entre a Rede de Proteção e os gestores/executores das medidas de proteção integral.

Eixo 6 – Ações voltadas à expansão das modalidades alternativas de acolhimento:

• Intensificação de esforços na preparação dos habilitados para adoção e nos acolhidos que estão em lista de espera, com vistas a minimizar situações de “adoções malsucedidas”;

• Sensibilização para o aumento dos investimentos governamentais na implantação de modalidades alternativas de acolhimento como Acolhimento Familiar e Família Acolhedora;

• Promoção da expansão do quantitativo de vagas em Repúblicas. Eixo 7 – Ações voltadas ao desenvolvimento de estratégias

intersetoriais:

• Reconhecimento da existência de uma tensão crônica entre as políticas da Assistência Social, Saúde e Educação no atendimento das demandas das famílias, bem como o desenvolvimento conjunto de estratégias para contorná- las;

• Desenvolvimento de estratégias conjuntas com as demais políticas para a redução de acolhimentos que têm como motivo a violência extrafamiliar/no território;

5 CONSIDERAÇOES FINAIS

Neste capítulo será apresentada uma avaliação do atendimento aos objetivos da pesquisa, bem como as suas limitações e as sugestões para trabalhos futuros identificadas.