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1. INTRODUÇÃO

2.6 O ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL E A INTERSETORIALIDADE

O trabalho intersetorial é fundamental no atendimento de crianças e adolescentes acolhidos, seja quando se trata da mudança de perspectiva da matricialidade (do olhar para a criança para o olhar para a família), seja quanto se aborda o processo de desinstitucionalização (transição entre o formato de grandes orfanatos para serviços de acolhimento), seja quando se aborda a transição entre o serviço de acolhimento institucional para o serviço de acolhimento familiar. Ademais, em que pese contextos socio-histórico-culturais distintos, as dificuldades de estabelecer articulações intersetoriais efetivas são intrínsecas na gestão dos serviços de acolhimento (ROSSETI-FERREIRA et al., 2012; PENSO; MORAES, 2016; LIMA; AFONSO, 2016; EDWARDS, 2016; OLIVEIRA; VICENTIN, 2016; FURLAN; SOUZA, 2013).

Entretanto, a adoção de práticas intersetoriais está muito mais ligada ao desejo político de implementação deste modelo de governança que qualquer outro fator. A esta questão se aliam as peculiaridades e diferenças regionais que sinalizam não haver um modelo único a ser seguido, mas reforçam o entendimento de que dificuldades na implementação de formatos intersetoriais para o acolhimento institucional são inerentes ao processo. Somado a isso, indica-se ser necessário um entrelaçamento dos discursos defendidos pela opinião pública, sociedade civil organizada, comunidade científica/grupos de interesse e os tomadores de decisão, todos voltados aos mesmos esforços, para que a mudança de paradigma se configure.

Nesse sentido, esta percepção vincula-se com a questão da convergência de fatores necessária para a implantação de mudanças nas políticas públicas característica do modelo top down, bem como aos preceitos que apontam a importância da representação de interesses no processo de formulação das políticas públicas (DYE, 2011; GELINSKI; SEIBEL, 2008). Ainda, discute-se sobre a importância de considerar a característica do regime de política social vigente (mais voltado ao punitivismo ou à promoção de bem estar social) como influenciador direto

18 A atuação da sociedade civil organizada não deve ser confundida com o assistencialismo outrora praticado

da política de atenção à infância, em especial no que concerne à utilização de políticas e programas de proteção de crianças e adolescentes como estratégia de controle social dos pais (EDWARDS, 2016).

Por conseguinte, conforme apontam Quiroga e Hamilton-Giachristis (2014), as políticas públicas voltadas à proteção de crianças e adolescentes

constantemente evoluem em resposta às situações sociais e políticas, assim como às pesquisas sobre o impacto do acolhimento institucional para os acolhidos. A concepção de crianças e adolescentes enquanto sujeitos de direitos levou ao desenvolvimento de diferentes iniciativas visando o estabelecimento de padrões mínimos de funcionamento dos serviços de acolhimento em vários países. Contudo, tal processo tem sido marcado por complexidades e, por vezes, por contradições, tendo em vista que as medidas de proteção à infância em alguns casos acabam por restringir os direitos das crianças atendidas (QUIROGA; HAMILTON-GIACHRISTIS, 2014, p. 422).

Considerando tamanha complexidade a ser enfrentada, um apontamento de modelo a ser seguido remete à atuação conjunta entre os diversos atores envolvidos nos serviços de proteção integral a crianças e adolescentes. Entre as razões pelas quais se justifica a realização conjunta de ações, (ações intersetoriais e intergovernamentais), são citadas: 1) o desenvolvimento coletivo de expertise que qualifique o manejo das situações atendidas; 2) possibilidade de minimizar os traumas inerentes à ruptura da convivência familiar; 3) estreitamento de laços institucionais e desenvolvimento de relações de respeito mútuo entre os atores envolvidos; 4) Possiblidade de aprofundamento gradual das parcerias intersetoriais; 5) possibilidade de aumento da eficiência na detecção dos casos de violência e violação de direitos contra crianças e adolescentes; 6) possibilidade de qualificar o processo de responsabilização dos agressores (com vistas a reduzir probabilidades de novas agressões); 7) compartilhamento de informações; 8) minimização do risco para as equipes técnicas que realizam os primeiros atendimentos às situações de risco (GARCIA et al., 2014).

Por conseguinte, identifica-se que boas práticas nesta seara devem contar com o estabelecimento de protocolos de comunicação intersetoriais, a maximização da eficiência e celeridade das ações conjuntas, a oferta de condições adequadas para a verificação e o pronto atendimento das denúncias de violações de direitos, a clara definição de responsabilidades entre os atores envolvidos e o estabelecimento de confiança mútua, o compartilhamento de informações entre os órgãos, políticas e

setores atuantes, e a composição multidisciplinar das equipes de trabalho nas diversas políticas que atendem crianças e adolescentes vítimas de violações de direitos (GARCIA et al., 2014; NIKULA; IVASHINENKO, 2017).

Para tanto, torna-se substancial a necessidade de estabelecer protocolos de atuação intersetorial que delineiem como a atuação conjunta deverá acontecer, incluindo nestes o estabelecimento de compromisso entre os envolvidos para a efetiva realização do trabalho conjunto, a especificação sobre quais serão os mecanismos de colaboração, o desenvolvimento de planejamento estratégico de longo prazo, claras definições das metas articuladas e a definição de quais serão os atores efetivamente envolvidos e interessados na questão Por fim, no que se refere aos conflitos entre os atores, parte inerente do processo intersetorial, indica-se a necessidade de estabelecer processos através dos quais o julgamento das disputas possa ocorrer da maneira mais eficiente possível (GARCIA et al., 2014; NIKULA; IVASHINENKO, 2017).

3. METODOLOGIA DA PESQUISA

As metodologias, técnicas e instrumentos de pesquisa encontram-se descritos com maior detalhamento neste capítulo. Foram percorridas as etapas de pesquisa bibliográfica, com levantamento do referencial teórico preliminar, utilizando-se da metodologia Proknow-C (AFONSO et al, 2012), bem como a análise de documentos oficiais relacionados às políticas públicas para a infância e juventude e as normativas referentes à política da assistência social, com especial atenção para a Proteção Social Especial, a gestão de serviços de alta complexidade e o acolhimento institucional de adolescentes.

Na sequência, o tratamento do material coletado nas bases de dados ocorreu com a utilização da Análise de Conteúdo (BARDIN, 2016). Com base na análise do mesmo, foram identificados os pontos nevrálgicos para análise, permitindo traçar um comparativo com o que foi apontado no Diagnóstico da Realidade Social da Infância e Juventude no município de Curitiba (JANUÁRIO, 2017), bem como a problematização a respeito da materialização da intersetorialidade nos arranjos institucionais possíveis poderia contribuir para a qualificação dos serviços de Acolhimento Institucional no município. O Quadro 5 sintetiza os passos percorridos nesta etapa.

Quadro 5. Operacionalização das etapas de pesquisa Operacionalização da pesquisa

Etapa Objetivos Técnicas de coleta Técnicas de análise

Principais procedimentos empregados na etapa Resultado da etapa 1. Pesquisa bibliográfica Levantamento bibliográfico com base em pesquisa bibliométrica e análise sistêmica Qualitativa Aplicação da metodologia Proknow-C Definição de corpus preliminar 2. Análise

sistêmica Quantitativa e Qualitativa corpus definitivo Definição de

3. Categorização a) Caracterizar elementos relacionados à "Acolhimento Institucional" e "Intersetorialidade". b) Correlacionar os elementos relacionados à "Acolhimento Institucional" com "Intersetorialidade". c) Definir critérios para o processo intersetorial

do Acolhimento Institucional.

Análise de

Conteúdo Quantitativa e Qualitativa

Leitura analítica dos artigos; Levantamento das categorias de análise, de contexto, unidades de contexto e de registro Definição das categorias de análise 4. Análise dos resultados Identificar as ações intersetoriais no acolhimento institucional e seus conflitos implícitos, atores envolvidos e problemáticas a serem equacionadas. Análise de Conteúdo Qualitativa Reunião entre os elementos levantados na etapa anterior e o cenário de Curitiba. Reunião de elementos para realização das considerações finais Fonte: Adaptado de Gortz (2017).