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11. RESULTADOS E DISCUSSÃO

11.4. O TRABALHO COMO HORIZONTE

11.4.1. Exame vestibular como acesso à universidade

O vestibular é o exame aplicado pelas universidades brasileiras (instituições públicas e privadas) para os alunos, geralmente concluintes do ensino médio que pretendem ingressar em um curso superior. Dessa forma, a entrada na universidade está submetida à realização do exame vestibular que pode ser visto como a porta de entrada dos jovens candidatos a uma vaga no mercado de trabalho.

Dos 16 estudantes entrevistados, seis já tinham passado pela experiência de fazer o pré-vest12 e três estavam frequentando o curso preparatório para o ingresso no ensino superior. Esses jovens, além de frequentarem seus cursos técnicos no Ifes, em outro turno dividiam o tempo se preparando para o exame vestibular.

Os relatos apresentam a dificuldade, o cansaço, além da pressão de passar no vestibular, causando ansiedade e estresse para esses jovens que querem ingressar no mundo do trabalho. Por isso, a preocupação e o medo provocados pelo vestibular afetam os estudantes e vão aumentando conforme a aproximação da realização do exame (ALVES, 1995, apud D´AVILA & SOARES, 2003).

A rotina desses estudantes é alterada pelo ingresso no curso preparatório para o vestibular, além disso, interfere diretamente na saúde dos jovens participantes. Relatos sobre as alterações no sono, a privação de refeições ou uma alimentação

inadequada são consequências diretas sofridas pelos vestibulandos que frequentam os cursinhos.

Ano passado eu fiz pré de manhã, aí eu fazia pré-vest de manhã, vinha pro Ifes a tarde, aí ficava estudando na biblioteca à noite e, no sábado, também acabava que tinha aula o dia inteiro, aí só tinha o domingo, né!? E, no domingo eu dormia bastante!! Ai, ai...já desmaiava no corredor de sono!! (E 10, 18 anos, sexo masculino, curso de Estradas)

[...] como eu decidi que queria fazer vestibular, como eu decidi que queria fazer medicina, eu comecei a fazer pré-vestibular no ano passado, eu comecei fazendo à noite, aí eu saía do pré, dez e pouco (depois das 22h), dez e vinte, e eu chegava em casa onze e pouco (depois das 23h...) e minha mãe ficava preocupada, aí eu conversei lá e passei para a manhã. [...] eu acordava mais cedo, então, era muita correria porque...quando eu fazia à noite, eu saía daqui e ia direto pro pré, porque começa lá às...seis e cinquenta (18h50) e aqui acaba seis e dez (18h10), aí, rapidinho, eu comia uma coisinha e corria! Aí, de manhã é ainda mais corrido, porque acaba meio dia e meia lá (12h30) e aqui começa meio dia e cinquenta (12h50), então, tinha dia que eu nem almoçava direito, às vezes não almoçava, comia um lanche, às vezes eu almoçava correndo, chegava tarde na aula, levava alguma falta...(E 05, 17 anos, sexo feminino, curso de Estradas)

Uma jovem estudante, que já tinha passado pela experiência do preparatório, assinala que, além da mudança em sua rotina diária, existe a pressão sofrida nesse momento de incertezas e a “necessidade” de prestar o vestibular em mais de uma universidade:

Semana passada eu ‘tava muito nervosa, porque eu fiquei como suplente na Unicamp13, só que pelos anos anteriores eu iria ser chamada, só que este ano, chamaram menos gente, aí, então..., eu não fiquei triste porque...ai, eu ‘tava com muito medo, assim...de ter que largar tudo aqui, largar o curso, largar tudo e largar a família é que tava me incomodando mais, eu ‘tava passando mal, ‘tava muito assim...Até porque eu nem terminei e falta mais de um ano no Ifes, né!? Eu ia largar o curso e tudo! Só que aí, eu acho que não vou ser chamada não! Assim, da Ufes14 eu também não tô muito confiante não, porque eu errei umas bobeirinhas, né, embora o pessoal não tenha ido muito bem, mas eu errei algumas coisas que vão me condenar, na Ufes, aí, eu vou ter que fazer de novo! A experiência foi válida e não me arrependo de ter feito pré-vestibular o ano passado, não! (E 07, 17 anos, sexo feminino, curso de Estradas)

Lidar com a ansiedade e estresse é uma tarefa que concorre em importância com a preparação acadêmica. Trata-se de um momento crucial para o jovem que tem como projeto passar no vestibular como forma de inserção futura no mundo do trabalho. O

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Também conhecido como "cursinho pré-vestibular" ou "cursinho".

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vestibular reveste-se de muitos significados – condensa todo o esforço dos pais e do jovem para prepará-lo para esse momento vivenciado como decisivo. Os jovens sentem-se pressionados em várias vertentes. Fazer o vestibular implica antes escolher um curso que deverá guiar uma profissão que, em princípio, deverá durar a vida toda. Trata-se de uma escolha difícil de realizar. Não se tem nesse momento a ideia da profissão como uma construção que dura a vida toda e que tem revezes como tudo na vida. Os pais, os amigos, os conhecidos, todos parecem ter também expectativa quanto ao fato de o jovem passar ou não no vestibular, como sucesso ou como fracasso. Em outra vertente, os jovens incorporam essas pressões e têm eles mesmos as próprias cobranças.

Pode não ser fácil para esses jovens lidar com tensão, ansiedade, pressão e estresse. A ansiedade também é vigente pela própria cobrança do jovem de obter boas notas e pela sobrecarga de atividades escolares.

Eu era muito ansiosa, ainda eu sou um pouco, mas, assim, eu era muito, me atrapalhava muito mesmo! [...] Nossa, eu já fui muito...eu sou muito nervosa, ansiosa! Eu tenho problema de ansiedade, assim quando eu ficava estressada demais, meu braço fica cheio de bolinha, eu ficava coçando e era horrível, entendeu!? (E 05, 17 anos, sexo feminino, curso de Estradas)

Eu sou do tipo que quando eu tô muito estressada com muita coisa, quando eu fiz muita coisa, eu fico com alguma doença e fico doente por um bom tempo! No caso, foi minha garganta, ela inflamou muito e eu fiquei muito tempo com ela inflamada e demorou muito para ela curar! Então o que me salvou no ano retrasado foi a greve, aí eu não consegui frequentar o pré- vestibular, eu fui por um mês e quando deu um mês e meio, tipo, eu não aguento ficar aqui dentro! (E 13, 18 anos, sexo feminino, curso de Edificações)

Outro aspecto que parece provocar ansiedade para os jovens estudantes, não somente para quem está fazendo o preparatório para o vestibular, é a escassez do tempo. Para eles, não se pode abrir mão de estudar em virtude de outros acontecimentos da vida social que são vistos como secundários.

Por exemplo, prá sair, eu tenho muito peso na consciência, se eu tenho que estudar...tipo assim, tenho uma prova amanhã, aí hoje eu não posso sair, eu não consigo! Igual, a avó dos meus amigos faleceu nesse Carnaval, assim...eu acho que eu deveria ir lá hoje, mas só que eu tenho prova amanhã e eu preciso estudar! Então, eu vou ter que pedir desculpas para eles e ir lá outro dia, porque eu não vou deixar de estudar prá minha prova

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para ir lá falar com eles, entendeu!? E, se eu fosse, eu ia me sentir muito mal, entendeu!? (E 05, 17 anos, sexo feminino, curso de Estradas)

Todavia, a escassez do tempo provocada pela velocidade e o ritmo acelerado das mudanças do mundo contemporâneo se espraiam para a vida afetiva dos jovens. Esses jovens estudantes têm uma visão bastante pragmática de seus relacionamentos, marcados pela fragilidade e efemeridade.

Antes de fazer o pré-vestibular...antes, eu tinha um namorado. Só que acho que...as pessoas falam que namorado não atrapalha, mas atrapalha a estudar...muito! [...] e, eu me estressei, nossa! Eu terminei, não foi nem porque eu não gostava mais dele, mas é porque eu me sentia muito pressionada! (E 05, 17 anos, sexo feminino, curso de Estradas)

Terminei com a namorada porque ela trabalhava à noite e assim, sem tempo. E, esse ano, ela que ‘tá no pré (curso pré-vestibular) aí...já era, Medicina ainda...Não ‘tá fácil prá ninguém não! (E 10, 18 anos, sexo masculino, curso de Estradas)

Não tenho namorado! Ano passado (ano que frequentou o pré-vestibular) eu nem tinha tempo de sair, eu falo que eu não tinha tempo nem de dormir, vou ter tempo para outras coisas?! (risos) Pois é... (E 07, 17 anos, sexo feminino, curso de Estradas)

Os relacionamentos amorosos parecem não afligir tanto esses jovens estudantes. Todavia, percebemos que a preocupação central que acompanha a maioria desses jovens prestes a ingressar no mundo do trabalho se refere à escolha profissional. Pressões sociais, pressão familiar, expectativas de futuro, o sonho de ser um jovem bem-sucedido e as dificuldades que o mercado de trabalho apresenta em quase todas as áreas também surgem como dilemas para o universo juvenil (BOCK, FURTADO e TEIXEIRA, 2008).