• Nenhum resultado encontrado

11. RESULTADOS E DISCUSSÃO

11.3 JOVENS ESTUDANTES E SEUS PROJETOS DE VIDA

Para Velho (1994), toda noção de projeto remete à ideia de indivíduo-sujeito, em que é considerado indivíduo aquele que faz projetos. O projeto nada mais é do que uma conduta organizada para atingir objetivos específicos (SCHUTZ, 1974, apud VELHO, 1994) e encontra-se ligado a um campo de possibilidades.

A noção de campo de possibilidades é vista como pertencente a um contexto sociocultural que promove a formulação e a implementação de projetos. Igualmente, as noções de projeto e campo de possibilidades “podem ajudar a análise de trajetórias e biografias enquanto expressão de um quadro sócio-histórico, sem esvaziá-las arbitrariamente de suas peculiaridades e singularidades” (VELHO, 1994, p. 40). O autor acredita que um sujeito pode ter mais de um projeto, mas que, em princípio, há um projeto principal ao qual outros estão subordinados, tendo-o como referência, e complementa que “[...] o projeto é dinâmico e é permanentemente reelaborado, reorganizando a memória do ator, dando novos sentidos e significados, provocando com isso repercussões na sua identidade” (VELHO, 1994, p. 104).

Na medida em que a possibilidade de preparar projetos depende de condições sócio-históricas, subentende-se que nem todos têm condições necessárias de elaborá-los. Então, uma primeira questão se impõe: Será que esses jovens estudantes aqui pesquisados têm possibilidades para construir um projeto? Com base nas condições de escolaridade e renda das famílias, tudo indica que sim. Nas falas dos jovens pudemos observar que a inserção no Ifes emerge como um pré- projeto que servirá de ponte a outros projetos, como veremos ao longo da análise.

A maioria dos jovens estudantes aponta o interesse em ingressar no Ifes, no que diz respeito tanto à qualidade de seus cursos quanto ao objetivo de ser uma instituição que obtém elevado índice de aprovação no vestibular: “ser aluno do Ifes” já é um projeto a princípio.

Para compreendermos a inserção no Ifes como um projeto que antecede outros, buscamos entender como é que ocorreu a escolha da instituição pelo jovem estudante. Será que houve influência de amigos ou parentes nessa escolha? Como foi feita essa escolha entre outras possíveis? Qual é o sentido de ser aluno do Ifes para esses jovens? Foram questões que nortearam o próximo tópico.

11.3.1. PROJETO DE VIDA: A ESCOLHA DO IFES COMO ESTRATÉGIA

A identidade dos atores que compõem o universo juvenil remete a trajetórias e projetos de vida a serem desenhados. Isto posto, a maioria dos participantes apresentou como principal objetivo “passar no Ifes”, não importando o curso técnico como escolha; já o restante entrou no instituto com o propósito de frequentar um curso técnico específico oferecido pelo Ifes ou, posteriormente, um curso superior relacionado com a área das ciências exatas, associado ao curso técnico. Se não, vejamos o que pontuam os jovens estudantes:

O Ifes tem uma história, né!? E eles (os pais) conheciam a qualidade da escola e sempre quiseram que eu entrasse aqui, aí, eu comecei a me interessar também. Só que eu não tinha muita noção do que seria um curso técnico e mesmo assim, entrei. (E 0811, 18 anos, sexo masculino, curso de Mecânica).

Olha, eu escolhi, porque na época eu tava pensando muito, como a gente tava vendo o crescimento da área de construção civil, né, eu pensei na arquitetura ou na engenharia, aí eu escolhi Edificações (E 15, 16 anos, sexo masculino, curso de Edificações).

A escolha pelo Ifes foi atribuída, principalmente aos pais, colegas de escola, concluintes do último ano do ensino fundamental e também aos amigos que já estudavam no instituto.

Segundo Bohoslavsky (2007), psicólogo argentino e teórico da Orientação Profissional, o jovem, quando escolhe algo, inclusive sua profissão, toma como referência dois grupos dos quais originam as principais pressões e as principais informações de suas escolhas: o grupo familiar e o grupo de amigos (BOCK, FURTADO e TEIXEIRA, 2008).Tal fato é corroborado nas falas de dois entrevistados:

Bom...em relação à escola, a minha família tem um certo histórico de ter passado por aqui e...dentre as opções que tinha de curso, por indicação do meu pai, ele sempre deixou muito aberto para eu fazer o que quisesse, mas dizia que dentro da área de Eletrotécnica sempre surgiam as melhores oportunidades dentre os cursos que eu tinha opção. (E 02, 18 anos, sexo masculino, curso de Eletrotécnica)

Eu sou do interior e ninguém sabe o que é Ifes, o que é Cefetes, na época, aí, eu mudei de escola e fui estudar em Campo Grande, e lá todo mundo, 8ª.série, aquele negócio frenético prá estudar, prá passar no Ifes. Eu falei: o quê que é isso? Aí, fui olhando...ah, parece legal! (E 12, 18 anos, sexo feminino, curso de Mecânica)

De acordo com o resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2011, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), o Ifes/campus Vitória encontra-se entre as 100 escolas com as melhores notas, no total de 10.076 escolas brasileiras. Dessas 100 escolas, dez são públicas – duas estaduais e oito federais – e o Ifes/ campus Vitória ocupa a 40ª posição (http://gazetaonline.globo.com, acesso em: 01 mai. 2013). Esses números ilustram a posição da instituição em relação ao ranking de escolas que o Enem e as aprovações nos vestibulares produzem e provocam o interesse de jovens e suas famílias na inserção nesse universo que já é “vencedor”. Trata-se de um universo carregado de significados e valores aos quais os jovens acabam por aderir. A inserção num curso voltado para futura profissão na mesma instituição e/ou a possibilidade de passar no vestibular são os objetivos mais comuns entre os jovens entrevistados.

A escolha da futura profissão está vinculada a condições sociais do indivíduo, o que interfere na busca de uma escola que venha atender às aspirações dos estudantes ingressantes do ensino médio. Os jovens estudantes participantes deste estudo identificam o Ifes como uma escola de referência, evidenciando a excelência do

11 Convencionamos que as designações E + o número diante de alguma declaração significam o

ensino nele praticado. Tal fato é analisado dentro de um contexto sócio-histórico cultural, já que o Instituto Federal de Educação Tecnológica do Espírito Santo ainda é conhecido por Cefetes (Centro Federal de Educação Tecnológica do Espírito Santo) ou ETFES (Escola Técnica Federal do Espírito Santo). O Ifes tem um papel relevante no cenário educacional capixaba, conforme relatam os participantes.

Eu acho que...então...pela fama da escola, pela escola ser boa no que é...[...] ainda se tem aquela coisa: Me formei no Ifes, o emprego é, praticamente garantido, entendeu? É uma escola que abre muitas portas e, crescimento pessoal também, porque a escola dá...dá um crescimento como pessoa, né, muito grande! (E 02, 18 anos, sexo masculino, curso de Eletrotécnica)

[...] aqui dá uma boa formação! Porque a empresa que vê assim, né, queiram ou não, as empresas vêem: Ah, você foi formado aonde? Não tem uma escola técnica melhor que aqui! É brincadeira! Não tem! Não tem jeito! (E 08, 18 anos, sexo masculino, curso de Mecânica)

Para Bourdieu (1978), um dos efeitos fundamentais da escola é a manipulação das aspirações. A escola “[...] não é um simplesmente um lugar onde se aprende coisas, saberes, técnicas, etc.: é também uma instituição que concede títulos, isto é, direitos, e, ao mesmo tempo, confere aspirações” (p. 4). É interessante observar essa aspiração na fala da jovem estudante entrevistada:

[...] eu tenho também tenho muita vontade de voltar para o Ifes, mas dando aula, né!? Porque eu gostei muito da instituição, eu gosto muito daqui e acho que mudou muito a minha vida e eu queria passar isso para as outras pessoas! (E 06, 17 anos, sexo feminino, curso de Mecânica)

No que concerne ao papel do Ifes nos planos de futuro desses jovens, o instituto ocupa um lugar diferenciado em seus projetos de vida. De acordo com os jovens entrevistados, os ensinamentos recebidos nesse instituto facilitarão seus planos para o futuro no que se refere às suas trajetórias profissionais e pessoais.

Acho que aqui na escola, o grande diferencial que eu vejo é a preparação pro lado profissional da coisa. [...] O grau de aprovação (no vestibular) dos estudantes daqui em Medicina, Engenharia é altíssimo, acho que maior que qualquer escola particular [...].(E 08, 18 anos, sexo masculino, curso de Mecânica)

O estudo abre muita porta! Primeiro, o estudo que eu tenho, que eu tive aqui no Ifes, né, [...] vai abrir uma porta para a universidade, você já vai ter um amadurecimento! [...] E, como o instituto ele não...ele parece...tipo assim, ele não é uma escola particular que se preocupa muito com o aluno, assim...[...] a gente vai aprendendo, que...ah, se eu não for à aula, eu tô

perdendo a matéria! [...] Quem não aprende, leva um tapa, né!? (risos) (E 06, 17 anos, sexo feminino, curso de Mecânica)

Além dos ensinamentos adquiridos, outro aspecto apresentado pelos jovens estudantes diz respeito ao amadurecimento que eles adquiriram depois que ingressaram no Ifes, fazendo comparações com a escola particular, já que a maioria deles é proveniente do sistema particular de ensino.

A frase que eu lembro, de um professor, quando eu entrei aqui foi: Aqui é o lugar onde você chora e sua mãe não vê! (risos). A frase que eu lembro até hoje! E, é exatamente isso, né!? [...] mas, sua mãe não tem que te cobrar não, você tem que meter a cara! [...] Amadureci aqui dentro 100%, mil vezes! (E 08, 18 anos, sexo masculino, curso de Mecânica)

Aqui, eu tive que aprender a estudar, aprender a estudar sozinha, aprender a me virar, aprender, entender, pegar, porque os professores não mandam! Se você fizer, bem e se não fizer o problema é seu, entendeu!? Aí, eu aprendi a ficar mais esperta assim [...] Eu acho bom, porque eu era muito sonsa, muito sonsinha e ficava esperando tudo! E, aqui deu prá amadurecer bastante [...] (E 14, 17 anos, sexo feminino, curso de Edificações)

O amadurecimento apresentado pelos jovens participantes deste estudo sugere um aspecto positivo na construção de suas trajetórias e seus projetos de vida.

De modo geral, ao serem questionados sobre seus projetos, os jovens estudantes afirmam a existência de planos para o futuro. Todos os planos são complementares, marcando os múltiplos aspectos das aspirações desses jovens: passar no vestibular, seguir uma profissão, constituir uma família, ter filhos, viajar, tudo são propósitos para os entrevistados. Para a maioria desses jovens, seus planos remetem a passar no vestibular e ter uma profissão, sugerindo que estudo e trabalho se apresentam atrelados e interdependentes.

Sendo essa a primeira visão dos projetos de vida da população investigada, nosso interesse constitui em saber como esses jovens estudantes pensam seus futuros e qual é a importância da atividade de trabalho em seus planos. E, se vinculados à atividade de trabalho, como é que eles pensam esse futuro e o que fazem para pôr em prática ações e atividades que visam a alcançar seus objetivos.