5 A TRADUÇÃO DE TEXTOS SAGRADOS
5.3 Expectativas: a retransmissão do ‘Original’ pelo modelo
Atualmente, diversas teorias da tradução têm sido expostas por teóricos e por tradutores. Uns, como Bruggen41 (1978), acreditam ser necessário traduzir
literalmente conservando a estrutura do texto-fonte e fazendo somente algumas adaptações advindas das diferenças entre a língua-fonte e a língua-alvo. Outros, como Nida e Taber (1982), acreditam que seja possível encontrar um equivalente na língua-alvo de forma que o receptor tenha a reprodução do texto com a mesma relevância que teve na época bíblica. Ainda outros, como Derrida (1998) e Arrojo (1992), vêem a tradução como ‘desconstrução’, ou seja, como uma prática lingüística que ‘descanoniza’ o original, fazendo com que um texto sobreviva. Assim afirma Arrojo (1992, p. 63):
Desconstruída e passada a limpo, a reflexão sobre a tradução abre mão do sonho da transferência intacta do “mesmo” de uma língua para outra, tão passionalmente perseguido pela metafísica do logos, e abre-se para a presença ubíqua do outro na (e da) linguagem. Se na tradição logocêntrica, a percepção da diferença na tradução com
41 Bruggen (1978, p. 97), como teólogo, teoriza a questão da tradução tendo especificamente como
freqüência se associa à morte do “original”, reconhece-se, a partir do questionamento de qualquer possibilidade de exterioridade à linguagem, que é precisamente a différance promovida pela leitura e pela tradução que torna possível a sobrevivência de qualquer texto. Para Felman, por ser eminentemente “desconstrutora”, e por se constituir “numa passagem através da morte que descentraliza o original”, a tradução necessariamente “descanoniza” o texto de origem ao mesmo tempo que lhe oferece uma possibilidade de sobrevivência.
Essa concepção teórica que entende o original fora do centro dificilmente é aceita por um receptor sensível. Como se viu, os leitores de um texto sagrado preocupam-se com a reprodução do original. Suas expectativas voltam-se à revelação do que Deus disse em sua palavra. Logo, não há espaço para uma recriação, pois esta se tornaria uma reprodução humana e não a retransmissão da voz divina. Esse modelo teórico da tradução como recriação, embora seja coerente com a realidade do processo tradutório, não seria visto com bons olhos, pois o que se percebe é a literalidade como tradução aceitável.
Beekman e Callow (1974, p. 21) apresentam quatro tipos de tradução analisando seus estilos e a aceitabilidade de cada uma. São elas: a) literal demais; b) literal modificada; c) idiomática; d) livre demais42. O quadro abaixo resume a
questão da aceitação de cada uma delas.
Tipos inaceitáveis Tipos aceitáveis
Literal demais Literal modificada Idiomática Livre demais
Nota-se, pelo quadro, que os dois extremos são considerados inaceitáveis, e os tipos intermediários apresentam-se como aceitáveis. Os autores comentam primeiramente os dois extremos: a ‘literal demais’ e a ‘livre demais’. Em relação ao
primeiro tipo, indicam que a tradução visa a reproduzir as características da língua original tal como se encontra no texto-fonte. Isso dificulta a compreensão, pois as estruturas das línguas divergem e, sem uma adaptação, a tradução não alcançará seu propósito comunicativo. Além disso, a reprodução da estrutura original poderá provocar entendimentos equivocados sobre a mensagem. Sem identificar a mensagem, o leitor não conseguirá acessar esse tipo de tradução. Já, na tradução ‘livre demais’, não há preocupação com as formas lingüísticas da mensagem original. Sua intenção é tornar o texto tão claro e relevante quanto possível. Isso proporciona distorções de conteúdo que comprometem a tradução, que acaba sendo rejeitada pelo receptor.
Os dois tipos intermediários, a ‘literal modificada’ e a ‘idiomática’, buscam encontrar um equilíbrio entre os dois extremos citados. O primeiro tipo de tradução, a ‘literal modificada’, é uma adaptação da tradução ‘literal demais’. Esse tipo de tradução tem por finalidade fazer alguns ajustes gramaticais e lexicais para corrigir erros na língua-alvo. Contudo, a tradução torna-se aceitável para um grupo de pessoas que tenha acesso a obras de referência sobre contexto bíblico e que aprecie o estudo do texto. O outro tipo de tradução, a ‘idiomática’, é aquela em que o tradutor busca reproduzir para os leitores da língua-alvo o significado do original, usando as formas lexicais e a gramática natural dessa língua. Nesse tipo, entende- se que as línguas possuem formas diferentes devendo a tradução adaptar-se às especificidades de cada língua. A aceitação desse tipo de tradução advém justamente da clareza do texto expressa na língua-alvo.
Pode-se, então, perceber, observando esses dois tipos aceitáveis de tradução, que o receptor cria pelo menos duas expectativas essenciais em relação à tradução. A primeira que mais se espera é a retransmissão do ‘Original’. O leitor de
um texto sensível quer ler o original apesar de saber que ele é mediado por uma tradução. O leitor de um texto que é considerado sagrado e que possui uma linguagem religiosa desejará encontrar uma tradução que revele esses elementos. A segunda expectativa, por sua vez, é a de que a tradução seja clara, compreensível e que alcance seu objetivo comunicativo. As duas expectativas colocam o tradutor em uma difícil tarefa: buscar o equilíbrio mesmo sabendo das limitações lingüísticas, históricas e sociais a que um texto se sujeita.
Feitas essas considerações sobre a natureza do texto sagrado, a linguagem da religião e o enfoque tradutório, a seguir se faz uma análise da Epístola aos
Efésios, tendo como objeto de pesquisa três versões do Novo Testamento: a Versão revista e atualizada de João Ferreira de Almeida - 2ª edição (RA) (tradução clássica
e mais usada no meio protestante no Brasil); a Nova tradução na linguagem de hoje (NTLH) e a Nova versão internacional (NVI). O intuito é saber em que medida as discussões até aqui implementadas podem ser verificadas nas referidas traduções.
Outro procedimento será a aplicação de um questionário sobre assuntos referentes à receptividade da tradução bíblica a seminaristas de uma instituição de ensino teológico, visando à verificação das expectativas do leitor em relação à tradução.