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2. Dimensão Pessoal

2.2. Expectativas Iniciais uma tempestade de sentimentos

Ter expectativas é ter esperanças, é desejar que algo aconteça. Ser professor representa muito mais que ensinar, é preciso saber ensinar, saber

ouvir e saber aprender. Uma ideologia que expressa exatamente aquela que é a minha grande expectativa acerca desta experiência: aprender.

O estágio profissional assume-se como o ponto mais alto do percurso académico de uma estudante-estagiária do segundo ciclo em Ensino da Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário, o culminar de todo um conjunto de conhecimentos e saberes adquiridos ao longo dos anos com o momento da sua aplicação. Assume-se como uma fase de grande responsabilidade, talvez uma das mais importantes da minha vida, para além de cumprir um sonho é o contacto inicial com uma realidade que anseio para o meu futuro, algo que desejo fazer e viver. Tratando-se do momento em que colocamos alguma da teoria em ação e vivenciamos a realidade da escola enquanto professores responsáveis pela turma, imergiu algum nervosismo chegado o momento do estágio. Por um lado vivi algo novo, algo que ansiava, algo para o qual me tenho esforçado e dedicado mas, por outro, a existência de inúmeras expectativas e medos / receios adjacentes. Mesmo antes de iniciar esta nova etapa questionava-me constantemente e tentava perspetivar esta próxima fase, a escola, as turmas, os colegas de estágio, os professores, a comunidade escolar de forma geral. Em que escola seria eu colocada, estaria eu preparada? E que comportamentos teria a turma? Seria aceite pela mesma? Perguntas para as quais não tinha resposta até efetivamente iniciar este percurso.

Posto isto, o meu estágio pedagógico decorreu numa Escola Secundária em Penafiel que, por motivos de proximidade e gestão com a minha outra atividade foi a minha primeira opção. Não conhecendo a escola, a sua cultura escolar e organizacional, o primeiro dia chegou com algum receio mas também com alguma curiosidade. Em vários momentos de reflexão as expectativas aumentavam, tanto negativa como positivamente, mas aquelas sobre as quais me questionava apontavam para a turma, os alunos e o seu comportamento, a sua recetividade para comigo. Quando cheguei levava comigo a expectativa de me integrar bem na escola e principalmente no grupo disciplinar de EF pois, quando realizei estágio em Londres, senti que fui colocada um pouco de parte pelo departamento e isso influenciou negativamente a minha experiência. Uma

boa relação com todos os professores seria essencial para otimizar a minha atuação e possuindo já um termo de comparação senti algum receio de passar pelo mesmo. Neste sentido, recordo que saí da primeira reunião com um misto de sentimentos e sensações, por um lado recordo a excelente receção de todos perante a nossa apresentação assim como disponibilidade imediata de ajuda para com as estudantes-estagiárias mas, ao mesmo tempo e com o acentuado prolongamento da reunião começou-se a evidenciar uma necessidade de alguns dos professores apresentarem-se sob uma posição superior aos restantes. Todos os desacordos e discussões levantadas perante os demais assuntos referentes ao ano letivo de 2014 / 2015 foram por mim encaradas como algo normal, pois só assim é possível otimizar de ano para ano este tipo de organização. Contudo, à medida que fui conhecendo este grupo percebi que logo na primeira reunião muitas das atitudes já transpareciam alguma rivalidade entre elementos, acabando por desmitificar progressivamente a ideia de grupo e união.

Paralelamente ao grupo de EF, a turma residente era algo que espectava com elevada ansiedade. Remeto a um misto de pensamentos, por um lado elevada ansiedade e curiosidade em conhecer os alunos e suas características, mas por outro um nervosismo quase incontrolável quando confrontada com pensamentos de como intervir junto da turma, que atitudes e conceções adotar naquele que seria o contacto inicial com os alunos. Por não raras vezes refugiei- me em memórias de professores que passaram pelo meu percurso escolar e nos diferentes tipos de postura adotados. Acima de tudo, aguardava uma turma cooperante, não excluía a existência de alunos mais complicados que outros, mas a homogeneidade sempre foi uma característica que idealizei para estes alunos. Relembro-me ainda de idealizar aquilo que seria a alteração de comportamentos dos alunos mais complicados em função da minha imposição e regras traçadas para as aulas. Não excluindo nunca as eventuais dificuldades e adversidades que, certamente iam surguir ao longo do ano, penso que a minha análise inicial assentava com maior incidência num «mar de rosas».

Memoro que um outro aspeto que aguardava com ansiedade recaía sobre grupo-equipa do desporto escolar (DE) de futsal feminino. Talvez remeta este

ponto como um dos momentos de maior ansiedade da minha parte, primeiro porque se tratava de uma modalidade não dominada por mim na vertente do treino mas, também por não possuir qualquer tipo de experiência no DE visto que, no meu percurso escolar que decorreu sempre na mesma instituição, esta não protocolava qualquer tipo de ligação com este tipo de atividade desportiva extracurricular. Penso que o facto de intervir junto de uma equipa feminina acabou por atenuar um pouco aquele nervosismo inicial. Uma vez que se tratava de uma atividade de carácter facultativo e sendo ele o futsal, expectava para este novo desafio um grupo com um elevado número participantes e acima de tudo alunas dedicadas, cooperativas e assíduas. Para a minha intervenção, recordo- me de traçar como objetivo primordial o estudo e conhecimento aprofundado de toda a matéria específica desta modalidade desportiva e o precoce cumprimento do mesmo.

Relativamente ao núcleo de estágio, a minha expectativa passava por integrar um grupo forte, coeso e com objetivos muito semelhantes. O trabalho em equipa, a partilha e entreajuda eram aspetos fundamentais e que eu apontava como fundamentais para conseguir simplificar todo o processo e eventuais obstáculos que certamente iriam aparecer. Neste sentido, quanto maior for a cooperação entre todos os membros, melhor será o desfecho final, resultando em profissionais mais competentes, capazes, cultos, informados, responsáveis, íntegros, fascinantes, inspiradores, contagiantes e sobretudo humanos (Rolim, 2013). Recolhidas diferentes opiniões de estudantes estagiários de anos anteriores que apontavam este ano como exaustivo por toda a elevada carga de trabalho, espectava com grande afinco o trabalho em equipa e a distribuição de tarefas de forma a tornar todo o processo mais compreensível mas em simultâneo muito mais rico.

Considerando que ao longo deste ano letivo seria acompanhada por dois agentes educativos, nomeadamente o Professor Orientador (PO) e o Professor Cooperante (PC) obviamente fui criando algumas expectativas, nomeadamente em torno das características e grau de exigência. Experiências anteriores enquanto EE e sob orientação de um professor orientador e cooperante presentearam-me com elevados momentos de aprendizagem e enriquecimento

de conteúdo, otimizando todo o processo de intervenção no estágio realizado. Neste sentido, também para o presente ano letivo fui erigindo uma série de expectativas, nomeadamente ao nível da partilha de conhecimentos, ajuda, apoio e crítica construtiva. Segundo Nóvoa (1992) “o diálogo entre os professores é fundamental para consolidar saberes emergentes da prática profissional.” Penso que, inicialmente e antes de conhecer o PO permaneceu algum receio da minha parte, receando um grau de exigência extremamente elevado assim como situações de grande pressão nas aulas assistidas. Expectava do PO uma partilha de conhecimentos específicos e de elevado teor científico, dicas e sugestões de melhoria e de otimização de tarefas. Relativamente ao PC esperava um acompanhamento diário do mesmo, disponível para ajudar e ainda sugestionar melhores estratégias em função da sua experiência enquanto docente. Aguardava ainda como um fator fundamental um comportamento motivacional para connosco, predisposto a ajudar mas também a motivar-nos em momentos de maior stress e trabalho.

Para além de toda esta ansiedade vivida em torno da turma, PC e PO, grupo de EF e os restantes elementos que fui descrevendo anteriormente, a comunidade escolar foi um fator fortemente badalado enquanto aguardava a minha chegada à escola, com maior incidência nos restantes agentes que compõem uma instituição escolar, os funcionários. Embora não se encontrem diretamente envolvidos no processo de ensino e aprendizagem de matéria e conteúdos, o pessoal não docente apresenta um importante papel na escola. Consciencializando-me de que a educação acontece em qualquer lado independentemente da natureza da situação, diferentes tipos de responsabilidade pessoal exercem uma importante influência no crescimento integral do aluno, ocorrendo dentro mas também fora da sala de aula (Bento, 1995). Inicialmente pairava alguma curiosidade quando tentava vislumbrar os pensamentos destes agentes educativos após a minha chegada visto que, após recolher opiniões de outros colegas, maioritariamente eram vistos e reconhecidos como alunos e não como estudantes-estagiários. Neste sentido, penso que todas as minhas expectativas debatiam-se sobre esta problemática, sobre a reação e comportamento dos funcionários para comigo.

De forma geral, como objetivo primordial pretendia não só conseguir aplicar todos os conteúdos teóricos e práticos como resposta às necessidades e carências da prática, assim como formar integramente os meus alunos através da transmissão de atitudes, valores e hábitos saudáveis. Tornar-me numa referência positiva para os alunos e acima de tudo responder às necessidades individuais de cada um dentro da aula. Acreditava em conseguir desmitificar aquela ideia que caracterizava o professor de EF como despreocupado e sem grande intervenção na vida dos alunos, traduzindo estas aulas como um momento lúdico, sem promoção de aprendizagem e onde se jogava apenas futebol. Parti com o objetivo de formar alunos em vários níveis, ajudá-los e enriquecer as suas vivências no desporto, visto que muitas vezes, grande parte dos alunos apenas tem contacto com a atividade desportiva nas aulas de EF. Ansiava ainda finalizar o ano letivo e ouvir dos alunos que efetivamente aprenderam e gostaram das aulas. Sei que aponto aqui metas que descrevem um ano perfeito, mas mesmo que disso não se tratasse, investiria/investi para conseguir concretizar grande parte delas e sair com um sentimento de realização.