I. Pergunta motivadora
Como as expectativas influenciam a determinação do produto
e os impactos das políticas monetária e fiscal?
Consumo e investimento são influenciados pelo produto futuro esperado, e o investimento, pelos impactos das taxas de juros futuras esperadas. Como as políticas monetária e fiscal futuras afetam o produto futuro e a taxa de juros futura, as expectativas relativas às políticas macroeconômicas futu- ras afetaram o produto no presente. Além disso, o efeito das políticas correntes sobre o produto de- penderá de como as medidas correntes afetem as expectativas quanto às políticas futuras.
II. Por que a resposta é importante
Este capítulo integra tudo o que foi dito sobre expectativas, ao incorporá-las ao modelo IS-LM. Apresenta as expectativas racionais de forma intuitiva e natural e permite uma discussão relativa- mente aprofundada dos impactos das políticas monetária e fiscal.
III. Ferramentas, conceitos e hipóteses fundamentais
1. Ferramentas e conceitos
Este capítulo apresenta as expectativas racionais no contexto do modelo IS-LM ao levar em consi- deração que os agentes econômicos prevêem os efeitos das políticas futuras e recorrem a essas previ- sões para determinar o consumo e o investimento correntes.
IV. Sumário do conteúdo
1. Expectativas e decisões: uma avaliação
Considere o tempo em termos de dois períodos: presente e futuro, que junta todos os anos que estão por vir. Então, no período corrente, a relação IS apresentada anteriormente no texto pode ser re- presentada por
+ – –
Y = A(Y, T, r) + G (17.1)
onde A – que representa os gastos privados agregados – é definido como consumo mais investimento. Levar em consideração as expectativas significa pensar sobre os impactos da renda futura espe- rada (Y¢e), os impostos futuros esperados (T¢e) e a taxa de juros real futura esperada (r¢e). Observe
que os gastos futuros esperados, do governo, só influenciam a relação IS corrente por meio de seu Expectativas, política econômica e produto 87
impacto no produto futuro e na taxa de juros futura. No Capítulo 16 foi visto que um aumento na renda futura esperada aumentará o consumo e o investimento (já que os lucros tendem a aumentar). Um aumento nos impostos futuros esperados reduzirá a renda disponível esperada, o que diminuirá o consumo. Um aumento na taxa de juros real futura esperada reduzirá o investimento. Dadas estas relações, a curva IS pode ser agora representada por
+ – – + – –
Y = A(Y, T, r, Y’e, T’e, r’e) + G (17.2)
Dados os valores das variáveis futuras esperadas, a nova curva IS continua inclinada para baixo no espaço Y-r, mas tende a ter inclinação mais acentuada do que a curva apresentada anteriormente, por duas razões. Primeira, dada a taxa de juros futura esperada, variações na taxa de juros corrente terão um efeito relativamente pequeno sobre os valores presentes (da renda do trabalho e dos lucros esperados) e, por conseguinte, um efeito relativamente reduzido nas despesas correntes (de consu- mo e de investimento), dada a renda. Segundo, o multiplicador tende a ser pequeno porque, dadas as expectativas de renda futura, a renda corrente tem relativamente pouca influência sobre o consu- mo e o investimento.
A curva LM não é afetada quando se levam em consideração as expectativas, já que a demanda por moeda depende do nível corrente de transações. A quantidade de moeda retida pode ser ajusta- da futuramente, se o nível de transações se alterar.
2. Política monetária, expectativas e produto
Para simplificar, suponha-se que a inflação esperada seja igual a zero, de modo que a taxa de juros nominal seja igual à taxa de juros real. Então, podemos representar a curva LM como
M/P = YL(r) (17.3)
Considere-se agora um aumento na oferta monetária do período corrente. Já que esse aumento desloca a curva LM para a direita, o produto aumenta e a taxa de juros cai. Na ausência de mudanças nas expectativas, o aumento no produto será relativamente pequeno, já que a curva IS é muito incli- nada. Contudo, se um aumento na oferta corrente de moeda leva as pessoas a esperarem um aumen- to na oferta de moeda futura, o produto futuro esperado aumentará e a taxa de juros futura espera- da se reduzirá. Ambos esses efeitos levarão a curva IS do período corrente a se deslocar para a direita, aumentando ainda mais o produto. Portanto, os efeitos da política monetária dependerão de mudanças nas expectativas.
A análise acima apóia-se numa formação de expectativas sofisticada por parte dos agentes eco- nômicos. Primeiro, eles avaliam a trajetória provável da política futura, e então deduzem as implica- ções econômicas. As expectativas formadas deste modo são denominadas expectativas racionais. Um box no texto descreve as circunstâncias históricas que levaram as expectativas racionais a se tor- narem uma hipótese padrão na economia.
3. Redução do déficit, expectativas e produto
No modelo IS-LM básico, apresentado na parte principal do livro, a redução do déficit orçamentá- rio do governo reduzia o produto corrente. Uma vez levadas em conta as expectativas, o impacto da redução do déficit torna-se ambíguo, porque essa redução provoca uma queda na taxa de juros real e um aumento do investimento de médio prazo e, por conseqüência, a um aumento do produto no
longo prazo. Em termos da equação (17.2), Y¢eaumenta e r¢ecai, o que tende a deslocar a curva IS do período corrente para a direita. O efeito direto da redução do déficit – seja em virtude de um au- mento em T ou de uma redução em G – desloca a curva IS do período corrente para a esquerda. O efeito líquido sobre o produto – se a curva IS do período corrente se deslocar para a esquerda ou para a direita – tanto pode ser positivo quanto negativo.
Esta análise sugere que um programa de redução do déficit tem menos probabilidade de reduzir o produto na medida em que ele seja empurrado para a frente, isto é, ocorra mais para o futuro, por- que os efeitos diretos negativos sobre o produto (decorrentes da redução dos gastos do governo ou do aumento dos impostos) serão adiados. Por outro lado, um programa de redução do déficit em- purrado para a frente não terá grande credibilidade. As pessoas poderão não acreditar que o gover- no levará adiante reduções nos gastos ou aumentos futuros no déficit, decisões politicamente com- plicadas.
Um dos quadros apresentados no capítulo discute as duas tentativas feitas pela Irlanda, na déca- da de 1980, para reduzir o déficit público. A primeira, no início da década, esteve associada a baixas taxas de crescimento e um aumento nas taxas de desemprego. A segunda, mais para o fim da década, foi acompanhada de altas taxas de crescimento e queda na taxa de desemprego. Alguns economistas argumentaram que a segunda tentativa, que se concentrou em cortar despesas e implementar uma reforma tributária, oferece um exemplo de redução do déficit expansionista. Argumentam que a primeira, que se concentrou em aumento dos impostos e não alterou o papel do governo na econo- mia, não provocou grandes alterações nas expectativas quanto ao futuro. O texto afirma que as evi- dências quanto à taxa de poupança são compatíveis com esta interpretação. Durante a primeira ten- tativa de redução do déficit, a taxa de poupança aumentou, sugerindo incertezas quanto ao futuro. Na segunda tentativa, a taxa de poupança diminuiu sugerindo maior otimismo quanto ao futuro. Por outro lado, a política monetária e outros fatores econômicos também foram diferentes nos dois episódios, de modo que não os podemos explicar totalmente pelas expectativas.
4. Rumo à economia aberta
Este capítulo encerra a primeira extensão – expectativas – do modelo desenvolvido nos primeiros doze capítulos. Os Capítulos 18 a 21 tratam da segunda extensão – a economia aberta.
V. Didática
1. Pontos a esclarecer
A apresentação dos efeitos da política monetária esperada pode ser facilitada traçando-se dois gráfi- cos IS-LM, um para o presente e outro para o futuro. Primeiro, apresentam-se os efeitos da política monetária futura esperada no gráfico que representa o futuro. As alterações no produto futuro e na taxa de juros futura mostram como o produto futuro esperado e a taxa de juros futura esperada mu- dam. Utilize estes efeitos sobre as expectativas para determinar o impacto sobre as variáveis corren- tes do gráfico IS-LM que representa o presente. Esta técnica ignora alterações na inflação esperada, mas permite sentir os impactos da ação do Banco Central sobre a economia.
O uso de gráficos IS-LM presentes e futuros é menos útil para ilustrar os impactos da política fis- cal esperada, porque as alterações na política fiscal alteram a acumulação de capital e o produto, no longo prazo.
VI. Extensões
A primeira edição usava o pacote de redução do déficit público do governo Clinton para ilustrar o planejamento dos programas de redução do déficit. Um ponto que se destacava nessa apresentação Expectativas, política econômica e produto 89
era como as expectativas sobre a resposta do Banco Central à redução no déficit afetavam o impacto definitivo da política sobre o produto. Alguns professores podem considerar útil mencionar a res- posta potencial do Banco Central ao tratar dos programas de redução do déficit público.
VII. Observações
1. Observações conceituais
Quando se levam em conta as expectativas, o efeito (sobre o produto corrente e sobre a taxa de juros corrente) de uma alteração corrente numa variável exógena depende, em parte, de como esta afeta as expectativas quanto ao futuro. Do mesmo modo, o produto corrente e a taxa de juros corrente podem ser afetados por expectativas relativas a futuras alterações nas variáveis exógenas, mesmo que nenhuma variável exógena corrente se altere.