Manual do professor
Mark P. Moore –
Universidade da Califórnia, Irvine
Macroeconomia
Sumário
Capítulo 1 Um passeio pelo mundo . . . 3
Capítulo 2 Este livro: Visão geral . . . 7
Capítulo 3 O mercado de bens . . . 12
Capítulo 4 Mercados financeiros . . . 18
Capítulo 5 Mercados de bens e financeiros: a IS-LM . . . 23
Capítulo 6 O mercado de trabalho . . . 29
Capítulo 7 Agregando todos os mercados. O modelo AS-AD . . . 36
Capítulo 8 A curva de Phillips. . . 44
Capítulo 9 Inflação, atividade econômica e expansão monetária. . . 48
Capítulo 10 A realidade do crescimento . . . 54
Capítulo 11 Poupança, acumulação de capital e produto . . . 58
Capítulo 12 Progresso tecnológico e crescimento . . . 63
Capítulo 13 Progresso tecnológico, desemprego e salários . . . 67
Capítulo 14 Expectativas: Ferramentas básicas . . . 72
Capítulo 15 Mercados financeiros e expectativas . . . 77
Capítulo 16 Expectativas, consumo e investimento. . . 82
Capítulo 17 Expectativas, política econômica e produto. . . 87
Capítulo 18 A abertura dos mercados de bens e financeiros . . . 91
Capítulo 19 O mercado de bens em uma economia aberta . . . 97
Capítulo 20 O produto e as taxas de juros e de câmbio. . . 104
Capítulo 21 Taxas de câmbio: Ajustamentos, crises e regimes. . . 110
Capítulo 22 Patologias I: Desemprego elevado . . . 115
Capítulo 23 Patologias II: Inflação alta . . . 119
Capítulo 24 Patologias III: A transição na Europa Oriental e a crise asiática . . . 123
Capítulo 25 Deve-se limitar a atuação dos formuladores de políticas econômicas?. . . 128
Capítulo 26 Política monetária: Um resumo . . . 132
Capítulo 27 Política fiscal: Um resumo . . . 136
Capítulo 28 A história da macroeconomia . . . 140
Respostas às perguntas e problemas de final de capítulo . . . 144
Capítulo 1. Um passeio pelo mundo
I. Pergunta motivadora
O que é macroeconomia?
O capítulo não apresenta uma resposta explícita ou formal. Ao invés disso, descreve as questões que preocupam os macroeconomistas que estudam os Estados Unidos, a Europa e a Ásia. Neste ponto, uma definição preliminar é o estudo do produto, do desemprego e da inflação, termos que serão de-finidos com mais exatidão no Capítulo 2.
II. Por que a resposta é importante
Este capítulo destina-se a incentivar os estudantes a dominarem o material teórico que se segue no restante do texto. A promessa implícita é que o modelo teórico desenvolvido no texto permitirá aos estudantes entender os problemas econômicos atuais de óbvia importância em todo o mundo.
III. Ferramentas, conceitos e hipóteses fundamentais
1. Ferramentas e conceitos
O Capítulo 1 não apresenta qualquer ferramenta analítica. Contudo, obriga os estudantes a se defron-tarem com alguns dados básicos e mostra algumas fontes de dados para várias regiões do mundo. Além disso, o capítulo expõe e define resumidamente os conceitos de produto, crescimento, taxa de desemprego e taxa de inflação. Estes termos serão definidos com mais precisão no Capítulo 2.
2. Hipóteses
No “Passeio pelo mundo” está implícito o pressuposto de que é possível utilizar as mesmas ferra-mentas macroeconômicas para analisar economias de todo o mundo. Pode ser interessante explici-tar isto. O esquema macroeconômico desenvolvido no texto não seria nem muito útil nem atraente como teoria se se aplicasse apenas aos Estados Unidos e não a outras economias de mercado.
IV. Sumário do conteúdo
1. Desempenho macroeconômico dos Estados Unidos
Após a recessão (um período de crescimento negativo do produto) encerrada em 1991, os Estados Unidos vivenciaram um longo período de expansão (crescimento positivo do produto). Na época em que escrevemos, as taxas de desemprego e inflação encontravam-se em patamares relativamente baixos quando comparados a seus valores médios a partir de 1960. Ao mesmo tempo, a bolsa de va-lores passava por uma fase de intensa euforia.
A questão é a provável duração dessa combinação de circunstâncias. Muitos economistas acre-ditam que o prolongado período de baixas taxas de desemprego acabará por criar pressões de salá-rios e preços e aumentará a inflação – o aumento dos preços. Nesse caso o Fed pode decidir apertar a política monetária, o que pode levar a uma recessão. Do mesmo modo, se as ações estiverem sobre-valorizadas nas bolsas de valores, como acreditam alguns economistas, uma queda pode provocar uma recessão.
Outra preocupação é a crescente desigualdade salarial. A partir do início da década de 1980 e até meados da década seguinte, os salários reais (salários monetários corrigidos pela inflação) au-mentaram muito mais para alguns trabalhadores do que para outros. Por exemplo, os salários reais aumentaram em cerca de 1% ao ano no caso de trabalhadores com instrução de terceiro grau, mas diminuíram em cerca de 1% para aqueles que não concluíram o segundo grau. O capítulo esboça al-gumas das causas para a crescente desigualdade salarial que serão tratadas de modo mais aprofunda-do no Capítulo 13.
Finalmente, mesmo que a economia americana continue em expansão, sua taxa de crescimento médio caiu de 4% (no período 1950-1973) para 2,6% (no período 1974-1997).
2. Desempenho macroeconômico na Europa
Os países da União Européia experimentaram ao longo da década de 1990 um crescimento positi-vo, porém relativamente baixo, e ao mesmo tempo registraram inflação reduzida e alta taxa de de-semprego (em relação à Europa da década de 1960 e aos Estados Unidos hoje). O debate sobre as so-luções para o alto desemprego caracteriza-se por duas opiniões opostas – a primeira defende uma política monetária mais ativa para estimular o crescimento do produto, enquanto a segunda defen-de alterações nas instituições do mercado defen-de trabalho no sentido defen-de promover maior flexibilidadefen-de nesse mercado. Ao mesmo tempo a União Européia está em meio a uma grande experiência de cons-trução de uma moeda única. Embora isso possa reduzir as ineficiências transacionais associadas ao uso de diferentes moedas nacionais, isso eliminará a liberdade que cada país tem de aplicar a política monetária para estimular a produção e reduzir o desemprego. No futuro, um único grupo de for-muladores de política monetária conduzirá uma política única para toda a Europa, de maneira bem semelhante à adotada pelo Conselho do Fed em relação a todos os estados que formam os Estados Unidos.
3. Desempenho macroeconômico da Ásia
Nos últimos trinta anos, várias das economias asiáticas alcançaram altas taxas de crescimento, quando comparadas ao resto do mundo. Contudo, em meados da década de 1990 vários problemas surgiram. No Japão, o aumento do produto arrefeceu substancialmente e as taxas de desemprego atingiram níveis recorde (para o Japão). Muitos analistas atribuem o fraco desempenho da econo-mia a um colapso das bolsas de valores e dos preços dos imóveis verificado no início daquela década. De acordo com este argumento, a redução nos preços dos ativos diminuiu o valor dos ativos dos bancos japoneses e limitou sua capacidade de fornecer crédito. Não estão claras as soluções para o fraco desempenho da economia. Políticas fiscais e monetárias expansionistas até agora não surtiram efeito.
Em 1997, várias outras economias asiáticas passaram por crises econômicas, caracterizadas pela rápida depreciação da taxa de câmbio, a queda brusca dos preços dos ativos e das taxas de cresci-mento. Em alguns casos queda nas taxas de crescimento foi grave. O PIB real da Indonésia caiu de 4,6% em 1997 para –13,7% no ano seguinte (Fonte: IMF World Economic Outlook, maio de 1999). Tailândia, Malásia, Coréia e Hong Kong também registraram profunda recessão em 1998. O debate sobre as causas da crise asiática gira em torno de dois extremos. Um dos lados culpa o com-portamento especulativo dos mercados financeiros; o outro argumenta que estes apenas estavam
reagindo a problemas econômicos decorrentes de erros fundamentais da política econômica – espe-cialmente no que se refere à regulação bancária – e à corrupção daquelas economias.
Finalmente, a China registrou rápido crescimento nos últimos vinte anos, mas ainda permanece pobre em termos per capita. Ainda assim, dado seu tamanho, a China está se tornando uma das prin-cipais potências econômicas do mundo.
V. Didática
1. Pontos a esclarecer
Uma questão sutil apresentada na exposição dos dados macroeconômicos é a divisão do período pós-guerra em duas fases, uma anterior e outra posterior a 1973. Poucos dos estudantes de gradua-ção de hoje terão nascido antes de 1973; portanto, seria interessante fazer uma breve referência à crise do petróleo (bem como ao colapso final do sistema de taxas de câmbio fixas) como forma de apresentar-lhes episódios históricos fundamentais da macroeconomia.
2. Seqüência alternativa
Produto, desemprego e inflação não serão definidos precisamente até o Capítulo 2. Alguns profes-sores podem preferir, então, falar primeiro das definições apresentadas nesse capítulo e dos moti-vos que levam os macroeconomistas a se preocupar tanto com essas variáveis, antes de tratarem do conteúdo deste capítulo.
3. Dinamização da aula
Em lugar de começar com a pergunta motivadora deste capítulo, o professor poderia perguntar aos alunos o que eles estão esperando aprender na disciplina. A partir das respostas, será possível esbo-çar o conteúdo do curso – e definir o escopo da macroeconomia. Da mesma forma, em vez de pren-der-se aos fatos apresentados no capítulo, o professor poderá pedir aos estudantes que levantem fa-tos relativos a países de seu interesse.
Outra alternativa é começar a aula sobre este capítulo (e o curso) perguntando se o Fed deveria aumentar as taxas de juros1e apresentar opiniões alternativas ilustradas por recortes de jornal ou
respostas dos estudantes. Além de mostrar a macroeconomia como uma disciplina vívida e por ve-zes polêmica, esta abordagem também apresenta aos alunos uma questão central da política macro-econômica dos Estados Unidos e relaciona o curso aos tópicos atuais.
VI. Extensões
O “Passeio pelo mundo” apresentado neste capítulo não inclui países em desenvolvimento situados fora da Ásia ou as economias em transição da Europa Oriental. O Capítulo 24 trata das economias em transição. Quanto às economias em desenvolvimento, as preocupações macroeconômicas con-tinuam sendo a obtenção de um crescimento econômico duradouro, a redução da pobreza, e a com-binação entre ajustamento externo e estabilidade cambial. Em princípio, o Banco Mundial cuida das duas primeiras questões e o Fundo Monetário Internacional da terceira. Ambas instituições têm sido bastante criticadas em anos recentes. O FMI, em particular, foi condenado por vários destaca-dos economistas internacionais pela maneira com que lidou com a crise asiática. O Capítulo 24 tra-ta da questão com maior profundidade.
Um passeio pelo mundo 5
1Quando estávamos escrevendo (agosto de 1999), o Fed tinha acabado de implementar um esperado aumento das taxas de
Embora não seja rigorosamente uma extensão, os professores podem desejar suplementar o conteúdo do Capítulo 1 com uma revisão das distinções entre economia positiva e normativa e como esta última pode levar os economistas que concordam com os fatos a apresentar prescrições de política diferentes. Os professores também podem lembrar aos estudantes as dificuldades en-frentadas por economistas e outros cientistas sociais dada a impossibilidade de conduzir experi-mentos controlados. Na primeira edição do livro, o Capítulo 1 tratava destas questões.
VII. Observações e exercícios
As taxas médias de crescimento caíram nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. Talvez seja mais do que coincidência. Uma questão em aberto é se a queda nas taxas de crescimento se aplica às eco-nomias asiáticas exceto ao Japão. A crise asiática terá sido um desvio temporário das altas taxas de crescimento ou as taxas médias de crescimento da região serão menores após a crise do que antes?
Capítulo 2. Este livro: Visão geral
I. Perguntas motivadoras
1. Como os economistas definem produto, taxa de desemprego
e taxa de inflação, e por que os economistas se preocupam
com essas variáveis?
Produto e taxa de desemprego são definidos da forma costumeira. Quanto à taxa de inflação, são apresentadas duas definições alternativas: variação percentual do deflator do PIB e variação per-centual do IPC. No capítulo, a relação entre produto e padrão de vida fica implícita. Os economis-tas se preocupam com a taxa de desemprego porque os desempregados sofrem, sobretudo quando permanecem nessa situação por longos períodos e porque essa taxa permite verificar se a economia está crescendo muito rápido ou muito devagar (os conceitos serão definidos com maior precisão em capítulos posteriores). A inflação apresenta três conseqüências principais: reduz a renda dos que re-cebem quantias nominais fixas, distorce os preços relativos até o ponto em que algumas variáveis nominais não mais se ajustam e cria incerteza quanto ao nível dos preços relativos.
2. Que fatores afetam o produto no curto, no médio
e no longo prazos?
Este capítulo apresenta o marco de referência temporal do livro. No curto prazo (um horizonte de poucos anos), a demanda é o principal determinante do produto. No médio prazo (uma ou duas dé-cadas), o produto é determinado pelo nível tecnológico e pela dimensão do estoque de capital, que são, ambos, mais ou menos fixos. No longo prazo (meio século ou mais), o produto é determinado pelo progresso tecnológico e pela acumulação de capital.
II. Por que a resposta é importante
Os estudantes precisam de uma definição formal das principais variáveis macroeconômicas antes de poderem analisá-las. O capítulo oferece informações suficientes para que os estudantes comecem a examinar os dados macroeconômicos de forma rudimentar. Além disso, algum conhecimento dos motivos que levam os economistas a se preocupar com estas variáveis, particularmente a inflação, é útil para orientar os estudantes. Sem que se tenha tratado dos custos da inflação, por exemplo, o atual debate sobre o fato da taxa de desemprego estar baixa demais parece absurdo.
III. Ferramentas, conceitos e hipóteses fundamentais
1. Ferramentas e conceitos
a. O Capítulo 2 apresenta duas ferramentas econômicas gerais: diagramas de dispersão e
núme-ros-índices.
b. O capítulo define formalmente os conceitos básicos de PIB nominal e real, crescimento do
PIB, deflator do PIB, taxa de desemprego, IPC e taxa de inflação bem como conceitos
associa-dos como valor agregado, insumos intermediários, força de trabalho e taxa de participação. Todos estes conceitos são definidos da maneira habitual.
c. Dois métodos empíricos – a Lei de Okun e a Curva de Phillips – são apresentados na forma de diagramas de dispersão. Estas relações empíricas ligam as três variáveis primárias da macroeco-nomia – o produto, a taxa de desemprego e a taxa de inflação – e estabelecem as difíceis escolhas com que se deparam os formuladores de política econômica que tentam reduzir a inflação ou o desemprego.
d. O capítulo apresenta as distinções entre curto prazo, médio prazo e longo prazo da maneira definida na Parte I. A distinção constitui a estrutura teórica do livro.
IV. Sumário do conteúdo
1. Produto agregado
Até o Capítulo 18, o livro considera uma economia fechada; portanto, o produto é igual ao PIB. O produto tem três definições equivalentes: (1) valor dos bens e serviços finais produzidos durante dado período; (2) somatório do valor adicionado durante dado período; e (3) somatório das rendas provenientes do trabalho e do capital, mais impostos indiretos.
Partindo da primeira definição, o PIB nominal é calculado a preços correntes. O PIB real é o produto calculado a preços constantes. Se a economia produzisse apenas um bem – digamos, auto-móveis – e esses bens permanecessem inalterados ao longo do tempo, seria possível medir o PIB real simplesmente pela contagem do número de automóveis produzidos a cada ano. Ou se pode multi-plicar o número de automóveis por algum preço constante – digamos, o preço em algum ano-base. Assim, no ano-base, o PIB real e o nominal seriam idênticos. Na prática, a construção do PIB real en-volve duas implicações. Primeira, como a economia produz muitos bens, é preciso decidir como ponderar o valor das quantidades produzidas de cada bem para chegar ao PIB real agregado. Segun-da, o leque de bens produzidos muda ao longo do tempo bem como a qualidade dos bens. O Apên-dice ao Capítulo 2 discute a questão com mais pormenores. Os economistas que calculam o PIB ten-tam se dar conta da mudança na qualidade dos bens por meio da determinação hedônica dos preços, uma técnica econométrica que estima o valor de mercado das características de um bem – velocida-de, durabilidade e assim por diante.
A taxa de crescimento do PIB real (nominal) é a taxa de variação do PIB real (nominal). Os pe-ríodos de crescimento positivo do PIB são chamados expansão; os pepe-ríodos de taxas negativas são as recessões.
2. Desemprego e inflação
a. A taxa de desemprego e a lei de Okun
Uma pessoa desempregada é alguém que não tem emprego, mas procura um. A força de trabalho é o somatório dos que têm empregos, os empregados, e dos desempregados. A taxa de desemprego é o quociente dos desempregados em relação à força de trabalho. As pessoas em idade de trabalhar que não têm emprego nem o estão procurando estão fora da força de trabalho. A taxa de participação é o quociente entre a força de trabalho e a população em idade de trabalhar.
Os economistas preocupam-se com o desemprego por duas razões. A primeira é que os desem-pregados sofrem. O quanto sofrem depende de uma série de fatores, incluindo a generosidade do auxílio desemprego e a duração do mesmo. Nos Estados Unidos, a duração média do desemprego é
relativamente curta, mas alguns grupos (como minorias étnicas, jovens e pessoas menos qualifica-das) tendem a ser mais suscetíveis ao desemprego e a permanecer nessa situação por mais tempo. Se-gunda razão, a taxa de desemprego ajuda os formuladores da política econômica a avaliar o ritmo em que a economia cresce. Na maioria dos países há uma relação entre a taxa de crescimento do produto e a mudança na taxa de desemprego. Quando o produto cresce muito, a taxa de desempre-go se reduz; quando o crescimento do produto é lento, a taxa de desempredesempre-go diminui. Esta relação – chamada lei de Okun, o economista que a verificou – oferece aos formuladores da política alguma orientação quanto à velocidade do crescimento do produto. Se esses formuladores acreditam que a taxa de desemprego é muito alta, eles precisam gerar crescimento relativamente alto do produto, para reduzi-la Quando consideram que a taxa de desemprego é muito baixa precisam tomar medi-das para desacelerar o crescimento a fim de aumentar o desemprego. Uma discussão mais profunda do que seja uma taxa de desemprego demasiado alta ou demasiado baixa será feita em capítulo pos-terior.
b. Taxa de inflação e curva de Phillips
A taxa de inflação é a taxa de crescimento do nível agregado dos preços. Como a economia produz e consome muitos produtos, calcular o nível geral de preços não é uma tarefa trivial. Os macroecono-mistas recorrem a duas medidas principais do nível de preços agregado. A primeira, o deflator do PIB, é o quociente entre PIB real e nominal. Como o PIB nominal difere do real apenas porque os preços de qualquer ano dado são diferentes daqueles vigentes no ano base, o deflator do PIB oferece uma medida do nível médio de preços em relação ao ano-base. Dada a construção do PIB, o deflator do PIB será igual a um no ano-base. Como a escolha do ano-base é arbitrária, o nível do deflator do PIB não é bem definido. Contudo, a taxa de variação do PIB está bem definida. Uma das medidas de inflação é a taxa de variação do deflator do PIB. Medidas com níveis arbitrários, mas cujas variações são bem definidas, são chamadas números-índices. O deflator do PIB é um número-índice.
Uma medida alternativa do nível de preços é o Índice de Preços ao Consumidor – outro núme-ro-índice. Nos Estados Unidos, esta medida se alicerça em pesquisas de preços feitas em várias cida-des. Os preços de vários bens são ponderados de acordo com sua participação na média das despe-sas de consumo. A construção do IPC e a do deflator do PIB envolvem problemas semelhantes. Também é possível medir a inflação como taxa de variação do IPC.
A relação entre inflação medida pelo deflator do PIB e inflação medida pelo IPC é próxima mas não é perfeita. Intuitivamente, já que o PIB se refere à produção, o deflator do PIB mede o preço mé-dio dos bens produzidos num país. O IPC, por outro lado, tenta medir o preço de uma cesta repre-sentativa do consumo privado. Nem todos os bens são produzidos internamente (alguns são impor-tados de países estrangeiros), e nem todos os bens produzidos no país são consumidos pelas famílias residentes no país (alguns são consumidos pelo governo, outros por estrangeiros e há ainda os que são consumidos por empresas como bens intermediários).
Os economistas se preocupam com a inflação porque ela distorce os preços relativos, cria incer-teza quanto aos preços relativos e redistribui a renda. A inflação distorce os preços relativos porque algumas variáveis nominais (como as faixas de tributação) não se ajustam imediatamente ao aumen-to do nível agregado de preços. A inflação redistribui renda porque algumas transações envolvem pagamentos nominais fixos. Por exemplo, alguns aposentados recebem rendas nominais fixas (em-bora o texto destaque que nos Estados Unidos as pessoas da terceira idade em geral se tenham saído melhor, em média, do que outras pessoas, durante os períodos inflacionários). Além disso, alguns empréstimos (como as hipotecas comuns) envolvem pagamentos nominais fixos. Quando as presta-ções são fixas nominalmente seu valor real cai com a inflação, de modo que quem tomou o emprés-timo ganha e os credores perdem.
Há uma relação empírica entre taxas de inflação e de desemprego. Quando a taxa de desempre-go supera dado patamar, a taxa de inflação diminui. Quando a taxa de desempredesempre-go cai abaixo desse Este livro: Visão geral 9
patamar, a taxa de inflação aumenta. Nos Estados Unidos, essa relação, chamada de curva de Phil-lips, tem funcionado desde 1970. A curva de Phillips é o tema do Capítulo 8.
3. O quadro de referência básico da macroeconomia
e a organização do livro
Os macroeconomistas observam a economia em termos de três horizontes. No curto prazo – poucos anos – a demanda por bens e serviços determina o produto. No médio prazo – uma ou duas décadas – o nível de tecnologia e a grandeza do estoque de capital determinam o produto. Como estas variá-veis se alteram lentamente, é uma simplificação útil pensar que são fixas no médio prazo. Finalmen-te, no longo prazo, o progresso tecnológico e a acumulação de capital são os determinantes funda-mentais do crescimento do produto.
Os capítulos de 3 a 13 estão organizados em torno desses horizontes temporais. O restante do li-vro apresenta extensões (expectativas, a economia aberta) do quadro de referência básico, analisa episódios de desempenho macroeconômico incomumente fraco e estuda o escopo das políticas mo-netária e fiscal.
V. Didática
1. Pontos a esclarecer
O uso de subscritos para indicar tempo será uma novidade para muitos estudantes. Poderá ser útil dedicar alguns minutos para esclarecer o assunto logo no início.
2. Seqüência alternativa
O capítulo não detalha a contabilidade da renda nacional. As identidades contábeis relevantes são apresentadas no texto principal à medida que se tornam relevantes para a formulação do modelo analítico. Por exemplo, o Capítulo 3 apresenta o lado da despesa das contas, ao explicar a composi-ção da demanda agregada. No Apêndice 1 é apresentado um tratamento completo da renda nacio-nal e das contas sob a ótica do produto. Pode ser interessante expor o conteúdo do Apêndice 1 logo após a primeira seção deste capítulo.
3. Dinamização da aula
É difícil tornar animado um capítulo que define termos macroeconômicos. Uma das formas de redu-zir o número de definições é concentrar-se, neste ponto, no produto e deixar as definições de desem-prego e inflação para o Capítulo 6, que apresenta o mercado de trabalho e a oferta agregada. A vanta-gem desta abordavanta-gem é um avanço mais rápido rumo à cruz keynesiana do Capítulo 3. Seu custo é o abandono da curva de Phillips, que se relaciona com questões atuais de política econômica e a necessi-dade de falar alguma coisa sobre o nível agregado de preços ao tratar da curva LM no Capítulo 5.
VI. Extensões
1. PIB como medida do bem-estar
O capítulo debate brevemente as razões da preocupação dos economistas com inflação e desempgo, mas não faz o mesmo em relação ao PIB. Provavelmente, parece óbvio que os economistas re-correm ao PIB como um indicador aproximado do bem-estar agregado, mas os professores que de-sejarem poderão destacar três limitações dessa prática:
a. O PIB contabiliza preços e serviços a preços de mercado, já que estes refletem o valor relativo que os consumidores lhes atribuem. Contudo, algumas coisas valiosas não são vendidas no mer-cado e, por conseguinte, seus valores devem ser imputados, o que sem dúvida introduz alguma distorção. Dois importantes serviços que não têm preço de mercado são aqueles fornecidos pelo governo e as moradias ocupadas por seus proprietários.
b. Alguns bens e serviços não comercializados no mercado são totalmente excluídos do cálculo do PIB. Por exemplo, o valor do lazer e o valor dos serviços realizados dentro do domicílio não estão incluídos no PIB. De um ponto de vista mais amplo, poderíamos citar liberdades civis e outros “bens“ políticos.
c. O PIB não leva em consideração o fato de que parte da riqueza da nação é exaurida no proces-so de produção. O PNB corrige isto parcialmente ao subtrair o valor da depreciação do capital físico, mas a exaustão dos recursos naturais e ambientais ainda é omitida. O Departamento de Comércio e outros órgãos estatísticos tentaram ajustar o PIB para se darem conta da exaustão dos recursos naturais e ambientais, mas não há consenso entre os economistas quanto à metodo-logia adequada.
2. Estoques e fluxos: riqueza e PIB
O texto não apresenta os conceitos de estoques e fluxos até o Capítulo 4 (Mercados Financeiros). Os professores poderiam fazê-lo já neste capítulo, distinguindo riqueza nacional (um estoque) de PIB (um fluxo). Uma definição natural de riqueza nacional é o valor das terras nacionais (incluindo os recursos naturais) mais o capital físico e humano e direitos sobre ativos no estrangeiro, em dado ponto do tempo.
VII. Observações
1. Observações conceituais
O valor do PIB no lado da despesa é igual a seu valor sob a ótica da renda. Em outras palavras, a des-pesa agregada é idêntica à renda agregada. Ao destacar este ponto, estaremos preparando os estu-dantes para o Capítulo 3, em que Y desempenha dois papéis – o valor da produção e a renda potencial das famílias que detêm a propriedade dos fatores de produção. Como Y desempenha dois papéis, ele aparece dos dois lados da equação do equilíbrio do mercado de bens.
2. Observações empíricas
Entre 1960 e 1997, a participação dos serviços (em contraposição aos bens) no PIB nominal dos Estados Unidos aumentou de 39% para 54%. Algumas explicações quanto ao crescimento mais len-to da produtividade e o aumenlen-to da desigualdade destacam o aumenlen-to na participação dos serviços. Por outro lado, em termos de dólares encadeados em 1992, a participação dos serviços no PIB se manteve a mesma naquelas duas datas (52%). O uso da metodologia do encadeamento resultou em diferenças nos cálculos. Nos velhos cálculos, alicerçados no ano-base, a participação dos serviços, em dólares de 1982, era de 45% em 1960 e de 51% em 1993. Com a nova metodologia, encadeada, os dados passaram para 52% em 1960 e 54% em 1993. Naturalmente, essas alterações também re-fletem revisões nos dados brutos do PIB (Fonte: Economic Report of the President, 1995, 1999).
Capítulo 3. O mercado de bens
I. Pergunta motivadora
Como se determina o produto no curto prazo?
O produto é determinado pelo equilíbrio no mercado de bens, isto é, pela situação em que a oferta (produção de bens) seja igual à demanda. Esta condição sempre determina o produto, mas no curto prazo, pressupomos que a oferta de bens seja perfeitamente elástica em relação ao preço. Assim, no curto prazo, o produto é efetivamente determinado pela demanda. Além disso, neste capítulo o in-vestimento é considerado uma variável independente da taxa de juros de modo que não há necessi-dade de considerar o equilíbrio simultâneo no mercado de bens e no mercado financeiro.
II. Por que a resposta é importante
A determinação do produto é a principal questão em jogo na teoria macroeconômica. Este capítulo apresenta o modelo da cruz keynesiana, que vê o mercado de bens isoladamente. A cruz keynesiana permite intuir a formulação e resolução do modelo, a determinação do produto e o papel da política fiscal. Os resultados qualitativos, de curto prazo, geralmente sobrevivem em modelos mais compli-cados. O Capítulo 4 examina os mercados financeiros isoladamente e no Capítulo 5 os dois merca-dos, de bens e financeiro, são combinados para constituir o lado da demanda da economia.
III. Ferramentas, conceitos e hipóteses fundamentais
1. Ferramentas e conceitos
a. O capítulo apresenta a notação funcional. Um apêndice expõe funções com maiores detalhes. b. O capítulo apresenta a terminologia da modelagem: variáveis exógenas e endógenas,
equa-ções de comportamento, identidades e condiequa-ções de equilíbrio.
c. O capítulo descreve o modelo da cruz keynesiana e termos associados, como propensão (marginal) a consumir, renda disponível e gastos autônomos.
d. O capítulo apresenta a política fiscal.
2. Hipóteses
a. O texto pressupõe que a economia gera um único bem. No livro, esta hipótese é mantida du-rante a maior parte do trabalho.
b. Após apresentar a identidade da renda nacional, o texto trata da economia fechada. Esta hi-pótese é mantida até o Capítulo 18.
c. Para a análise formal de curto prazo, o texto pressupõe que a produção ajusta-se automatica-mente, sem variações no preço, isto é, que a curva da oferta é perfeitamente elástica em relação ao preço. Esta hipótese implica um nível fixo de preços. Embora este capítulo não trate do nível
de preços, é conveniente esclarecer a hipótese dos preços fixos antes de tratar da curva LM nos Capítulos 4 e 5. Esta hipótese será mantida até o Capítulo 6.
d. Dentro do contexto do curto prazo, a hipótese fundamental do capítulo é que o investimento não responde à taxa de juros. Isto isola o mercado de bens, do mercado financeiro. A hipótese será relaxada no Capítulo 5.
e. Na verdade, o capítulo vai além e pressupõe que o investimento seja exógeno. Não depende do produto, nem há investimento em estoques, planejados ou não planejados. O Capítulo 5 apresenta a dependência do investimento em relação ao produto. Este capítulo apresenta, ver-balmente, as implicações dinâmicas de um ajustamento não planejado nos estoques, embora não o faça de modo profundo.
IV. Sumário do conteúdo
1. Composição do PIB
Do lado das despesas, o PIB pode ser decomposto em consumo (C), gasto do governo (G), investi-mento fixo (I), exportações líquidas (X-Q) e investiinvesti-mento em estoques (Is).
2. Demanda por bens
Imagine que só haja um bem, e utilize a decomposição do PIB para pensar na demanda por esse bem. Considere que a economia seja fechada, de modo que as exportações líquidas sejam iguais a zero, e ignore o investimento em estoques, que geralmente é uma pequena parte do PIB. Então a demanda (Z) pode ser representada por
Z = C + I + G (3.1)
Faça o consumo uma função linear da renda disponível (YD), que é a renda menos os impostos (T):
C = c0+ c1(YD) = c0+ c1(Y – T) (3.2)
O parâmetro c0, que representa o quanto será consumido mesmo que a renda disponível seja zero, é denominado consumo autônomo. O parâmetro c1, que representa o aumento do consumo para cada unidade adicional de renda disponível, é denominado de propensão (marginal) a consu-mir. Suponha que as famílias não consumam cada dólar de sua renda adicional, poupando parte, de modo que 0 <c1<1.
Considere que o investimento seja exógeno e chame-o de I. Imagine que os gastos do governo e os impostos sejam exógenos e controlados pelas autoridades fiscais. Substitua por consumo e inves-timento. Pode-se então escrever a demanda como:
Z = c0+ c1(Y – T) + I + G (3.3)
3. Determinação do produto de equilíbrio
O produto é determinado pelo equilíbrio no mercado de bens. A condição de equilíbrio é que a pro-dução seja igual à demanda. Imagine, por enquanto, que a propro-dução aumenta ou diminui com a de-manda, sem qualquer variação nos preços. Formalmente, suponha que a produção seja infinitamen-O mercado de bens 13
te elástica em relação ao preço. Assim, no curto prazo, o produto é totalmente determinado pela demanda. Portanto, podemos escrever a condição de equilíbrio Y = Z, como
Y = c0+ c1(Y – T) + I + G (3.4)
A variável Y aparece em ambos os lados da equação. Do lado esquerdo, Y representa a produção. Do lado direito, a renda nacional. O Capítulo 2 explicou por que essas duas variáveis são iguais. O ob-jetivo deste modelo é determinar Y, uma variável endógena. Para resolver o modelo é necessário es-crever Y como função das variáveis exógenas, isto é, aquelas que são determinadas fora do modelo.
Y = [1/(1–c1)][c0–c1T + I +G] (3.5)
A equação (3.5) mostra a solução algébrica e a Figura 3.1 a solução gráfica. No gráfico, o equilí-brio ocorre no ponto em que a demanda (a curva ZZ) cruza a linha de 45º (isto é, a linha ao longo da qual Y = Z).
A renda de equilíbrio é o produto de dois fatores – o gasto autônomo (o segundo termo entre colchetes da equação (3.5) e um “multiplicador” (o primeiro termo entre colchetes). Considere que o gasto autônomo seja positivo1, o que (como c
1< 1) será verdade a menos que o superávit
orça-mentário, T – G, seja muito grande. O multiplicador, que depende do valor da propensão a consu-mir, aparece porque o consumo é afetado pela renda. Considere que haja um aumento no consumo autônomo – digamos devido a um aumento na confiança dos consumidores. O aumento inicial do consumo, decorrente da elevação de c0, provoca um aumento na renda. Este aumento na renda pro-voca novo aumento no consumo, o que propro-voca outro aumento da renda e assim por diante. Assim, o aumento inicial na confiança dos consumidores é “multiplicado”. O efeito multiplicador capta este efeito. O texto apresenta um modo mais formal de pensar no multiplicador como o limite de uma série de aumentos fracionários no consumo. Um quadro mostra também que uma queda na confiança dos consumidores foi responsável pela recessão de 1991.
Figura 3.1: Equilíbrio no mercado de bens
14 O mercado de bens
1Observe que esta suposição implica que a curva ZZ corta o eixo vertical num ponto maior do que zero. A restrição que c1< 1, implica que a curva ZZ corta a linha de 45º.
Ponto de equilíbrio Demanda (Z ), Produção (Y ) Renda, Y Y Y Gasto autônomo Inclinação = C1 ZZ Demanda Y = Z 45º
4. Investimento igual à poupança: uma forma alternativa de pensar
sobre o equilíbrio do mercado de bens
A poupança privada é definida como renda disponível menos consumo, ou
S = Y – T – C (3.6)
Partindo desta definição, podemos expressar a condição de equilíbrio do produto (Y = C + I + G) como sendo:
I = S + (T – G) (3.7)
Numa economia fechada, o investimento é igual poupança (dos consumidores) privada (S) mais a poupança do governo (T – G). A quantidade T – G é denominada superávit orçamentário. A quan-tidade (G – T) é denominada déficit orçamentário.
5. O governo será realmente onipotente? Uma advertência
A condição de equilíbrio do produto (3.5) parece implicar que o governo, ao escolher G e T, tem controle total sobre o nível do produto. O texto destaca que neste capítulo só é feita uma análise preliminar da política fiscal. Capítulos posteriores deixaram claras muitas limitações à capacidade de o governo controlar o produto por meio de gastos e impostos.
6. Apêndice: uma introdução à econometria
O Apêndice 3 faz uma apresentação informal dos mínimos quadrados ordinários e das variáveis ins-trumentais e estima a propensão marginal a consumir, de acordo com cada um dos métodos.
V. Didática
1. Pontos a esclarecer
a. Na fala comum, o termo investimento é usado em geral para indicar a aquisição de um ativo financeiro. Em macroeconomia, “investimento” refere-se em geral ao investimento fixo, defi-nido como a aquisição de um bem de capital físico recentemente produzido. Além disso, em ge-ral “investimento” refere-se apenas ao investimento em capital físico das empresas, e não ao in-vestimento fixo residencial – a compra de imóveis novos para a família.
b. O capítulo pressupõe que a economia produz apenas um item e o chama de “bem”. Contudo, o modelo não se limita aos bens físicos em oposição a serviços. Muitas vezes se usa “bens” para falar tanto de bens físicos quanto de serviços.
2. Seqüência alternativa
Para simplificar, considera-se que o investimento seja exógeno. O Capítulo 5 descreve os efeitos do produto e da taxa de juros sobre o investimento ao expor o modelo IS-LM. Uma alternativa seria apresentar, já neste capítulo, a dependência do investimento na taxa de juros e então pressupor uma taxa de juros fixa. Dado que considerar uma taxa de juros fixa é essencialmente equivalente a pres-supor que o investimento seja exógeno, esta abordagem afasta um passo (possivelmente) desneces-O mercado de bens 15
sário no desenvolvimento da estrutura IS-LM. Isso também permite tratar precocemente dos efei-tos de variações na taxa de juros sobre o produto, como uma preparação à dedução da curva IS. Por outro lado, introduzir neste ponto de taxa de juros complica a simplicidade da cruz keynesiana.
Poderíamos ir além e mostrar, também, que o investimento depende do produto. Conceitual-mente, este passo seria um pouco pesado para estudantes que estão vendo pela primeira vez a cruz keynesiana. Parece que é mais adequado começar com o impacto da taxa de juros sobre o investi-mento e então falar do impacto do produto.
3. Dinamização da aula
Este capítulo não trata explicitamente de experiências de política fiscal. Tratar deles em sala de aula reforça conceitos e oferece a oportunidade de relacionar o modelo a debates atuais de política eco-nômica. Por exemplo, os professores poderiam discutir os prováveis efeitos de uma redução dos im-postos para devolver às famílias parte do superávit orçamentário. Dependendo da situação econô-mica, o tema poderia ser retomado ao longo do curso. A reação do Fed poderia ser incorporada ao Capítulo 6 que desenvolve o modelo IS-LM; o impacto sobre o desemprego, no Capítulo 7, onde se examina o modelo AD-AS; e mais adiante no Capítulo 8, quando se trata da curva de Phillips. Con-tudo, os professores devem ter em mente que exemplos de política econômica rapidamente ficam datados nas mentes dos jovens estudantes de graduação.
VI. Extensões
1. Modelos macroeconômicos
Alguns professores podem querer complementar a exposição relativa à construção de modelos apresentada no texto fazendo a distinção entre forma estrutural e forma reduzida dos mesmos e ex-plicando a exigência de que o número de equações seja igual ao número de variáveis exógenas. A forma estrutural de um modelo organiza seus postulados quanto a comportamento, definições e condições de equilíbrio. A forma reduzida de um modelo expressa as variáveis endógenas do mes-mo, em termos de variáveis exógenas. O número de equações deve ser igual ao número de incógni-tas se desejamos que ofereça uma explicação completa (não indeterminada) e coerente (não sobre-determinada) do fenômeno em pauta.
2. Investimento em estoques
Como foi observado na Seção III, além de algumas poucas palavras, o modelo formal deste capítulo deixa de lado o investimento em estoques. Isso simplifica a apresentação e permite identificar a de-manda agregada às vendas finais. Como alternativa, o professor poderia apresentar e fazer distinção entre investimento em estoques desejado e indesejado e caracterizar o equilíbrio no mercado de bens pela condição de que o investimento indesejado em estoques seja igual a zero. Nesta aborda-gem, de modo geral a demanda agregada não é igual às vendas finais.
3. Política fiscal
O texto omite várias questões comuns de política fiscal, incluindo o multiplicador do orçamento equilibrado, o papel do imposto de renda e o superávit de pleno emprego como indicador de políti-ca fispolíti-cal.
Os resultados do multiplicador do orçamento equilibrado ajudam a ilustrar o conceito de multi-plicador. O efeito imediato de um aumento em G é aumentar, no mesmo montante, o produto. Se, contudo, os impostos aumentarem tanto quanto G, não haverá impacto sobre a renda disponível
(Y-T) e, portanto, nenhuma repercussão sobre o consumo. Assim, o processo do multiplicador se in-terrompe após o efeito inicial sobre o produto. Em outras palavras, o multiplicador do orçamento equilibrado é igual a um.
A introdução do imposto de renda, definindo T como T = t0+t1Y, implica uma revisão do
mul-tiplicador (para 1/[1-c1(1-t1)]) e, portanto, reforça a noção de que o multiplicador não é uma
cons-tante por natureza, mas sim que depende da estrutura do modelo. Além disso, a introdução do im-posto de renda ilustra o papel do orçamento federal como estabilizador automático e conduz naturalmente a uma apresentação antecipada dos efeitos de uma emenda de orçamento equilibrado numa reforma tributária. Finalmente, ao demonstrar que o orçamento do governo tem um compo-nente endógeno, o acréscimo do imposto de renda ao modelo levanta questões relativas ao uso do superávit fiscal como indicador de política fiscal.
Este último ponto motiva debates relativos ao superávit de pleno emprego como indicador al-ternativo de política fiscal. O superávit de pleno emprego é uma extensão do superávit fiscal co-mum que tenta dar conta dos componentes cíclicos do orçamento do governo. Contudo, também tem suas limitações; por exemplo, não reflete os diferentes efeitos dos gastos e da tributação sobre as despesas autônomas.
VII. Observações
1. Observações conceituais
i. Os gastos do governo incluem a compra de bens e serviços recém-produzidos, mas não os
de-sembolsos totais do governo. As transferências, em particular – pagamentos da seguridade so-cial e os juros sobre a dívida pública –, estão excluídas. Observe-se ainda que os gastos do gover-no incluem desembolsos em todos os níveis do govergover-no (federal, estadual e municipal) e que parte dos gastos destina-se a bens de capital. Do mesmo modo, os impostos não incluem transfe-rências e consideram a arrecadação de todos os níveis do governo.
ii. As importações são subtraídas do PIB, no lado das despesas, porque as categorias de despesas
abrangem todas as despesas, incluindo aquelas em bens e serviços estrangeiros. Para isolar as despesas em bens e serviços produzidos internamente é necessário subtrair as importações. Do mesmo modo, as exportações são somadas porque representam gastos em bens e serviços pro-duzidos internamente.
2. Observações empíricas
O consumo responde por algo em torno de dois terços do PIB nominal (68% em 1997).
Capítulo 4. Mercados financeiros
I. Pergunta motivadora
No curto prazo, como a taxa de juros é determinada?
A taxa de juros é determinada pelo equilíbrio no mercado de moeda, isto é, pela condição de que a oferta de moeda seja igual à sua demanda. Como o texto ignora todos os ativos, exceto títulos da dí-vida e dinheiro, o equilíbrio no mercado financeiro é equivalente ao equilíbrio no mercado de títu-los de dívida. Neste capítulo, a renda nominal é considerada como dada, de modo que não é preciso preocupar-se com equilíbrio simultâneo nos mercados de bens e financeiro.
II. Por que a resposta é importante
O investimento é função da taxa de juros (como se verá no Capítulo 5), de modo que o produto é afetado pela taxa de juros. Além disso, a determinação da taxa de juros está estreitamente relaciona-da com a política monetária. Este capítulo considera o PIB nominal, que afeta a demanrelaciona-da por moe-da, como dado, de modo que os mercados financeiros podem ser observados isoladamente do mer-cado de bens. O Capítulo 5 tratará da determinação conjunta do produto e da taxa de juros, no curto prazo.
III. Ferramentas, conceitos e hipóteses fundamentais
1. Ferramentas e conceitos
a. O capítulo define variáveis de estoque e de fluxo e distingue riqueza (um estoque) de renda (um fluxo).
b. O capítulo apresenta a política monetária e descreve as operações de mercado aberto. c. O capítulo recorre aos balancetes do Banco Central e dos bancos privados.
d. O capítulo apresenta vários termos e conceitos associados ao sistema bancário. Dentre eles podemos mencionar dinheiro, depósitos à vista, reservas, moeda do Banco Central (moeda de
alta potência, a base monetária), e o multiplicador da moeda.
2. Hipóteses
i. O capítulo pressupõe que o PIB nominal seja dado. Mais exatamente, o capítulo mantém a
hipó-tese do nível de preços fixo do Capítulo 3 e acrescenta a hipóhipó-tese de que a renda real seja dada. O Capítulo 5 tratará da determinação conjunta da taxa de juros e da renda real.
ii. Para clareza, o capítulo supõe que dinheiro, ou moeda manual, e títulos de dívida são os
úni-cos ativos disponíveis e que o dinheiro não rende juros. Na seção em que trata do sistema bancá-rio, a moeda se divide em dinheiro e depósitos à vista. A hipótese de que o dinheiro não rende juros é mantida em todo o livro, exceto por alguns breves comentários e exercícios. Os capítulos posteriores tratarão de outros ativos financeiros – ações e títulos com diferentes prazos de ven-cimento – e capital físico.
IV. Sumário do conteúdo
1. Moeda versus títulos
Imagine que o mercado financeiro só inclua dois ativos – moeda, que pode ser utilizada para a aqui-sição de bens e serviços e não rende juros, e títulos que não podem ser utilizados em transações mas que rendem uma taxa de juros positiva, i. A riqueza financeira é igual à soma de moeda e títulos.
A riqueza financeira é uma variável de estoque, isto é, uma variável cujo valor pode ser medido em qualquer ponto do tempo. A riqueza financeira de uma pessoa varia ao longo do tempo pela poupança e pela despoupança, mas em qualquer momento dado a riqueza financeira é fixa. A pou-pança é uma variável de fluxo, isto é, uma variável cujo valor só tem sentido se expressa por unidade de tempo. A renda também é um fluxo. Falamos de renda anual ou renda mensal.
A cada momento, as famílias precisam decidir como alocar sua dada riqueza financeira entre moeda e títulos. Como a riqueza financeira é fixa, uma vez conhecida a riqueza financeira, também conhecemos a demanda por títulos, e vice-versa. Assim, o capítulo restringe nossa atenção à deman-da por moedeman-da.
Por hipótese, a moeda é necessária para as transações. Embora seja difícil medir o nível geral das transações da economia, parece razoável considerar que o nível de transações seja proporcional à renda nominal, denotada por $Y. Portanto, a demanda por moeda deveria ser proporcional a $Y. Por outro lado, quando se aloca riqueza à moeda, abre-se mão dos juros. Em conseqüência, a de-manda por moeda deveria diminuir com o aumento da taxa de juros. Relacionando estas observa-ções, o capítulo especifica que a demanda por moeda é
Md= $YL(i) (4.1)
onde a função L diminui com o aumento da taxa de juros.
2. Determinação da taxa de juros I
Imagine que toda a moeda seja dinheiro; logo, não há nem depósitos à vista nem bancos. Considere que a oferta de moeda esteja sob total controle do Banco Central e que a renda nominal seja dada. Então o equilíbrio no mercado financeiro ocorre quando a oferta de moeda (M) é igual à demanda por moeda (Md) dada na equação (4.1). A Figura 4.1 ilustra a solução.
Um aumento na oferta de moeda desloca a linha vertical para a direita, resultando num novo equilíbrio a uma taxa de juros menor. A fim de induzir o setor privado a deter mais moeda, os títulos devem se tornar menos atrativos (a taxa de juros deve cair). Um aumento na renda nominal (para dada oferta de moeda) desloca a curva de demanda para a direita e determina um novo equilíbrio a uma taxa de juros mais elevada. O aumento da renda nominal aumenta a demanda por moeda à taxa de juros original. Uma vez que a oferta de moeda não se altera, algo deve ocorrer para compensar o aumento na demanda. O aumento na taxa de juros torna os títulos mais atraentes e compensa o au-mento na demanda por moeda provocado pelo auau-mento da renda.
Como o Banco Central controla a oferta de moeda? Considere o balancete do Banco Central. O dinheiro em poder do público constitui o passivo do Banco Central. Os ativos do Banco Central são os títulos que este possui. Para aumentar a oferta de moeda, o Banco Central cria dinheiro para comprar títulos, aumentando assim seus ativos (mediante o acréscimo de títulos) e passivos (me-diante a nova moeda criada e sua troca por títulos). Para reduzir a oferta de moeda, o Banco Central vende títulos em troca do dinheiro existente, reduzindo assim os ativos (pela venda dos títulos) e os passivos (pela redução do dinheiro em poder do público em geral). As compras e vendas de títulos do Banco Central são chamadas operações de mercado aberto.
Figura 4.1: Equilíbrio no mercado de moeda
3. Determinação da taxa de juros II
Amplie a definição de moeda a fim de incluir dinheiro (CU), mais depósitos à vista (D). Defina moe-da do Banco Central (também conhecimoe-da como moemoe-da de alta potência ou base monetária) como H
= CU+R, onde R representa as reservas bancárias. Supondo que o público mantém uma proporção
fixa, c, de moeda sob a forma de dinheiro e que os bancos mantenham uma fração fixa, q dos depósi-tos, como reserva, reescreva a base monetária como
H = CU+R = cMd+q(1-c)Md= [c+q(1-c)]$YL(i)
O que implica que
M =H/[c+q(1-c)] = $YL(i) (4.2)
A expressão 1/[c+q(1-c)] é denominada multiplicador monetário. A oferta de moeda é igual à moeda do Banco Central vezes o multiplicador. Como se considera que c e q não variam, o Banco Central pode controlar a oferta de moeda controlando H. A oferta de moeda é uma reta vertical no espaço M-i, e a análise do mercado financeiro pode prosseguir conforme a Figura 4-1.
V. Didática
1. Pontos a esclarecer
Provavelmente, será prudente considerar que muitos estudantes de graduação nunca viram um ba-lancete. Algumas palavras explicativas serão úteis.
20 Mercados financeiros Ta xa de jur os ,i Ms M = $YL( )d i M Moeda, M
2. Seqüência alternativa
A taxa de juros não foi incluída na apresentação do mercado de bens (Capítulo 3). Portanto, neste ponto do texto, parece que a taxa de juros está separada da determinação do produto real. Como foi visto na Seção V do Capítulo 3 do Manual do Professor, uma alternativa é apresentar a dependência do investimento da taxa de juros já no Capítulo 3, e pressupor uma taxa de juros fixa.
Outra opção é apresentar parte do conteúdo do Capítulo 26, dedicado à política monetária, já nas aulas dedicadas ao presente capítulo. Alguns dos fatos básicos sobre a estrutura da reserva fede-ral podem ser úteis para orientar os estudantes. Além disso, o professor pode preferir apresentar a taxa de redesconto como uma ferramenta de política monetária e distingui-la de outras ferramentas – operações de mercado aberto e exigência de reservas. Os professores podem também tratar do ex-cesso de reservas e da taxa de juros dos fundos federais.
3. Dinamização da aula
A experiência mostra que os estudantes de graduação se interessam mais por conteúdos relaciona-dos aos mercarelaciona-dos financeiros do que ao produto, à inflação e ao desemprego principalmente quan-do a inflação ou o desemprego são reduziquan-dos. Um debate relacionanquan-do o conteúquan-do quan-do capítulo à po-lítica monetária atual (talvez com alguma rápida menção à reação das bolsas a essa popo-lítica) poderia interessar os estudantes.
Outra sugestão é trazer para a aula a seção de taxa de juros de algum jornal econômico. Além de tornar essas informações um pouco mais acessíveis aos estudantes, esta estratégia daria oportunida-de oportunida-de se falar na relação inversa, entre preços e taxa oportunida-de juros. Essa relação consta do texto.
VI. Extensões
1. Restrição do balanço
Para esclarecer a relação entre o mercado de títulos e o equilíbrio no mercado de moeda, pode ser interessante explicitar mais um pouco as implicações da restrição do balanço. Esta restrição pode ser assim definida
Md+Bd= Riqueza financeira = M+B, ou
(Md– M) = (B – Bd)
Em outras palavras, o excesso de demanda por moeda deve ser igual ao excesso de oferta de tí-tulos. Quando um dos mercados se ajusta, o outro também deve se ajustar.
2. Função de demanda por moeda
Este capítulo pressupõe uma função de demanda por moeda na forma Md= $YL(i) = PYL(i). Uma
alternativa mais geral seria Md= L($Y, i). A forma funcional considerada no capítulo permite uma
rápida conversão para demanda real de moeda através da divisão da expressão pelo nível de preços. A apresentação de uma forma mais geral exige explicar aos estudantes que a demanda por moeda deveria ser homogênea de grau um em P. Por outro lado, essa alternativa torna claro o que está sen-do pressuposto, e reforça o entendimento de uma prática básica de economia, a saber, a seleção de formas funcionais convenientes.
VII. Observações
1. Observações conceituais
a. O capítulo trata de decisões de portfólio do público não-bancário. A oferta de moeda refe-re-se à quantidade de moeda em mãos do público não-bancário (isto é, nem governo, nem Ban-co Central, nem banBan-cos Ban-comerciais).
b. A demanda de moeda refere-se a uma decisão de portfólio, a quantidade de riqueza dada que o público não-bancário deseja manter sob forma de moeda, em oposição a títulos. A demanda por moeda não se refere à demanda por renda ou por riqueza.
c. O Banco Central não cria títulos, apenas moeda. Conduz operações de mercado aberto com títulos do governo. O estoque de títulos do governo, em circulação, é a dívida do governo (na linguagem popular, nacional), que é conseqüência de déficits fiscais passados. As operações em mercado aberto rateiam esta dívida entre o Banco Central e o setor privado.
2. Observações empíricas
a. O texto observa que a relação de M1 para o PIB nominal caiu de 27% em 1960 para 13% em 1997. No mesmo período, a razão de M2 para o PIB nominal também caiu (de 59% para 50%), mas a relação entre M3 e o PIB nominal aumentou (de 60% para 66%). Esses agregados mone-tários são mencionados neste capítulo e tratados com mais profundidade no Capítulo 26. b. Como observa o texto, o Fed pode fixar o coeficiente de reservas entre 7% e 22%. Atualmen-te, esse coeficiente é de cerca de 10%.
c. Em julho de 1999, o dinheiro respondia por cerca de 44% de M1. (Fonte: Federal Reserve Release H.6) Junto com um coeficiente de reservas de 10%, isto implica 0um multiplicador mo-netário de cerca de 2.
Capítulo 5. Mercados de bens e
financeiros: a IS-LM
I. Pergunta motivadora
Como produto e taxa de juros são determinados simultaneamente no
curto prazo?
O produto e a taxa de juros são determinados pelo equilíbrio simultâneo nos mercados de bens e fi-nanceiro. No curto prazo, supomos que a oferta seja infinitamente elástica em relação ao preço (isto é, o preço é fixo), de modo que o produto é determinado pela demanda.
II. Por que a resposta é importante
A determinação do produto é a questão fundamental da macroeconomia. A taxa de juros afeta o produto (por meio do investimento) e o produto afeta a taxa de juros (por meio da demanda por moeda), por isso é necessário considerar a determinação simultânea do produto e da taxa de juros.
III. Ferramentas, conceitos e hipóteses fundamentais
1. Ferramentas e conceitos
i. O capítulo apresenta o modelo IS-LM.
ii. O capítulo apresenta a opção da escolha de combinações de políticas alternativas para atingir
objetivos macroeconômicos.
iii. O capítulo apresenta o uso de “+” e “–“ acima (ou abaixo) dos argumentos de uma função
para indicar o efeito de um aumento no valor do argumento sobre o valor da função.
2. Hipóteses
i. O capítulo mantém as hipóteses de preços fixos dos capítulos anteriores, mas relaxa as
hipóteses de que o investimento independe da taxa de juros (como considerava o Capítulo 3) e de que a renda nominal é dada (mantida no Capítulo 4). Agora o investimento depen-de do produto. O que este capítulo procura mostrar é como se relacionam os mercados depen-de bens e financeiro e, portanto, como o produto e a taxa de juros são determinados simulta-neamente.
ii. O capítulo continua pressupondo que o investimento em estoques é nulo e que a economia é
fechada.
IV. Sumário do conteúdo
1. O mercado de bens e a relação IS
Primeiro, relaxe-se a hipótese de que o investimento é endógeno. Em termos do modelo exposto até aqui, o investimento deveria depender de dois fatores: vendas e taxa de juros. Uma empresa que se depara com aumento das vendas terá que comprar novas instalações, equipamentos, ou ambos, para aumentar a produção. Conseqüentemente, o investimento aumenta quando aumentam as ven-das. Um aumento na taxa de juros aumentará o custo dos empréstimos necessários para a compra de novas instalações e equipamentos. Então, o investimento diminui quando a taxa de juros aumenta. Estes pontos descrevem uma função de investimento da seguinte forma:
+ –
I = I(Y, i) (5.1)
Embora a exposição sugira que o investimento depende mais das vendas do que da renda, o in-vestimento continua mantendo a hipótese de que o inin-vestimento em estoques é nulo, de modo que a renda seja igual às vendas.
Com a função de investimento revista, a condição do equilíbrio no mercado de bens, em uma economia fechada, se torna
Y = C(Y–T)+I(Y,i)+G (5.2)
Dada a taxa de juros, a análise da cruz keynesiana do Capítulo 3 se mantém com duas ressalvas. Primeiro, a demanda por bens e serviços (o lado direito da equação (5.2)) não é mais linear. Segun-do, para assegurar o equilíbrio (isto é, que a curva ZZ cruze a reta de 45º) é necessário uma pressu-posição adicional. Para este propósito uma hipótese suficiente é que a soma da propensão (margi-nal) a consumir e a propensão (margi(margi-nal) a investir sejam menores do que um.
A equação (5.2) é denominada relação IS, porque (como mostra o Capítulo 3) o equilíbrio no mercado de bens equivale à condição de que o investimento seja igual à poupança. Para plotar uma curva IS, comece pela cruz keynesiana a uma taxa de juros dada, depois varie essa taxa. Uma redu-ção na taxa de juros aumenta o nível dado de investimento para qualquer nível de produto, e por-tanto desloca para cima a curva ZZ. Em conseqüência, o produto aumenta. Deste modo, a curva IS tem uma inclinação negativa no espaço Y-i (Figura 5.1).
2. Mercado financeiro e relação LM
Comece pela condição de equilíbrio no mercado de moeda do Capítulo 4, a renda nominal pode ser representada por PY (onde P é o nível de preços) e divida por P para obter a condição de equilíbrio em termos reais:
M/P = YL(i) (5.3)
O equilíbrio no mercado real de moeda é representado pelo mesmo gráfico apresentado no Ca-pítulo 4, mas a oferta nominal de moeda (M/P) é substituída pela oferta real de moeda (M). O capítu-lo mantém a hipótese do preço fixo e, exceto por detalhes de política monetária, considera que M seja controlada pelo Banco Central.
A equação (5.3) é chamada de relação LM (Liquidez-Moeda). Para representá-la graficamente comece com o gráfico do equilíbrio do mercado financeiro e varie Y. O Capítulo 4 demonstrou que um aumento na renda nominal aumenta a taxa de juros. Como os preços são dados, é óbvio que um aumento na renda real terá o mesmo efeito. Portanto, a curva LM tem uma inclinação positiva no espaço Y-i (Figura 5.1).
3. O modelo IS-LM: exercícios
Os valores de equilíbrio de i e de Y são aqueles que satisfazem simultaneamente às condições de equilíbrio do mercado de bens (5.2) e financeiro (5.3). Graficamente, esses valores são determina-dos pelo ponto de interseção de IS e de LM, como ilustra a Figura 5.1.
Figura 5.1: Modelo IS-LM
As variações nos valores de equilíbrio do produto e da taxa de juros (Y* e i*) só são atingidas em conseqüência de deslocamentos da curva IS, da curva LM, ou de ambas. Um aumento na oferta de moeda, que desloca para a direita a curva LM, aumenta o produto de equilíbrio e reduz a taxa de ju-ros de equilíbrio. Um aumento nos impostos (ou uma redução nas despesas do governo), que deslo-ca a curva IS para a esquerda, reduz o produto de equilíbrio e a taxa de juros de equilíbrio. O texto destaca que um aumento nos impostos terá um efeito ambíguo sobre o investimento, pois o efeito sobre o produto tende a reduzir o investimento mas o efeito da taxa de juros tende a aumentá-lo. De modo mais geral, embora a redução do déficit aumente a poupança pública (do governo), não au-menta necessariamente o investimento, porque a poupança privada é endógena.
4. Uso de uma combinação de políticas
O texto considera as conseqüências da combinação de políticas fiscais e monetárias por meio de dois exemplos. A redução do déficit no primeiro mandato do presidente Clinton oferece um exem-plo de política fiscal contracionista combinada a política monetária expansionista. A reunificação alemã oferece um exemplo de política fiscal acoplada à política fiscal contracionista.
Mercados de bens e financeiros: a IS-LM 25
Produto, Y LM IS Ta xa de jur os ,i i* Y*
5. Dinamizando a descrição
Para apresentar dinâmica, o texto considera que o mercado financeiro ajusta-se às perturbações muito mais rapidamente do que o mercado de bens. Mais exatamente, o texto supõe que a econo-mia sempre opera na curva LM, mas que pode operar fora da curva IS enquanto se ajusta a um novo equilíbrio. Assim, se houver um deslocamento da curva IS (mas a curva LM se mantiver invariável), a economia se moverá gradualmente ao longo da curva LM, do equilíbrio inicial para o novo equilí-brio. Se a curva LM se deslocar (sem que IS se mova), a taxa de juros imediatamente pulará para a nova curva LM. Com o correr do tempo, a economia deslizará ao longo da nova curva LM até che-gar ao novo equilíbrio. Está última análise implica que uma mudança na política monetária (ou qualquer deslocamento da curva LM) levará a taxa de juros a ultrapassar* seu equilíbrio final. O ca-pítulo observa este fato, sem usar o termo ultrapassagem, que só será apresentado no Caca-pítulo 21, onde se discutem taxas de câmbio.
6. O modelo IS-LM capta realmente o que ocorre na economia?
Como prova da relevância empírica do modelo IS-LM, o texto comenta os resultados apresentados em Christiano, Eichenbaum e Evans, “The Effects of Monetary Policy Shocks: Evidence From the Flow of Funds”, em Review of Economics and Statistics, fevereiro de 1996. O artigo descreve as res-postas dinâmicas de várias importantes variáveis macroeconômicas, ao aumento de 1% na taxa de juros interbancária.
V. Didática
1. Pontos a esclarecer
É fácil para os economistas experientes passar por cima da sutileza do modelo IS-LM. Os estudantes de graduação que cursam uma disciplina de macroeconomia de nível intermediário estão apenas apreendendo a noção de equilíbrio num único mercado, portanto o equilíbrio simultâneo em dois mercados ainda lhes é estranho. Dois pontos de ordem geral merecem atenção especial.
Primeiro, os estudantes precisarão de tempo para entender como funcionam as curvas IS e LM. É importante destacar que cada um dos pontos da curva IS representa um equilíbrio no mercado de bens e que cada ponto da curva LM é um equilíbrio no mercado financeiro. Em outras palavras, o nível de Y na curva IS associada a qualquer taxa de juros dada é resultante da interseção da cruz key-nesiana para essa taxa de juros. Do mesmo modo, o valor de i na curva LM associada a qualquer ní-vel de produto dado é o ponto onde se cruzam a demanda (real) por moeda e a oferta (real) de moe-da, no gráfico do equilíbrio do mercado financeiro.
Segundo, os estudantes podem ficar imaginando por que um aumento na taxa de juros não desloca a curva LM, uma vez que a taxa de juros afeta a demanda por moeda, ou a curva IS, uma vez que a taxa de juros afeta o investimento. Vale a pena destacar que as variáveis que aparecem nos eixos do diagrama não podem deslocar curvas nesse mesmo diagrama. Somente as variáveis que não aparecem nos eixos podem deslocar curvas. Além disso, no caso de IS-LM, as variáveis dos eixos são variáveis endógenas. Mudanças em variáveis exógenas, ou parâmetros, deslocam as curvas IS e LM.
26 Mercados de bens e financeiros: a IS-LM
* É o que o pessoal do mercado financeiro denomina muitas vezes de overshooting, recorrendo à expressão em inglês. (N. T.)
VI. Extensões
1. Parâmetros comportamentais, inclinação das curvas IS e LM
e eficácia das políticas
O texto não trata da inclinação das curvas IS e LM e da influência dos parâmetros comportamentais sobre a eficácia da política. Em relação à inclinação das curvas, quanto mais sensível for a demanda por moeda à relação entre renda e taxa de juros, tanto mais inclinada será a curva LM. De forma análoga, quanto mais sensível for a demanda por bens (C+I+G) à relação entre renda e taxa de ju-ros (por meio do investimento), tanto mais inclinada será a curva IS.
Quanto à eficácia das políticas, há duas opções para ressaltar os pontos básicos. A primeira é es-colher uma simples especificação linear e trabalhar a relação entre o efeito das políticas e dos parâ-metros comportamentais sobre o produto. A segunda é expor a questão de forma heurística. Por exemplo, considere um aumento nos gastos do governo e avance em três etapas.
a. Para cada taxa de juros dada, o efeito da política fiscal sobre o produto dependerá do multi-plicador, modificado agora para incluir o investimento endógeno. Quanto maior o multiplica-dor, isto é, quanto mais sensíveis forem consumo e investimento ao produto, maior a resposta inicial do produto.
b. Como um aumento em G aumentará Y, elevará também a quantidade de moeda demandada a cada taxa de juros, e assim aumentará a taxa de juros, a fim de manter o equilíbrio no mercado financeiro. O aumento da taxa de juros será pequeno se a demanda por moeda não for muito sensível à renda, mas for muito sensível à taxa de juros. Se a demanda por moeda não for muito sen-sível à renda, então o excesso de demanda por moeda, provocado pela elevação de G, será pe-queno. Se a demanda por moeda for muito sensível à taxa de juros, o aumento na taxa de juros necessário para restaurar o equilíbrio no mercado financeiro será pequeno.
c. Finalmente, o aumento na taxa de juros tenderá a reduzir os investimentos e portanto a com-pensar parte do aumento inicial do produto. Este efeito será pequeno se o investimento não for muito sensível à taxa de juros.
Em resumo, a política fiscal terá um maior impacto sobre o produto quando o multiplicador for alto, a demanda por moeda não for muito sensível à renda, a demanda por moeda for muito sensível à taxa de juros e o investimento não for muito sensível à taxa de juros.
Pode-se fazer o mesmo exercício em relação à política monetária. Um aumento na oferta de moe-da afeta o produto ao reduzir a taxa de juros e aumentar o investimento. Portanto, um aumento na oferta de moeda tenderá a exercer grande impacto sobre o produto quando tiver um forte efeito so-bre a taxa de juros, o que será verdadeiro se a demanda por moeda não for muito sensível à taxa de juros. Esta terá um grande impacto sobre o produto quando o investimento for muito sensível à taxa de juros, o que reforça a resposta inicial do produto e, novamente, quando o multiplicador foir alto. O aumento no produto eleva a quantidade de moeda demandada a cada taxa de juros dada, e tende a elevar essa taxa, compensando parte do efeito inicial do aumento na oferta de moeda. Este efeito será pequeno quando a demanda por moeda não for muito sensível à renda.
Em suma, a política monetária terá maior impacto sobre o produto na medida em que a deman-da por moedeman-da não for muito sensível à taxa de juros, o investimento for muito sensível à taxa de ju-ros, o multiplicador for grande e a demanda por moeda não for muito sensível à renda.
Esses exercícios são relativamente sofisticados, mas eles deixam claras as relações entre merca-do de bens e mercamerca-do financeiro que se estabelecem por meio da taxa de juros.
2. Metas para a taxa de juros
Durante a maior parte deste capítulo, a política monetária é descrita implicitamente em termos de metas para a oferta de moeda. Contudo, os resultados da simulação descritos na Seção 5 referem-se Mercados de bens e financeiros: a IS-LM 27