• Nenhum resultado encontrado

2. O TRONCO DA ÁRVORE E SEUAS RAMIFICAÇÕES

2.3. Mestre Conselheiro Antônio Geraldo: do Centro Espírita Casa de Oração Jesus

2.3.2. Extensões do Centro Espírita Daniel Pereira de Mattos

Segundo Paskolli (2002), o Centro Espírita Daniel Pereira de Mattos, da linha de Antônio Geraldo estava em processo de expansão e contava com uma unidade42 no munícipio de Plácido de Castro, na fronteira com a Bolívia, chamado Centro Espírita São

42 Como reforçado por Araújo (1999), nem todas essas extensões tinham autorização para realizar todos os tipos de trabalhos espirituais, portanto, não podem ser consideradas ‘filiais’.

60

Francisco de Assis. Não encontrei menção a este centro em nenhum outro trabalho

publicado, no entanto, foi possível encontrar um perfil no Facebook43 desta unidade, e no campo da página ‘sobre’ foi possível encontrar as informações: “Comunidade Espírita localizada em Plácido de Castro - Acre, na Rua Wilson Carvalho, 254, Centro”. Além disso, a página no Facebook conta com uma série de vídeos e imagens recentes, que indica que o Centro continua funcionando ativamente.

Ainda, para Paskoali (2002) e Goulart (2004), fora fundado no ano de 1994, no Bairro Sobral, também em Rio Branco, uma unidade chamada Centro Espírita Santo

Inácio de Loyola, presidido por Antonio Inácio da Conceição Andrade. Poucas

informações sobre esta unidade estão disponíveis na literatura, mas este centro já é confirmado em outros trabalhos, como Goulart (2004) e Mercante (2012). Em alguns centros da Barquinha, “é somente o líder do centro que entra em transe para fornecer “atendimentos” e fazer a “caridade” sendo este o caso da unidade de Antônio Inácio (GOULART, 2004, P. 123).

Segundo Goulart (2004), Inácio conhecera a Barquinha quanto tinha dezoito anos, através do centro recém fundado por Antônio Geraldo, no ano de 1980. Os motivos do jovem ter procurado tais trabalhos estariam relacionados com um “chamado espiritual” e com o desenvolvimento de sua “mediunidade” (Ibid., p.169). A autora ainda explica que alguns elementos simbólicos e rituais são utilizados para demarcar “fronteiras e oposições entre os diferentes centros da Barquinha” e acabam se mostrando “importantes mecanismos no processo de disputa entre estes centros” (p. 168).

Este é o caso dos hinos ou salmos. Como esclarecemos anteriormente, eles possuem um caráter de mistério e segredo. Por isso, em todos os processos de ruptura ocorridos no interior da Barquinha os líderes dos grupos originais, isto é, das matrizes, procuraram impedir o acesso dos representantes de grupos dissidentes à letra e à partitura musical dos principais hinos desta religião. Como a sua presença é essencial para a realização dos rituais da Barquinha, isto cria situações bastante tensas (GOULART, 2004, p. 168)

A autora ainda aponta a “necessidade dos representantes das dissidências apresentarem seus próprios hinos para legitimarem os novos centros ou igrejas formados” (p. 169). No entanto, Francisca Gabriel44, ajudou Antonio Inácio quando este resolveu criar sua própria linha:

43https://www.facebook.com/barquinhapc/ (acessado em 21/03/2017

44 Uma das principais médiuns da missão da época de Daniel, e a primeira a receber autorização para incorporar. Também é a fundadora, em 1991, do Centro Espírita e Obras de Caridade Príncipe Espadarte, melhor apresentado a seguir.

61

Inácio admitiu que Francisca Gabriel lhe deu várias letras e partituras de hinos quando ele decidiu constituir seu próprio centro. Ele disse também que, embora o rompimento com Antônio Geraldo tenha ocorrido de forma “pacífica”, este se recusou a lhe dar quaisquer cópias dos hinos (GOULART, 2004, p.169)

Para Goulart (2004), alguns elementos foram fundamentais para a legitimação do centro de Antonio Inácio. Entre eles, podemos destacar “o fato de Inácio possuir o know-how técnico e ritual de confecção do chá [...] um elemento facilitador da legitimação de sua posição de líder de um centro dissidente” (Ibid., p. 170).

Essa legitimação acorreu também, como visto em outros contextos, através de mirações que reforçaram e validaram a ‘missão’ de Antonio Inácio, através, também, da presença de entidades e elementos simbólicos profundamente significativos para a comunidade da Barquinha, como visto nos relados colhidos pela autora do próprio Antonio Inácio:

Eu estava num trabalho alto45 ... lá com o Mestre Antônio Geraldo... foi um dos trabalhos mais altos que eu já tive (...) Foi aí que eu vi, na miração, o cruzeiro vindo do alto, brilhando como um cristal. Era um cruzeiro muito bonito que se movimentava no ar, por cima, como uma nave. Ele vinha baixando do alto, na minha direção, até que ele abriu no meio. Dentro do cruzeiro tinha uma espécie de cristal, era muita luz que saía de lá... E aí, um missionário saiu daquele cruzeiro e me entregou um livro aberto (...) E nesse livro estava tudo revelado. Foi assim que eu vi que tinha fazer a minha igreja (...) (GOULART, 2004, p.169)

E ainda:

Nessa época ele ainda não queria aceitar (...) Mas tinha que ser mesmo, eu via nos trabalhos que eu tinha que fazer esta igreja, era o que estava sendo revelado para mim. Então, não dava para negar (...) Mas o Antônio Geraldo sempre foi meu Mestre, meu professor, que me ensinou tudo (...) Quando cheguei na igrejinha, não tocava nada. Tudo eu aprendi com ele (...) E nos trabalhos veio a comprovação, a aprovação dele, do padrinho Antônio Geraldo (...) São Policarpo, que era o guia dele, apareceu para mim nas mirações, para aprovar o meu trabalho (...) Porque isso eu também fui entendendo pelos hinos, dentro da miração, que São Policarpo e Santo Inácio, que é a entidade que tem uma ligação comigo, já se conheciam desde um tempo muito antigo... Esse é o mistério (...) (GOULART, 2004, p.170)

Como também é possível perceber na entrevista, apesar da harmonia das dissidências, esta não “impede os vínculos entre os seres espirituais, os quais, em muitos casos, são cultuados, indistintamente, em centros matrizes e suas dissidências” (GOULART, 2004, p. 170). A autora ainda reforça esta reflexão com o exemplo da

62 entidade de Francisca Gabriel, Dom Simeão, que mesmo após a dissidência da mesma, e sendo incorporado por ela em seu novo espaço, continuou ‘baixando’ em outros médiuns do Centro de Manuel Araújo – informação, no entanto, não validada por Francisca e alguns adeptos (ver Mercante, 2002). Veremos, no entanto, mais informações sobre Chica Gabriel, seu centro e suas entidades à frente neste capítulo e no próximo.

Para encerrar, um último centro é mencionado na literatura como uma expansão do Centro Espírita Daniel Pereira de Mattos. Paskoali (2002) comenta a existência temporária de um centro em Brasília, que apesar de uma significativa quantidade de adeptos fora desativado em função do descumprimento de algumas regras do sistema religioso da matriz e também pela “dificuldade em transportar daime até o local” (p. 69).