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Familiar e estranho: da desfamiliarização

No documento Narrativas de regionalidade (páginas 150-166)

2. Da operatividade da teoria-crítica

2.2. Familiar e estranho: da desfamiliarização

―[A técnica de] Desfamiliarização é primeira à distinção de Regionalismo Crítico de outras formas de Regionalismo, na sua capacidade de criar um renovado, versus atávico, sentido de lugar no nosso tempo (...) A aproximação crítica da contemporânea arquitectura regionalista reage contra essa explosão de configurações

556 Dos já descritos, destaquem-se os presentes no texto mais recente de Frampton: Space/Place, Typology/Topography, Architectonic/Scenographic, Artificial/Natural e Visual/Tactile (1987, pp.20-27). Cf. FRAMPTON, Kenneth - Ten Points on an architecture of Regionalism: A Provisional Polemic. In: AAVV - Center, Center for the Study of American Architecture (The University of Texas, Austin) New Regionalism, vol. 3. Nova Iorque: Rizzoli Intemational Publications, 1987, pp. 20-27.

557 FU, Chao-Ching - REGIONAL HERITAGE AND ARCHITECTURE – a critical regionalist approach
to a new architecture for Taiwan. Ph.D. Thesis Edimburgo: University of Edimburgo, 1990, p. 205. Disponível em:

https://www.era.lib.ed.ac.uk/handle/1842/8372 Acesso em: 23 de Out. 2012.

558 Cf., entre outros textos, FRAMPTON, Kenneth [1987] - Ten Points on an architecture of Regionalism: A Provisional Polemic. In: CANIZARO, Vincent B. (ed.) - Architectural Regionalism – Collected writings on place, Identity, Modernity, and Tradition. Princeton: Princeton Architectural Press, 2007, pp. 382-383.

559 Reitere-se: uma acção de devolução e de autoconfrontação, sempre crítica e progressiva, plasmada num processo de (re)apropriação sincrético de uma realidade. Cf. Parte I. Da Região, ponto 1.2. Regionalidade.

regionalistas contrafeitas [verificável, por exemplo, no Regionalismo Romântico] pelo uso da desfamiliarização.‖561

No seguimento do inquirido no anterior capítulo, questione-se: de que maneira se declara a Forma-do-Lugar no pensamento e, consequentemente, no processo projectual em Arquitectura? A resposta a tais questões reside, uma vez mais, nas investigações de Lefaivre e de Tzonis. O Regionalismo Crítico interessa-se pela particularidade dos recursos de Região que funcionam com elementos de contacto e como comunidade, nos aspectos que definem a Forma-do-Lugar.562 Nesse âmbito, incorpora-os ‗estranhamente‘ em vez de o fazer de modo familiar, fazendo-os assomar como desconhecidos, afastados, difíceis e mesmo perturbadores. Suspende o ‗vínculo sentimental‘ entre os edifícios e os seus utilizadores, para ‗provocar a consciência563‘. Importa, antes de mais, reiterar a diferença entre Regionalismos. Assim, distinga-se o Crítico dos demais, sobretudo entre os de vocação Romântica, pois ao invés dos últimos, o Crítico descola-se do uso de citações acríticas e, nas palavras de Lefaivre e de Tzonis, ―contrafeitas‖ de entidades supostamente próprias de uma Região. Essa característica, primeira ao Regionalismo Crítico, evidencia-se através da técnica de interpretação modernista avante-garde de ‗singularização‘, „estranhamento‘ ou ‗desfamiliarização‘564. Contrastante com a familiarização – atitude ‗estática‘

561 Tradução nossa. No original: ―Defamiliarization is at the heart of what distinguishes critical regionalism from other forms of regionalism and its capability to create a renewed versus an atavistic, sense of place in our time (...) The critical approach of contemporary regionalist architecture reacts against this explosion of regionalist counterfeit setting by employing defamiliarization.‖ LEFAIVRE, Liane, TZONIS, Alexander – Chapter 1: Tropical Critical Regionalism: Introductory Comments. In: LEFAIVRE, Liane, TZONIS, Alexander, STAGNO, Bruno (editores)- Tropical Architecture: Critical Regionalism in the Age of Globalization. Londres: Wiley-Academy, 2001, pp 8-9.

562 Ibidem, loc. cit. 563 Ibidem, loc. cit.

564 Cf. nota 545. Considere-se, no âmbito da disciplina da Arquitectura, o seguinte: ―Foregrounding [desfamiliarização ou estranhamento] in architecture comes from the theories of the literary poetics formulated by the Prague School of linguistics of the 1930s and in particular by Jan Mukarovsky, and by the Russian Formalists of the 1920s, especially Victor Shklovsky. According to this theory, the essen- tial feature of a literary text is the transformation of ordinary language into poetic language. "Foregrounding" as translated by Garvin (1964, p. 9) (in the original Czech aktualisace), or what Shklovsky called "roughened form," brings about certain characteristics of a text that make its linguistic organization-phonetic, grammatical, syntactic, se- mantic-deviate from ordinary use. Thus the poetic identity of a build- ing depends not on its stability, on its function, or on the efficiency of the means of its production but on the way in which all the above have been limited, bent, and subordinated by purely formal requirements. What distinguishes a classical building, as a poetic object from ordinary buildings is there, on the surface, in its formal organization. But beyond this formal veil lies the act of foregrounding through which selected aspects from the reality of a building are recast into formal patterns. The resulting quality of architecturalness is not a portrait of reality. It is its critical reconstruction. The relation between the formal and the social needs of a work of art are often taken in a mechanistic way. As an example of this, Shklovsky refers to Herbert Spencer's (1882) comments on rhythm in poetry. Spencer compared the "varying concussions" of the body, which, if they recur "in definite order," permit the body to adjust better to the "unarranged articulations" the mind receives, which "rhythmically ar- ranged" may permit it to "economize its energies by anticipating the attention required for each syllable." Here, rhythm is a means of over-coming "friction and inertia" that "deduct from . . . efficiency." Shklovsky (1965, p. 24) criticizes this simple-minded economicist inter- pretation of rhythm, which he calls the "groaning together" of the "members of the work crew." To this naive approach he juxtaposes a theory of form taken from Tolstoy, where poetry has a much more complex social function, one that acknowledges the presence of conflict in society, the need for social criticism, and the social engagement of poetry as a critical activity. This function of poetry, as of all art, is to counteract the

verificada, por exemplo, no Romantismo, por meio do uso de elementos pitorescos e nostálgicos aparentemente ‗tradicionais‘ – a técnica de desfamiliarização, embora inicialmente tenha sido aplicada à Literatura, também se pode aplicar à Arquitectura tal como se pode verificar nos estudos565 sobre Arquitectura Clássica566, pois apoia o cumprimento a sua função crítica567. Mas antes de clarificar tal técnica, considere-se ainda que

―[o] Regionalismo Romântico, apesar da sua postura de confronto, empregou

familiarização. Por um lado, esse Regionalismo seleccionou elementos regionais

vinculados a memórias de eras esquecidas e, por outro, inseriu esses elementos em edifícios novos, construindo cenários para espoletar afinidade e ‗simpatia‘ no espectador [sujeito que habita], originando cenas familiares que, embora contrastantes, quase sempre emocionalmente, com a actual arquitectura déspota, tornou a consciência insensível. O lamechas, efusivo, sentimental Regionalismo com sua hiperfamiliarização, imediatamente fácil, excitatório, ‗tal como‘ as determinações narcisistas do Heimat, teve um ainda maior efeito narcótico – se não mesmo alucinatório – na sua consciencialização.‖ 568

Assim, e retomando o Regionalismo oposto ao previamente citado, o Crítico selecciona igualmente elementos regionais. Porém, note-se que esses elementos são seleccionados pelo seu potencial de serem suportes primeiros – físicos ou conceptuais – do contacto humano com uma comunidade569. Nomeados por Levaifre e por Tzonis como ―reveladores de lugar‖570, tais elementos são idênticos aos que a Forma-de-Lugar comporta. Nesse sentido, ao invés do seu

destructive impact of everyday social life, of the established social relations. It is to arrest and cleanse that which, in the words of Tolstoy, "devours works, clothes, furniture, one's wife, and the fear of war": the deadening effect of routine and its implacable, almost algebraic predictability. Shklovsky (1965) refers to the entry of March I, 1897, from Tolstoy's diaries. (...) The foregrounding of certain as- pects of a building that one observes in classical architecture can be seen as such necessary deviations from the "normal idiom" to achieve dis- tancing from established social perceptions and practices. Brecht's theory of "estrangement" (in the original German Verfremdung) in drama comes to remarkably similar conclusions. "Worldmaking," if we may return for an instant to our first chapter where we referred to Good-man's term, is in this sense strangemaking. (…) In classical architecture the new arrangements and the new composi- tional wholes that emerge create a poetic world next to the ordinary one. "Catharsis," or cleansing, is the word Aristotle uses to describe this process in a tragedy. The effect of this juxtaposition of the two realms, poetic and ordinary, is purification, which in the modern world has a clear critical purpose as the divinatory one had in archaic culture. The building, as a temenos, can be seen as bringing about the same kind of catharsis a tragedy does. It takes the existing reality and reorganizes it through strangemaking on a higher cognitive level. It-provides a new frame in which to understand reality, with which to "cleanse" away an obsolete one. The means are formal, the effect is cognitive, the purpose moral and social.‖ LEFAIVRE, Liane, TZONIS, Alexander - Classical Architecture, The Poetics of Order. Cambridge: MIT Press, 1986, pp. 278-279. Grifos no original e nossos (negrito).

565 Os autores referem-se à publicação anteriormente citada: LEFAIVRE, Liane, TZONIS, Alexander - Classical Architecture, The Poetics of Order. Cambridge: MIT Press, 1986.

566 LEFAIVRE, Liane, TZONIS, Alexander - Why Critical Regionalism Today? In: A+U, Architecture and Urbanism, n.° 236, Tóquio, Maio 1990, p. 30.

567 Ibidem, p. 29.

568 Tradução nossa. No original: ―Romantic regionalism, despite its confrontational stance, employed familiarization. It selected regional elements linked in memory with forlorn eras and inserted them into new buildings, constructing scenographic setting for arousing affinity and 'sympathy' in the viewer, forming familiarized scenes which, although contrasting, mostly emotionally, with the actual despotic architecture, rendered consciousness insensible. The mawkish, gushing, sentimental regionalism with it‘s over familiarization, immediate easy, titillating, 'as if' narcissistic Heimat settings, has had an even more narcotic - if not hallucinatory - effect on consciousness.‖ Ibidem, p. 31. Grifos no original.

569 Ibidem, loc. cit.

homónimo Romântico, o Crítico incorpora os ditos elementos ‗estranhamente‘ em vez de familiarmente571. Incorpora-os de um modo peculiar tornando-os distantes, de difícil leitura ou mesmo de um modo perturbante572. Portanto, essa acção é, na realidade, uma disrupção com qualquer tipo de laços afectivos entre os edifícios e seus consumidores, 'de-automatizando' a percepção e 'desafiando a consciência', tal como refere Victor Shklovsky (1893-1984).573 Assim, Lefaivre e Tzonis sugerem que

―[p]or isso, através de recursos poéticos adequadamente escolhidos de desfamiliarização, o Regionalismo Crítico possibilita que um edifício possa entrar num diálogo imaginado com o espectador. Estabelece-se um processo árduo de negociação cognitivo em lugar da rendição fantasiada originária da familiarização e da sedução que decorre da hiperfamiliarização. Esse processo leva o espectador a um estado metacognitivo, uma democracia de experiências como Jerome Bruner poderia ter chamado, evocando um 'fórum de mundos possíveis'.‖574

Aceitando a sua viabilidade para a disciplina da Arquitectura, a desfamiliarização promove uma acção crítica constante que proporciona um efeito cognitivo estético singular no sujeito e na sua relação com um objecto de Arquitectura575: ―[d]efamiliarização, é um conceito muito próximo com o Verfrenulung [Verfremdungseffekt] de Brecht576 e, também, com o xenikon de Aristótles, foi inicialmente proposto pelo crítico Russo Victor Shklovsky.‖ 577 O procedimento de desfamiliarização promove, em traços gerais, uma distância

571 Ibidem, loc. cit. 572 Ibidem, loc. cit. 573 Ibidem, loc. cit.

574 Tradução nossa. No original: ―Hence, through appropriately chosen poetic devices of defamiliarization critical regionalism makes the building appear to enter into an imagined dialogue with the viewer. It sets up a process of hard cognitive negotiation in place of the fantasized surrender that follows from familiarization and the seduction that follows from overfamiliarization. It leads the viewer into a metacognitive state, a democracy of experience as Jerome Bruner might have called it, it conjures up a 'forum of possible worlds.‖ Ibidem, loc. cit. Grifos no original.

575 LEFAIVRE, Liane, TZONIS, Alexander – Critical Regionalism. In: AMOURGIS, Spyros (ed.) - Critical Regionalism: The Pomona Meeting Proceedings. Pomona: College of Environmental Design, California State Polytechnic University, 1991, p. 21.

576 Desenvolvido pelo dramartugo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), Verfremdungseffekt ou V-Effekt é uma técnica que visa a representação teatral de uma ilusão para envolver o espectador além da emoção. Assim, o espectador é guiado a percepcionar os demais aspectos do enredo com um distanciamento, ou estranhamento, de modo a espoletar um julgamento crítico. Por outras palavras, o ‗familiar‘ terá que o ser no ‗não-familiar‘, ou no estranho, através do racional (em vez do emocional) provocado por um processo gradual de envolvimento. Assim, consequentemente desse processo, o espectador é convidado a questionar reflexivamente, sempre em consequência da acção do enredo. Resumindo, o V-Effekt de Brecht é realizado em três passos distintos: no escrever, no encenar e no actuar. Em cada desses passos, os métodos para implemetar o V- Effekt são distintos. Entre outros, considere-se: distância temporal ou local; sátira; cenários mutáveis; final em aberto. Em suma, o V-Effekt evidencia que o mostrado em palco é artificial e representado e que os actores em palco jamais são idênticos às figuras literárias que representam. O contexto onde decorre a cena, embora reconhecível ou familiar, é adulterada ou desfamiliarizada a fim de activar um efeito de estranhamento com o intuito de provocar activamente a consciência no espectador. Consequentemente, o espectador torna-se actor enquanto parte activa na acção teatral, intervindo continuamente e reflexivamente no enredo em representação. Na continuidade do dito e na necessidade de aprofundar-se acerca de Verfremdungseffekt ou V-Effekt de Bertolt Brecht considere-se a investigação de JAMESON, Fredric - Brecht and Method. Nova Iorque: Verso, 1998.

577 Tradução nossa. No original: ―Defamiliarization, a concept closely related to recht's Verfrenulung but also to Aristotle's xenikon, was coined, as we mentioned in the beginning of this article, by the Russian critic Victor Shklovsky.‖ Ibidem, loc. cit.

crítica entre um objecto e um sujeito, isto é, através desse procedimento, o sujeito, refigura um objecto familiar, reconhecido e facilmente identificável, em algo ‗não familiar‘, estranho ou distante e, subsequentemente, dificilmente identificável. Sem aprofundar a teoria-crítica literária de Victor Shklovsky importa, então, aproximar a técnica de desfamiliarização da disciplina da Arquitectura.

A técnica de desfamiliarização não contém nem institui um conjunto fechado de procedimentos. Porém, a partir do seu entendimento crítico poder-se-ão traçar aproximações ou mesmo etapas ao seu estabelecimento, porque a desfamiliarizaçao pode ocorrer em função do uso de estratégias ou procedimentos diversos que, em Arquitectura, são indissociáveis do normal processo de projecto. Assim, e por ser uma técnica relacionável ao Regionalismo Crítico, atende primeiramente ao conjunto de premissas já verificadas dessa teoria-crítica. Nesse sentido, advirta-se que ao invés de Frampton, Lefaivre e Tzonis jamais determinaram qualquer tipo de procedimentos, lista, pontos ou mesmo taxionomias para uma Arquitectura dita de Crítica. Porém, no âmbito dos seus estudos acerca do Cânone Clássico, esquissaram três tipos de aproximações ou mesmo etapas578 para lidar com hiperfamiliarizada ideia de lugar e, mormente, de casa. Em Arquitectura, antes de se discutir acerca do conceito desfamiliarização é preciso não esquecer de que modo os arquitectos lidam com uma ‗realidade‘ em termos do particular e, simultaneamente, do universal. Em ―Classical

Architecture, The Poetics of Order‖579, Lefaivre e Tzonis sugerem580 três tipos de

aproximações para a aplicação, e sequente revelação, da familiarização e da desfamiliarização. Embora, reconhecendo o risco – e sendo este o tema de um novo estudo – afirmam que existem três aplicações principais de uso parcial do cânone clássico: (1) ―Citacionismo‖ de motivos clássicos, também denominado de classicismo sem regras; (2) ―Sincretismo‖; e (3) o uso de fragmentos clássicos

578 Embora o âmbito dos estudos seja a Arquitectura Clássica, etapas sugeridas por Lefaivre e por Tzonis são facilmente integradas na discussão referente ao Regionalismo Crítico.

579 LEFAIVRE, Liane, TZONIS, Alexander - Classical Architecture, The Poetics of Order. Cambridge: MIT Press, 1986. 580 Porém, afirmam: ―In a building as in a tragedy, it is difficult to disentangle how much the use of the classical canon leads to

strangemaking and how much leads to imitation, to, one is tempted to say, "samemaking," how much through formalization the building confronts reality and how much it represents it. It is equally difficult to specify the degree to which

formalization, generalization, and strangemaking separate the work from the world without concurrently engaging it critically with reality. It all depends on how the work is being used, on our intentions as much as on the structure of the work itself. It is even more difficult to ascertain the interpretations that classical formal patterns might have when applied in ways outside the canon.‖ Ibidem, p. 279.

de ―meta-afirmação arquitectónica‖581. Por um lado, ―citacionismo pertence ao "classicismo" de kitsch582, de produtos de consumo, de propaganda, e de ainda mais ambiciosos objectos culturais, edifícios de "prestígio" e, em várias ocasiões,

alguns dos chamados edifícios pós-modernistas.‖ 583 De fácil ‗leitura‘, o citacionismo, em termos gerais, revela-se pela colagem acrítica de elementos ou motivos decorativos pitorescos ditos de ‗clássicos‘ em estruturas arquitectónicas contemporâneas584. A (re)utilização de tais elementos por associação e, por vezes, redução, torna os edifícios em meros simulacros de uma ‗realidade‘, transformando-a em cenográfica sem qualquer correlação com um espaço e com um tempo 585 . Por isso, asseveram os autores, a ‗realidade‘ torna-se hiperfamiliarizada e, com isso, falsamente íntima na relação entre objectos (arquitectónicos) e sujeitos (que os habitam).586 Por outro lado, ao invés do anterior, o sincretismo e o uso de fragmentos na meta-afirmação arquitectónica, não estimulam ilusões ou sentimentos nostálgicos.587 Porém, ambos podem desencadear sentimentos pessimistas, irónicos, polémicos ou adversos, mas sempre dependentes de uma postura crítica.588 Dessa acção, e recuperando o significado etimológico de sincretismo, resulta estranhamento com efeitos non

sequitur589. A meta-afirmação arquitectónica é conseguida pelo uso subtil de

581 Ibidem, loc. cit.Refira-se que essas aplicações, etapas ou aproximações não podem ser lidas como partes isoladas ou distintas entre si mas, enquanto processos de síntese, como partes integrantes e dialogantes de um todo.

582 Os autores usam ―kitsch‖ também em sentido pejorativo.

583 Tadução do autor. No original: ―(…) citationism belongs the "classicism" of kitsch, of consumer products, of propaganda, and of even more ambitious cultural objects, "prestige" buildings and in several occasions some of the so-called post- modernist buildings.‖ Ibidem, loc. cit. Note-se que, embora presente em diversos ensaios da crítica de Arte, ―citationism‖ não é um termo comummente utilizado. E, acentuando o afirmado, por vezes, em vez de ―citationism‖ alguns autores usam ―citationality‖. Não obstante tal disparidade, afirme-se que ambos termos remetem, no campo da Literatura, para o uso da citação directa ou indirecta de outros autores ou textos. No campo da Arte e, por vezes, no da Arquitectura, o uso de ―citationism‖ ou de ―citationality‖ remete para uma ‗cultura‘ pós-moderna, em muito associado à citação directa ou indirecta de entidades pertença de outras obras. Nesse sentido, na tentativa de precisar a acção de ―citationism‖ ou de ―citationality para a língua portuguesa optou-se por associá-la a um outro conceito advindo do campo disciplinar da Literatura. Ou seja, o conceito intertextualidade presta-se à referida precisão por ser, sumariamente, a criação de um texto a partir de outro pré-existente e por, entre outros tipos, compreender a ‗citação‘. Assim, correlecionado com intertextualidade, optou-se pelo uso de ‗citacionismo‘ na língua portuguesa enquanto, grosso modo, a acção de citar directamente ou indirectamente algo, reconhecendo que ―[t odo discurso forma parte de una historia de discursos todo discurso es la continuaci n de discursos anteriores, la cita expl cita o impl cita de textos previos. odo discurso es susceptible, a su vez, de ser injertado em nuevos discursos, de formar parte de uma clase de textos, del corpus textual de uma cultura. La intertextualidad, junto com la intencionalidad comunicativa, es requisito indispensable del funcionamiento discursivo.‖ REYES, Graciela - olifonia textual la citaci n em el relato literario. Madrid: Gredos, 1984, pp. 42-43. Por fim, refira-se a importância do processo decorrente dessa acção que, conforme adiante verificado, será vital para o entendimento de uma

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