II – O PROCESSO CIVIL INGLÊS
3. Marcha do processo
3.1 Fase de apresentação do caso
O primeiro momento do processo civil inglês corresponde à solicitação do autor dirigida ao tribunal para que emita um formulário onde vai expor de modo breve os fundamentos da ação e formular o seu pedido.
No entanto, entre o despoletar do litígio e a instauração do processo em tribunal, as partes podem procurar obter informação detalhada sobre a posição contrária e respetivos elementos de prova, na perspetiva de ser evitada a intervenção do tribunal. A troca de informação será um veículo para a celebração de acordos.
Para concretização dos objetivos que antecedem podem ser celebrados protocolos que determinam o cumprimento de obrigações antes de ser instaurada a ação, designados por
pre-action protocols. Existem modelos de protocolos para tipos específicos de disputas140.
137 Paula Loughlin & Stephen Gerlis, Civil Procedure, 2004, p. 101; Stuart Sime A Practical Approach to
Civil Procedure, 2006, p. 19.
138 Tradução brasileira in Neil Andrews, O Moderno Processo Civil, formas judiciais e alternativas de
resolução de conflitos na Inglaterra, tradução de Teresa Arruda Alvim Wambier, 2010, p. 46.
139 Mariana França Gouveia, Nuno Garoupa e Pedro Magalhães, (coord.) Justiça Económica em Portugal:
Gestão Processual e Oralidade, 2012, p. 56.
Caso o protocolo não seja cumprido e o litígio origine uma ação judicial, o tribunal pode penalizar o incumprimento por meio de decisão relativa às custas, CPR 44.3 (5)(a).
Retomando a instauração do processo judicial cabe referir que a apresentação inicial da posição de cada uma das partes é feita por escrito. A expressão statement of case refere-se aos vários articulados que podem surgir na ação: claim form; particulars of claim que correspondem à exposição dos aspetos específicos da causa se apresentados autonomamente; contestação; resposta; informação complementar conforme CPR 18.1; reconvenção; e intervenção de terceiros141.
O meio mais frequente de instauração da ação é a apresentação pelo autor do formulário inicial obtido em tribunal a que já fizemos referência e que corresponde à claim
form, CPR 7.2. Da claim form devem constar: a identificação das partes; em caso de
representação que é nessa qualidade que é feita a intervenção; uma declaração concisa da natureza do pedido; uma especificação da solução pretendida; tratando-se de pedido de natureza pecuniária o respetivo valor; uma declaração quanto aos juros em caso de quantia predeterminada; bem como outros assuntos que possam resultar de direção prática (CPR 16.2). Esclareça-se que as direções práticas completam e especificam regras das CPR, sendo identificadas pelas iniciais PD seguidas do número correspondente à parte das CPR que visam interpretar e concretizar.
Para além destas componentes da claim form o autor tem que indicar os elementos tendentes à pormenorização do objeto da ação designados por particulars of claim. Estes podem ser apresentados com a claim form ou posteriormente, [CPR 7.4 e 16.2 (2)], mas em momento que permita ao réu o seu conhecimento para exercício do direito de se pronunciar sobre as questões enunciadas.
Já numa vertente mais pragmática é interessante notar que os articulados que excedam as 25 páginas devem ser acompanhados de um sumário e em alguns tribunais é necessária autorização para tanto142.
Os elementos preponderantes das particulars of claim são: uma descrição sucinta dos factos em que o autor se baseia; uma declaração relativa ao instrumento ou base contratual do direito invocado se for o caso, tendo ainda, nestas circunstâncias, que ser respeitados os requisitos enunciados na CPR 16.4(2); perante a hipótese de ressarcimento de danos uma especificação dos mesmos e os fundamentos do pedido; se o pedido se reporta a uma indemnização provisória uma exposição dos motivos dessa reivindicação; outros que possam resultar de direção prática das CPR.
141 Neil Andrews, O Moderno Processo Civil, formas judiciais e alternativas de resolução de conflitos na
Inglaterra, tradução de Teresa Arruda Alvim Wambier, 2010, p. 67; Paula Loughlin & Stephen Gerlis, Civil Procedure, 2004, p. 175; Stuart Sime, A Practical Approach to Civil Procedure, 2006, p. 141.
142 “There are cases which, on account of their complexity, have to be pleaded at length. Where, exceptionally, a statement of case exceeds 25 pages (excluding schedules), an appropriate short summary must also filed and served (PD 16, para. 1.4). Lengthy statements of case can contribute to excessive costs, as recognised by the Jackson Review of Civil Costs. In the Admiralty and Commercial Courts, statements of case should be limited to 25 pages (Admiralty and Commercial Courts Guide, para. C1.1(b)).” Maurice Kay, Blackstone´s Civil Practice The Commentary, 2012, p. 401.
O autor tem que especificar o tipo de solução jurídica que pretende mas o tribunal não fica vinculado à formulação do autor, CPR 16.2 (5).
Ainda de relevo é a exigência de que as particulars of claim sejam acompanhadas de declaração de veracidade designada por statement of truth, CPR 22.1(a).
O Autor deve preencher outros formulários, destinados à defesa do réu e à citação143. Tratando-se de litígio que não envolva a apreciação de questões de facto, pode ser usada uma tramitação simplificada onde do formulário inicial conste desde logo a questão a decidir, ou a indicação da solução legal pretendida. Neste caso o formulário é acompanhado da prova escrita (Part 8 Claims das CPR). O réu não é obrigado a contestar, não há julgamento à revelia e assim também não há lugar à aplicação das regras relativas às especificações dos articulados (CPR 16.1) e da defesa e resposta (CPR 15.1).
Havendo lugar a posições divergentes, autor e réu devem apresentar os respetivos argumentos acompanhados de declaração de veracidade através dos já mencionados
statements of case, [CPR 2.3(1) e 22.1(1)(a)]. Os statements of case, designação que se reporta
a todos os articulados como também já referimos, devem conter uma descrição pormenorizada dos factos, mas não carecem de apresentação imediata de toda a prova nem de elaborada fundamentação de direito.
Na contestação o réu deve contrapor os seus argumentos a todos os aspetos focados pelo autor dos quais discorda, sob pena de se ter por admitida a matéria que não foi objeto de resposta [CPR 16.5 (5)]. É de salientar que a matéria se tem por admitida mas não por provada, ou seja, a ausência de resposta não tem natureza preclusiva.