4. RELATOS DO PROCESSO DE PESQUISA
4.2. FASE POSTERIOR: PROCESSO DE AÇÃO E REFLEXÃO
As professoras que demonstraram interesse em participar no processo de ação e reflexão foram as professoras dos 3º A e B e do 5ºA. As demais professoras (4ºA e B e 5ºB) apresentaram como justificativas a grande demanda de trabalhos e projetos previstos no currículo, também apontaram que a minha presença na sala de aula poderia causar uma certa inquietação nas crianças que “agora estavam entrando no ritmo”. A professora de artes também demonstrou interesse em colaborar, principalmente com o projeto de investigação sobre o Córrego do Piçarrão.
As professoras que aceitaram participar do processo de ação e reflexão decidiram prosseguir com as estratégias apontadas no encontro EP1-7. A professora do 5º A percebeu a possibilidade de ao trabalhar o projeto previsto no programa “Ler e Escrever” buscar uma superação da abordagem nele presente. As professoras dos 3º A e B, perceberam como caminho partir da investigação sobre o Córrego do Piçarrão e através dela trabalhar as expectativas de aprendizagem previstas no currículo de forma contextualizada, buscando uma aproximação com a perspectiva da EA crítica.
Dessa forma, no segundo semestre acompanhei e participei no planejamento e realização das atividades com as professoras dos 3º anos e do 5ºA. Devido ao grande número de atividades realizadas, apresentar os dados e analisar os dois processos construídos seria um grande desafio. Optamos por focar a nossa reflexão nesse trabalho no processo construído com as professoras dos 3º anos, pois, consideramos que entre outros aspectos, a formação de um pequeno grupo de duas professoras e a pesquisadora contribuiu para a construção de um processo mais significativo.
AC.2: Conversa sobre o Córrego do Piçarrão - 23/08/2017
Cheguei à escola no momento do intervalo. As crianças com a coordenadora estavam sentadas em uma grande roda no chão do pátio brincando de “adoleta”, ao me avistar a
coordenadora disse “Olha pessoal, a Nathalie chegou! Vamos dar um abraço?” e assim elas vieram correndo e me deram um abraço coletivo muito carinhoso. Tinha combinado de chegar mais cedo para planejar com as professoras do 3ºA e B como seria a atividade, porém devido ao trânsito inesperado cheguei já no final do intervalo. Assim fui para a sala de aula com a turma do 3ºB e a professora. Ela me informou que iríamos fazer a atividade com as duas turmas juntas na escada do pátio da escola.
As professoras me pediram para iniciar a conversa com as crianças. Comecei recordando com elas a visita ao Córrego do Piçarrão, para que lembrássemos o que tínhamos conversado e a proposta de pesquisarmos juntos a história do Córrego do Piçarrão. Nesse momento perguntei para as crianças o que elas entendiam por pesquisar. Surgiram várias respostas, entre elas: “é quando a gente quer descobrir mais coisas sobre algo”, “é quando a gente já sabe alguma coisa, mas quer descobrir mais” e “é quando a gente quer responder alguma pergunta que a gente não sabe a resposta”. Então conversei com elas que para fazer uma pesquisa precisamos ter atenção nesses pontos que eles apresentaram: saber o que já sabemos sobre algo e quais perguntas queremos investigar, além disso, precisamos pensar no caminho, como e onde vamos procurar as respostas.
Apresentei que primeiro nós iríamos lembrar o que a gente já sabia sobre o Córrego do Piçarrão. Então as crianças recordaram as informações que a professora do 3ºB compartilhou no dia da visita, também acrescentaram outras observações de suas vivências. Como grande parte das crianças não mora naquele bairro, fizemos comparações com o rio Capivari, que passa próximo ao condomínio de moradia popular onde as crianças residem.
Passamos então a questionar o que elas gostariam de saber. Várias questões surgiram, como: Antigamente as pessoas podiam nadar, pescar, brincar e beber água do córrego? Será que antigamente tinha uma mata na margem? Porque ele é poluído? O que polui ele além do lixo? Por que ele tem esse nome? Quem deu esse nome para ele? Quando deram esse nome? Antigamente ele tinha mais água? Por que as pessoas começaram a morar nas suas margens? Por que colocaram concreto em suas margens? Ele sempre foi reto? Como é a sua nascente? Por quais países passa o Córrego do Piçarrão? Qual o percurso dele antes de encontrar o rio Capivari? O que são aqueles buracos nas margens do córrego? Quando o Piçarrão foi descoberto? Por quem? Será que nele vivem sapos, peixes, jacarés? Quando ele começou a existir? Ele já estava aqui antes da cidade de Campinas existir?
A professora do 3ºB compartilhou que vive na região do Córrego do Piçarrão desde criança e que sempre brincou nas suas margens, todo dia acordava e ia brincar com os
vizinhos. Comentou também que quando era criança o córrego já era poluído, mas que ainda não tinha concreto, a diversão era brincar nos canos expostos.
Outro objetivo dessa atividade era refletirmos sobre os caminhos que iríamos fazer para responder as perguntas e quais fontes iríamos consultar. Nesse momento as crianças já estavam um pouco impacientes, então não houve muito tempo para essa discussão, apenas citaram a internet, o dicionário, as pessoas do bairro e a Ana (agente de organização escolar da escola). Apesar de a atividade ter ocorrido de forma tranquila e as crianças terem participado ativamente, fiquei um pouco preocupada, pois a coordenação da atividade, apesar de contar com a participação das professoras, de certa forma foi delegada a mim. Compreendi que talvez as professoras tiveram essa atitude pois não ficou claro como gostaria que fosse minha participação nesse processo, considerei então como fundamental alterar esse papel nas próximas atividades e, para isso, seria importante planejarmos melhor as ações.
EP2.1: Reflexão e planejamento sobre a proposta de investigação sobre o Córrego do Piçarrão – 28/08/201
Este encontro ocorreu em parte do horário (40 min.) previsto para o planejamento semanal com as professoras do 3ºA e B. Inicialmente avaliamos como foi a atividade com as crianças. A professora do 3ºA ressaltou que a escolha do local prejudicou a atividade, pois as crianças estavam um pouco desconfortáveis e a escada não permitiu formar uma roda, o que teria facilitado a participação de todos. Como a escola não possui um auditório ou espaço que comporte a formação de uma grande roda com as duas turmas, compreendemos que nas próximas atividades buscaríamos trabalhar com as turmas de forma separada. Ressaltamos que apesar disso as crianças estavam bem interessadas e curiosas durante a atividade.
Compartilhei com as professoras minha inquietação em relação à coordenação da atividade e a ideia de que nas próximas atividades seria importante a maior participação delas, pois elas conhecem melhor as crianças, como apresentar e problematizar as questões de forma que faça sentido, dessa forma também não correríamos o risco de o projeto ser entendido como algo externo, que ocorre apenas quando eu estou presente, mas como um projeto da escola. As professoras acolheram essa ideia, ressaltaram a importância de o projeto ser entendido como nosso e das crianças, em que elas também atuam na investigação.
Nesse encontro trouxe o relato da atividade impresso (construído a partir da transcrição do áudio) e pudemos analisar as principais questões de pesquisa que surgiram, comentei que algumas perguntas das crianças foram sendo reelaboradas durante a conversa.
Decidimos que partiríamos das perguntas sistematizadas para planejar as próximas atividades e analisamos as que tratavam das dimensões do tempo (como era antigamente...) e as que tratavam do espaço (por onde o córrego passa?) e as que se vinculam aos conhecimentos referentes ao território (o que é e como se forma uma nascente?).
Conversamos sobre os objetivos de investigar a história do Piçarrão; a professora do 3ºA destacou que o passado é importante para compreender o hoje
A história continua, hoje o Córrego do Piçarrão está assim, mas nem sempre foi assim e nem sempre será, hoje é assim, mas poderá ser diferente no futuro, assim podemos refletir com as crianças sobre o agir na história, eu como sujeito na história. (Professora 3ºA)
Retomando o que havíamos discutido sobre essa proposta durante a leitura do texto do professor Guimarães, destacamos a possibilidade de gerar um processo de reflexão sobre a relação do ser humano como parte do ambiente, desvelando a realidade, problematizando o que parece ser natural (a razão de ser das coisas) e estabelecendo relações entre as questões ambientais e sociais.
Para investigar a história do Piçarrão a professora do 3ºB sugeriu que usássemos fotografias antigas, trazendo uma que ela encontrou em um blog sobre a história de Campinas que mostrava o antigo Matadouro, a professora contou que a legenda falava que o córrego era utilizado para descartar os resíduos do Matadouro. A professora do 3ºB além de morar na região do Córrego do Piçarrão desde a infância também investigou em sua monografia a história da Vila Industrial e possui grande interesse na investigação da história como estratégia pedagógica. Sobre as fotos antigas, comentei sobre uma monografia sobre o Córrego do Piçarrão que apresenta várias imagens.
A professora do 3ºA então apresentou a ideia de realizarmos uma caminhada fotográfica com as crianças, para aguçar a observação e reflexão sobre o local. A professora do 3ºB então sugeriu que com as fotos antigas e recentes produzidas pelas crianças poderíamos montar um vídeo contando a história do Córrego do Piçarrão, trabalhando a fotografia como registro histórico e o vídeo apresentar a ideia da “história em movimento”. Achamos essa estratégia muito interessante por ser uma forma de produzir uma síntese coletiva e divulgar os conhecimentos construídos.
A professora do 3ºA apresentou as ideias de Freinet, pois trabalhou alguns anos em uma escola reconhecida em Campinas por ter a pedagogia Freinet como base, nessa perspectiva a escola é entendida como local para a produção de conhecimento, sendo que esse conhecimento produzido precisa ser compartilhado. As aulas passeio são centrais na
pedagogia Freinet, tendo a participação das crianças na organização e avaliação do processo como fundamental.
Também conversamos nesse encontro sobre a importância de trabalhar a compreensão espacial, a professora do 3ºA compartilhou que estava trabalhando com as crianças o mapa mundi, o mapa político do Brasil, os países vizinhos, a divisão em estados, onde se localiza a cidade de Campinas. A partir disso pensamos em trabalhar a localização da cidade de Campinas e na cidade de Campinas onde está a escola, o condomínio onde as crianças moram e o córrego do Piçarrão, indicando a nascente e a foz no rio Capivari. Pensamos que essa poderia ser a próxima atividade, pois estava diretamente relacionada com o conteúdo que estava sendo trabalhado.
A professora do 3ºB demonstrou uma preocupação em relação ao tempo por ter disponibilidade de dedicar ao projeto apenas um momento da semana, já a professora do 3ºA ressaltou que como vamos trabalhar conteúdos e habilidades previstas na matriz curricular, entendia que poderia disponibilizar mais tempo da semana para o projeto.
ACE.3: Replanejamento - 31/08/2017
Nesse dia estava previsto no calendário oficial da SEE a realização do replanejamento. A coordenadora me convidou para participar, pois poderíamos utilizar parte do tempo para realizar o planejamento das próximas etapas com as professoras dos 3º anos e do 5ºA, mas já me avisou que o tempo previsto seria bem corrido.
A coordenadora então abriu uma apresentação (vinda da SE) explicitando o objetivo do replanejamento de “corrigir rotas no desenvolvimento do trabalho com os alunos” para superar “as defasagens nas habilidades detectadas” nas avaliações em processo (APs) construindo os planos de ação.
A coordenadora apresentou o replanejar como: analisar, debater e ajustar as estratégias de ação para atender as demandas da escola. Começou então a expor os dados da escola “o que as APs revelam em relação à aprendizagem” e “O que nós demos conta do planejado no primeiro semestre e o que nós não demos conta”. A coordenadora enfatizou a importância de acelerar o processo e priorizar o necessário para que os/as alunos/as possam acompanhar o ano seguinte. A professora do 3ºA ressaltou o compromisso na equipe de professores em relação à aprendizagem das crianças e o objetivo de querer fazer o melhor.
A coordenadora explicitou que teve muita dificuldade de entender o que a diretoria entende por “plano de ação”, explicou que seria um plano de metas que visa superar a demanda mais urgente detectada nas APs, além da execução dos programas já previstos como
“Ler e Escrever” e EMAI (Educação Matemática nos Anos Iniciais). Portanto, é resultado da relação entre a “realidade” e as metas e objetivos que a escola quer atingir. Os dados da “realidade” são apresentados na plataforma da secretaria digital “foco aprendizagem” que traz os resultados das APs e a porcentagem dos estudantes que “estão dando conta” das expectativas de aprendizagem (currículo) correspondentes para aquele ano. Nessa plataforma é possível ver o resultado por questão e por aluno/a.
Os dados então passaram a ser apresentados sala por sala. A coordenadora ressaltou que as porcentagens são referentes aos conteúdos mínimos que devem ser trabalhados “atingindo o mínimo você pode ir além”. Começando pelos 3º anos em matemática a coordenadora ressaltou que o 3ºA teve um grande avanço, a porcentagem das crianças que estavam “dando conta do currículo mínimo”, atingiu 70% no segundo bimestre e o 3ºB caiu de 50% (no primeiro bimestre) para 30%. Essa situação gerou um desconforto entre as professoras,
As questões que estavam no EMAI eram de dois dígitos, ai na prova vem uma conta dessa com três dígitos [...] eu tô tranquila porque sei que estou fazendo o meu melhor, esses dados sinceramente não me atingem (Professora 3ºB)
Não, peraí gente, não é pra atingir. Isso aqui é pra ajudar, pra dar um norte para o professor. Pra orienta a nossa prática. (Coordenadora)
Mas quando a gente tá corrigindo a prova a gente já tem esse olhar. (Professora 3ºB)
Eu acho ótima a plataforma, porque me dá um norte, me mostra onde continua a dificuldade. Sabe o que aconteceu há muito tempo atrás em uma escola que eu estava? Uma professora até chorou. O objetivo não é esse. É uma autoavaliação. Avalia o aluno, mas também o professor, onde eu preciso melhorar, rever a minha prática. É para ajudar nisso. Se, por exemplo, 30% dos alunos estão abaixo do básico eu consigo ver as habilidades que precisam ser trabalhadas nas questões que eles erraram mais. É bom a gente fazer a análise das questões para saber como trabalhar em sala de aula. (Coordenadora)
O problema é que as expectativas são de turmas ideais, como se todos tivessem alfabetizados, bem alimentados, com família que dão suporte. Não considera a situação real dos alunos (Professora 3ºB)
Se a gente considerar que a turma dela veio com defasagens de 1º ano eles estão ótimos. (Professora 3ºA)
Mas meninas não foi isso... (Coordenadora)
Calma, não precisa se defender. A gente só esta fazendo uma consideração. (Professora 3ºA)
Mas sabe meninas, eu fico felizes de ver que vocês estão preocupadas. (Coordenadora)
Durante o intervalo a coordenadora veio conversar comigo e perguntou o que eu pensava sobre a plataforma e o sistema de avaliação. Nesse momento compartilhei que entendia que a situação dela era bem delicada e que percebia o esforço dela em não responsabilizar as professoras pelos resultados, porém ressaltei que diversos estudos
apresentam que esse sistema implementado está dentro de uma lógica que promove a responsabilização e a concorrência na escola, como se ela fosse uma empresa. Também questionei o quanto esse sistema de avaliação demanda investimentos para funcionar e perguntei se ela percebia esse mesmo nível de investimento nos salários dos professores e nas condições de trabalho (estávamos no pátio da escola, onde as crianças ficam durante o intervalo e onde é visível o descaso do poder público). Ela então disse que na opinião dela o sistema de avaliação melhorou a educação no estado, mas que o que eu falei fez ela pensar de uma outra forma. Perguntou se eu não gostaria de compartilhar com as professoras, mas eu disse que achava melhor em outro momento, não queria causar um “desequilíbrio”, sentia que o clima já estava delicado.
Porém, ao retornar da reunião a coordenadora estava dando prosseguimento quando fez uma pausa e disse que gostaria que eu compartilhasse o que falei pra ela no intervalo, “ela tem umas sacadas legais, e fiquei preocupada porque ela disse que em algumas situações essas avaliações podem responsabilizar ou oprimir o professor”. A professora do 3ºA então argumentou que tem professor que se sente oprimido sim por esse processo das avaliações em processo, pois são preparatórias para o SARESP. Também disse que na escola anterior ela ficou responsável por uma sala que a professora que estava com a turma no início do ano burlou a avaliação, o que ficou visível na segunda avaliação em que os/as alunos/as apresentaram uma nota bem abaixo da primeira. As professoras então passaram a comentar diferentes casos em que isso ocorreu. A professora do 3ºB disse que em alguns casos as professoras “mentem” para “sobreviver” que o sistema leva a ter atitudes desonestas. Então eu pedi a palavra, pois senti que era necessário esclarecer alguns pontos
Então [nome da coordenadora], as colocações que eu fiz pra você, não são ideias ou sacadas que eu tive sozinha, mas são baseadas no trabalho de pesquisa do professor Freitas, que investigou a rede estadual de ensino e que tem como foco de estudo o processo de avaliação. O que o estudo dele tem evidenciado desde a década de 90 é a presença de uma lógica empresarial nas políticas públicas de educação através das avaliações externas, como o SARESP. O problema é que nós estamos falando de coisas diferentes, uma coisa é produzir carros ou sanduíches, outra coisa é educação, quando estamos tratando da formação humana. Aí eles traduzem uma lógica empresarial, da meritocracia em que você valoriza o funcionário que atinge as metas, tipo a plaquinha do Macdonalds, da responsabilização e do controle externo sobre a prática pedagógica. (Pesquisadora)
É, isso fica bem claro na política do bônus. (Professora 3ºB)
Isso, então, assim, eu entendo que a avaliação macro pode ser uma ferramenta importante, para orientar as políticas públicas de educação, mas será que os resultados dessas avaliações revertem em mais investimentos pra educação, melhores salários e condições de trabalho? Ou se ela está voltada
para o controle e responsabilização apenas dos professores e as escolas pelos resultados? (Pesquisadora)
[risos das professoras]
Claro que não, está voltada pra mais cobrança. Nada funciona no estado, mas pra cobrar é uma beleza, primeiro mundo. (professora 3ºB)
Além disso, a gente sabe que a aprendizagem envolve muitos fatores que vão além da sala de aula, vocês compartilharam casos de crianças que vem pra escola com fome, que os pais estão presos, casos de violência doméstica... Esses fatores nós não temos controle, mas interferem na aprendizagem. (Pesquisadora)
Fora isso, se a gente tivesse uma impressora disponível pra desenvolver as nossas atividades voltadas para os nossos alunos já seria um grande avanço. Isso é triste, nós tentamos ir além, mas esse além enfrenta várias limitações. (Professora 3ºA)
Exatamente, isso tudo é bem delicado. Mas eu acho que o problema não está nas avaliações, eu acho que os maiores problemas são: o nosso salário, que é desumano e o número de alunos em sala de aula. [...] (Coordenadora)
O problema que eu vejo nessas avaliações é que elas não avaliam cerca de metade dos meus alunos que ainda estão em processo de alfabetização, pra eles essas provas são inacessíveis e não mostram as evoluções que eles tiveram. Quando eu olho pra esses gráficos eu lembro do [nome da criança] chorando e batendo na carteira durante a prova. (Professora 3ºB)
[...]
Outra coisa é que aqui vocês buscam construir um ambiente de colaboração, mas essa ferramenta dos gráficos pode ser um instrumento para estimular a competição, a desvalorização e deixar nós professoras sobrecarregadas. Quantas vezes a gente usou a expressão “eles não estão dando conta” ou “a gente não deu conta”? (Pesquisadora)
Sabe Nathalie, eu penso assim, gostei da sua fala, a gente acompanha o processo, a sala da [nome da professora do 3ºB], ela pegou 10 alunos não alfabéticos, então eu entendo esses resultados da avaliação. Entendo que os alunos enfrentam vários problemas, mas não é por isso que eu vou desistir deles. Eu acompanho o processo, a gente não vai alcançar 100%, mas eu cobro sim que a gente se empenhe pra melhorar os resultados (Coordenadora).
É verdade [nome da coordenadora] o problema é que muitos dos avanços que os nossos alunos tiveram não vão aparecer nos gráficos, a gente conhece a realidade da nossa sala de aula de forma bem mais profunda do que aparece aí. (Professora 3ºB)
Após essa conversa a coordenadora voltou para a análise dos gráficos. Acredito que essa discussão foi relevante, tanto para me posicionar para as professoras e apresentar a análise do professor Freitas, quanto favorecendo uma discussão mais ampla sobre os fatores concretos que influenciam na aprendizagem.
O replanejamento prosseguiu analisando os dados das sondagens referentes à alfabetização. Outra questão abordada pela coordenadora foi a elaboração do planejamento do