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Riscos e Adversidades – A questão da vulnerabilidade

2.4 Vulnerabilidade

2.4.1 Riscos e Adversidades – A questão da vulnerabilidade

O termo vulnerabilidade tem sido utilizado freqüentemente na literatura científica, especialmente após a década de 80, em diversas áreas do conhecimento, focalizando, principalmente, a perspectiva de risco. De um modo geral, vulnerabilidade é representada por um conjunto de fatores que pode aumentar ou diminuir o risco potencial a que estão expostas as pessoas em todas as situações de sua vida (BAKER; GENTRY; RITTENBURG, 2005).

Watts e Bohle (1993) propuseram uma estrutura de três princípios básicos para construir uma teoria sobre vulnerabilidade que consiste em entitlement, empowerment e política econômica para definir o que eles denominaram de “espaço de vulnerabilidade”. Para estes autores a vulnerabilidade é definida na intersecção dessas três forças, sendo que entitlement refere-se ao direito das pessoas, empowerment, ao empoderamento, relacionado à sua participação política e institucional, e a política econômica traduzida pela organização estrutural- histórica da sociedade e suas decorrências.

Dessa forma, a vulnerabilidade aos perigos e situações adversas da vida se distribui de maneira diferente segundo os indivíduos, regiões e grupos sociais e se relaciona, dentre outros fatores, com a pobreza, com as crises econômicas, e com o nível educacional.

A relevância do estudo de populações vulneráveis foi também destacada pelo Dr. Barney Cohen, coordenador da sessão 48 – The Demography of vulnerable populations, na XXIV Conferência Geral de População da União Internacional para o Estudo Científico da População (IUSSP), ao conceituar o tema de sua sessão:

(...) populações vulneráveis são constituídas por pessoas menos capazes do que outras para garantir suas próprias necessidades e interesses, devido à situação econômica, local de residência, condição de saúde, idade, nível educacional ou outra característica pessoal como raça, etnia ou sexo. A primeira etapa para desenvolver programas de apoio a estes grupos é aumentar a compreensão da magnitude e dimensões do problema, incluindo um reconhecimento maior das causas que determinam suas condições sociais e de saúde, e outras conseqüências de pertencer a um destes grupos, e um entendimento maior de como as políticas públicas podem afetá-los. (COHEN, 2001).

Cutter, Boruff e Shirley (2003) argumentam que existem três principais princípios na investigação da vulnerabilidade: a) a identificação das condições que tornam as pessoas ou lugares vulneráveis aos eventos naturais externos, como um modelo de exposição; b) a suposição de que vulnerabilidade é uma condição social, uma medida da resistência da sociedade ou

resiliência a riscos; e, c) a integração das exposições potenciais e resiliência social com um foco específico em determinados lugares ou regiões.

Nessa mesma direção, Wisner (1998) analisa o conceito sob a perspectiva da vulnerabilidade que as pessoas ou populações podem apresentar em caso de exposição a acidentes extensivos, como terremotos. O autor aponta que a vulnerabilidade e a capacidade de reação são lados de um mesmo processo, pois estão intimamente relacionados à capacidade de luta e de recuperação que o indivíduo pode apresentar. Argumenta, ainda, que o nível socioeconômico, a ocupação e a nacionalidade também se relacionam a esse processo, pois repercutem sobre o acesso à informação e serviços, e à disponibilidade de recursos para a sua recuperação, os quais, por sua vez, potencializam ou diminuem a vulnerabilidade.

No Brasil, a partir da transição dos anos 90, o processo de inserção do país na nova ordem mundial, e sua interação com processos internos de mudança, colocaram novos desafios às análises (TORRES et al., 2003). Pobreza, desigualdades e segregação social, apesar de não serem temas novos no interior do debate acadêmico brasileiro, têm merecido destaque frente às transformações em curso, principalmente no que diz respeito à nova configuração sócio-espacial que caracteriza as grandes metrópoles brasileiras.

A avaliação das tendências e abordagens que deram origem aos estudos de vulnerabilidade, principalmente ligada aos riscos e perigos, indica que a ênfase dada ao termo atualmente, não é apenas uma mudança ideológica ou um novo foco que a academia escolheu para produzir sua leitura da realidade (MARANDOLA JR.; HOGAN, 2005).

Para Kelly e Adger (2000), a vulnerabilidade diz respeito às diferenças individuais e às formas de lidar com elas, associadas às dificuldades ambientais e aos recursos disponíveis (materiais, humanos, financeiros). Existe uma complexa interação entre a predisposição individual à vulnerabilidade, contexto social e cultural, e a presença ou ausência de estrutura social.

Nesse caso, o conhecimento dos benefícios da relação entre meio e fim, assume que, em virtude da escolaridade formal, educação autodidata, ou experiência cotidiana, certas pessoas têm maior ou menor consciência dos meios necessários para atingir seus próprios objetivos ou os objetivos aprovados pela sociedade, e possuem diferentes graus de habilidades para executar estes meios, de forma a atingir os resultados desejados por si mesmos ou pelos outros (BAKER, GENTRY E RITTENBURG, 2005).

Assim, conforme Baker et al. (2005), as pessoas são “duplamente vulneráveis”, quando não sabem o que é bom para elas e não têm os recursos para adquiri-los. As pessoas são “economicamente vulneráveis” quando sabem o que é bom para elas, mas não têm as habilidades, as competências, ativos, ou outros recursos necessários para atingi-lo. Já as pessoas têm muitos recursos para atingir o que precisam, mas simplesmente não sabem o que é bom para elas são denominadas “culturalmente vulneráveis”. Por fim, as pessoas não são vulneráveis quando conhecem os meios para alcançar fins e benefícios e têm abundância de recursos para adquirir os meios adequados.

Essa definição de tipos de (in)vulnerabilidade significa que qualquer um, ou todos os quatro tipos, podem mudar a qualquer momento por causa de uma alteração dos recursos, mudanças em suas habilidades, ou qualquer outra circunstância que possa afetar o conhecimento de uma pessoa, ou a relação de beneficio entre meio e fim, e/ou o acesso aos meios para atingir o benefício (BAKER et al., 2005).

Existe uma multiplicidade de áreas em que vários graus de vulnerabilidade podem ocorrer, com diferenças entre as pessoas, de tal forma que qualquer pessoa é suscetível a apresentar baixa vulnerabilidade em alguma área, mas alta vulnerabilidade em outra.

De uma forma geral, todas as pessoas, jovem ou velho, saudável ou doente, rico ou pobre, enfrentam ou poderão enfrentar, em um momento ou outro, uma posição de vulnerabilidade quando se deparam com situações difíceis em suas vidas, como a morte de um ente querido, separações, perda de emprego ou outras situações adversas (GENTRY et al., 1994; GENTRY et al., 1995). Define-se assim vulnerabilidade, com base em experiências onde lhes falta clareza.

No entanto, definir vulnerabilidade pode criar discrepâncias. De acordo com Smith e Cooper-Martin (1997) existe uma diferença entre vulnerabilidade real e vulnerabilidade percebida. A vulnerabilidade real ocorre quando ela é, de fato, experimentada, e só pode ser entendida ouvindo e observando as próprias experiências, enquanto que a vulnerabilidade percebida ocorre quando os outros acreditam que uma pessoa é ou está vulnerável, mas ele ou ela pode não ser. A vulnerabilidade percebida é um equívoco que ocorre quando os indivíduos projetam nos outros, o que acham que é, deve-se levar em consideração a vulnerabilidade real e não a percebida (BAKER et al., 2005).

Portanto, uma intervenção social terá maior probabilidade de obter sucesso se os indivíduos envolvidos forem ouvidos, ou ainda mais, se forem oferecidas oportunidades para que eles se expressem, e, a partir daí, as respostas do mercado e das políticas sociais estarão ligadas às respostas dos indivíduos, assim como o sentido da vulnerabilidade real e da vulnerabilidade percebida.

Segundo Baker, Hunt e Rittenburg (2007), o processo de transformação das competências e habilidades que pode minimizar a vulnerabilidade de um indivíduo, ou de um grupo de pessoas, acontece ao longo do tempo, em mudanças incrementais, e em várias respostas. A obtenção dos resultados positivos provoca mudança de valores, de comportamentos e alteração de procedimentos. Portanto, as experiências vivenciadas podem ser transformadoras, tanto individual como coletivamente.