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Vulnerabilidade Social – Origem e definição

2.4 Vulnerabilidade

2.4.2 Vulnerabilidade Social – Origem e definição

A utilização do conceito de “vulnerabilidade social” advém do termo “estado de exclusão”, que num primeiro momento foi utilizado para caracterizar situações sociais limites, de pobreza ou marginalidade (DEDECCA et al., 2007). O estado de exclusão é caracterizado por um conjunto de situações marcado pela falta de acesso a meios de vida, tais como falta de emprego, de renda, de propriedades, de moradia, de um nível mínimo de consumo, assim como a ausência ou dificuldades no acesso ao crédito, à terra, à educação, à cidadania, a bens e serviços públicos básicos (DEDECCA et al., 2007).

A exclusão social é um fenômeno que coloca em relevo as desigualdades econômicas, políticas e culturais que tem uma base territorial de referência (NAHAS et al., 2009). Nesse sentido, a exclusão é definida como uma desigualdade social com origem nos processos econômicos, políticos ou culturais, e o resultado desses processos leva a aumentar a vulnerabilidade social dos indivíduos, famílias e sociedade.

Tanto o conceito de exclusão social como o de vulnerabilidade social, têm a pretensão de superar e incorporar o conceito de pobreza (NAHAS et al., 2009). Pobreza não pode ser definida de forma única, mas ela se evidencia quando parte da população não é capaz de gerar renda suficiente para ter acesso sustentável aos recursos básicos que garantam uma qualidade de

vida digna. Estes recursos são: água, saúde, educação, alimentação, moradia, renda e cidadania. De acordo com Yasbek (2003), são pobres aqueles que, de modo temporário ou permanente, não tem acesso a um mínimo de bens e recursos sendo, portanto, excluídos em graus diferenciados da riqueza social.

O conceito de pobreza relaciona-se diretamente com a falta e a carência, enfatizando a carência material. Em especial, ressalta-se a falta de recursos financeiros que indica tanto a ausência de elementos essenciais para a subsistência e para o desenvolvimento pessoal, como um fracasso das ferramentas necessárias para se abandonar essa posição (NAHAS et al., 2009).

Como exprimem Salama e Destrema (1999) apud Nahas et al. (2009, p. 9), “esta noção apóia-se na percepção de sinais externos de pobreza, que fazem eco com as representações estabelecidas: os pobres são, antes de tudo, representados pelo que não têm ou pelo que não são”. Portanto, refere-se mais a uma característica do que a uma situação, enquanto que o conceito de vulnerabilidade social, nos últimos anos, apresenta uma maior reflexão sobre o fenômeno da pobreza, deixando de avaliar apenas os indicadores econômicos ou de carências não atendidas, abordando de forma mais integral e completa as diversas modalidades de desvantagem social (ABRAMOVAY et al., 2002; ALMEIDA, 2006).

As situações de vulnerabilidade podem ser geradas não apenas pela sociedade, mas também pela maneira como as pessoas lidam com as perdas, os conflitos, a morte, a separação ou com as rupturas (ALMEIDA, 2006). Fatores como a fragilização dos vínculos afetivo-relacionais e de pertencimento social (discriminações etárias, étnicas, de gênero ou por deficiência) ou vinculados à violência, ao território e à representação política também afetam as pessoas.

Dessa forma, conforme Abramovay et al. (2002), as configurações vulneráveis são aquelas que não se restringem somente às situações abaixo da linha da pobreza, mas a toda população em geral, partindo do reconhecimento do fenômeno do bem estar social de uma maneira dinâmica, e das múltiplas causas e dimensões associadas a esse processo.

A capacidade de resposta (alta, média ou baixa) dos indivíduos e das famílias, frente às mudanças e desafios impostos pelo ambiente natural e social, pode ser expressa através de sentimentos de desamparo, medo e insegurança, frente à exposição aos riscos envolvidos na vida em sociedade (BUSSO, 2001).

Vulnerabilidade social coloca em discussão as desvantagens sociais nas relações entre: a) os ativos físicos, financeiros, humanos e sociais disponíveis aos indivíduos e às famílias; b) a estrutura de oportunidades definidas pelo mercado, pelo Estado e pela sociedade civil, e c) as estratégias de uso dos ativos (BUSSO, 2001).

O primeiro elemento diz respeito à posse ou ao controle dos recursos materiais que permitem aos indivíduos se desenvolverem em sociedade. O segundo refere-se às estruturas de oportunidades que provêem do mercado, do Estado e da sociedade. Elas se vinculam em níveis de bem estar, aos quais se pode ascender em um determinado tempo e território, podendo propiciar o uso mais eficiente dos recursos ou ainda recuperar aqueles esgotados. Por fim, o terceiro elemento refere-se a estratégias quanto ao uso que os indivíduos fazem de seu conjunto de ativos com vistas a fazer frente às mudanças estruturais de um dado contexto social.

No que tange à interação desses três componentes da vulnerabilidade social, Busso (2001) coloca:

A mobilização de ativos se realiza tanto como estratégias adaptativas, defensivas ou ofensivas a mudanças no conjunto de oportunidades, e têm como finalidade fortalecer a quantidade, qualidade e diversidade de ativos disponíveis para ascender de forma distinta e mais satisfatória ao conjunto de oportunidades que são fornecidas pelo ambiente (BUSSO, 2001, p. 14).

Nesse sentido, a vulnerabilidade ou segurança de qualquer grupo é determinada pelos recursos disponíveis e pelo direito dos indivíduos e grupos em recorrer a esses recursos (KELLY; ADGER, 2000). A situação de carência e deterioração compromete não apenas a situação presente, com o enfraquecimento da trama social, mas também as gerações futuras tendo em conta a transferência intergeracional da pobreza. É quase um “círculo vicioso” que reproduz as condições de marginalização (PERONA et al., 2000).

Quando se apela ao conceito de carência para descrever uma situação de pobreza, também se refere à deterioração dos vínculos relacionais que se traduzem num alijamento da vida pública, onde a presença política e sua influência social se mantêm no plano formal, ao invés da participação real. O enfoque da vulnerabilidade social proposto por Busso (2001) afirma que esta é uma noção multidimensional, com raízes em fatores internos e externos aos indivíduos que, combinados, causam danos ou comprometem a capacidade de resposta das pessoas.