3 FEIRA LIVRE E OS SUJEITOS
3.2 Feirantes: perfil e situação do grupo estudado
Descrever a analisar o perfil de homens e mulheres que tornaram-se feirantes não é uma tarefa das mais fáceis. Classificá-los a partir de seus traços físicos e fenotípicos, me importa menos que, refletir sobre suas histórias de vida imbricadas ao mundo do trabalho e as reais possibilidades que moldaram suas experiências. Sendo assim, é possível interrogar suas experiências e compor um perfil social dos feirantes enquanto um grupo? Existem muitas feiras em que uma única categoria de trabalhadores são responsáveis pela dinâmica desse tipo de atividade comercial, como a feira da COHAB, que é uma “feira livre” que foi criada exclusivamente para produtores rurais no ano de 1994 em São Luís no Maranhão234 e a feira da Sulanca em Pernambuco, mercado de homens e mulheres que vendem retalhos de tecidos, considerados de qualidade inferior, oriundos da região Centro-Sul.235 Então, que tipo de “mercador” eram os homens e mulheres que vendiam seus produtos na feira livre de SAJ entre os anos 1950-1970? Quais eram suas condições sociais? Qual o perfil étnico-racial desses sujeitos?
Celso Furtado e Caio Prado Júnior em seus estudos sobre a história econômica no Brasil afirmaram que a plantação de produtos agrícolas que eram valorizados no mercado internacional, principalmente a cana de açúcar, foi a forma de ocupação que predominou no
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Ver: SANTOS, Arinaldo Martins. A feira livre na COHAB: contatos iniciais com a realidade da feira do produtor rural em São Luis. In: Ferretti, Sérgio. Reeducando o olhar: Estudos sobre feiras e mercados. São Luis- MA. Edições UFMA-PROIN-CS. 2000. Pgs.67-96.
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GOMES, Sueli de Castro. Do comércio de retalhos à feira da Sulanca: uma inserção de migrantes em São Paulo, São Paulo: Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da USP-SP. 2002.
Nordeste desse país.236 Segundo Afrânio Raul Garcia Júnior, as relações entre os proprietários e os trabalhadores diretos são caracterizadas por formas de trabalho forçado, onde a escravidão aparece como forma mais importante e como símbolo de dependência pessoal do trabalhador direto ao grande proprietário de terras. Ele assegura que, mesmo para os trabalhadores não escravos, o status jurídico de homem livre não parece estar associado à independência frente aos grandes proprietários.237 Sobre esses trabalhadores livres o autor afirma que,
Os trabalhadores agrícolas, juridicamente livres, que residiam nas grandes propriedades, também faziam parte da rede de subordinação pessoal ao grande proprietário de terras. O acesso à terras, que permitisse a produção necessária à reprodução do trabalhador e de sua família era mediado pela relação com um grande proprietário. A grande plantação aparece, portanto, como excludente de um campesinato livre, isto é, de trabalhadores agrícolas que tenham acesso direto à terra, dela extraindo, mediante o trabalho familiar, o produto necessário à sua existência.238
Conforme vimos no capítulo I, a cidade de SAJ está inserida historicamente na porção do Recôncavo que é conhecida pelos estudiosos como Recôncavo da Subsistência ou Recôncavo Mandioqueiro, cuja estrutura produtiva, relações sociais e a própria manutenção da vida material associava-se a essa realidade. Nessa região, até a década de 80 do século XX era comum a existência de pequenos proprietários rurais,239 rendeiros240, meeiros,241 comerciantes, diaristas, assalariados. Muitos desses homens e mulheres tinham na lavoura uma das principais atividades da sua labuta cotidiana na roça.242 Entre os feirantes que fizeram parte desse estudo existia uma multiplicidade de condições e situações, muitas vezes
236
FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. São Paulo: Editora Nacional, 1969; PRADO Jr. Caio. História Econômica do Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1969.
237
GARCIA Jr, Afrânio Raul. Terra de trabalho: trabalho familiar de pequenos produtores. Rio de Janeiro-RJ: Editora Paz e Terra, 1983. Pg.21.
238
Idem. Idem.
239
Pessoas que possuem pouca terra e não estão subordinados pessoalmente a um grande proprietário determinado. In: Afrânio Garcia. Op. Cit. Pg.60.
240
Pessoas que não possuem a propriedade de terras e arrendam. Arrendamento consiste em pagar a “posse” da terra em trabalho, dinheiro ou espécie. Sobre essa questão ver: HOBSBAWM, Eric. Pessoas Extraordinárias: resistência, rebelião e jazz. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1998. Cap. 12 – Ocupações de terras por camponeses. Pg.243.
241
Agricultor que trabalha em terras que pertencem a outra pessoa. Em geral o meeiro ocupa-se de todo o trabalho e reparte com o dono da terra o resultado da produção. O dono da terra fornece o terreno, a casa e, às vezes, um pequeno lote para o cultivo particular do agricultor e de sua família. Fornece ainda equipamento agrícola e animais para ajudar no trabalho. Ver: SANTANA, Charles D‟Almeida. Fartura e Ventura
Camponesas: trabalho, cotidiano e migrações – Bahia: 1950-1980. São Paulo: Annablume, 1998. Pg.45.
242
OLIVEIRA. Op. Cit.; SANTANA, Charles D‟Almeida. Fartura e Ventura Camponesas: trabalho, cotidiano e migrações – Bahia: 1950-1980. São Paulo: Annablume, 1998.
associados a outras maneiras de obter renda para garantir sua própria subsistência. Como já argumentei anteriormente, todos os entrevistados quando falam de seus “espaços de vivência e experiência”, se referem à roça (campo) e rua (cidade). Parte significativa dos sujeitos da pesquisa possuíam roças, moravam lá e desempenhavam várias atividades.
Dessa forma, em consonância com Afrânio Garcia, entendo roça como nome atribuído a uma área em que a mandioca é cultivada,243 no nosso caso, além dessa lavoura muito comum em toda região, pois se encontrava em quase todas as roças; outros produtos agrícolas eram cultivados, como aipim, batata-doce, feijão, fumo, café, milho, amendoim, frutas tropicais, verduras, hortaliças; se produzia carvão, arrancava-se madeiras das árvores para comercialização, plantava-se matos como capim, pindoba e sapé para vender e ainda criava-se animais como bois, vacas, carneiros, porcos, cavalos, jumentos, galinhas, perus, etc. Na roça também existia os elementos que são constitutivos da situação dos pequenos proprietários, como: água, capim para os animais de transporte, lenha, etc. Conforme observou Afrânio Garcia Jr.244
Mas todos os feirantes possuíam sua própria terra, ou seja; sua própria roça? Ao falar de momentos marcantes da história de sua vida, o feirante Elizeu Mota traz dimensões do seu mundo do trabalho através das experiências que ele fora tendo paulatinamente. Ao falar sobre terra e trabalho esse feirante relembrou que,
Naquela época, porque todo menino é traquino, mas não tinha muito tempo de fazer arte não, era trabalhar e meu pai nunca aceitou agente mexer com negócio de passarinho, gaiola, visgueira*, um badoguezinho* agente usava, porque menino é sempre traquino. Sempre trabalhando. Quando eu tomei conta, porque ele deixou de exercer a feira, a produção, eu tomei conta e aí, eu já trazia a produção da gente que fazia, toda semana fazia farinha lá e comecei comercializar, entrosei e estou até hoje graças a Deus.245
A narrativa desse feirante apresenta nuances de sua vida ainda quando era criança, com forte conotação para uma infância que fora marcada pelo mundo do trabalho. Outra questão é que Elizeu Mota era membro de uma família que tinha roça, situação que o colocava na condição de ser filho de pequenos proprietários rurais. Outro fator que podemos abstrair da narrativa é o fato do trabalho familiar que eles desempenhavam na roça e a farinha
243
GARCIA Jr, Afrânio Raul. Op. Cit. Pg.58.
244
GARCIA Jr, Afrânio Raul. Op. Cit. Pgs.58/59.
245
de mandioca era um dos principais produtos, fruto da lavoura, que era comercializado na feira livre da cidade de Nazaré das Farinhas e também de SAJ.
O relato do feirante Elizeu Mota torna-se muito importante porque suas experiências se assemelham à de muitos outros feirantes, condição esta que me leva a considerar “experiências em comum” que esses sujeitos apresentaram nessa pesquisa. Dos feirantes entrevistados 57% eram pequenos proprietários246 e desenvolviam o trabalho familiar em suas roças. Esse era um tipo de economia, que chamo de “economia da roça”, onde o trabalho familiar assume uma importância fundamental nesse processo. Era uma economia em que a ideia de um “misto” pode melhor se aproximar a realidade, já que, os frutos da lavoura, da produção de carvão, da criação de animais, etc. parte servia para o consumo familiar, ou seja, a subsistência, parte era destinada para a venda, o abastecimento – comercialização nas feiras livres, sua principal fonte de renda. Subsistência aqui entendido como aquilo que é socialmente necessário para a reprodução física e social do trabalhador e de sua família.247
Esse trabalho familiar tinha no pai, o chefe da família, pequeno produtor rural, a responsabilidade de prover a subsistência de seu grupo doméstico, organizando as tarefas que seriam desempenhadas pelos membros da unidade familiar. Em casos que o provedor se tornava ausente por algum motivo, como ocorreu com o feirante Clementino Ferreira, que sua mãe deixou o marido por causa do seu envolvimento com atividades ilícitas, já que o mesmo era especialista em roubo de galinhas, era a mulher que assumia a chefia da família e as demais responsabilidades que abordei acima.248 Apenas um feirante, Esmeraldo Nunes, relatou que em um dado momento de prosperidade em sua vida, contratou um rapaz para ajudá-lo nas atividades na roça. Os demais nenhum deles tiveram contratados ou trabalhadores assalariados.
É comum observar nos relatos dos feirantes relações de solidariedades entre os membros da família, na produção doméstica e, sobretudo, no mundo do trabalho como um todo. Essa característica revela uma questão muito específica que nos leva a percepção de que o trabalho desses homens e mulheres apresenta uma natureza econômica e social. Questão esta que foi observada por Afrânio Garcia ao analisar a vida e o trabalho familiar de pequenos
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Não pude trazer dados em números referentes às dimensões territoriais das roças dos feirantes. A condição de pequenos proprietários pode ser defendida pela forma como eles falam e representam em suas narrativas: “Terrenozinho pequeno”, “um pedacinho de terra”, “uma rocinha”, etc.
247
Afrânio Garcia. Op. Cit. Pg.16.
248
produtores na Zona da Mata de Pernambuco.249 No mundo do trabalho dos feirantes existe um sistema de valores que obedece a uma lógica específica, uma espécie de “economia moral”, como irei abordar no último capítulo.
As fontes orais sugerem que não havia distinção de sexo e idade quanto ao desempenho das atividades na lavoura e criação de animais na roça, exceto em alguns casos. Por exemplo, quando se tratava do trabalho de transformação da mandioca em farinha, eram os homens que cevavam esse tubérculo para a obtenção da massa, já que este era um labor que exigia uma considerável força física para realizá-lo e nos trabalhos domésticos, cuja regra era a mulher ser responsável por tal tarefa. A norma dessa realidade era que os filhos ajudavam seus pais e não tinha a contrapartida de um pagamento imediato em dinheiro pelo seu trabalho. O esforço dos filhos aparece como uma lógica imbuída de significados e valores morais e éticos, necessária à formação do caráter deles, que um dia aspiravam tornarem-se homens e mulheres.
O trabalho familiar também era uma lógica utilizada por feirantes que não tinham terras e eram explorados por grandes proprietários rurais. O lavrador Josué Pereira dos Santos, em um dos fragmentos do seu testemunho, em tom de riso e com um vocabulário bem familiar que muito expressa da sua cultura, relatou que deixou a roça no meado dos anos 1960,
Porque eu tava cansado de trabaiá e arrastava a enxada e não via nada, né? Não via nada porque enxada nunca deu nada, porque o povo diz que nunca madurece, nunca madurece e a gente não tinha terreno, trabaiava meia num, né? E quando a gente era comia a banda* da roça da gente e a do dono ficava lá, quando maducia dava dois tantos de que a gente comeu.250
Diferentemente dos outros feirantes que eram pequenos proprietários, os meeiros estavam subordinados a um grande proprietário rural, esse fato mudava sua condição e situação. As evidências indicam que o abastecimento que supria a sobrevivência familiar, era mais delicado para os sujeitos que estavam submetidos à condição de meeiros, já que, dependiam da boa vontade dos donos das terras, de suas determinações gerenciais e administrativas e, sobretudo, conforme evidencia o relato, “a banda da roça dos donos quando maducia dava dois tantos a mais que a dos meeiros”. Assim, percebe-se o quanto era desigual
249
GARCIA, Afrânio. Op. Cit. Pg.101.
250
Depoimento de Josué Pereira dos Santos. Ex-feirante. Rua Sóter Barros n. 101, Santo Antônio de Jesus-BA. Nascido em 1933. Pg.03.
a divisão das terras e, consequentemente a produção. A marca mais expressiva dessa relação, segundo a ótica de Josué Pereira, era a exploração. Isso sugere que momentos de tensão foram vivenciados por sujeitos que estavam submetidos a este tipo de relação.
Experiência semelhante vivenciou o feirante Augusto Soares da Silva, que junto a sua família também não tinha terras e vivia na condição de meeiro na cidade de Sapeaçú no Recôncavo baiano dos anos 1950. Dentre os feirantes que viviam essa realidade estavam também: Brasilina de Jesus Pires, Rodrigo Lopez do Vale e muitos outros. Sendo assim, 37% deles não possuíam terras, mas eram também pessoas que trabalhavam na lavoura no sistema de trabalho familiar para a subsistência e também comercializavam tais produtos, enquanto 5% não eram detentores de terras e nem estavam vinculados à lavoura.
Posso afirmar que os feirantes que deram vozes a escrita desse trabalho, inicialmente eram produtores rurais, pequenos proprietários de terras, meeiros que vendiam nas feiras o fruto do seu trabalho na roça que serviam para o abastecimento local e da região. Todavia, as fontes permite-me afirmar também, que ao longo da carreira no ofício, havia uma rotatividade de posições que os feirantes assumiam ao longo do tempo. Por exemplo, Esmeraldo Nunes e João Nunes, nos anos 50 do século XX eram produtores rurais que faziam carvão e vendiam esse produto nas feiras livres de Nazaré das Farinhas e de SAJ. Nos anos 60 e 70 do mesmo século, eles compravam diversas mercadorias como azeite, peixes, conforme já vimos mais acima, para revender no mercado ao ar livre. Esmeraldo Nunes comprava grandes quantidades de Cebola na cidade de Feira de Santana para revender na feira livre de SAJ. Nesse momento ele se tornava um comerciante que comprava mercadoria na mão do produtor rural para vender ao comerciante varejista, agora já na condição de atravessador.
Outro feirante que seguiu também esse itinerário de atravessador foi Augusto Soares, que nos primórdios de seu ofício como feirante, era produtor rural, mas comprava grandes quantidades de laranja para revender nas feiras de SAJ e Salvador, na Bahia. Ainda em meio a essa realidade, vários feirantes exerciam outras funções e atividades complementares com o objetivo de ampliar sua renda para garantir o sustento familiar.251 Ao longo da vida desses trabalhadores é comum observar que eles alternavam suas posições no ramo das atividades comerciais ao sabor das conjunturas. Assim como variavam muito no tipo de mercadorias que eram por eles comercializadas. Isso implica perceber uma das características mais importante desse ofício – dinâmica –. Ao longo do texto, a partir das narrativas das experiências desses sujeitos, o leitor visualizará melhor essas nuances.
251
Essas questões que dizem respeito ás variações que ocorriam dentro da categoria profissional, a exemplo de um feirante que começou fazendo e vendendo carvão e mais tarde passa a ser atravessador ou um grande comprador de mercadorias para revendê-las, são importantes para pensarmos no processo de conquista da autonomia, algo desejado por eles ao longo da vida. Irei retomar essa questão mais adiante, no último capitulo desse trabalho.
Enfim, o produtor rural, o atravessador, etc. poderia se manifestar na história de vida de um único indivíduo. É possível afirmar também, que as relações de trabalho não eram dadas, mas pensadas e objetivadas cotidianamente como prática social, no contexto de todo um modo de vida e de luta.
Nesse sentido, que tipo de feirante negociava e atuava na feira livre da cidade de Santo Antônio de Jesus entre os anos 1950-1970 do século XX? Era o agricultor ou produtor rural que comercializava “qualquer coisa que a roça desse”? Era o atravessador? Era o que fazia o café da manhã e a comida e levava para vender na feira? Era o que comprava porco ou gado para matar e depois vender naquele mercado? Era o que fabricava e vendia artesanatos? E o que vendia roupas, sapatos e artigos de armarinhos? E os marceneiros que fabricavam suas peças de madeira também para vender na feira? Todos esses tipos de comerciantes e muitos outros mercavam na referida feira livre. Acredito que aqui talvez esteja uma questão de cunho teórico-metodológico a ser resolvida.
Talvez para esses trabalhadores, conforme as palavras de uma mulher feirante que atuou nesse universo, Brasilina Maria Jesus Pires, “Feirante é a gente que vai pra feira vender coisa”.252
Já para a autora Amy Adelina Alves, feirante “é toda e qualquer pessoa, produtor ou revendedor, adulto ou criança, homem ou mulher, que esteja vendendo algum bem ou mercadoria na feira”.253
Acredito que tanto a concepção da feirante quanto a da autora são passíveis de complementariedade por entender que existe variações dentro dessa categoria profissional. Mas do que definir o que é “um/o feirante”, é mais importante abordar a diversidade de experiências que esses sujeitos vivenciaram ao longo da vida para percebermos as variações que ocorriam na carreira profissional de um único indivíduo.
Dessa forma, o que observei nessa pesquisa, é que nos anos 1950, uma parcela significativa dos feirantes começaram como pequenos produtores rurais, vendendo de maneira ainda tímida os produtos e mercadorias que a roça oferecia, principalmente, frutas, verduras,
252
Brasilina Maria Jesus Pires. Op. Cit. Pg.08.
253
ALVES, Amy Adelino. A mulher da feira do Riachão: modos de vida e experiência. In: Álvares, Maria Luiza Santos & FERREIRA, Eunice. Olhares e diversidades: os estudos sobre gênero no Norte-Nordeste. Belém- Pará. GEPEM/CFCH; REDOR, 1999. Pg.143.
hortaliças, carvão, etc. Já nas décadas de 1960 e 1970, com o bom andamento de suas atividades na feira livre, conseguiram prosperar, transformando-se em atravessadores com potencialidade para comprar grande quantidade de mercadorias e diversificarem bastante seus ramos de negócios. Ou seja, muitos deles passaram de pequeno produtor rural a vendedor de grandes quantidades de mercadorias e produtos.
Essa transformação implica em ascensão social desse trabalhador, Já que, por exemplo, o feirante que fazia e vendia carvão se sentia humilhado por desempenhar tal atividade e vender esse determinado produto dentro da categoria profissional. Assim, é possível percebermos que essa ascensão social estava relacionada à determinados tipos de produtos comercializados e sobretudo, à posição do feirante dentro da categoria. Até porque, é possível estabelecermos uma suposta hierarquia que existe nesse universo conforme mostrarei mais adiante. A meu ver, são essas questões que definem o estatuto de feirante. Estatuto esse que não pode ser pensado de maneira estática e monolítica, em função do alto grau de dinâmica que ocorre tanto no mundo do trabalho dos feirantes quanto no da própria cultura desses indivíduos.
Outro elemento a se destacar sobre o perfil dos feirantes diz respeito aos traços étnico- raciais desses sujeitos, especialmente o quesito cor. Para Álvaro Pereira Nascimento, a historiografia que investiga trabalhadores pobres na República tende a não incluir o componente cor dos indivíduos pesquisados em suas páginas. Segundo ele, essa ausência torna-se ainda maior nas pesquisas voltadas para os séculos XX e XXI, quando a cor dos trabalhadores é frequentemente invisibilizada.254 Elizabete Rodrigues da Silva em sua tese de doutorado intitulada: “As mulheres no trabalho e o trabalho das mulheres: um estudo sobre as mulheres fumageiras do Recôncavo baiano”, ao falar sobre os traços étnicos da população do Recôncavo afirmou que,
A composição do quadro social e cultural da população fumageira, na primeira metade do século XX, é herdeira da mais ampla e histórica formação social do Recôncavo baiano, onde ameríndios, africanos e europeus se “encontraram” e, como em outras regiões, não puderam impedir