2 PERCEPÇÃO VISUAL
2.2 A fenomenologia e a psicologia da forma – Gestalt
No decorrer do século XX, as reflexões filosóficas do inatismo e do empirismo sobre o conhecimento, foram sendo superadas por novas concepções, como a fenomenologia32 e a Psicologia33 da Forma ou teoria da Gestalt.
30 Para um aprofundamento da discussão ver KANT, Critique of practical reason, and other works
on the Theory of Ethics, 1929.
31 CHAUÍ, 1997, p. 87-88.
32 A fenomenologia teve como precursor Franz Brentano (1838-1917) já no final do século XIX,
embora tenha sido Edmund Husserl (1859-1938) quem abriu caminho para a reflexão de filósofos como Heidegger, Jaspers, Sartre e Merleau-Ponty. A fenomenologia é uma filosofia e um método que considera a razão uma estrutura da consciência (como Kant), mas cujos conteúdos são produzidos por ela mesma, independente da experiência (diferente de Kant). Para um maior aprofundamento do tema ver MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção, 1994.
33 O reconhecimento da psicologia como ciência (Alemanha, século XIX), está relacionado com a obra
de Fechner “Elementos da psicofísica” (1860), e a fundação do primeiro Laboratório de Psicologia Experimental (1879), por Wilhelm Wundt (1832-1920), em Leipzig, na Alemanha. Os principais representantes da tendência experimentalista foram: Weber, Fechner, Helmholtz e Wundt, todos médicos que se voltaram para o exame de questões referentes à percepção, estabelecendo critérios para generalizar e quantificar a relação entre as mudanças do estimulo e os efeitos sensoriais correspondentes. Wundt centrou seus estudos na percepção sensorial, principalmente a visão, buscando estabelecer ligações entre os fenômenos psíquicos e o seu substrato orgânico, sobretudo cerebral.
A fenomenologia propõe a superação da dicotomia colocada pelo racionalismo (ênfase no papel do sujeito que conhece) e pelo empirismo (privilegia a determinação do objeto conhecido). Para tanto, sustenta que toda a consciência é intencional, ou seja, não há pura consciência, separada do mundo, assim como não há objeto em si, independente de uma consciência que o perceba. Portanto, os objetos são fenômenos, algo que aparece para uma consciência. Daí a importância dada ao sentido e à rede de significações que envolvem os objetos percebidos – a consciência “vive” imediatamente como doadora de sentido. A abordagem fenomenológica teve suas principais linhas formuladas pelo filósofo alemão Husserl.
A Gestalt34 é um exemplo de aplicação da fenomenologia na psicologia. A
palavra alemã Gestalt é em si mesma intraduzível, mas o sentido freqüentemente atribuído ao termo é de configuração, figura estruturada e forma.
Os psicólogos gestaltistas defenderam que não há excitação sensorial isolada, mas complexas, nas quais o parcial é função do conjunto. Portanto, o objeto não é percebido em suas partes, e depois organizado mentalmente, mas se apresenta primeiro em sua totalidade e só depois o indivíduo atentará os detalhes.
Esta teoria pretende demonstrar que não podemos perceber senão fenômenos inteiros e estruturados, indissociáveis do conjunto no qual eles se inserem e sem o qual nada mais significam. Na verdade, a nossa percepção, para os gestaltistas, está simultaneamente ligada aos elementos percebidos e à nossa própria estrutura mental, que nos fazem consoante às circunstâncias do momento, reuni-las desta ou daquela maneira.
Assim, um teste clássico da gestalt, conhecido como figura-fundo, mostra "imagens duplas" onde é possível estruturar a composição de duas maneiras diferentes, segundo os elementos, que se adaptam como forma ou como fundo. Estas gestalts, ou formas totais são imagens que emergem uma a uma, sucessivamente, de um fundo no qual vai de novo imergir e perder-se, sem que nós
34 A teoria da Gestalt teve como precursor Ehrenfels, que já em 1890 falava sobre as qualidades da
forma, mas essa teoria – influenciada pela fenomenologia, e oposta às psicologias positivistas – só foi de fato desenvolvida com Wolfgang Köller (1887-1968) e Kurt koffka (1886-1941), no começo do século XX. Desenvolveu-se como uma crítica à análise atomística, vigente no final do século XIX, que tentava reduzir a percepção a uma análise rigorosa, até encontrar o “átomo” psíquico fundamental. Assim, o mundo era percebido como uma grande confusão de sensações, cujos fragmentos seriam ligados em processo de associação através da percepção, e depois em idéias. Cada elemento era analisado separadamente dos outros e a soma das partes resultava na experiência total.
possamos opor-nos a isso. É impossível ver as duas imagens ao mesmo tempo, e a passagem de uma para a outra se faz bruscamente, de uma só vez, por reconstrução mental do conjunto. É inútil fazer qualquer esforço, pois isso em nada acelerará o processo: a imagem aparece por "iluminação", como uma evidência, ou não aparece de todo. Esta experiência confirma que não há sensações parciais, mas antes percepções globais.
A gestalt defende também que a percepção global reconstitui elementos ausentes. Nesse caso, foram realizados testes com "imagens incompletas", das quais apenas se pode perceber o sentido completando-as, ou seja, percebendo o todo, ao mesmo tempo em que as partes, na sua aparência bruta, nada significam.
Conforme Chauí35, a fenomenologia e a Gestalt mostraram:
• Contra o empirismo, que a sensação não é reflexo pontual, ou uma resposta físico-fisiológica a um estímulo externo, também pontual; • Contra o intelectualismo, que a percepção não é uma atividade
sintética, feita pelo pensamento sobre as sensações;
• Contra o empirismo e o intelectualismo, que não há diferença entre sensação e percepção.
A teoria da gestalt argumenta que a síntese da percepção é uma realização característica do sistema nervoso central, que pode ser chamada de organização sensorial. Sustenta que há uma isomorfia entre o que existe na retina e o que acontece na mente, mas é evidente que não puderam provar. No entanto, a grande dificuldade está em encontrar respostas nos processos hipotéticos da organização sensorial por eles postulados, além do problema de correspondência entre o campo perceptivo total e a estimulação total, do modo como foi formulado por Koffka.36
A maior contribuição da gestalt à percepção visual foi formular a pergunta: “como nós podemos ver as formas visuais?”, ao invés de especular que a qualidade da forma é algo que se acrescenta a uma soma de sensações. Sendo assim, as questões formuladas pelos gestaltistas diferiram de todas as indagações colocadas até então, pois dizem respeito ao mundo visual, ou seja, o mundo das imagens.
35 CHAUÍ, 1997, p. 121.
36 O livro de GIBSON The perception of the visual world, 1980, assim como toda a obra posterior
Nesse caso, fazemos aqui uma passagem para o estudo dos desempenhos do órgão diretamente ligado a este sentido: os olhos.