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2 PERCEPÇÃO VISUAL

2.3 Os olhos – instrumento universal da visão

O presente tópico busca responder a algumas indagações que cercam a problemática de ver uma imagem, bem como as variantes implícitas a esse domínio. Convém assinalar que, mesmo sem ignorar a presença de outros sentidos na percepção visual, aqui será considerado como ponto crucial àquilo que se refere à visão. Julgamos importante esclarecer que, embora o estudo da percepção visual apresente inúmeros autores que discorrem sobre o tema, para fins operativos, recorreremos com freqüência a Jacques Aumont37, sobretudo por reconhecermos

suas contribuições cientificas às pesquisas sobre o universo das imagens em movimento, foco de interesse desta pesquisa.

2.3.1 Olho e processo visual

As imagens são objetos visuais regidos pelas mesmas leis perceptivas que qualquer outro objeto visual. Se existem imagens e objetos visuais, é porque temos olhos. Os olhos são um dos instrumentos da visão, mas não o único e, nem o mais complexo. A visão emprega diversos órgãos especializados, portanto, pode-se afirmar que a visão resulta de três operações distintas e sucessivas: operações ópticas, químicas e nervosas.38

O processo que envolve a formação da imagem de um objeto sobre a parede do fundo de uma câmera obscura é uma operação óptica, que implica em: os raios luminosos provenientes de uma fonte (por exemplo, o sol) vêm atingir o objeto (por exemplo, um bastão branco), que deles reflete uma parte em todas as direções;

37 Jacques Aumont é professor de teoria e estética do cinema, na Universidade de Paris III, é

pesquisador de metodologias para a aprendizagem de imagens em movimento, como o cinema e o videoarte. Tem o mérito de ter revisado grande parte das bibliografias do gênero, e apresentado novos encaminhamentos ao estudo cientifico da percepção visual.

entre os raios refletidos, uma quantidade penetra na abertura da câmera obscura e forma uma imagem (invertida) do objeto sobre a parede do fundo.

Devido ao fato da luz ser muito difusa, apenas uma pequena quantidade alcança essa parede; portanto, a imagem é extremamente pálida. Nesse caso, se o nosso objetivo fosse registrá-la sobre uma chapa fotográfica, seria necessário um longo tempo de exposição. E, se quisermos aumentar a luminosidade, é necessário que se intensifique a quantidade de luz que penetra na câmera obscura, alargando a abertura. Com a finalidade de corrigir este defeito, foram criadas as lentes convergentes, no século XVI.

É esse mesmo princípio que funciona no olho humano, ou seja, da “captura” de uma grande quantidade de raios sobre uma superfície, e da concentração deles em um ponto. No caso, é comum a comparação do funcionamento do olho humano com o processo de captura feito por uma máquina fotográfica, embora cumpre aqui ressaltar que esta comparação se aplica apenas à parte óptica do processamento da luz, e que se trata de uma analogia aproximativa.

A retina também está permanentemente diante de um processo de transformações químicas. O fundo do olho é revestido por uma membrana chamada retina, na qual se encontram inúmeros receptores de luz compreendidos em dois grupos: os bastonetes e os cones. Ambos comportam moléculas de pigmento, que se decompõe por reação química em duas outras substâncias.

A imagem retiniana é a projeção óptica obtida sobre o fundo do olho, conseqüência do sistema que envolve a córnea, a pupila e o cristalino. Essa imagem, ainda de natureza óptica, é tratada pelo sistema químico retiniano, que a transforma numa informação de outra natureza. Diferentemente de tudo que foi sugerido até aqui sobre o termo imagem, nós não vemos as imagens retinianas, pois ela é somente um estágio de processamento da luz pelo sistema visual.

O terceiro estágio colaborador no resultado da visão é o das transformações nervosas. De modo bastante esquemático, pode-se dizer que cada receptor retiniano está ligado a uma célula nervosa através de um relé (sinapse); cada uma dessas células está, por intermédio de outras sinapses, ligada às células que constituem as fibras do nervo óptico.

As trocas entre essas células são muito complexas, porque aos dois níveis sinápticos somam-se várias ligações transversais, que agrupam as células em redes. O nervo óptico parte do olho e atinge uma região lateral do cérebro, a articulação, de onde saem novas conexões nervosas em direção a parte posterior do cérebro, até chegarem ao córtex estriado. 39

Nessa complexa rede da visão, as transformações nervosas representam o último estágio de processamento da informação, tratada inicialmente de forma óptica e, em seguida, química. O sistema visual, portanto, não se contenta em copiar a informação, mas a processa em cada estágio. Um exemplo disso é as sinapses, que apresentam uma função ativa de excitação ou inibição das informações.

Essa etapa do sistema perceptivo visual, as transformações nervosas, é a mais importante, e também a menos conhecida. Somente há cerca de quarenta anos que se começou a ter noção de sua estrutura e funcionamento. E cabe acrescentar que ainda não se conhece com exatidão como a informação passa do estágio químico ao nervoso; a própria natureza do sinal nervoso que, metaforicamente, é comparável a um sinal elétrico, não é totalmente clara.

No entanto, o que mais importa nessa discussão é levar em consideração que, se o olho se assemelha, até certo ponto, à uma máquina fotográfica e, se a retina é comparável a uma espécie de chapa sensível, o essencial da percepção visual é realizado depois, através do processo de tratamento da informação que, como todo processo cerebral, está mais próximo dos modelos informáticos ou cibernéticos do que dos modelos mecânicos ou ópticos. Entenda-se que, por “mais próximos”, não queremos dizer que esses modelos sejam os mais adequados.

2.3.2 Os elementos da percepção visual ou percepção da luz, percepção da cor e percepção das bordas

A percepção visual também é o processamento, em etapas sucessivas, de uma informação, que nos chega por intermédio da luz e entra em nossos olhos. Do mesmo modo que qualquer informação, essa também é codificada; no entanto, a

codificação a que nos referimos aqui não tem nada haver com as ciências dos signos, ou melhor, a semiologia, pois se tratam de códigos que correspondem a regras de transformações naturais (nem arbitrárias, nem convencionais) que determinam a atividade nervosa em função da informação contida na luz.

Nesse sentido, falar de codificação da informação visual significa, portanto, dizer que nosso sistema visual é capaz de localizar e interpretar certas regularidades nos fenômenos luminosos que atingem nossos olhos. Essas regularidades referem- se a três características da luz que são: sua intensidade, seu comprimento de onda e sua distribuição no tempo.

Aquilo que experimentamos como sendo a maior ou menor luminosidade de um objeto, corresponde à nossa percepção da luminosidade, interpretada e modificada por filtros psicológicos relativos à quantidade real da luz emitida pelo objeto. Nesse caso, é comum distinguir dois tipos de objetos luminosos, que correspondem a dois tipos de visão: a visão fotópica e a visão escotópica. A primeira se refere ao modo mais habitual de luminosidade natural diurna, e a segunda é a visão noturna. 40

Assim como a percepção da luz provém das reações do sistema visual à luminância dos objetos, a percepção da cor é originada das reações do sistema visual ao comprimento de onda das luzes refletidas pelos objetos. Contrário à nossa reação naturalmente espontânea, a cor – assim como a luminosidade – não está nos objetos, mas antes, em nossa percepção.

A luz branca (especialmente aquela que se origina do sol) é, na verdade, uma síntese de luzes; nela encontram-se misturados todos os comprimentos de onda do espectro visível. Fato que pode ser comprovado ao se decompor essa luz com ajuda de um prisma, ou até mesmo observando-se o arco-íris.

Portanto, toda luz que nos chega através dos objetos é refletida por eles, sendo que a maioria das superfícies dos objetos reflete apenas parte dos comprimentos das ondas, a outra parte é por elas absorvida. Isto serve para entendermos um pouco do que se passa na percepção das cores, considerando-se ainda, que a classificação das cores está sujeita à combinação de três parâmetros,

40 Fizemos aqui uma apresentação bastante simplificada dos desempenhos do olho diante dos fluxos

os quais são: o comprimento da onda, que define o matiz; a saturação do espectro solar; e a luminosidade, ou seja, quanto mais elevada for a luminância, mais a cor parecerá luminosa e, portanto, mais próxima do branco ela estará.

A percepção da cor deve-se à atividade de três variedades dos cones retinianos, onde cada um é sensível a um comprimento de onda diferente. Não descreveremos aqui todo o sistema de codificação das cores no processo visual, embora nos interesse ressaltar sua qualidade complexa. No entanto, nos interessa também mencionar que certos agrupamentos de células, da retina ao córtex, são especializados na percepção da cor, e que esta é uma das dimensões verdadeiramente essenciais da nossa percepção do mundo visual.

Cumpre lembrar que essa dimensão está ausente em todas as imagens que são acromáticas – designadas, de modo geral, por imagens “em preto e branco”. De fato, essas imagens não representam as cores, mas apenas as luminosidades, e comportam toda uma vasta gama de tons de cinzas. A imagem fotográfica é um exemplo recorrente nessa discussão; porém, não se deve esquecer que, bem antes da invenção da foto, imagens em “preto e branco” circulavam nas sociedades, particularmente com as gravuras.

De acordo com Aumont, aí está, sem dúvida, um exemplo maior do fato de que a imagem representa a realidade de maneira convencional, que corresponde ao que é aceitável socialmente (no caso, não exigir a cor: nunca um dos primeiros espectadores do Cinematógrafo de Lumière, por exemplo, se queixou de que a imagem fosse acromática).41

Mas os elementos da percepção visual não se restringem à luminosidade e a cor; no caso, os nossos olhos também são equipados para perceber a distribuição espacial da luz dos objetos, ou seja, os limites espaciais destes objetos expressos em suas bordas.

A noção de borda visual está relacionada com a fronteira entre duas superfícies de luminâncias distintas, independentemente do motivo dessa diferença, para um determinado ponto de vista (há uma borda visual entre as duas superfícies em que uma está atrás da outra, mas se o ponto de vista muda, a borda não estará mais no mesmo lugar). Desse modo, o sistema visual humano está preparado para

reconhecer uma borda e sua orientação, ou melhor, uma fenda, uma linha, um ângulo, um segmento; e esses perceptos são como os elementos fundamentais de nossa percepção dos objetos e do espaço. Tal mecanismo, altamente complexo, nos habilita a perceber inclusive bordas visuais de dimensões relativamente pequenas.

Por fim, cumpre lembrar que os elementos da percepção – luminosidade, bordas, cores – nunca são produzidos de modo isolado, analítico, mas sempre simultâneo, e que a percepção de alguns afeta a percepção de outros. Portanto, não se está em condições de fornecer modelos mesmo simplificados, dessas inter- relações complexas (e até certas teorias o proíbem, como veremos adiante). No que se referem às imagens, elas são percebidas como qualquer outro objeto, e tudo o que foi até aqui apresentado se aplica à sua percepção.

2.3.3 O tempo está inscrito nos nossos olhos

No entanto, embora, a visão seja um sentido essencialmente espacial, os fatores temporais também a afetam. Três razões contribuem nisso:

a) a maioria dos estímulos visuais varia com a duração, ou melhor, se produzem sucessivamente.

b) os movimentos oculares – nossos olhos estão sempre em movimento, fazendo, assim, variar a informação recebida pelo cérebro.

c) a própria percepção não é um processo instantâneo, pois apresenta alguns estágios lentos e outros muito rápidos, portanto o processo da informação se faz no tempo.

A variação dos fenômenos luminosos no tempo se explica, entre outros fatores, pela adaptação e pelo poder de separação temporal do olho. O primeiro caso, refere-se às situações nas quais o olho é confrontado com uma variação excessivamente forte de luz e torna-se “cego” por alguns instantes, ou o contrário, quando, por exemplo, saímos de um ambiente com uma luz solar intensa e entramos em uma sala escura. Em ambos os casos, são exigidos da visão alguns segundos

de adaptação, embora a adaptação à luz seja muito mais rápida do que a adaptação ao escuro.

Embora, o olho possua uma capacidade bastante ampla de sensibilidade à luminância, cotidianamente somos submetidos à variações luminosas, que exigem um poder de adaptação à luz ou à escuridão, que se processam numa escala numérica e implicam numa demanda de tempo por parte do órgão da visão.

Quanto ao segundo fenômeno, do poder de separação temporal, refere-se ao fato de que o olho não é muito rápido para distinguir os estímulos luminosos, ou seja, pode levar até 60 ou 80 milissegundos para separar com precisão e certeza dois fenômenos como não-síncronos. O que não é irrelevante se considerarmos a capacidade de desempenho sensorial de outros órgãos como, por exemplo, o sistema auditivo.

O tempo está inserido em nossa percepção, pois fatores temporais como uma resposta lenta e uma resposta rápida – cintilação e mascaramento, também afetam o que percebemos visualmente.

A esse respeito, desde 1974, houve um grande avanço no entendimento da percepção da temporalidade, com a descoberta de dois tipos de células do nervo óptico, um grupo especializado na resposta aos estados de estímulos permanentes, e o outro, aos estados transitórios. 42

As células permanentes têm um campo receptor pequeno e atuam quando a imagem é nítida; as células transitórias têm um campo bem amplo e respondem a estímulos variáveis, ou seja, correspondem mais à periferia. Correlativamente, há dois tipos de resposta temporal do sistema visual: a lenta e a rápida.