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SO 2 – Dióxido de enxofre

5 O DISCURSO SOBRE AGROENERGIA

5.2 A ANÁLISE DO DISCURSO

5.2.4 FOLHINHA DA EMBRAPA

Como parte da estratégia de aproximação da Embrapa com diferentes segmentos de público, a sua Assessoria de Comunicação Social (ACS) passou, a partir do final da década de 1990, a investir mais seriamente na comunicação voltada ao público infanto-juvenil. Dentre outras atividades, destaca-se a criação, em outubro de 1997, do Programa Embrapa & Escola, iniciado em Brasília, e depois estendido a outras cidades, nas quais é conduzido pela área de comunicação das unidades descentralizadas da empresa. Várias ações de caráter educativo e informativo são contempladas no Projeto. Além da promoção de visitas a instalações e exposições da empresa, empregados voluntários vão a escolas de ensino fundamental e médio e fazem palestras sobre ciência e tecnologia, com destaque para pesquisa agropecuária em geral e para os trabalhos da Embrapa.

A estratégia de aproximação com o público infanto-juvenil visa, além dos aspectos educativos e de divulgação científica, à formação de uma imagem institucional positiva. Sabe- se que é um público também multiplicador, conforme entendido por KUNSCH (2003), capaz de estender as informações a outras pessoas de sua convivência. Investe-se, ainda, nas gerações futuras que, em tese, podem vir a decidir ou a influenciar o destino da instituição.

Encartado na edição do jornal Folha da Embrapa de outubro de 2006, o Folhinha da

Embrapa sobre Agroenergia74 foi destinado a crianças da família dos empregados e ao projeto Embrapa & Escola, e distribuído a estudantes que visitaram exposições promovidas pela empresa em 2006. Seu formato é o mesmo do jornal Folha da Embrapa, em quatro páginas coloridas, com várias ilustrações. A primeira página traz o nome do jornalzinho, impresso de forma atrativa, com as letras cercadas por desenhos representando crianças brincando.

Ocupando a maior parte da página, dispostas em círculo, cinco matérias-primas para a agroenergia - em sentido horário, dendê, cana-de-açúcar, girassol, mamona e soja - foram desenhadas nas cores características das culturas e ganharam olhos, bocas, narizes, braços e

74 Outubro foi escolhido para distribuição do encarte por ser o mês em que se comemora o Dia das Crianças. O Folhinha, ao contrário do Folha da Embrapa, não é um jornal periódico. A edição foi especial.

pernas. Todas as figuras sorriem, são representadas de forma alegre. Os braços estão abertos

ao leitor, numa expressão convidativa, acolhedora ou de quem se apresenta. Nas páginas seguintes, esses desenhos, com estilo e apelo infantis, juntam-se a outros, alusivos ao tema - gotas de óleo ao redor das páginas, porco (ao lado do texto sobre aproveitamento de resíduos animais), um tanque de biodiesel, sol, céu azul e plantas.

Na parte inferior da página, a palavra agroenergia, impressa em letras de forma maiúsculas, e, logo abaixo, a pergunta: “Que palavra é essa que todo mundo está começando a falar?”. O uso da pergunta direta é um recurso para chamar a atenção para o tema e despertar a curiosidade do leitor. A resposta à pergunta está nas próximas páginas, que devem ser abertas. A pergunta traz ainda embutidas as idéias da atualidade do tema e de que é preciso que o leitor saiba o que a palavra significa para estar em sintonia com todo mundo e com o seu tempo.

A matéria principal das páginas centrais vem com a manchete “As plantas que se transformam em combustível”. Logo no início do texto, a preocupação mundial é o fim do petróleo na Terra. Esse é o argumento escolhido para introduzir o tema pretendido. A crise

energética, não detalhada ou explicada no Folha da Embrapa, que suscitava várias

possibilidades (preços altos do petróleo e/ou sua escassez, impactos ambientais) e justificava a agroenergia, assume, no encarte para crianças, a face da escassez do combustível.

Mais uma vez os pesquisadores são a fonte da informação, do conhecimento, e eles “dizem que daqui a 44 anos, lá pelo ano 2050 ninguém mais vai achar petróleo, o combustível que hoje faz andar a maioria dos veículos que vão e vêm nas ruas das cidades do mundo.” (EMBRAPA, FOLHINHA DA EMBRAPA, 2006, p. 2). Observa-se a escolha de um argumento e uma linguagem que o destinador julga adequados ao público infantil e que vão predominar em todo o encarte. O destinador constrói o discurso segundo a representação que ele tem do destinatário, conforme a tese das formações imaginárias de Pêcheux, reproduzidas por Osakabe (1979), e de acordo com a estratégia de contribuir para a aproximação da Embrapa com o público infantil.

O fim do petróleo é traduzido como uma ameaça que faz sofrer os países que ela atingir. O Brasil, tal qual um herói, não teme a ameaça, pois descobriu a alternativa da cana-

de-açúcar. O país é tratado como pioneiro em transformar lavouras de cana em álcool combustível e na fabricação de carros flex.

O pioneirismo brasileiro, capaz de livrar o país de uma ameaça, e que pode provocar efeito de sentido semelhante a sentimento de orgulho, não foi, até esse trecho da matéria, associado diretamente à pesquisa. Mas essa associação é feita imediatamente depois da construção discursiva “Não é por acaso que tantos governantes de diferentes países começam a olhar para o Brasil com mais respeito e admiração” (FOLHINHA DA EMBRAPA, 2006, p. 2), trecho que, por sua vez, se liga à afirmação de que “estamos na frente de muita gente nos resultados de pesquisas com as plantas que podem ser transformadas em biodiesel” (Idem,

Ibidem). Em seguida são enumeradas as plantas “que a Embrapa vem trabalhando há muito

tempo...”. É a empresa, agora, a pioneira.

A matéria principal termina com o discurso dirigido diretamente para o leitor. É usado o pronome de tratamento você, empregado, em geral, em relações não formais. Se seguidas as normas de tratamento, o uso do pronome você denuncia proximidade ou presença do interlocutor e intimidade, o que parece ser o efeito de sentido pretendido no discurso. A matéria termina com a promessa de que o leitor vai entender como resíduos agropecuários e florestais podem se transformar em agroenergia, o que vai acontecer - está implícito no discurso - se ele continuar lendo o conteúdo do jornalzinho. Mantém-se, de forma também desejável, o recurso de estímulo ao interesse.

É nesse final da matéria principal que é dada a resposta à pergunta formulada na primeira página. Agroenergia é definida de forma simples e direta - “a energia que vem de plantas e animais” – como recomendado para discursos destinados às crianças. Antes de responder à pergunta inicial, como visto, o enunciador optou por situar o pequeno leitor em parte do contexto em que se insere a questão da agroenergia - escassez do petróleo, preocupação mundial, posição pioneira do Brasil na busca por plantas que se transformam em energia - e introduzir o trabalho da Embrapa nesse contexto. Além de chamar a atenção do leitor para a importância ou dimensão do tema, essa introdução revela a imagem do destinatário como um público leigo, que precisa receber informações prévias sobre o assunto. A escolha feita pelo enunciador recai na forma narrativa.

Terminada a matéria principal, o tema é abordado em textos curtos, o que também é recomendável em discursos destinados ao público em questão. Das dez pequenas matérias, seis tratam das plantas com potencial para produção de energia, como anunciado na manchete das páginas centrais. Os títulos são os próprios nomes das plantas abordadas - soja, dendê, cana-de-açúcar, babaçu, mamona e girassol. São informações rápidas sobre as plantas, suas características e formas de aproveitamento, inclusive alimentar. O óleo apto à produção do biodiesel e o álcool que se transforma em combustível, no caso da cana, como derivados dessas plantas, são mencionados, embora o como eles se transformam em energia não seja explicado.

Essas seis matérias são introduzidas pela principal e por uma segunda, cujo título é “Biodiesel, o combustível que não polui”. É dito que o biodiesel é obtido do óleo extraído de plantas e que é chamado de energia renovável. A questão do meio ambiente é abordada pela primeira e única vez aqui, embora a relação causal entre energia renovável e poluição do meio ambiente não tenha sido colocada da forma mais adequada. A definição mais acertada para energia renovável é encontrada em uma outra matéria (“O que é energia renovável?”). Mas o enunciador acerta na relação entre poluição do meio ambiente e gases tóxicos que saem dos escapamentos de veículos. O texto termina com pequena explicação sobre usos do biodiesel.

“O que é biomassa?” e “Aves e porcos” completam as páginas. A primeira traz uma explicação sobre produção de matéria orgânica, fotossíntese e biomassa e sobre a utilização desta como combustível. A segunda aborda, como no Folha da Embrapa, o aproveitamento de resíduos animais e, a exemplo do jornal dirigido aos adultos, o argumento é vinculado à redução de custos para o produtor e para as agroindústrias.

Zamboni (2001), ao estudar o discurso da divulgação científica voltado para crianças, cita estudos que constataram diferenças lingüísticas em textos científicos e popularizados. Nos primeiros, prevalece a narrativa da ciência – os textos seguem o argumento do cientista e trazem características típicas do discurso da disciplina à qual o tema é ligado. Nos segundos, a

narrativa da natureza – o assunto é uma planta ou um animal e não a atividade científica em

si mesma. Vocabulário e sintaxe “enfatizam a exterioridade da natureza em relação às práticas científicas.” (Zamboni, 2001, p. 125).

No caso do Folhinha da Embrapa, a opção do enunciador pelas plantas e resíduos animais poderia, grosso modo, ser enquadrada, nos parece, na narrativa da natureza. E a exterioridade da natureza em relação às práticas científicas também pode ser constatada, quando são apenas descritas características das plantas, por exemplo. Mas há a intenção do enunciador em relacionar plantas e resíduos animais à produção de biocombustíveis. A transformação da biomassa em energia recebe ênfase e a atividade científica, é, algumas vezes, mencionada de forma explícita.

Há também o fato de que o interdiscurso prevalece no Folhinha. Ainda que o esforço do enunciador se dê no sentido da vulgarização e da formulação de um novo discurso construído para o destinatário criança, inclusive com termos e ligações sintáticas (uso do porque) próximos ao linguajar do público infantil, a presença do discurso do pesquisador é notável, chegando mesmo a ser integralmente reproduzido.

Quanto à imagem da Embrapa, como mencionado, a instituição é apresentada como pioneira na matéria principal do Folhinha, o que sugere a idéia de que a empresa tanto está sintonizada com a agroenergia, essa palavra que todo mundo está começando a falar, quanto antecipou conhecimentos que agora estão sendo demandados.

Para completar a descrição do jornalzinho, a última página é preenchida com passatempos - jogo dos sete erros, caça-palavras e figuras para pintar. Nos passatempos, palavras e ilustrações alusivas ao conteúdo que foi abordado nas páginas anteriores. Tais recursos reforçam imagens e palavras trabalhadas no discurso.