• Nenhum resultado encontrado

SO 2 – Dióxido de enxofre

5 O DISCURSO SOBRE AGROENERGIA

5.2 A ANÁLISE DO DISCURSO

5.2.3 FOLHA DA EMBRAPA

5.2.3.1 O EDITORIAL

Sob o título Plantando o futuro, a agroenergia ocupa cinco dos sete parágrafos do editorial da edição do veículo interno. Em tom de entusiasmo, o editorialista enfatiza que a Embrapa “está preparada para superar mais um desafio colocado à pesquisa agrícola brasileira: fazer brotar nos campos a energia necessária para enfrentar a crise energética mundial.”. Recorre à idéia de uma empresa pronta, capacitada e responsável pela superação de vários desafios impostos à pesquisa (imagem positiva), idéia essa presente em outros discursos sobre a instituição (interdiscurso), e que pode ser acionada como memória. Traz à tona a história da empresa reconhecida por ter revolucionado, por meio de suas pesquisas, a agricultura brasileira, sem que seja necessária qualquer inserção de texto sobre essa mesma história, conhecida, presume-se, pela maioria dos empregados.

Diante dela, agora, o desafio é mundial e não só nacional e aparece sob o argumento de crise energética, que deve ser enfrentada. Não se define a natureza da crise - se ela é apenas decorrência de possível escassez e preços de fontes energéticas mais usuais ou se implica também o fato de que as atuais fontes se traduzem em riscos ambientais, por exemplo. De qualquer forma, o argumento faz emergir a palavra crise, que pode ser associada a risco e a ameaça, que atinge os vários países e os estilos de vida (e de produção e de consumo) de populações, das quais fazem parte os empregados da Embrapa e seus familiares, destinatários do discurso. Pessoas e instituição reproduzem os estilos de vida em xeque.

A capacidade da empresa diante do desafio permanece no discurso, e como colocada, parece dizer que nela o empregado pode confiar. Se associado o argumento ao título do editorial, a crise, implicitamente, não existirá mais no futuro ou será mais amena, graças à agroenergia e ao trabalho da instituição.

No segundo parágrafo, o apelo à confiança na Embrapa é deslocado. A frase “Podemos sim produzir energia renovável, o biocombustível, sem comprometer a produção de

alimentos...” é rica em possibilidades. O desafio é também outro, além do fazer brotar nos campos a energia necessária para enfrentar a crise energética, como apresentado no primeiro parágrafo. O país ou a Embrapa, graças à sua competência, é capaz de propor soluções para superar outro desafio, outro risco - não dito - referente à possibilidade de a agricultura vir a privilegiar a produção de energia e não de alimentos.

O uso da palavra sim (“Podemos sim...”) é o recurso lingüístico escolhido para negar ou rebater afirmações sobre as possibilidades de existir a ameaça de se produzir energia em detrimento de alimentos, embora essas afirmações não sejam textualmente reproduzidas no discurso. O não-dito, ou omitido, acaba por revelar o dito ou o já levantado por outros e em outros discursos sobre o tema (interdiscurso).

Reproduz-se aqui a construção discursiva de forma completa: “Podemos sim produzir energia renovável, o biocombustível, sem comprometer a produção de alimentos - dizem nossos pesquisadores”. A construção evidencia uma técnica comum na narrativa jornalística, empregada especialmente em textos não opinativos (embora possa ser, como no exemplo em questão, usada em editorial que possui cunho opinativo), que é a de atribuir afirmações a outrem sob o argumento da objetividade do jornalista e da autoridade de quem afirma. O jornalista, ao usar o recurso dizem os pesquisadores, se apóia no outro que fala e documenta a afirmação, se eximindo desta (de sua responsabilidade), e dela, em tese, se distanciando70, ao mesmo tempo em que concede a ela maior credibilidade.

O discurso no editorial traz os traços da não homogeneidade, fazendo valer a heterogeneidade mostrada. Sai do tom afirmativo e confiante na capacidade da empresa e entra na confiança em outra capacidade, a de produzir energia sem prejudicar a produção de alimentos, confiança atribuída a outrem. Traz outros discursos, atribuíveis a outras fontes enunciativas. Mistura gêneros jornalísticos - o do editorial e o da matéria jornalística “objetiva”.

Sobre a autoridade de quem afirma, o recurso remete à crença no conhecimento e no discernimento dos cientistas, à fé na ciência. Pesquisadores detêm o conhecimento que o leigo

70 A objetividade e o distanciamento do jornalista são pontos questionados pelas atuais teorias de comunicação. No entanto, não se nega que há, de fato, um esforço de objetividade.

não possui e, talvez por isso, podem se considerar dignos de confiança ou de credibilidade. Conferem, em tese, seriedade à argumentação, possuem a competência científica, falam de forma legítima e com autoridade. Autoridade que se torna evidente, em outra perspectiva, em uma instituição de pesquisa, onde pesquisadores respondem por sua atividade fim e têm, por conseqüência, status e legitimidade diferenciados. Ainda que, em geral, a fé na ciência tenha sido abalada pelos riscos produzidos e detectados no final do século XX, esse maior ceticismo não se revela, de fato, como esperado, na prática da comunicação feita pela própria instituição de pesquisa.

O uso da palavra nossos antes da palavra pesquisadores (“dizem nossos pesquisadores”) traz a autoridade normalmente atribuída aos cientistas para perto, para a própria empresa, que pode ser entendida como um bem compartilhado pelos cientistas, pelos jornalistas que escrevem e editam os jornais e pelos leitores potenciais, demais empregados. Compartilha-se, aqui, uma mesma identidade social, há objetivos comuns, como levantado por estudiosos sobre a comunicação interna.

No restante do editorial, prevalece o tom informativo característico do texto jornalístico. O vocabulário é usual, as construções são diretas, e não são utilizados expressões e termos científicos. O texto informa as áreas nas quais serão concentradas as pesquisas em agroenergia, a cargo da Embrapa Agroenergia. A importância atribuída à nova Unidade - afinal, a cargo dela estarão os esforços que levarão a pesquisa agrícola brasileira a superar um novo desafio - acaba por justificar aos empregados sua criação. A adesão dos empregados à iniciativa é imprescindível para sua própria sustentabilidade.

A idéia de que a Embrapa está buscando ampliar sua competência técnica para responder ao novo desafio (a empresa não está contando apenas com o que já tem, busca se fortalecer, o que aumenta a possibilidade de inspirar confiança) pode ser favorecida pelas informações de que a unidade recém-criada atuará tendo como bases uma rede de pesquisadores, formada tanto pelos profissionais já existentes (o que os tranqüiliza sobre seu aproveitamento em um novo projeto) quanto pelos 20 novos que serão contratados, e braços nas regiões brasileiras. Sob o tom da informação, percebem-se traços promotores da imagem de uma empresa capaz das decisões e articulações necessárias para o alcance de determinado objetivo.

Por fim, é feito o convite para que o leitor, do editorial, se dirija à reportagem sobre as pesquisas em agroenergia desenvolvidas pela Embrapa - que dará continuidade a esta análise - e anunciada a existência de um encarte - o Folhinha da Embrapa sobre agroenergia - que também será aqui estudado.