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3 O INSTITUTO DA CAMPANHA ELEITORAL

3.1 DIREITO ELEITORAL

3.1.1 Fontes do Direito Eleitoral

Cabe observar que, etimologicamente, fonte significa o nascedouro, a procedência, o local onde algo é produzido. Neste sentido, “as fontes do Direito Eleitoral, isto é, aquelas que dizem respeito à sua origem ou fundamento do direito,

157 GOMES, José Jairo. Direito eleitoral. 12. ed. São Paulo. Atlas, 2016, p. 25.

158 CERQUEIRA, Thales Tácito; CERQUEIRA Camila Albuquerque. Direito eleitoral esquematizado.

5. ed. São Paulo. Saraiva, 2015, p. 73.

159 ALMEIDA, Roberto. Curso de direito eleitoral. 11. ed. Salvador: JusPodivm, 2017, p. 43-44.

160 CHALITA, Savio. Manual completo de direito eleitoral. São Paulo: Foco, 2014, p. 24-25.

podem ser classificadas em dois grandes grupos: fontes diretas ou primárias ou indiretas ou secundárias”161.

Dentre as fontes primárias, se destaca a Constituição como fonte suprema, uma vez que o Direito Eleitoral retira seu fundamento desta. É a Constituição que dispõe acerca da forma e do sistema de governo, que estabelece as regras gerais sobre a nacionalidade, sobre os direitos políticos e partidários, sobre a organização da Justiça Eleitoral e a competência legislativa em matéria eleitoral. Além de que, é na Constituição que estão inseridos os princípios fundamentais de Direito Eleitoral162. Também, se destaca como fonte primária do Direito Eleitoral o Código Eleitoral, instituído pela Lei número 4.737, de 15 de julho de 1965, com a inclusão de redação dada por leis posteriores que lhe alteraram. Cabe ressaltar, contudo, que em matéria eleitoral, maior parte dos temas são disciplinados por lei ordinária, como é o caso da propaganda eleitoral, mas há casos em que a Constituição estabeleceu a necessidade de ser regulamenta por lei complementar, como é o caso das inexigibilidades que é regulamentada pela Lei complementar 64/90163.

O Código Eleitoral dispõe sobre o exercício dos direitos políticos, tais como o direito de votar e ser votado, sobre a composição, competência e organização da Justiça Eleitoral. Fixa as regras inerentes ao alistamento eleitoral, as provenientes aos sistemas eleitorais, as atinentes ao registro de candidaturas, as referentes a propaganda política, aos atos preparatórios à votação e as relacionadas à votação em si, os atos de apuração dos votos e de diplomação dos eleitos. Além dos atinentes às garantias eleitorais, às disposições penais, processuais e recursais.

Destaca-se como fonte primária do Direito Eleitoral a Lei Orgânica dos Partidos Políticos, instituída pela Lei de número 9.096, de 19 de setembro de 1995, que dispõe sobre regras para criação e registro dos partidos políticos, sobre o funcionamento parlamentar, sobre o estatuto, programa e filiação partidária, sobre a fidelidade e disciplina partidária, sobre a fusão, incorporação e extinção das agremiações

161 ALMEIDA, Roberto. Curso de direito eleitoral. 11. ed. Salvador: JusPodivm, 2017, p. 45.

162 Ibid., p. 45-46.

163 BRASIL. Lei Complementar Nº 64, de 18 de maio de 1990. Estabelece, de acordo com o art. 14,

§ 9º da Constituição Federal, casos de inelegibilidade, prazos de cessação, e determina outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1990. Disponível em:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp64.htm. Acesso em: 02 fev. 2020.

partidárias; sobre o fundo partidário, acesso gratuito dos partidos políticos aos meios de comunicações de rádio e televisão e as prestação de contas.

A Lei das Inelegibilidades, por sua vez, foi instituída pela Lei Complementar de número 64 de 18 de maio de 1990, que regulamenta o parágrafo 9º do artigo 14 da Constituição Federal, ao estabelecer os casos específicos de inelegibilidade, os prazos de cessação e outras providencias em relação a inelegibilidade.

E, também, se destaca a Lei das Eleições, instituída pela Lei de número 9.504 de 30 de setembro de 1997, que estabelece as normas gerais para as eleições no Brasil. Essa lei abrange a formação das coligações, o registro de candidaturas, a arrecadação de recursos e a aplicação, como também as campanhas eleitorais, a prestação de contas, as pesquisas eleitorais, as propagandas eleitorais, o direito de resposta, a votação eletrônica, a totalização dos votos, mesas receptoras, a fiscalização das eleições, bem como as relacionadas as condutas vedadas nas campanhas eleitorais164.

Já as fontes indiretas são aquelas que, muito embora classificadas em outras modalidades de Direito, podem ser aplicadas supletivamente ao Direito Eleitoral.

Dentre as quais se destaca o Código Penal, seja em relação à aplicação da lei penal, em relação ao tipo penal, a imputabilidade penal e o concurso de pessoas, tipos de penas e aplicação destas, suspensão condicional da pena e livramento condicional, em relação aos efeitos da condenação, da reabilitação, medidas de segurança e extinção da punibilidade.

Ainda se destaca o Código de Processo Penal como fonte indireta do Direito Eleitoral que estabelece o disciplinamento relativo ao aspecto processual penal, desde os atos processuais aos processos em espécies, as execuções processuais, as nulidades processuais, os recursos processuais, bem como as relacionadas a competência jurisdicional165.

O Código Civil também é uma fonte indireta do Direito Eleitoral, emprestando conceitos tais quais domicílio, pessoa física e jurídica, capacidade, responsabilidade em relação aos direitos de personalidade, decadência e prescrição. Além de que o Direito Civil fixa os graus de parentesco, as regras do casamento, da união estável e

164 ALMEIDA, Roberto. Curso de direito eleitoral. 11. ed. Salvador: JusPodivm, 2017, p. 46.

165 Ibid., p. 47.

homoafetiva, de grande relevância para o Direito Eleitoral, tais como, no caso das inelegibilidades.

E, ainda, o Direito Civil, além de regulamentar assuntos atinentes à pessoa física do candidato, também regulamenta assuntos relativos à pessoa jurídica dos candidatos e dos partidos políticos, bem como, atua na forma de fonte subsidiária do Direito Eleitoral, em relação aos institutos da campanha eleitoral, tais como nas prestação de contas, em relação à origem e aplicação de recursos, assunção de dívidas, cessão de débitos, prestação de serviço e fornecimento de material.

Também é destacável como fonte do Direito Eleitoral as Resoluções do Tribunal Superior Eleitoral, editadas pela Justiça Eleitoral dentro do poder normativo conferido a esta Justiça pelos artigos 1º, parágrafo único, e artigo 23, inciso IX do Código Eleitoral166.

Além disso, as consultas realizadas junto ao Tribunal Superior Eleitoral servem de fonte indireta do Direito Eleitoral, tornando-se, após a sua resposta, regra a ser respeitada. As consultas, em tese, podem ser realizadas por autoridade com jurisdição federal, ou pelos órgãos nacionais de partidos políticos, conforme competência consultiva prevista no artigo 23 do Código Eleitoral, oriundo de delegação constitucional nos termos do artigo 121 da Constituição Federal de 1988.

Todavia, observa-se que é necessário atentar-se para dois requisitos de admissibilidade para que uma consulta seja respondida: um dos requisitos é a de que a consulta seja apresentada por autoridade competente, autoridade com jurisdição federal ou por órgão nacional de agremiação partidária; e outro requisito é que deve ser uma indagação em tese, a consulta não pode ser sobre fato concreto. E, muito embora se apresente como um ato normativo, este é normativo em tese, sem efeitos concretos, já que se trata simplesmente de uma orientação sem força executiva referente a uma situação jurídica de qualquer pessoa em particular167.

Por outro lado, José Jairo Gomes divide as fontes de Direito Eleitoral em duas espécies: material e formal. Onde, as fontes materiais são os inúmeros fatores que influenciam o legislador na criação de normas jurídicas. Já as fontes formais são os

166 ALMEIDA, Roberto. Curso de direito eleitoral. 11. ed. Salvador: JusPodivm, 2017, p. 48.

167 Ibid., p. 49.

meios de fundamentação dos juízos jurídicos e se dividem em: fontes formais estatais e não estatais168.

Ainda, observa-se que as fontes formais não estatais são os princípios não positivados, ou ainda, o negócio jurídico não positivado, tais como no Direito Eleitoral o estatuto de um partido político ou um acordo de vontade firmado entre partidos e candidatos com o fim de estabelecer regras para um determinado procedimento.

Enquanto as fontes formais estatais consistem em normas jurídicas derivadas do Estado, do regular processo legislativo, constitucional ou infraconstitucional. Onde são fixadas as regras a serem seguidas por todos – princípio da generalidade. E, com isso, no Direito Eleitoral, é possível destacar as seguintes fontes formais estatais: a Constituição Federal; Código Eleitoral; Lei de Inelegibilidades; Lei Orgânica dos Partidos Políticos – LOPP; Lei das Eleições – LE; Resolução do TSE169.

Ainda, em relação às fontes formais, Cerqueira e Cerqueira subdividem estas em primária e secundária: colocando como primária a constituição de 1988 (artigos 14 a 17 e 118 a 121) e, com secundárias as demais fontes que dão sustentação ao Direito Eleitoral170.

168 GOMES, Jairo José. Direito eleitoral. 12. ed. São Paulo. Atlas, 2016, p. 29.

169 Constituição Federal: na Constituição é que se encontram os princípios fundamentais do Direito Eleitoral, as prescrições atinentes a sistema de governo (art. 1o), nacionalidade (art. 12),direitos políticos (art. 14), partidos políticos (art. 17), competência legislativa em matéria eleitoral (art. 23, I), organização da Justiça Eleitoral (art. 118 ss). Tantas e tão relevantes são as normas eleitorais emanadas da Constituição que para se designá-las já se tem empregado a expressão Constituição Eleitoral. Código Eleitoral (Lei no 4.737/65): as normas desse diploma organizam o exercício de direitos políticos, definindo também a competência dos órgãos da Justiça Eleitoral. Apesar de ser, originariamente, lei ordinária, foi, quanto à “organização e competência” dos órgãos eleitorais, recepcionado pela Constituição como lei complementar, nos termos do artigo 121, caput. Assim, em parte, o CE goza do status de lei complementar. Lei de Inelegilibilidades – LC no 64/90: institui as inelegibilidades infraconstitucionais, nos termos do artigo 14, § 9o, da Constituição Federal. Lei Orgânica dos Partidos Políticos – LOPP (Lei no 9.096/95): dispõe sobre partidos políticos. Lei das Eleições – LE (Lei no 9.504/97): estabelece normas para eleições. Resolução do TSE: trata-se de ato normativo emanado do órgão Pleno do Tribunal. Sua natureza é de ato-regra, pois cria situações gerais e abstratas; por isso se diz que apresenta força de lei, embora não possa contrariá-la. O artigo 105 da LE fixa os limites a serem observados nessa espécie normativa. Dado seu caráter regulamentar, não pode restringir direitos nem estabelecer sanções distintas das previstas em lei.

As Resoluções pertinentes às eleições devem ser publicadas até o dia 5 de março do ano do pleito.

Consulta: quando respondida, a consulta dirigida ao tribunal apresenta natureza peculiar. Malgrado não detenha natureza puramente jurisdicional, trata-se de “ato normativo em tese, sem efeitos concretos, por se tratar de orientação sem força executiva com referência à situação jurídica de qualquer pessoa em particular” (STF – RMS no 21.185/DF, de 14-12-1990 – Rel. Min. Moreira Alves). Decisões da Justiça Eleitoral, especialmente do Tribunal Superior Eleitoral – porém, sem a nota de generalidade.

170 CERQUEIRA, Thales Tácito; CERQUEIRA Camila Albuquerque. Direito eleitoral esquematizado.

5. ed. São Paulo. Saraiva, 2015, p. 74.

Um outro ponto sobre o Direito Eleitoral a ressaltar é com relação à competência legislativa. Neste aspecto, o artigo 22, inciso I, da Constituição Federal estabelece que é competência privativa da União legislador sobre o Direito Eleitoral.

No entanto, destaca Almeida que “não obstante incumbir à União legislar sobre Direito Eleitoral, nada impede que os Estados e o Distrito Federal legislem específica e supletivamente sobre os mecanismos de democracia direta nos seus respectivos territórios”.

Por outro lado, no que tange a uma interpretação jurídica, deve-se observar que há uma diferença entre: postulados eleitorais, princípios eleitorais e regras eleitorais. Nos “Postulados Eleitorais: sua interpretação é absoluta, não há mutabilidade em suas premissas [...]” enquanto que “Princípios Eleitorais: admitem interpretação relativa. Eles podem ser originários da CF/88 ou da legislação infraconstitucional”, ao passo que “Regras Eleitorais: ditames que obedecem aos postulados e princípios. São os “veículos” ou “instrumentos” que expressam os postulados e princípios. As regras eleitorais são materializadas nas leis eleitorais e nas resoluções do TSE [...]”171.

Ao se realizar uma interpretação jurídica, deve-se sempre observar três fatores:

norma, fato concreto e valor, uma vez que a interpretação jurídica gira em torno de duas realidades distintas: a norma em abstrato, disposta no texto legal, e os fatos da vida, submetidos ao exame interpretativo, no qual o intérprete deve intermediar a relação entre fato e norma por intermédio de um ingrediente axiológico valorativo, para, com isso, aplicar o direito no caso em concreto172.

E, neste sentido, considerando, também, que os princípios dão suporte ao Direito Eleitoral, se faz necessário também, a análise de alguns dos princípios utilizados na interpretação do Direito Eleitoral.

171 CERQUEIRA, Thales Tácito; CERQUEIRA Camila Albuquerque. Direito eleitoral esquematizado.

5. ed. São Paulo. Saraiva, 2015, p. 31-32

172 GOMES, Jairo José. Direito eleitoral. 12. ed. São Paulo: Atlas, 2016, p. 33.