3 O INSTITUTO DA CAMPANHA ELEITORAL
3.1 DIREITO ELEITORAL
3.1.2 Princípios aplicáveis ao Direito Eleitoral
Vários são os princípios que dão sustentação ao Direito Eleitoral, com isso, introduzir-se-á uma síntese de alguns dos princípios basilares do direito eleitoral, já que, em se tratando de princípios, poderia se construir uma tese discorrendo unicamente em torno de um determinado princípio.
No entanto, ressalta-se a necessidade de discorrer sobre princípios já que tem se como pressuposto de que os princípios contribuem tanto para a criação da norma quanto para a interpretação dela. Tem grande relevância no que se diz respeito à pretensão de correção da norma, uma vez que a norma deve atender aos requisitos do Estado Democrático de Direito. Requisito, este, que também deve ser observado quando da aplicação da norma, pois, como ensina Fausto Morais “Não há democracia ao se substituir a vontade do legislador pela vontade do julgador”173. Destacando, que a democracia se efetiva na historicidade do Direito,
Ainda, expõe que “[...] a noção de princípio jurídico não pode estar à disposição do (Ge-stell) de sopesamento, mas na proposta construtiva de um empreendimento histórico de natureza ontológica-existencial” 174. Ao interpretar o direito, se faz necessário identificar os princípios jurídicos que sustentam a aplicação de determinada norma jurídica175.
Os princípios podem ser conceituados como “Normas jurídicas “abertas”,
“maleáveis” em sua aplicação, relevantes para a estruturação do “sistema” jurídico e, sobretudo, expressando diretamente os valores mais importantes da sociedade”176. Onde, os princípios jurídicos expressam os valores fundamentais, sendo normas jurídicas abertas e maleáveis, no sentido de que podem ser aplicadas em diferentes interpretações, em maior e menor medida.
Ainda, destaca-se que “As demais normas jurídicas devem ser informadas materialmente pelos princípios, quer dizer, estes devem fornecer a inspiração para o
173 MORAIS, Fausto Santos de. Ponderação e arbitrariedade: a inadequada recepção de Alexy pelo STF. 2. ed. Salvador: Juspodivm, 2018, p. 189.
174 Ibid., p. 227.
175 Ibid., p. 230.
176 ROTHENBURG, Walter Claudius Rothenburg. Democracia. In: DIMOULIS, Dimitri (coord.).
Dicionário brasileiro de direito constitucional. São Paulo: ed. Saraiva, 2012, posição 1191. E-book.
recheio daquelas [...]”177. Os princípios fundamentam o direito, vinculam os valores da sociedade, e, neste sentido, pode-se afirmar que os direitos fundamentais têm natureza de princípio.
Por outro lado, os princípios podem ser subdivididos em duas categorias: a primeira, denominada de princípios do direito, enquanto norma de comportamento, ou de comando jurídico; a segunda, de princípios sobre o direito, enquanto regentes da aplicação da norma jurídica, com dever de obediência aos valores mais importantes da sociedade178. O que reforça a importância da presente análise, dos princípios aplicáveis ao Direito Eleitoral, que terá como ponto de partida o princípio da supremacia da Constituição.
Com base no princípio da supremacia da Constituição, observa-se que a Constituição está no ápice da estrutura normativa, com isso, todas as demais normas e atos do poder público somente são considerados válidos quando estiverem em conformidade com dispositivo constitucional, existe a superioridade da Constituição179. Já, o princípio do Estado Democrático de Direito assegura os direitos individuais, sociais, as liberdades, entre outros direitos fundamentais. Ou seja, este princípio é a reprodução do que está descrito no preâmbulo da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988180.
Ainda, o Estado Democrático de Direito se distingue do simples Estado de Direito, primeiro pela qualidade de onde surgem as leis, quando a legitimidade se dá pelo fato do povo ter escolhido representantes para aquele fim específico. Assim, os deputados e senadores têm o monopólio da criação de leis, e dentro de um Estado Democrático de Direito rejeitar-se-á qualquer lei, decreto, ou outra peça qualquer que
177 ROTHENBURG, Walter Claudius Rothenburg. Democracia. In: DIMOULIS, Dimitri (coord.).
Dicionário brasileiro de direito constitucional. São Paulo: ed. Saraiva, 2012, posição 1191. E-book.
178 Ibid., posição 1194.
179 MASSON, Nathalia. Manual de direito constitucional. 3. ed. Salvador: Juspodivm 2015, p. 62.
180 “Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL”.
crie obrigações sem ter sido produzido pelo Poder Legislativo competente, ou ao menos autorizadas por este181.
Ao passo que o princípio da cidadania é a condição que permite as pessoas a participarem da democracia e é empregada para designar os direitos do ser humano como membro da sociedade política, o direito de votar e ser votado. Assim, a cidadania é um princípio, no sentido de que o Estado brasileiro existe para satisfazer o bem das pessoas, e o faz com o uso das decisões políticas que seus dirigentes tomam representando a população182.
E, o princípio do pluralismo político é a garantia estabelecida na Constituição de poder existir várias ideias ao mesmo tempo, no mesmo espaço, ou seja, a multiplicidade de ideias e a possibilidade de oposição e controle a essas ideias183.
O princípio da originalidade do poder popular é extraído da Constituição, onde ficou estabelecido de forma expressa que os poderes pertencem ao povo, porém, devem ser exercidos por meio de representantes, com exceção de alguns casos, e igualmente estabelece de forma expressa que os representantes devem ser eleitos.
Esta exigência veda que sejam nomeados governadores, prefeitos e senadores biônicos pelo presidente da República184.
Ainda, o princípio da tripartição e separação de poderes: a tripartição dos poderes em Legislativo, Executivo e Judiciário é considerada a forma mais eficaz de se assegurar o respeito aos direitos e garantias fundamentais. Porém, não é uma regra absoluta, mesclando a independência com a harmonia. Este princípio é também denominado de o sistema de freios e contrapesos ou de controle do poder pelo poder185. O sistema de freios e contrapesos faz com que o agente público tome
181 QUEIROZ, Ari Ferreira de. Direito constitucional. 16. ed. São Paulo: Jhmizuno, 2014, p. 317.
182 Ibid., p. 318.
183 Ibid., p. 319.
184 QUEIROZ, loc. cit.
185 Ibid., p. 319-320.
decisões adequadas às suas funções públicas186, pois caso descumpra as normas estabelecidas estará sujeito as sanções penais187.
Há também o princípio da proporcionalidade ou da razoabilidade, que tem por escopo contrapesar os direitos, ou seja, que haja um equilíbrio, quando na mesma situação fática seja possível mais de uma interpretação, a fim de alcançar uma decisão racional que leve em consideração o fato concreto. Pode-se dizer que proporcionalidade é o método para que se alcance uma decisão racional acerca de uma determinada questão jurídica188. A razoabilidade tem por finalidade uma decisão racional, onde ocorra uma proporção entre os meios empregados e os fins declarados, pois o que se busca é a justiça189.
Para todos os atos públicos, deve-se observar os princípios da razoabilidade ou proporcionalidade, seja quando da criação da norma jurídica, seja quando da previsão e aplicação desta190. O princípio da razoabilidade proporcionalidade também é denominado na doutrina constitucionalista de princípio da cedência recíproca, pois busca a harmonia entre diversos valores constitucionais, ocorrendo a limitação ou cedência recíproca, preservando assim o sistema de valores constitucionais como um todo191.
Contudo, cabe fazer ressalva à compreensão da proporcionalidade como um princípio em relação à crítica de Morais. O autor associa o uso de tal concepção ao exercício arbitrário de poder, visto que inexiste uma contrapartida argumentativa que
186 SANTIAGO LIMA, Flavia Danielle; DANTAS DE ANDRADE, Louise; MOURA DE OLIVEIRA, Tassiana. Emperor or President? Understanding the (almost) unlimited power of the Brazilian Supreme Court’s President / Imperador ou presidente? Compreendendo o (quase) ilimitado poder do Presidente do Supremo Tribunal Federal. Revista Brasileira de Direito, Passo Fundo, v. 13, n.
1, p. 161-176, mar. 2017. ISSN 2238-0604. Disponível
em: https://seer.imed.edu.br/index.php/revistadedireito/article/view/1641/1102. Acesso em: 07 maio 2020. doi:https://doi.org/10.18256/2238-0604/revistadedireito.v13n1p161-176.
187 SAMPAIO, José Adércio Leite. The deficiencies of the emergency action planning for dams in Brazil / As deficiências do plano de ação emergencial das barragens no Brasil (texto conta com a versão em português no link PDF). Revista Brasileira de Direito, Passo Fundo, v. 12, n. 2, p. 7-17, dez.
2016. ISSN 2238-0604. Disponível
em: https://seer.imed.edu.br/index.php/revistadedireito/article/view/1313/1048. Acesso em: 07 maio 2020. doi:https://doi.org/10.18256/2238-0604/revistadedireito.v12n2p7-17.
188 GOMES, Jairo José. Direito eleitoral. 12. Ed. São Paulo. Atlas, 2016, p. 33-34.
189 Ibid., p. 38.
190 CERQUEIRA, Thales Tácito; CERQUEIRA Camila Albuquerque. Direito eleitoral esquematizado.
5. ed. São Paulo. Saraiva, 2015, p 38.
191 Ibid., p 39.
esclareça o processo compreensivo sobre a aplicação do Direito sobre a lente da proporcionalidade192.
O princípio da anualidade ou anterioridade da lei eleitoral é o princípio que está contido no artigo 16 da Constituição Federal, o qual estabelece que “a lei que alterar o processo eleitoral entrará em vigor na data de sua publicação, não se aplicando à eleição que ocorra até um ano da data de sua vigência”. Porém, destaca Almeida que esta limitação gira em tono da lei em sentido amplo, não abrange portando o poder normativo do Tribunal Superior Eleitoral, ou seja, a limitação não atinge as resoluções do TSE que podem ser emitidas a menos de um ano do pleito eleitoral, com o fim de garantir o bom andamento deste193.
Há no Direito Eleitoral o Princípio da Celeridade, em que se estabelece a regra de tramitação célere das ações judiciais. O processo judicial oriundo da Justiça Eleitoral tem prioridade de tramitação e julgamento em relação aos processos advindos da Justiça Comum, a não ser em relação aos casos de habeas corpus e de mandado de segurança, que igualmente tem prioridade de tramitação. Ou seja, no processo eleitoral a regra é a tramitação célere, muito em razão da temporariedade do processo eleitoral e também da temporariedade do exercício dos mandatos eletivos.
Neste sentido, ressalta-se que os prazos para interposição de recursos eleitorais, em regra, são de três dias, conforme disposto no artigo 258 do Código Eleitoral. E, também, em regra, não terão efeito suspensivo conforme disposto no artigo 257 do Código Eleitoral. E, em razão do processo eleitoral contar com fase bem definidas e sucessivas, concluída a fase, não se admite retroagir para impugnar com base em nulidades relativas, ocorre o instituto da preclusão, com exceção das nulidades absolutas, provenientes de matéria de ordem constitucional ou legal de ordem pública. Além de que não pode ser superior ao prazo de um ano a tramitação do processo eleitoral que tenha por objetivo a cassação de mandato eletivo. Ademais, destaca-se que a última instância possível para recurso proveniente de matéria
192 MORAIS, Fausto Santos de. Ponderação e Arbitrariedade: A inadequada recepção de Alexy pelo STF. 2.ed. Salvador: Juspodivm, 2018, p. 210-211.
193 ALMEIDA, Roberto. Curso de direito eleitoral. 11. ed. Salvador: JusPodivm, 2017, p. 52.
estritamente eleitoral é o TSE, não se admitindo a recorribilidade das decisões deste194.
Também, cabe destaque ao princípio da vedação do anonimato, que é extraído do artigo 5º, inciso IV, da Constituição Federal de 1988, que dispõe que a manifestação do pensamento é livre, mas, contudo, é vedado o anonimato. E, igualmente, a Lei das Eleições veda o anonimato em seu artigo 57- D195.
Este princípio tem por finalidade proteger a liberdade de expressão e de pensamento, mas também proteger a lisura das eleições, “[...] sob pena do anonimato abrigar condutas irregulares em propaganda, bem como notícias falsas que prejudiquem o processo eleitoral ou mesmo interfiram na normalidade e na legitimidade das eleições”196.
Outro princípio que tem que se destacar é o Princípio do Controle Judicial da Propaganda Política, o qual incumbe a Justiça Eleitoral nos termos do artigo 249 do Código Eleitoral o poder de polícia, a fim de manter a ordem pública, impedindo os abusos. Inclusive, “o princípio do controle judicial autoriza o juiz eleitoral a determinar de ofício a cessação ou retirada de propaganda, desde que esta desrespeite as regras eleitorais como ressaltado no artigo 41 da Lei 9.504/1997”197.
Ademais, tem-se como um dos princípios mais importantes em se tratando de Direito Eleitoral o Princípio da lisura das eleições ou da isonomia de oportunidades, que estabelece que, num regime democrático, as eleições devem ser pautadas pela igualdade de oportunidade entre todos os candidatos. Onde “a garantia da lisura das eleições no Brasil está calcada na ideia de cidadania, de origem popular do poder e no combate à influência do poder econômico ou político nas eleições”.
Várias são as normas que procuram atingir o fim deste princípio. A Constituição Federal de 1988 procura garantir o disposto neste princípio, estabelecendo já no seu artigo 1º, inciso II quando dispõe que a República Federativa brasileira é formada pela união indissolúvel de seus entes federados: Estado, Distrito Federal e Municípios, que se constitui em um Estado Democrático de Direito, tendo dentre os seus fundamentos a cidadania. Ainda, dispõe no parágrafo único do mesmo artigo que “Todo o poder
194 ALMEIDA, Roberto. Curso de direito eleitoral. 11. ed. Salvador: JusPodivm, 2017, p. 53-54.
195 RAIS, Diogo. Direito eleitoral digital. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2018, p. 32.
196 Ibid., p. 33.
197 RAIS, Diogo. Direito eleitoral digital. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2018, p. 36.
emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.
E, dispõe no parágrafo nono, do artigo 14, que se estabelecer-se-á através de Lei complementar outros casos de inelegibilidade, bem como, os prazos de sua cessação, com o objetivo de proteger a probidade administrativa, a moralidade para exercício de mandato, incluindo a vida pregressa do candidato, a fim de garantir a normalidade e legitimidade das eleições contra a influência do poder econômico ou o abuso do exercício de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta.
E, da mesma forma, a legislação infraconstitucional procurou proteger a lisura das eleições ou da isonomia de oportunidades, como se pode observar o artigo 23 da Lei das Inelegibilidades que estabelece que o Tribunal formará sua convicção com base na livre apreciação dos fatos públicos e notórios, bem como nos indícios e presunções e na prova produzida, além de atentando para circunstâncias ou fatos, mesmo que não tenham sido indicados ou alegados pelas partes, mas desde que preservem o interesse público de lisura eleitoral.
Ademais, no que se refere à legislação infraconstitucional, cabe destacar também a Lei de Combate à Corrupção Eleitoral ou Lei da Captação Ilícita de Sufrágios – Lei de número 9.840/99, que teve por finalidade combater a prática de compra de votos nas eleições brasileiras e que acrescentou o artigo 41 A e § 1º a Lei 9.504/97. Lei, esta, das Eleições, que igualmente procurou coibir a prática de atos de abuso de poder econômico e político nas eleições brasileiras, onde o legislador identificou uma série de condutas vedadas, que se sujeitam à multa e possível cassação do registro e do diploma, além da declaração de inelegibilidade.
Ainda, em relação à legislação infraconstitucional, destaca-se a Lei da Ficha Limpa – Lei Complementar de número 135/2010, que foi aprovada em virtude de pressão da sociedade civil, e teve como fim dar ênfase à idoneidade dos candidatos a cargos eletivos, e, com isso, impedir candidaturas de condenados por decisão judicial transitada em julgado, ou que tenham sido deliberadas por órgão colegiado do Poder Judiciário, e outras hipóteses elencadas na referida lei ficam impedidas de participar do pleito pelo prazo de oito anos198.
198 ALMEIDA, Roberto. Curso de direito eleitoral. 11. ed. Salvador: JusPodivm, 2017, p. 55-56.
Por fim, em relação aos princípios aplicáveis ao Direito Eleitoral, cabe destacar o princípio da responsabilidade solidária entre candidatos e partidos políticos, uma vez que estabelece o artigo 241 do Código Eleitoral que “Toda propaganda eleitoral será realizada sob a responsabilidade dos partidos e por eles paga, imputando-lhes solidariedade nos excessos praticados pelos seus candidatos e adeptos”. Porém, esta responsabilidade solidaria possui limites, como se observa o disposto no parágrafo único deste mesmo artigo 241 do Código Eleitoral “A solidariedade prevista neste artigo é restrita aos candidatos e aos respectivos partidos, não alcançando outros partidos, mesmo quando integrantes de uma mesma coligação”.
E, igualmente, o parágrafo décimo primeiro do artigo 96, da Lei de número 9.504/97, também impõe limites a este princípio da responsabilidade solidaria entre candidato e partido político “As sanções aplicadas a candidato em razão do descumprimento de disposições desta Lei não se estendem ao respectivo partido, mesmo na hipótese de esse ter se beneficiado da conduta, salvo quando comprovada a sua participação”.
No entanto, destaca Roberto Almeida que “o TSE, por sua vez, tradicionalmente tem se posicionado pela responsabilidade solidária entre partidos políticos e seus candidatos por excessos na propaganda eleitoral”199.
Por outro lado, são várias as normas legais que tratam do tema eleitoral, desde a Constituição Federal até resoluções emitidas pelo TSE, que serão analisadas neste próximo tópico que trata do instituto jurídico da campanha eleitoral.