SN=SISTEMA NATURAL CP=CADEIA PRODUTIVA SP=SISTEMA PRODUTIVOFORÇAS
2.6 Desenvolvimento sustentável e o estudo foresight tecnológico
2.6.2 Foresight e o desenvolvimento sustentável
Conforme mencionado anteriormente, na definição de foresight segundo MARTIN (2001), verifica-se que esta contempla as três dimensões do desenvolvimento sustentável: “[...] sistematicamente, olhar no futuro de longo prazo para a ciência, a tecnologia, a economia, o meio ambiente e a sociedade, com o objetivo de [...]”. Além desse destaque, MARTIN (2001), na sua definição, reforça a atenção que deve ser dada às novas tecnologias quanto às três dimensões: “[...] os prováveis benefícios sociais (ou as conseqüências adversas) de novas tecnologias (incluindo o impacto no meio ambiente) e o impacto na indústria e na economia”.
Dessa forma, os estudos foresight tecnológicos devem contemplar as três dimensões do desenvolvimento sustentável definido no Relatório da Comissão Brundtland, OUR COMMON FUTURE (1987). Além disso, MARTIN (2001) propõe que o estudo foresight seja feito de forma participativa pelos diversos representantes da sociedade – no caso, os stakeholders, que devem participar de forma equilibrada –, proporcionando uma rede e uma integração entre os participantes e obtendo deles um comprometimento com a implantação das políticas públicas formuladas.
SCHOMBERG (2002), representante científico da Comissão Européia, analisou o histórico conceitual do Desenvolvimento Sustentável e a situação atual, concluindo que é necessário rever a infra-estrutura sociopolítica do mundo e das nações. Nessa análise, mostra mais de uma vez a importância dos estudos foresight para formular ou modificar políticas públicas, quando prospecta o futuro de longo prazo e, por meio do processo que é elaborado,
pode antecipar e demonstrar de forma participativa problemas no futuro de longo prazo em conseqüência de tomadas de decisões atuais.
O Institute for Prospective Techonological Studies (IPTS), tem como um de seus objetivos elaborar estudos foresight tecnológicos, conforme mencionado anteriormente.
Segundo THE IPTS FUTURES PROJECT (2000), o IPTS lançou o projeto chamado
IPTS “Futures” Project, em meados de 1998, para examinar os indivíduos e os efeitos
combinados de quatro forças motrizes: tecnológica, econômica, política e social.
O projeto "Futures" examina as implicações de forças motrizes que afetam a tecnologia, a competitividade e o emprego até 2010. Desde meados de 1998 até o final de 1999, foram 18 meses em que o "Futures" foi uma das principais atividades do IPTS. No processo, o IPTS trouxe mais de 150 peritos e formuladores de política, vindos da indústria, da academia e do governo para fazer parte de uma série de sessões de brainstorming, de seminários e de
workshops. Doze relatórios foram publicados ou estão sendo finalizados. O resultado é um
maior benchmarking e análises prospectivas realizadas em toda a Europa.
A estrutura do “Futures Project” foi organizada como um processo interativo baseado nos painéis de especialistas e nos workshops e suportado pela vasta experiência em pesquisa. Na primeira fase do projeto foram estabelecidos cinco painéis de especialistas para trabalharem em cinco principais forças motrizes que desafiam a sociedade. As forças motrizes (figura 7) foram as seguintes: Tendências Demográficas e Sociais; Tecnologias de Comunicação e da Informação e a Sociedade de Informação; Ciências Naturais e a Fronteira da Vida; Recursos Naturais e o Meio Ambiente; o Contexto Político e Econômico.
Os objetivos dos painéis foram:
− listar os temas e as questões de mudança na Europa;
− identificar as questões prioritárias para cada uma das áreas políticas; e − descrever estados finais possíveis e plausíveis.
Esses estados finais forneceram subsídios para o workshop político do projeto, e identificaram os pontos do desenvolvimento onde as iniciativas políticas poderiam ter um impacto profundo.
A segunda fase do projeto concentrou-se em seis temas. Nesta fase, o projeto focou as implicações de três principais áreas políticas: Tecnologia, Emprego e Competitividade. Além disso, o trabalho considerou três questões transversais, que vieram dos painéis como áreas desafiantes para 2010: Conhecimento e Aprendizagem; a Ampliação da União Européia; e Despesa da Sociedade.
A figura 7 mostra a estrutura do projeto “Futures Project”, que concebe o meio ambiente como uma das forças motrizes-chave globais, além de considerar as duas outras dimensões do desenvolvimento sustentável, a econômica e a social:
Figura 7: A Estrutura do Projeto “Futures Project” do IPTS FONTE: THE IPTS FUTURES PROJECT (2000, p. 46).
O projeto “Futures Project” contempla isoladamente as três dimensões do desenvolvimento sustentável: econômico (Euro ($), Desenvolvimento Financeiro Global, Ampliação da União Européia), social (Desregulamentação, Tendências Demográficas e Sociais, Ampliação da União Européia e Tecnologia da Comunicação e da Informação e a Sociedade da Informação) e meio ambiente (Ciências Naturais, o Meio Ambiente e a Ampliação da União Européia), como forças motrizes-chave. O conceito de desenvolvimento sustentável é utilizado somente em duas publicações, o Relatório do Painel de Recursos
Naturais e o Meio Ambiente e o Mapa da Tecnologia desse projeto, conforme descrito a
seguir:
Forças Motrizes-chave:
Ciências Naturais
Revolução Tecnologia da Comunicação e da Informação e a Sociedade da Informação
O Meio Ambiente
Desenvolvimento Financeiro
Global Forças Motrizes Globais
Desregulamentação Ampliação EURO ($) Tendências Demográficas e Sociais Forças Motrizes da União Européia
Contexto
Áreas Políticas-chave:
TECNOLOGIA
COMPETITIVIDADE EMPREGO
Instruções, Relatórios, Seminários, Conferências Saída:
− No Relatório do Painel de Recursos Naturais e o Meio Ambiente (Natural Resources and
the Environment Panel Report), de SORUP e GAMESON (1999), “Meio Ambiente” é
substituído por “Desenvolvimento Sustentável”, em forças motrizes globais, na figura 7. Dessa forma, procura dar uma ênfase maior ao desenvolvimento sustentável, mas ainda é tímido, em virtude talvez de os estudos foresight terem sido feitos no final da década de noventa do século XX, quando o conceito desenvolvimento sustentável estava amadurecendo. Esse relatório mapeou os setores que são as forças motrizes causadoras de problemas ambientais. Muitos desses setores provocam mais de um problema ambiental, conforme a tabela 6.
Tabela 6: Contribuição setorial para os problemas ambientais
Setores Questões
Ambientais Indústria Energia Agricultura/
Floresta
Pescaria Transporte Doméstico / Consumidores Turismo Militar Mudança Climática • • • • • Ozônio Estratosférico • • • Acidificação • • • • • Ozônio Troposférico • • • • • Químicos • • Resíduos • • • • • • Biodiversidade • • • • Lençóis Freáticos • • • • Zonas Costeiras E Marinhas • • • • • Solo • • • • Meio ambienteUrbano • • • Perigo natural / tecnológico • • • •
FONTE: EEA (1998) apud SORUP e GAMESON (1999, p. 20).
Na tabela 6 podem-se identificar os setores que proporcionam os principais problemas ao meio ambiente, destacando-se o setor industrial como o maior causador de problemas ambientais e, como conseqüência, aquele que mais prejudica a sustentabilidade.
− Mapa da Tecnologia (Technology Map), de CAHILL e SCAPOLO (1999), é uma publicação que teve como fonte os vários estudos foresight tecnológicos regionais e nacionais de vários países europeus, efetuados nos últimos anos para a elaboraração do Mapa de Tecnologia da Europa, que representa uma visão selecionada de algumas das tecnologias-chave que provavelmente provocarão impacto na sociedade do ano 2010. Foram selecionadas seis tecnologias que estão ou extremamente impregnadas na esfera econômica e social, ou estão associadas à preocupação prioritária do desenvolvimento
sustentável. Dessa forma, esta publicação utiliza o conceito de desenvolvimento sustentável considerando as três dimensões. Os seis setores são os seguintes:
• Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) são capazes de manter as mais
disseminadas tecnologias avançadas. As indústrias de TIC são as principais (e em crescimento) contribuintes do PIB de muitos países da Europa. A TIC é o conjunto de tecnologias ampla e altamente interconectadas, que afeta todos setores da atividade econômica e social.
• Tecnologias associadas à Biologia e afins – Representam indubitavelmente uma das mais
importantes e decisivas tecnologias para o século XXI. Elas contribuíram em muitos aspectos, em particular com a biotecnologia moderna, para melhorar a saúde humana, a produção de alimento e a proteção ao meio ambiente.
• Tecnologias de Energia – Atualmente, predominam energias não renováveis. Esta situação
provavelmente não mudará a médio prazo. As energias renováveis – energias solar, eólica e hídrica – estão certamente aumentando sua contribuição para satisfazer à demanda de energia, mas não está claro se a participação de mercado também cresce. Isso dependerá das características de cada mercado, assim como das condições de limites impostas pelo elaborador de políticas, do desenvolvimento internacional, de restrições ambientais, etc.
• Tecnologias Ambientais e Produção Limpa - Não são definidas por certas características
tecnológicas, mas por um problema – a necessidade de proteção ambiental – para o qual soluções são proporcionadas. As soluções são muito heterogêneas e compreendem um espectro total de tecnologias e uma variedade de diferentes enfoques. Falar estritamente sobre a “área de tecnologia” não é muito conveniente. Logicamente, as principais referências estudadas não categorizaram os tópicos segundo critérios tecnológicos, mas sim de acordo com os diferentes tipos de problemas ambientais. Os resultados de estudos
foresight mostraram que a tecnologia ambiental é difusa e muitas vezes interdisciplinar. É
também uma área que requer horizontes de longo prazo para ser desenvolvida. O suporte governamental para pesquisa contínua é crucial em áreas onde a indústria pouco investe. A política de meio ambiente necessita unir forças com a política tecnológica, de forma a forçar o desenvolvimento das tecnologias-chave, as quais suportarão crescimento sustentável.
• Tecnologias de Materiais e afins – São geralmente utilizadas para serem suporte-chave e
capacitarem áreas de P&D das quais mais setores industriais e campos de aplicação de tecnologias dependem direta e indiretamente. Pesquisa de materiais proporcionará novas
soluções capazes de otimizar e capacitar a aplicação de tecnologias, minimizar os efeitos negativos e reduzir custo de produção.
• Tecnologia de Transporte – Possui principal papel na atividade econômica da União
Européia. A complexidade de questões envolvidas no transporte exige que seja considerado o contexto onde o desenvolvimento de tecnologia toma lugar e que se identifique o alto número de fatores que determinam a evolução da tecnologia. No horizonte do estudo de 2010 a 2020, os grupos de tecnologias que podem se tornar as mais relevantes aplicações para melhorar a eficiência dos veículos são: sistemas de propulsão; tecnologias de informação e comunicação aplicadas em transporte; materiais avançados e manufatura de veículos.
Nessas publicações do “Futures Project”, o desenvolvimento sustentável é citado sem qualquer referência se reportar ao conceito definido no Relatório da Comissão Brundtland, OUR COMMON FUTURE (1987).
Outro projeto cujo nome é IPTS ENLARGEMENT PROJECT (2001), do Institute for
Prospective Techonological Studies (IPTS), trata da ampliação da União Européia e foi
lançado em 2001, depois do sucesso do Futures Project, envolvendo os países candidatos a integrar a União Européia. Esse projeto surgiu como conseqüência da necessidade de ampliação da União Européia, apontada nas discussões iniciais. Em 1997, eram seis países candidatos; depois, em 1999, o número de países candidatos, passou para treze. As negociações com os países (Bulgária, República Tcheca, Estônia, Hungria, Latvia, Lituânia, Polônia, Romênia, República Eslováquia e Eslovênia, e também os países Chipre, Malta e Turquia) ocorrem desde 2001, conforme IPTS ELARGEMENT PROJET (2001).
O relatório intitulado The wider picture: Enlargement and Cohesion in Europe, de dezembro de 1999, coordenado por Peter FLEISSNER e preparado por Matthias WEBER, Wener MESKE e Ken DUCATEL, do projeto “Futures Project” do IPTS, foi a primeira publicação sobre a ampliação da União Européia que serviu de base de informações para o início do projeto “Enlargement Futures Project”.
Este projeto, conforme CADIOU (2001), teve como finalidade examinar as principais forças motrizes dos países candidatos: tecnológica, econômica, política e social, como também os possíveis impactos na tecnologia e na ciência, na competitividade e no emprego da
ampliação da União Européia num horizonte de dez anos, no caso até 2010. O IPTS estruturou o projeto Enlargement Project para ser um instrumento de melhora do nível de informações sobre os países candidatos a integrarem a União Européia e para fortalecer as atividades cooperativas entre os países-membros da União Européia e os países candidatos, como também entre eles mesmos.
O enfoque do projeto, em 1999, era fortalecer o foresight como um instrumento político dos países candidatos, criando-se redes (networks) e desenvolvendo-se estudos foresight em conjunto. A criação dessa rede entre os especialistas propiciou o acesso aos tomadores de decisão de alto nível dos países candidatos, com a finalidade de ativar um diálogo prospectivo sobre o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e seus inter-relacionamentos com questões socioeconômicas de interesse mútuo entre os países candidatos e a União Européia. Em 2000, tomou-se consciência dos temas e resultados da elaboração do foresight; em seguida, houve a discussão sobre as experiências nacionais e sobre as questões metodológicas; depois, discutiu-se sob o ponto de vista prospectivo sobre questões concretas de importância regional e comum, tais como meio ambiente, transporte e energia. No fim do ano 2000, os especialistas de alto nível concordaram em que os parceiros do IPTS iniciariam um projeto “Futures” Project sobre o impacto técnico-econômico e na sociedade da Ampliação (Enlargement) da União Européia. Finalmente, no início de 2001, depois de uma sessão de
brainstorm, apresentou-se uma lista de oitenta tópicos, agrupados em quatro painéis
temáticos:
− Transformação Econômica (Indústria, Agricultura, Comércio, Serviços; medidas);
− Emprego e Mudança da Sociedade (Demografia, Saúde, Diversidade, Coesão; condições-
limite);
− Tecnologia, Conhecimento e Aprendizagem (Educação e Habilidades, Capital Intelectual, Brain drain (evasão de profissionais muito qualificados e com postura empreendedora para
países estrangeiros), Ciência e Tecnologia, Tecnologia e Comunicação da Informação);
− Sustentabilidade, Ambiente e Recursos Naturais (Energia, Água, Mobilidade e Transporte).
Os quatro painéis temáticos estão expressos na figura 8 e produziram sete relatórios, que são parte integral do projeto “Enlargement Project”:
b) Síntese
c) Transformação Econômica
e) Emprego e Mudança da Sociedade
f) Sustentabilidade, Ambiente e Recursos Naturais g) Tecnologias de Informações e de Comunicações
h) Estudo Prospectivo sobre Ampliações Futuras (Enlargement Futures)
Figura 8: Estrutura do Projeto de Ampliação da União Européia FONTE: CADIOU (2001, p. 28).
O projeto “Enlargement Project”, conforme CADIOU (2001), contempla o conceito de desenvolvimento sustentável de acordo com o Relatório da Comissão Brundtland (1987). Nos relatórios produzidos, citam-se os quatros painéis temáticos ilustrados na figura 8, evidenciando-se a preocupação que se deve ter com a Sustentabilidade, o Meio Ambiente e os Recursos Naturais.
No trabalho coordenado por JENSEN (2001), do IPTS, chamado Sustentabilidade, Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sustainability, Environment and Natural Resources), a sustentabilidade é o conceito-chave desse painel e a principal base para avaliação das questões sobre água, agricultura, energia e o setor de transporte.
Emprego Demografia Coesão Diversidade Indústria Comércio Agricultura Serviço Educação e Habilidade Capital Intelectual Tecnologia da Informação e da Comunicação Brain Drain Ciência e Tecnologia Água Mobilidade e Transporte Energia Meio Ambiente
Sustentabilidade, Meio Ambiente e Recursos Naturais
T
ransformação Econôm
ica
Emprego e Mudança da Sociedade
Tecnol
ogia, Conhecim
ento e Apren
d
Segundo JENSEN (2001, p. 14), os objetivos da sustentabilidade para as três dimensões podem ser resumidos da seguinte forma:
− bem-estar econômico em termos de habilidade para proporcionar um padrão de vida aceitável;
− comunidade justa, eqüitativa e que respeita o indivíduo; e
− o uso racional de recursos, respeitando as necessidades de futuras gerações.
A sustentabilidade é conceito inerente de longo prazo que, para ser atingido, necessita de uma seqüência de decisões de curto e de médio prazo. Isto ou poderia proporcionar impacto direto na sustentabilidade ou abranger os efeitos da sustentabilidade por muitos anos ou décadas (isto é, redução do efeito estufa, redução da poluição do lençol freático, etc).
Os estudos foresight propiciam prospectar a longo prazo, fornecendo informações aos formuladores de políticas e aos tomadores de decisões para que ajam no curto e médio prazo em prol do desenvolvimento sustentável.