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Modelo da elaboração do processo foresight de Barré

SN=SISTEMA NATURAL CP=CADEIA PRODUTIVA SP=SISTEMA PRODUTIVOFORÇAS

2.9 Comparação de modelos da elaboração do processo foresight

2.9.1 Modelo da elaboração do processo foresight de Barré

A pesquisa sobre os estudos foresight efetuados na Europa foi elaborada por BARRÉ (2001, p. 121-124), que, após analisar estudos foresight na última década envolvendo quinze países, verificou as principais características dos atores envolvidos e das várias fases do processo:

O processo foresight de C&T envolve os seguintes atores:

− O usuário principal (nos foresight sociais, os usuários potenciais são todos os participantes; não obstante, neste caso, os tomadores de decisões públicas são usuários importantes; em alguns casos o usuário principal é chamado de cliente; em foresight nacionais, o usuário principal é freqüentemente o ministro responsável pela política de C&T) é, normalmente, a pessoa que toma decisão pública e a que financia ou co-financia o estudo. Interage com o Comitê de Direção, mas normalmente faz isso de forma clara, e não necessariamente estará ligado ou comprometido de alguma forma com o parecer e o relatório elaborado pelo Comitê de Direção.

− O Comitê de Direção, normalmente, é designado pelo usuário principal. É responsável pelo estudo foresight (conduta, escolha de metodologias, organização, etc.) e faz recomendações para o usuário principal no fim do processo. Grande parte da credibilidade e da qualidade do estudo depende do Comitê de Direção.

− Os especialistas são pessoas que contribuem na elaboração do estudo. São nomeados, diretamente ou indiretamente, pelo Comitê de Direção e podem ser envolvidos em várias atividades do estudo, tais como: participação em painéis, respondendo à pesquisa, contribuição em seminário e outras atividades. Esses especialistas podem vir de várias experiências, tais como: científicas ou especialistas em tecnologias; representantes de indústrias ou grupos de interesses especiais; representantes de partidos políticos, sindicatos ou autoridades locais; personalidades conhecidas (por uma ou outra razão); e, em alguns casos, uma variedade grande de cidadãos que são envolvidos no processo por meio de conferências de grande escala e procedimentos baseados em internet.

− O grupo de pessoas encarregado de dar suporte organizacional e metodológico pode estar representado no comitê de direção.

− Os vários atores e institutos de pesquisas, cujo papel é agrupar e preparar as entradas analíticas e descritivas necessárias para o adequado funcionamento do processo, tais como: informações e bancos de dados, síntese de literatura, estado-da-arte sobre uma questão particular, e outras informações que sejam necessárias para o processo.

Todos esses atores institucionais, segundo BARRÉ (2001, p. 121), têm seus papéis específicos e estão relacionados com os estudos foresight, de acordo com o projeto institucional. Mas a arquitetura global apresentada acima é sempre a mesma.

De um modo agora clássico, foresight de C&T é descrito como um processo envolvendo três fases:

− A fase preliminar (fase um) visa organizar e fixar a base do estudo. Envolve a tarefa importante de identificar os especialistas e obter seu envolvimento por meio de uma primeira interação com eles, definir os limites do estudo, definir os métodos a serem usados e desenvolver uma primeira compreensão do sistema a ser estudado.

− A fase central é a fase de produção do estudo, na qual os vários grupos de especialistas são colocados para trabalhar, as informações são reunidas e acontecem as interações. Tudo isso é enfocado para sintetizar os resultados, freqüentemente na forma de uma quantidade pequena de cenários. Esta fase pode ser dividida em duas fases (fases dois e três), que são a identificação das variáveis-chave e a construção de cenários, respectivamente. Essas duas fases podem ser mais ou menos explicitamente separadas.

− A fase de finalização é a ligação entre estratégia e ação (fase quatro). Isto consiste tanto na atividade de disseminação quanto na atividade de desenvolvimento/avaliação. Os dois aspectos têm uma importância relativa, que varia de acordo com o tipo e objetivos do estudo foresight.

Conforme BARRÉ (2001, p. 122-123), o foresight é um processo de conhecimento coletivo que envolve quatro fases, que são vistas como uma seqüência de exploração/seleção. Nesta primeira análise, descreve-se cada uma das fases em termos de um processo de exploração, seguido por um processo de seleção. Cada etapa é executada usando-se uma ou

várias técnicas ou métodos, dependendo muito do tamanho do estudo e dos recursos disponíveis.

Fase preliminar: instalação da estrutura organizacional e conceitual

Etapa de exploração :

- identificação dos stakeholders potenciais, possíveis atores e especialistas;

- exploração de possíveis componentes relevantes e dos subsistemas da questão que está sob consideração; e

- exploração da interpretação e compreensão possíveis da missão. Etapa de seleção :

- tipologia e classificação dos atores relevantes; - decisão na escolha de especialistas;

- instalação da estrutura conceitual global (que identifica os componentes do estudo [painéis] e toma decisão sobre, por exemplo, os painéis setorais e horizontais).

Fase central (principal) (a) : determinação de parâmetros-chave

Etapa de exploração :

- lista de variáveis potenciais;

- identificação de forças motrizes possíveis;

- produção das perguntas para a pesquisa (Delphi); - lançamento da pesquisa Delphi;

- instalação da análise estrutural. Etapa de seleção :

- seleção de variáveis por meio de redes (clustering) e algum tipo de classificação de prioridades:

tratamento e análise da pesquisa Delphi;

▪ aplicação de critérios para seleção de tecnologias-chave, produzindo uma hierarquia de variáveis com uma análise estrutural.

Fase central (principal) (b): identificação dos cenários relevantes

Etapa de exploração:

− exploração de evoluções possíveis das variáveis;

− desenvolvimento de hipótese nas variáveis, no ambiente e nas ações de outros atores. Etapa de seleção:

− seleção de estados possíveis de pequena quantidade de parâmetros;

− seleção de cenários, que pode envolver tempo real, “pesquisa mini-Delphi” ou análise de probabilidade condicional de coocorrência de estados de variáveis.

Fase de Finalização: disseminação dos resultados e recomendação de Estratégia

Etapa de exploração:

− exploração de estratégias possíveis, formuladas com base em uma análise de forças e fraquezas e de sua combinação com cenários.

Etapa de seleção:

− seleção de uma estratégia a ser recomendada depois de uma avaliação das alternativas, em vista de seus resultados no contexto das diferentes combinações de cenários.

Segundo BARRÉ (2001, p. 124), as quatro fases do processo foresight são vistas como ciclos de aprendizagem. Os métodos e técnicas foresight envolvidos nas etapas de seleção e de exploração das quatro fases apresentadas apontam para a construção de representações do sistema em estudo e, de alguma maneira, para a modelagem do conhecimento que os participantes do estudo compartilham e discutem. Em outras palavras, o uso destes métodos envolve aglutinamento de conhecimento e compartilhamento de processos.

As representações de como o sistema que está em estudo trabalha e as idéias (insight) sobre possíveis futuros são conhecimentos tácitos que cada indivíduo modela para si mesmo. O problema é que este conhecimento tácito não pode ser compartilhado nem sujeito à análise, isto é, deve ser transformado a priori em conhecimento codificado ou explícito. Em outras palavras, existe necessidade de traduzir o conhecimento tácito próprio ajustado em linguagem comum para compartilhar e analisar o sistema e as idéias (insight) sobre o sistema. Este processo de tradução é o que se chama de “codificação” ou “explicitação”.

BARRÉ (2001, p. 124-125) utiliza o ciclo de conhecimento de NONAKA e TAKEUCHI (1997, p. 68-80), que parte do pressuposto de que o conhecimento é criado por meio da interação entre o conhecimento tácito e o conhecimento explícito, permitindo postular quatro modos diferentes de conversão do conhecimento, que são:

− socialização: de conhecimento tácito em conhecimento tácito. É o processo de compartilhamento de experiências e de criação do conhecimento tácito, como modelos mentais ou habilidades técnicas compartilhadas;

− externalização: de conhecimento tácito em conhecimento explícito. É o processo de articulação do conhecimento tácito em conceitos explícitos. Um processo de criação do conhecimento perfeito, uma vez que o conhecimento tácito se torna explícito, sendo expresso na forma de metáforas, analogias, conceitos, hipóteses ou modelos;

− combinação: de conhecimento explícito em conhecimento explícito. É o processo de sistematização de conceitos em um sistema de conhecimento; essa conversão de conhecimento envolve a combinação de conjuntos diferentes de conhecimento explícito; − internalização: de conhecimento explícito em conhecimento tácito. É o processo de

incorporação do conhecimento explícito no conhecimento tácito, intimamente relacionada ao aprender fazendo.

A figura 12 mostra o conceito de interação do conhecimento entre os participantes de forma esquematizada.

Figura 12: Quatro modos de conversão do conhecimento e a espiral do conhecimento FONTE: NONAKA e TAKEUCHI, (1997, p. 69 e 80).

Socialização Externalização

Internalização Combinação

Conhecimento Tácito Conhecimento Explícito

Conheciment o cit o Conhecim ento Exp líc it o C o nst ruç ão do ca m p o de intera çã o Associ ão do conheci m ent o ex plíc ito Diálogo Aprender fazendo

Para BARRÉ (2001, p. 23), o estudo foresight amplia o conhecimento entre os participantes, mas também poderá ampliar o conhecimento da sociedade, em razão da democracia que é praticada no processo de elaboração do foresight. É prioritário para a política de pesquisa construir conhecimentos em geral e experiência para adaptar a visão social do foresight à variedade de necessidades e contextos.

Assim sendo, o foresight é importante para a formulação de políticas para Ciência e Tecnologia com características originais, as quais podem ser relacionadas ao modelo social europeu de desenvolvimento, incluindo questões de Ciência e Tecnologia na mais ampla estrutura política.