SN=SISTEMA NATURAL CP=CADEIA PRODUTIVA SP=SISTEMA PRODUTIVOFORÇAS
2.7 O sistema político
2.7.3 Política comparativa e a teoria de sistemas
Para CHILCOTE (1998, p. 168), a obsessão dos cientistas sociais pela teoria de sistemas pode ser atribuída em grande medida à sua compulsão para fazer previsões corretas, capacitando-se dessa forma para mudar as coisas para melhor. Os cientistas sociais tendem a emular a física newtoniana clássica na busca de leis gerais que tenham aplicação universal. A teoria de sistemas na ciência política também recebe contribuições da economia, da sociologia e de outras ciências sociais, como a história, da qual recebeu notável influência.
A partir dessa análise de Chilcote, verifica-se a importância que os estudos foresight podem ter para um país ou região, em lugar do forecasting. O foresight é um processo que deve ser elaborado sistematicamente para olhar o futuro de longo prazo da ciência, da tecnologia, da economia, do meio ambiente e da sociedade, com o objetivo de identificar as tecnologias genéricas emergentes e as áreas de pesquisas estratégicas com potencial de produzir os maiores benefícios econômicos e sociais. Pode-se dizer que a definição de
foresight de MARTIN (2001) está em conformidade com os cientistas sociais, ao olhar o
futuro e propor ações para as melhores mudanças no futuro.
CHILCOTE (1998, p. 170) utiliza aplicações qualitativas ao invés de quantitativas na análise de entradas e saídas da teoria de sistemas para a ciência política. Ele cita autores como David Easton e Gabriel Almond, que desenvolveram uma formulação de sistemas na ciência política.
Entradas Processamento Saídas
Feedback
Ambiente
David Easton, em 1957, depois de vários anos de estudo, identificou alguns atributos dos sistemas políticos numa tentativa de chegar a uma teoria política geral. Estes atributos eram: as propriedades de identificação na forma de unidades e fronteiras, as entradas e saídas e a diferenciação no interior de um sistema. Cada atributo era descrito e ilustrado através de um diagrama primitivo, que é hoje familiar para a maioria dos estudantes de ciência política e está reproduzido na figura 10.
Figura 10: Diagrama de Easton de um sistema político FONTE: CHILCOTE (1998, p. 173).
O diagrama sugere que, para propósitos analíticos, o uso do sistema permite a separação da vida política do resto da sociedade, o que Easton chamava ambiente. Esta separação é demarcada por uma fronteira. O caso de um sistema político pode, por exemplo, ser definido pela ação relacionada a decisões de comprometimento de uma sociedade. As entradas na forma de demandas e de apoios alimentam o sistema político. As demandas surgem no ambiente ou no interior do próprio sistema e, estimuladas, tornam-se temas de discussão e de resolução. Os apoios são ações ou orientações impulsionando e resistindo a um sistema político. As saídas emanam do sistema político na forma de decisões e ações políticas. Estas retroalimentam o ambiente pela satisfação das demandas de alguns membros do sistema e assim geram apoio ao sistema. Pode haver conseqüências negativas também, resultando em novas demandas ao sistema. Easton, em seu terceiro trabalho, reviu suas categorias básicas de análise, examinou exaustivamente as entradas de demandas, voltou-se para as entradas de apoio, identificou respostas à sobrecarga colocada sobre o apoio para o sistema e discutiu saídas como reguladores de apoio específico. Seus diagramas eram mais complicados, mas o eixo fundamental permaneceu intacto.
Conforme CHILCOTE (1998, p. 176), Easton despertou nos cientistas políticos a percepção da necessidade de analisar as complexas inter-relações da vida política. Ele compartilhou as características de muitos pensadores do movimento comportamentalista, incluindo a rejeição a conceitos tradicionais como estado e poder, a incorporação de conceitos
Demandas Suportes
Decisões e Ações
Entradas O Sistema Saídas
Político
Ambiente Ambiente
Ambiente Ambiente
como entradas, saídas e feedback e a ênfase na construção teórica. Este trabalho não ficou livre de críticas, tais como:
− sua preocupação com o esclarecimento e a simplificação de conceitos relacionados com estabilidade, manutenção, persistência e equilíbrio, uma tendência derivada da biologia. Refere-se à alocação autorizada de valores como processos vitais do sistema político, que pode levar a algumas suposições errôneas sobre como construir uma teoria adequada da política. Easton foi incapaz de tratar sobre mudanças políticas particulares. Suas abstrações podem levar a percepções equivocadas sobre situações e pessoas reais;
− propôs algumas generalizações, mas produziu poucas hipóteses testáveis. Suas idéias tiveram impacto sobre o estudo da política, mas pouca conseqüência para a política comparativa;
− em 1950, relegava a ciência política à posição de uma ciência aplicada ou disciplina reformadora e acusava a teoria do valor do historicismo pelo empobrecimento da teoria política, enquanto condenava o ideal weberiano de uma ciência social livre de valores. Entretanto, em 1953 enfatizou a ciência e a teoria causal e tornou-se otimista quanto às perspectivas de uma verdadeira ciência da política. Em 1969, colocou uma ênfase renovada na pesquisa aplicada e atenção às suposições de valor na pesquisa.
Segundo CHILCOTE (1998, p. 179), Gabriel Almond, em 1956, aplicou uma tipologia simples aos sistemas políticos três anos depois que Easton publicou seu primeiro livro sobre sistema político. A concepção de sistema político de Almond evoluiu através de uma série de fases. Inicialmente, sua primeira tipologia sobre sistema político extraiu de Easton a noção de sistema como um “conceito inclusivo, que cobre todas as ações padronizadas relevantes para
a tomada de decisões políticas” ALMOND (1956, p. 393) apud CHILCOTE (1998). Sistema
implicava totalidade, interações entre unidades no interior da totalidade e a estabilidade daquelas interações, as quais descreveu como equilíbrio em mudança.
Ainda segundo CHILCOTE (1998, p. 179), Almond, ao invés de abordar conceitos como instituições, organização ou grupo, voltou-se para papéis e estruturas, sendo papéis as unidades do sistema político em interação e estruturas os padrões de interação; além disso, introduziu o conceito de cultura política, envolvido num padrão particular de orientações para ação política, padrão que se estende geralmente além das fronteiras do sistema político.
Almond, conforme CHILCOTE (1998, p. 180), numa fase posterior renovou os conceitos da política comparativa. O sistema político substituiu o Estado e o aparato legal e institucional empregado pelos cientistas políticos tradicionais. O poder foi substituído por função, o agente por papel e a instituição por estrutura. Empregou esses conceitos em sua tese de que os sistemas políticos têm estruturas políticas; as mesmas funções são desempenhadas em todos os sistemas políticos; todas as estruturas políticas são multifuncionais; e todos os sistemas políticos são misturados num sentido cultural. Almond incorporou também os conceitos de Easton, como as entradas, as saídas e o feedback, mas, em razão de suas limitações, delineou suas próprias categorias funcionais em quatro entradas (socialização e recrutamento político, articulação de interesses, agregação de interesses e comunicação política) e três saídas (a definição de regras, a aplicação de regras e a adjudicação de regras). As saídas eram funções do governo correspondendo ao uso tradicional de três poderes separados (categorias que distorciam seu esquema porque refletiam uma concepção de governo ocidental européia e norte-americana). As entradas eram valiosas, particularmente na caracterização de sistemas políticos de áreas em desenvolvimento. A socialização política induz as pessoas a participarem na cultura política de uma sociedade. A articulação de interesses é a expressão dos interesses e demandas de ação política. A agregação de interesses é coalizão daqueles interesses e demandas articulados por partidos políticos e grupos de interesse. Todas essas funções ocorrem por meio da comunicação política.
A última fase do trabalho de Almond, segundo CHILCOTE (1998), envolveu o refinamento e a elaboração do esquema da fase anterior, e gerou um livro com Charles A. Powell, em 1966, amplamente utilizado por especialistas da política comparativa. Uma classificação com seis desdobramentos das três saídas originais – as funções do governo – e três das quatro entradas (articulação de interesses, agregação de interesses e comunicação política) foi trabalhada em processos de conversão que permitem a transformação das demandas e apoios que fluem para dentro do sistema político e das saídas de extração, regulação e distribuição na sociedade, que fluem para fora do sistema político, conforme figura 11. Essa reformulação foi um esforço para responder às críticas que seu trabalho inicial sofreu, uma vez que agora ele enfatizava a interdependência ao invés da harmonia, para mostrar que sua abordagem não era estática nem conservadora por causa de sua ênfase no equilíbrio ou harmonia das partes. Almond tentou mostrar que sua abordagem de exame dos padrões de desenvolvimento era dinâmica, um esforço para relacionar-se com a abundante
literatura sobre desenvolvimento político publicada nos anos sessenta do século XX. Ele também considerou uma teoria holística ao invés de parcial.
Figura 11: Diagrama do sistema político e níveis de funções de Almond FONTE: CHILCOTE (1998, p. 181).
Almond, durante os anos oitenta do século XX, examinou a literatura que havia surgido sobre o Estado, a teoria da dependência e outros temas que foram contrapostos a seu próprio trabalho. Diante desse exame, escreveu A Discipline Divided (1990), cujos ensaios representaram não apenas uma análise cuidadosa da literatura, mas também uma reafirmação de seu trabalho anterior, além de uma resposta polêmica a seus críticos.
Embora Easton e Almond divergissem, pois enquanto Almond enfatizava a divergência entre suas idéias e aquelas da teoria geral de sistemas, Easton insistia que seu trabalho diferenciava-se das formulações funcionais, há importantes semelhanças entre Almond e Easton: uma é que a idéia de persistência trespassa ambas as tendências, a outra é a referência de Easton às funções fundamentais dos sistemas políticos. Almond e Easton foram influenciados pelo organicismo, segundo RADCLIFFE-BROWN (1952, p. 178) apud CHILCOTE (1998, p. 183), cujo conceito de função aplicada às sociedades humanas é baseado numa analogia entre a vida social e a vida orgânica. Eles também se interessavam pelas idéias de Malinowski sobre o funcionalismo, definido como as necessidades que servem para manter o sistema.
Almond recebeu críticas em razão de ter utilizado as abordagens funcionalismo e estruturalismo, que na ciência política derivam da antropologia, da economia e da sociologia. Segundo CHILCOTE (1998, p. 185), o funcionalismo é identificado com freqüência como determinista ou ideológico, conservador ou restritivo, ou simplesmente falso. Alguns críticos consideram que o funcionalismo é limitado por sua falta de poder explicativo e pelo efeito constritivo de seus postulados sobre a natureza e a operação de sistemas sociais. Abaixo, algumas críticas:
(Demanda) ENTRADAS (Suportes) Articulação de interesses Agregação de interesses Comunicação SISTEMA POLITICO (Decisões) SAÍDAS (Ações) Definição de regras Aplicação de regras Adjudicação de regras Capacidade reguladora Capacidade Extrativa Capacidade Simbólica Capacidade Distributiva Capacidade Responsiva MANUTENÇÃO ADAPTAÇÃO AMBIENTE AMBIENTE AMBIENTE AMBIENTE C onver sã o C onver sã o
− O antropólogo JARVIE apud CHILCOTE (1998) defendia que o funcionalismo é limitado por sua falta de poder explicativo, sua insuficiência explicativa e o efeito constritivo de seus postulados sobre a natureza e a operação dos sistemas sociais.
− O economista KRUPP apud CHILCOTE (1998) alertou para o problema de se enfatizar o caráter de equilíbrio dos sistemas funcionais: existe tendência a exagerar sua coesividade; sistemas altamente integrados podem obscurecer metas, resultando em descrições vagas e com ausência de análise; e situações ideais são freqüentemente confundidas com as situações dos sistemas observados.
− O sociólogo MARTINDALE (1965) apud CHILCOTE (1998) observou quatro deficiências no funcionalismo: o viés ideológico conservador e a preferência pelo status
quo; ausência de clareza metodológica; forte ênfase sobre o papel dos sistemas fechados
na vida social; e o fracasso em tratar mudanças sociais.