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1 A IMAGEM FOTOGRÁFICA NO CAMPO DOS ESTUDOS

1.1 ESTUDOS VISUAIS

1.1.3 Fotografia no Brasil nas décadas de 1930 e 1940

A fotografia50 surgiu simultaneamente em vários lugares do mundo a partir

de técnicas e experimentos químicos diferentes. Inventores, físicos, químicos e artistas buscavam novas formas de registrar e reproduzir as imagens. O Brasil também estava inserido nesse processo, porém de forma isolada. Desde sua origem até o final do século XIX, a fotografia já havia passado por diversas alterações. Com a industrialização, equipamentos e materiais fotográficos modificaram significativamente a qualidade da imagem, e por consequência a difusão e o papel social do fotógrafo. Não havia mais a necessidade de conhecimentos de física e química, as tecnologias tornavam o processo menos complexo. Assim, o material fotográfico industrializado alterou as bases de atuação dos fotógrafos, exigindo deles avanços profissionais e especialização frente à concorrência.

48 CANABARRO, 2011, p. 19-20. 49

TURAZZI, 1998, p. 9.

50

Originalmente o termo “foto” vem do grego, phôs, e significa luz; enquanto “grafia” corresponde à escrita. Assim, fotografia significa, “a arte de fixar a luz de objetos mediante a ação de certas substâncias” (BORGES, Maria Eliza Linhares. História & fotografia. Belo Horizonte: Autêntica, 2003, p. 37). Nesse processo, “a luz atravessa a lente da câmera e sensibiliza a película (negativo) que possui três ou mais camadas de emulsões”, que são responsáveis pelas principais características da imagem retratada, como cor, profundidade, foco... A câmera é analógica e possui em seu “interior um pequeno ‘quarto escuro’, que possibilita a entrada de luz pelo obturador, gravando a imagem no filme fotográfico [...]”. Na etapa seguinte, o negativo é levado para o laboratório escuro para passar por um “processo químico, no qual depois, exposto à uma luz (verde/azul/vermelha), acaba por sensibilizar e gravar a imagem captada no papel fotográfico especial, composto de haletos de prata” (FOTOMANIA.

Na virada do século XIX para o século XX, a fotografia no Brasil já se apresentava de forma diversificada, ampliando seu campo de atuação, integrando o cotidiano da sociedade, seja através dos retratos sociais e familiares, das vistas, dos cartões postais, seja através da utilização de fotografias em publicações e anúncios comerciais. A popularização da fotografia através dos diversos campos de atuação influenciou os costumes, os ritos e criou novos hábitos sociais, o que a tornou obrigatória nas convenções sociais e familiares, e educou o olhar e o desejo do “dar- se-a ver” nas imagens fotográficas.

O início do século XX é marcado pela formação do movimento fotoclubista que surge como uma forma de reagir à massificação da produção fotográfica. Associação elitista – constituída de profissionais liberais que faziam da fotografia um

hobby – que tinha por objetivo tornar a fotografia uma atividade artística. Esse movimento internacional chega ao Brasil nas primeiras décadas do século XX, porém, somente a partir da década de 1930 é que influencia na formação e no aperfeiçoamento dos fotógrafos brasileiros. Entre os principais fotoclubes estão o Photo Club Brasileiro, fundado no Rio de Janeiro em 1923, e o Foto Cine Clube Bandeirante, criado em São Paulo em 1939. Entretanto, tal movimento conhece seu ápice somente na década de 1940, acompanhando o ritmo de crescimento das cidades e da estruturação da sociedade burguesa, propagando-se em várias capitais e municípios da região Sudeste, atingindo as camadas médias urbanas.51

Charles Monteiro argumenta que, além da difusão da fotografia através dos fotoclubes na década de 1940, perpassa por um processo de expansão, pelo aperfeiçoamento das técnicas de edição e reprodução. Por intermédio da imprensa – jornais e revistas ilustradas –, a fotografia assume o papel informativo ou a serviço do poder público. Por exemplo, as “fotos destacavam as novas práticas políticas do Estado Novo com os seus desfiles cívicos, educação cívica e eventos esportivos, que visavam à educação do corpo para o trabalho, preparação para a guerra e purificação da nação”,52 mobilizando e, de certa forma, sensibilizando a população

durante a Segunda Guerra Mundial.

51

Para entender a formação do fotoclubismo brasileiro, consultar: COSTA, Helouise; SILVA, Renato Rodrigues da. A fotografia moderna no Brasil. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

52

MONTEIRO, Charles. Imagens da cidade de Porto Alegre nos anos 1950: a elaboração de um novo padrão de visualidade urbana nas fotorreportagens da Revista do Globo. In: MONTEIRO, Charles.

A década de 1940 é marcada pela utilização de imagens fotográficas pela imprensa em revistas e jornais, mas também pela organização dos fotógrafos em associações e sindicatos, com o objetivo de buscar reconhecimento e valorização do seu trabalho. Assim, esse período também corresponde a um momento de reivindicação dos direitos autorais.

Todavia, esse não é o contexto da maior parte dos municípios de médio e pequeno porte e das regiões interioranas do Brasil, especialmente na região Sul, pois alguns eram ainda colônias, não haviam conquistado a emancipação política e administrativa. E, mesmo que os grandes centros estivessem buscando a modernidade (industrialização, urbanização, desenvolvimento tecnológico, explosão demográfica, desenvolvimento dos sistemas de comunicação de massa) e o domínio da percepção visual, os equipamentos fotográficos ainda eram de valor elevado, estando restritos a camadas mais abastadas.

Com a introdução das câmeras Leika na década de 1930, distribuídas em São Paulo pela Casa Lutz Ferrando, há um aumento nos retratos amadores, permitindo a diminuição da utilização de profissionais para os registros fotográficos cotidianos. No entanto, esse ainda continuou tendo papel relevante nos registros considerados mais importantes e solenes.

Nelson Schapochnik (1998) destaca que as imagens instantâneas realizadas pelos amadores – geralmente por algum membro da família – apresentam diferenças significativas em relação ao trabalho de fotógrafos profissionais quanto à qualidade do registro imagético no que concerne, sobretudo, às poses utilizadas. Mesmo com qualidade diferente, as fotografias amadoras continuavam nos álbuns familiares,53 pois “o instantâneo implica espontaneidade e inocência [...]. Ele sugere simplicidade ou ausência de preocupações técnicas. Ele é mais dinâmico do que estático, mais incidental do que formal, mais atento ao efêmero do que ao eterno”.54

Percebe-se nesse contexto a democratização da fotografia em determinados espaços. Conforme Zita Rosane Possamai, esse acesso à visibilidade estava restrito aos grupos economicamente superiores, privilegiados no “dar-se-a-ver”.

53 Lembrando que as famílias que tinham acesso a uma câmera fotográfica – considerada nesse

período um produto de luxo – e constituíam álbuns fotográficos eram aquelas com capacidade econômica suficiente para custear esses artefatos.

54

SCHAPOCHNIK, Nelson. Cartões-postais, álbuns de família e ícones da intimidade. In: SEVCENKO, Nicolau (Org.). História da vida privada no Brasil 3: República da Belle Époque à era do rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 471.

Referindo-se ao Rio Grande do Sul, especificamente à capital Porto Alegre, Zita Rosane Possamai (2005), ao analisar o consumo fotográfico, afirma que os valores dos equipamentos diminuíram acentuadamente da década de 1920 para a de 1930, e as possibilidades de parcelamento nesta década também facilitaram a aquisição, média, porém o consumo ainda era restrito, o que demonstra a sintonia da cidade com as inovações tecnológicas, marca de um determinado imaginário (modernidade). De acordo com a autora,

[para] as elites burguesas e republicanas, compartilhar o novo hábito de fotografar-se, ser fotografado e – talvez mais importante – ser visto ao fotografar e ser visto ao ser fotografado [...], portando uma Kodak portátil, certamente era mais um sinal distintivo a acrescentar no rol de elementos de uma visualidade que definia o que era ser moderno, o que era uma cidade também moderna e como era viver nela, consoante o imaginário da época.55

Assim, a fotografia teve presença marcante na capital Porto Alegre nas décadas de 1920 e 1930, em razão dos vários estúdios e estabelecimentos comerciais fotográficos no centro da cidade, da circulação de imagens de vistas urbanas e retratos e da divulgação nas revistas ilustradas tanto de fotografias quanto de propagandas de produtos fotográficos. Isso demonstra que a cidade estava sintonizada com as inovações tecnológicas e urbanas de várias partes do mundo.

Ao analisar o consumo de produtos fotográficos, Zita Rosane Possamai (2005) buscou anúncios de produtos fotográficos em jornais e revistas. Nessa pesquisa, a autora observou que a casa comercial de Porto Alegre com mais anúncios foi a Casa Senior de propriedade de Alfred Dennin, a qual oferecia produtos para profissionais e amadores. Dentre as marcas de produtos fotográficos destacam-se Zeiss, Goerz, Ica, Glunz, Ernemann, Goltzz e Breutmann, Kodak, Ansco, Mimosa Velotyp, Agfa, Perutz, Hauff, Lumière, Voigtlaender. Eram ainda comercializados equipamentos e papéis fotográficos, equipamentos para laboratório (bacias, químicos, mesas para retoque...). Imagens, retratos, cartões e álbuns fotográficos também eram vendidos. A maioria das casas comerciais destinava uma sessão à fotografia, porém, comercializava ao lado artigos dentários, cirúrgicos e

55

POSSAMAI, Zita Rosane. Cidade fotografada: memória e esquecimento nos álbuns fotográficos – Porto Alegre, décadas de 1920 e 1930. 2005. Tese (Doutorado em História) - UFRGS, Porto Alegre, 2005. p. 91.

materiais de instalação de laboratórios químicos e bacteriológicos. Tudo isso se deve, provavelmente, ao fato de serem importadoras de diversos produtos.

Em Panambi, no estúdio fotográfico estudado, também havia comércio de outros produtos, o que não difere dos estúdios fotográficos do período no Rio Grande do Sul. Nos jornais56 que circulavam em Panambi nas décadas de 1930 e

1940, provenientes de Cruz Alta e Ijuí, não foram localizados anúncios de propaganda do estúdio Foto Klos, provavelmente por ser uma pequena empresa, com recursos limitados e estar localizado em uma pequena comunidade.

Zita Rosane Possamai (2005), ao abordar a urbanização através de imagens fotográficas em Porto Alegre, afirma que essas buscavam demonstrar que as edificações do espaço urbano eram semelhantes àquelas de outras metrópoles, criando um ideário de modernidade urbana, com novos espaços de sociabilidade, grandes edifícios, novas vias de circulação e serviços.

Nesse espaço de modernidade urbana localizavam-se os estúdios fotográficos que disputavam a clientela através da concorrência, ocupando geralmente as áreas centrais da cidade. Os estúdios fotográficos que se destacavam pela tradição no mercado ou pelo talento artístico (vinculação entre fotografia e arte) eram espaços de convivência da burguesia ascendente, compondo um “modus vivendi pautado por novos hábitos e novos comportamentos no âmbito do ideário de modernidade”.57 Frequentar estúdios renomados diferenciava a burguesia

ascendente de outros grupos sociais que se dirigiam a estúdios fotográficos menores ou que consumiam apenas fotografias amadoras.

Nesse sentido, as imagens estão ligadas ao imaginário de modernidade dos porto-alegrenses, e entendiam que frequentar o estúdio de um artista renomado e terem seus retratos assinados pelo fotógrafo era ser moderno. Assim, estar entre os retratados das revistas ilustradas, possuir equipamento fotográfico importado e utilizá-lo em acontecimentos cotidianos ou especiais, bem como ser visto utilizando tal equipamento, denotava modernidade. Além disso, morar em uma cidade moderna, que posse ser visualizada através dos álbuns presenteados a amigos ou expostos na sala de jantar para apreciação, também demonstrava esse “ser moderno”. Assim, através das imagens fotográficas, a cidade foi representada

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Como, por exemplo, o caderno especial “Pindorama” do Diário Serrano de Cruz Alta, publicado em 1942.

visualmente de acordo com o desejo da sociedade ou de uma parcela que as criou, veiculando um imaginário de acordo com o ideal de modernidade.

Até aqui se buscou apresentar o contexto da fotografia brasileira que está situada nos centros urbanos, onde fotógrafos amadores se organizavam em fotoclubes reivindicando o direito de autoria de seus trabalhos, álbuns fotográficos de vistas urbanas e cartões postais, exibindo a modernidade urbana; onde os estúdios fotográficos eram concebidos como lócus de uma burguesia ascendente; e em que a fotografia passava a ocupar um espaço na imprensa (jornais e revistas ilustradas). Mas, que espaços a fotografia estava ocupando nas regiões afastadas dos grandes centros urbanos? Quem eram os fotógrafos? O que reivindicavam? Quem eram os retratados? Como tinham acesso aos artefatos fotográficos? Que ideários buscavam expressar nas representações imagéticas?