CAPÍTULO 2: MARCUSE E A AMBIVALÊNCIA DA TÉCNICA
2.1. Influências do pensamento marcuseano
2.1.3. Freud
Segundo Marcuse, a maior parte dos problemas psicológicos de que padecem os indivíduos no tempo moderno está associada a questões sociais, tornando-se, pois, difícil separar as categorias psicológicas das políticas. Um dos exemplos mais evidentes deste tipo de perturbação é a intensificação do desejo de destruição do mundo. Para analisar este e outros fenómenos e interpretar a sociedade, o filósofo serve-se da teoria
22 Segundo Marcuse, o aumento do tempo livre disponível levaria à sobreposição da energia erótica (Eros) ao instinto da morte
(Thanatos). Em consequência disto, dar-se-ia uma mudança nos próprios instintos do homem, o qual se tornaria mais propenso aos valores da vida. Esta mudança é designada por Marcuse de «biológica».
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psicanalítica de Freud. Confessa que doutro modo não conseguiria encontrar uma explicação para a realidade. Tudo lhe pareceria insano: governos, indivíduos, tudo.
Freud defende que somos regidos por dois princípio primários, a saber: o instinto da vida (Eros) e o instinto da morte (Thanatos). O instinto da vida prende-se com a criação e a ampliação da vida; o instinto da morte, na medida em que leva no seu cerne o desejo do regresso a um estado de não-necessidade e não-sofrimento, o regresso a um estádio antes do nascimento, age no sentido da destruição da vida:
Partindo de especulações sobre o início da vida e de paralelos biológicos, cheguei à conclusão de que, além do instinto para preservar a substância viva e para a inserir em unidades cada vez maiores, haveria um outro que se lhe opunha, visando dissolver estas unidades e reconduzi-las ao seu estado primordial e inorgânico. Além de Eros, teríamos assim também um instinto de morte (Freud, 2008, p. 75).
Como o mundo se apresenta hostil à satisfação dos impulsos da vida, Freud acredita que Eros acaba por ser subjugado ao instinto da morte e a energia dos instintos por ser desviada e modificada. Conjuga-se, assim, um cenário de tensões entre três forças conflituantes: o mundo exterior, os instintos da vida e os da morte. A estas três forças correspondem três princípios: o «princípio do prazer» associado ao instinto da vida; o «princípio do nirvana» inerente ao desejo de regresso à ausência de sofrimento e privação (instinto da morte); e o «princípio da realidade» que se relaciona com a ação levada a cabo pelo mundo exterior.
A subordinação da líbido (da energia erótica) à monogamia, ao trabalho, à disciplina, à lei e à ordem, é de suma utilidade, sustenta Freud, porquanto permite a estabilidade social e o seu progresso. Mas também o instinto de morte é reprimido pela civilização e tornado útil: “Uma vez moderado e refreado, por assim dizer, inibido no seu alvo, o instinto de destruição, dirigido a objectos, terá de proporcionar ao ego a satisfação das suas necessidades vitais, bem como o domínio sobre a natureza “ (Freud, 2008, p. 78). É, portanto, da repressão e do desvio dos instintos, da sua sublimação, que resulta a civilização (também designada por Freud de «cultura»). Se o homem gozasse de toda a liberdade, isto é, se agisse de acordo com os seus instintos em estado puro, atuaria de forma destrutiva sobre a preservação e a associação. Logo, “A evolução da civilização impõe restrições à liberdade” (Freud, 2008, p. 49).
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Como se dá esta modificação dos instintos? Segundo Freud, o «princípio do prazer» é determinado pela busca do prazer e pela fuga a qualquer sensação contrária. Não obstante, tanto o meio natural como o humano, e até o biológico, apresentam obstáculos a essa satisfação impulsionada pelo «princípio do prazer»: “O sofrimento ameaça-nos a partir de três frentes: o próprio corpo, destinado à decadência e à dissolução (…); o mundo exterior, que nos pode acometer com forças imensas, implacáveis, indestrutíveis; e por fim a relação com os outros” (Freud, 2008, p. 25), e é de forma traumática que o indivíduo percebe a impossibilidade da sua satisfação plena. O «princípio do prazer» é, por conseguinte, superado pelo «princípio da realidade». O homem adquire uma certa disciplina e aprende a adiar o prazer, que se apresenta agora como restringido, ainda que assegurado. Esta transformação que ocorre no homem permite-lhe o desenvolvimento da racionalidade e a distinção entre o que lhe é benéfico e o que se afigura prejudicial. Torna-se um sujeito consciente; só a imaginação continua vinculada ao «princípio do prazer». Quanto à energia obtida pela repressão da sexualidade do organismo humano, é sublimada e desviada para o trabalho. O homem torna-se um instrumento de trabalho e o trabalho passa a ser a sua ocupação principal, o sentido maior da sua própria existência.
Para denominar o modo de repressão próprio do «princípio da realidade» da civilização hodierna, Marcuse (1975) introduz a expressão «princípio de desempenho»:
ao tentarmos elucidar a extensão e os limites do teor de repressão prevalecente na civilização contemporânea, teremos de descrevê-la de acordo com o princípio de realidade específico que governou as origens e a evolução dessa civilização. Designamo-lo por princípio de desempenho” (p. 57).
Esta designação deve-se ao facto da sociedade ser economicamente estratificada e da sua organização decorrer do desempenho dos seus membros. Verifica-se mesmo uma harmonia entre os interesses individuais e os interesses do todo, pois a produtividade que está no seu cerne permite uma melhoria das condições de vida de todos os seus membros. O homem trabalha para si, é certo, mas trabalha sobretudo para o sistema que lhe permite a sobrevivência, e boa parte da sua vida não se atém à satisfação das suas necessidades ou à realização das suas faculdades, antes é passada agrilhoada a um trabalho alienado com o qual não se identifica. Embora o indivíduo não perceba que deseja o que lhe é dado a desejar ou que o lucro daquilo que produz é desigualmente
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distribuído entre si (como pagamento pelo seu trabalho) e o sistema, sabe que há benefício em agir de forma adequada com o sistema. Assim, eterniza o status quo.
Freud afirma que o regresso do homem à natureza é impossível. O processo civilizacional não volta atrás e a possibilidade da existência de uma sociedade não- repressiva torna-se improvável devido ao conflito permanente entre os instintos da vida e os instintos da morte. Marcuse também não defende o retorno à natureza primitiva, mas vê nesta ideia da teoria freudiana a possibilidade do homem conseguir romper as cadeias da repressão, porquanto nela está contida a promessa da sua anulação. Como? Para Marcuse, quanto maior for o progresso, mais real é a possibilidade de libertação do homem, e na sociedade hodierna verifica-se já a conjugação destes fatores. Segundo o filósofo, em sequência do recalcamento dos instintos e do «princípio da realidade», a civilização teve um progresso de tal ordem que através do desenvolvimento técnico já existente torna-se possível eliminar a miséria a que está subjugada boa parte da população humana. Assim, partindo desta ideia, defende que a mecanização atual pode substituir, em boa medida, o trabalho humano alienado e suprimir a carência que, contrariamente ao que preconizara Freud, não está associada ao instinto da morte, é, antes, uma consequência do sistema de dominação que organiza a sociedade. Outro conceito que Marcuse extrai da sua interpretação à teoria freudiana é o de que a natureza humana não é imutável. Senão, repare-se: se, tal como argumenta Freud, os instintos podem ser sublimados, então parece razoável a Marcuse que o sistema das necessidades humanas possa ser igualmente modificável. Através desta transformação biológica do homem, da libertação da privação e do trabalho alienado, uma verdadeira transformação social, uma harmonia entre a “sensualidade e a razão, a felicidade e a liberdade” seria finalmente possível, acredita Marcuse (1969, p. 47).
Investigadas algumas das ideias que tiveram maior impacto no pensamento de Marcuse, importa agora perceber as linhas orientadoras da sua filosofia no que concerne à questão da técnica. Principiaremos por expor a sua crítica ao sistema tecnológico.