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CAPÍTULO 2: MARCUSE E A AMBIVALÊNCIA DA TÉCNICA

2.1. Influências do pensamento marcuseano

2.1.1. Hegel

A filosofia hegeliana é um sistema dialético que organiza todas as dimensões do ser sobre a ideia da razão. Logo, a razão é o conceito mais fundamental da filosofia de Hegel. O homem, porque é um ser racional, é o único ser que tem o poder de se autodeterminar e de realizar as suas potencialidades.

Hegel usa o termo «espírito» (Geist) para designar o ser, a consciência e a realização destas entidades. Poderemos entender por «espírito» algo que está em potência e que se manifesta na realidade concreta do mundo pela força impulsionadora da história que o lança na tarefa do conhecimento e da realização do seu potencial. Tanto o «espírito» como a história são, para Hegel, manifestações da lógica.

Importa aqui referir que a aceção hegeliana de lógica afasta-se do seu sentido clássico, porquanto Hegel defende que o conhecimento puro não deriva de uma realidade independente do sujeito, mas da unidade entre sujeito e objeto. Assim, através da lógica, Hegel pretende dar conta do conflito que deriva de duas posições contraditórias (uma a tese, a outra a antítese) e que resulta numa terceira proposição – a síntese. A este processo chama-se dialética.

Mas como se obtém o conceito de «espírito» através da dialética?

Começamos com o absoluto, a totalidade da realidade, semelhante ao Ser de filósofos anteriores. A nossa primeira tese é a de que o absoluto é o Ser puro. Mas o Ser puro sem qualidades não é nada, de modo que somos levados à antítese, «O absoluto é o Nada». A tese e a antítese são superadas pela síntese: a união do Ser e do Não-Ser é o Devir, e assim dizemos: «O absoluto é o Devir.» (Kenny, 2011, pp. 126-127).

O estádio seguinte da dialética é assegurado pela vida (ou devir):

Começamos por considerar o absoluto como um sujeito do pensamento, um pensador universal: Hegel chama a isto «O Conceito», com o qual quer referir a totalidade dos conceitos que o intelecto leva ao pensamento. Depois consideramos o absoluto como um objeto do pensamento –

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ele chama a isto «Natureza», querendo assim dizer a totalidade dos objectos que podem ser estudados pelo intelecto. O conceito e a natureza são unidos quando o absoluto se torna consciente de si próprio, tornando-se assim tanto sujeito como objecto do pensamento. Esta síntese da autoconsciência é o espírito. (Kenny, 2011, p. 127).

No entender de Hegel, as diferentes fases da história são a manifestação da autoconsciência do «espírito» em constante evolução, e esse progresso dá-se, sobretudo, pela tomada de consciência do conceito de liberdade. Da ampliação da consciência dos indivíduos resulta a constituição dos Estados. Logo, o Estado (ideal) é, em Hegel, a realização da liberdade, e é no Estado que os indivíduos podem desenvolver as suas capacidades.

Hegel sustenta que os indivíduos se movem em esferas sociais concretas e que a sua autoconsciência se desenvolve em função da consciência que estes vão adquirindo dos outros. Para explicar esta ideia serve-se do exemplo da dialética do senhor e do escravo. Esclarece que, numa fase inicial, o senhor tem consciência de si mesmo, enquanto o escravo só tem consciência do senhor, assim, o estatuto de «pessoa» apenas é reconhecido ao senhor e o escravo é observado pelo senhor como mera «coisa». Pelo trabalho, pela produção de objetos úteis, o escravo torna-se consciente do seu poder “precisamente no trabalho, onde parecia ser apenas um sentido alheio, a consciência, mediante esse reencontrar-se de si por si mesma, vem-a-ser sentido próprio” (Hegel, 1997, p. 133), mas percebe que está limitado pelo seu senhor. Após a tomada de consciência do escravo de si mesmo, a autoconsciência do senhor não encontra mais recetividade no escravo. Doravante, a relação entre ambos não permite a autoconsciência total de nenhum deles.

As contradições que Hegel identifica na relação entre o senhor e o escravo revelam-se na falsa consciência que resulta da conformação externa do indivíduo às normas sociais enquanto internamente as nega. Como o indivíduo se torna consciente da cisão que existe entre o seu «eu» ideal (irrealizado) e a sua imperfeição, segue-se a sua desintegração e alienação, observa Hegel. Desta perda de integridade é exemplo o afastamento entre o homem e a natureza e a consequente dominação da natureza (vista como um poder hostil) pelo homem. A divisão do trabalho é outra evidência desta perda de unidade do sujeito: provoca relações sociais contraditórias e torna o trabalho quantitativo, portanto, incompatível com o desenvolvimento das potencialidades humanas. Hegel entende que o homem não se realiza neste tipo de trabalho, já que

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constitui a negação do próprio homem. Além disso, o homem que só conhece o jugo da servidão não poderá sentir qualquer interesse pela liberdade, pois só um indivíduo autoconsciente pode reconhecer e desejar a liberdade.

Sendo que o indivíduo está, pois, marcado pela perda da liberdade e da integridade, como será possível harmonizar as potencialidades do homem com o mundo? Para Hegel, a resposta a esta pergunta só poderá ser dada pela filosofia, pois só a filosofia consegue compreender que a história do mundo é um processo racional e recuperar a integridade do homem que se perdeu quando as contradições adquiriram uma forma independente e incontrolada. Assim, cabe à filosofia a análise das contradições que habitam a realidade e desvelar a sua possível unificação, através do processo dialético.

Marcuse explorará minuciosamente estas contradições identificadas por Hegel, porquanto, acredita, traduzem a realidade das sociedades industriais avançadas, na sua essência. Incorporará ainda a teoria dialética na sua filosofia, dado que “A teoria dialética da sociedade destaca as potencialidades e contradições essenciais dentro deste todo social, enfatizando o que pode ser feito com a sociedade e também denunciando o inadequado da sua forma atual.” (Marcuse, 1994, p. 365). De resto, Marcuse torna mesmo o pensamento negativo (dialético) um dos traços mais marcantes da sua teoria crítica. Defende que o indivíduo das sociedades industriais avançadas está sujeito a um sistema repressivo que o domina e nega, e que é pelo desenvolvimento da consciência crítica, da consciência de si e da ação revolucionária do homem, que a libertação se poderá, finalmente, realizar.

Para Hegel, estão reunidas as condições históricas para que a liberdade humana possa realizar-se e o homem alcançar a verdade, uma vez que a realidade atingiu aquele estádio de desenvolvimento em que realidade e pensamento estão em conformidade. Ou seja, a realidade existe dentro da verdade. Atente-se que, para Hegel, a verdade não se atém meramente a proposições e juízos, mas com as potencialidades do devir, com as possibilidades do vir a ser. Sendo que o entendimento adquiriu consciência da sua liberdade, torna-se então possível libertar tanto a natureza como a sociedade. De um modo atualizado, também Marcuse crê haver condições materiais através da técnica existente para esta mudança qualitativa.

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No documento Marcuse e a ambivalência da técnica (páginas 63-66)