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Teoria crítica da tecnologia ou construtivismo crítico

No documento Marcuse e a ambivalência da técnica (páginas 149-151)

CAPÍTULO 3: O LEGADO DE MARCUSE

3.4. A democratização da técnica no pensamento de Andrew Feenberg

3.4.3. Teoria crítica da tecnologia ou construtivismo crítico

Atentando na realidade das modernas sociedades tecnológicas, Feenberg constata que a tecnocracia vigente é uma posição redutora e antidemocrática que ‘vende a ideia’ de que não é possível haver algo como uma agência humana nas disciplinas técnicas, dado que os indivíduos não têm conhecimentos para fazerem intervenções adequadas. Mas Feenberg entende que, como em todos os tipos de conhecimentos, também estes são passíveis de falhas e erros. As especializações tratam as suas áreas de estudo como estanques e não em relação direta com o resto da realidade, donde resulta, não raras as vezes, não conseguirem identificar determinados problemas.

Assim, a sua proposta afigura-se uma reação à pretensão tecnocrática que considera o todo do projeto tecnológico uma intervenção exclusiva dos especialistas, bem como uma tentativa de alargar a reflexão das investigações que lhe servem de referência com o intuito de apresentar formulações produtivas. Tem por base a relação entre o «mundo da vida» – o sistema de significados dentro do qual acontecem as nossas vidas – e as disciplinas técnicas. Assenta em seis conceitos fundamentais que passamos a resumir: (1) «racionalidade» – designa a racionalidade técnico-científica que cria toda uma sociedade nova legitimada pelos seus fundamentos racionais e que serve de base às disciplinas técnicas e às tecnologias; (2) «interesses participantes» – refere- se a interesses que emergem em grupos de agentes que são apanhados em redes técnicas onde participam e tomam consciência do seu papel coletivo na possibilidade de criação e modificação dessas redes; (3) «código técnico» – denomina “uma especificação técnica que corresponde a um certo significado social” (Feenberg, 2015, p. 10), relacionando-se com as regularidades inerentes ao projeto técnico (e.g. a especificação técnica que determina o tamanho dos frigoríficos tem em conta o tamanho das famílias bem como a estrutura urbana a que se destina); (4) «autonomia operacional» – prende- se com o poder e a autonomia de que goza o proprietário na tomada de decisões, legitimando um sistema de controlo de cima para baixo; (5) «enviesamento formal» – baseia-se na ideia de que a seleção de um projeto técnico entre várias propostas possíveis é determinada por fatores sociais e que este não é cristalizado e imutável, mas permeável às exigências dos atores que intervêm no processo; (6) «subdeterminação» –

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explica a abertura onde se torna possível a interceção entre os interesses dos agentes e as disciplinas técnicas estabelecidas.

Dito de outro modo, para Feenberg, a técnica não é independente do «mundo da vida» que é o seu contexto, tampouco neutra, mas imbuída de valores, e à medida que a própria técnica vai sendo incorporada na nossa vida, torna-se, ela mesma, objeto de intervenção no domínio das escolhas técnicas. Os projetos técnicos têm um determinado fim que se vai metamorfoseando à medida que os utilizadores, vítimas e piratas, os reinventam, alterando os seus propósitos iniciais44. Assim, é do envolvimento dos

indivíduos com as técnicas que surgem interesses que não existiriam sem esta ligação: notam falhas e perigos, identificam vulnerabilidades e exercem pressão, apresentam até propostas de melhoria. Adquirem, pois, um certo poder no desenvolvimento dos projetos técnicos. Uma vez o projeto técnico modificado (e.g. o computador servir de meio de comunicação), temos a ilusão de que sempre foi assim, e as intervenções democráticas que existiram no seu desenvolvimento ficam esquecidas. Estas intervenções, por vezes circunscritas a situações muito específicas são, contudo, um modo de exercício micro político: “traduzem-se em novas regulamentações, novos projetos e, nalguns casos, até mesmo no abandono de tecnologias” (Feenberg, 2015, p. 106). Assim, segundo Feenberg, são as crescentes intervenções democráticas de agentes, outrora silenciados, que se apresentam como promessa de uma transformação de fundo das sociedades modernas tecnológicas.

Feenberg observa que a realidade tecnológica atual não é propriamente animadora. Os projetos técnicos levam incorporados a noção de riqueza da sociedade ocidental e arrastam consigo problemas incontornáveis como as alterações climáticas, a poluição ou a desigualdade na distribuição da riqueza; têm um impacto tremendo nas nossas vidas e mudam toda uma civilização. Apesar destas consequências francamente nefastas, não são sujeitos a uma regulação democrática. Posto isto, Feenberg defende a urgência de uma revisão do conceito de política onde seja integrada a avaliação democrática da nova realidade tecnológica.

44 Na obra A invenção do quotidiano [1980], Michel de Certeau desenvolve uma ideia em tudo similar a esta produzida por

Feenberg. Na sua análise, Certeau tenta dar conta das astúcias e táticas que os consumidores desenvolvem nas estruturas tecnocráticas, modificando-as. Nas suas palavras, estas práticas: “compõem, no limite, a rede de uma antidisciplina” (Certeau, 1998, p. 42). Trata-se de uma investigação que observa o lado inexplorado por Foucault (vide a obra Vigiar e punir), de como os usuários “se reapropriam do espaço organizado pelas técnicas da produção sócio-cultural” (Certeau, 1998, p. 41). Assim, e dado que Certeau é um dos autores que Feenberg refere nos seus escritos, parece-nos altamente provável que Certeau tenha sido outra das influências de Feenberg.

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Mas como seria, na prática, a participação democrática na técnica? Feenberg esclarece:

Penso que a maior parte da participação é informal. Parte dela é, com certeza, legalista, para forçar as pessoas a obedecer a lei ou a pagar pelos danos que fizeram. Há outro âmbito de participação pública, que toma a forma de movimentos de protesto e controvérsias na esfera pública. Existem, ainda, consultas organizadas ‘júris de cidadãos’ [‘citizens juries’] em certos países. Na Holanda e na Noruega, por exemplo, reúnem-se pequenos grupos de cidadãos com especialistas, para que eles sejam informados sobre tecnologias específicas. Há muitas modalidades de intervenção e penso que todas juntas estão criando uma esfera técnica” (Mariconda & Molina, 2009, p. 169).

Segundo o autor, precisamos de um novo sistema tecnológico. Menos destrutivo e mais responsável, que nasça da participação interessada dos cidadãos e preserve os direitos e as liberdades adquiridos na modernidade, alargando estes bens à universalidade. Há no mundo moderno modelos nos quais nos podemos basear para a conformação deste novo sistema, como a medicina e a ecologia: a medicina porque se empenha em promover a saúde e não causar dano (escapa ao padrão da tecnociência neutra); e a ecologia porque defende a proteção da maior variedade possível de espécies na natureza. Feenberg admite que a sua teoria é uma nota de otimismo, mas ressalva que o seu interesse não é, em rigor, fazer previsões, antes identificar possibilidades.

De modo a esclarecer a sua proposta, sobretudo o seu entendimento de intervenção democrática, apresentamos, de seguida, um dos casos explorados na sua obra Tecnologia, modernidade e democracia [2015], e que configura este tipo de participação.

No documento Marcuse e a ambivalência da técnica (páginas 149-151)