3. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e as Condicionalidades para a Concessão
3.2. Panorama do FMI
3.2.2 Funções e Funcionamento
Para desempenhar suas atividades, o FMI conta com as seguintes funções: vigilância, assistência financeira e assistência técnica.
A função de “vigilância” destina-se a garantir (ou, ao menos, evitar) que as ações de política econômica isoladas não prejudiquem ou não contrastem com os “interesses coletivos”. Nas palavras de Giuseppe Schlitzer (2000, p.25), “a vigilância é sem dúvida a principal razão de existir do FMI”.63
Identificam-se duas espécies de vigilância do organismo: a bilateral e a multilateral. Aquela é realizada em atenção ao sistema multilateral de pagamento corrente (sistema de valores conversíveis), estabilidade do sistema de câmbio e da balança de pagamento. Sua realização se dá mediante visitas anuais dos técnicos do FMI aos países- membros, que elaboram um memorando da situação econômica, fiscal e monetária do país, tecendo, não raras vezes, algumas recomendações. A vigilância multilateral, por sua vez, destina-se a assegurar a congruência das políticas econômicas locais em nível global, cujo principal objetivo é construir uma espécie de previsão da economia mundial.64
O FMI ainda coloca à disposição de seus membros recursos financeiros, a fim de que possam fazer frente a desequilíbrios em relação às suas posições externas. Trata-se da chamada função “financeira” do fundo65, que objetiva evitar que um país recorra a medidas extremas que possam prejudicar outros membros, como medidas protecionistas e desvalorização competitiva, assim como atinja uma situação excessivamente custosa para sua política interna.
Para que o Fundo disponibilize suporte financeiro a um país-membro é preciso coexistir duas circunstâncias: primeiro, o país tem que demandar o empréstimo; segundo, o Fundo tem que estar disposto a suportá-lo, o que significa afirmar que a Instituição não pode
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Sua colocação é, de fato, muito procedente, na medida em que todas as funções do FMI encerram, em última análise, a vigilância.
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“Além destas consultas periódicas, o Fundo realiza consultas nos países cuja política econômica tem grande influência sobre a economia mundial, objetivando examinar a situação dos mesmos e avaliar suas possíveis evoluções. Os resultados são publicados duas vezes ao ano em ‘Perspectivas da economia mundial’, fonte de informações sobre as previsões para a economia mundial que pode servir de ajuda aos países-membros na coordenação de suas políticas econômicas” (SABAI, 2003, p. 29).
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conceder empréstimo voluntariamente, mas deve ser provocado a fazê-lo (BIRD, 1996, p. 484).
Os empréstimos são concedidos sob criteriosas condições (não podem ultrapassar uma determinada porcentagem na sua cota parte de participação no Fundo, por exemplo), devendo os valores retornar ao FMI num interregno determinado de tempo, a depender do programa ao qual o país se vinculou (Stand-by Arrengement – SBA, Extended Fund Facility –
EFF, por exemplo).66 Geralmente, a cada três meses é verificado se o país que tomou o financiamento está cumprindo as condições estabelecidas pelo Fundo e, em caso negativo, é possível a suspensão ou a interrupção do programa de ajuda.
Em qualquer circunstância, o auxílio do Organismo não é totalmente suficiente às necessidades dos países, já que os recursos do FMI são notoriamente limitados. Assim, em determinadas situações, ocorre do Fundo emitir ao país necessitado uma espécie de declaração de idoneidade ou atestado de credibilidade, para que o Estado-membro tenha acesso a outras fontes de financiamento, especialmente as decorrentes de bancos privados. Trata-se do que usualmente se denomina financiamento suplementar, que é muito importante, não raras vezes, para o sucesso do próprio programa de empréstimos do Fundo.67
Outra função desempenhada pelo FMI, em geral de forma gratuita, é a assistência técnica, em especial para países mais atrasados do ponto de vista monetário, financeiro e fiscal. Na década de 90 a ajuda destinou-se aos países do antigo bloco soviético, cujas economias planificadas não estavam institucionalmente preparadas para ingressar na economia de mercado.
Os recursos do FMI provêem das quotas participativas de todos os países- membros, que são contribuições proporcionais à importância econômica de cada membro.68 Dessa forma, os empréstimos que os membros podem requisitar são, em geral, proporcionais à sua participação nas reservas do Fundo, assim como o direito de voto. Ou seja, quanto mais alta é a quota desse país no capital da Organização, mais elevado é o seu poder de voto.69
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O FMI também dispõe de uma ajuda especial aos países em desenvolvimento, chamada Poverty Reduction and
Growth Facility (PRGF).
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Erica Gould (2003, p. 551-586) desenvolveu trabalho sobre os financiadores suplementares, nomeadamente credores estatais, Instituições Financeiras privadas e Organizações Multilaterais.
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Il Fmi funziona, quindi, um po’ come una banca cooperativa, dove i depositi versati dalla comunità vengono mesi a disposizione di singoli membri en caso de bisogno (SCHLITZER, 2000, p. 35-36).
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Essa informação é suficientemente relevante para se aquilatar o grau de ingerência dos Estados Unidos da América no Fundo, único país com direito de veto sobre as deliberações do organismo.
Para desempenhar suas funções, o FMI conta com órgãos de natureza superior e executiva. O órgão superior de decisão chama-se Conselho de Governantes (ou Junta de Governadores)70, composto por um representante de cada Estado-membro (ministro ou presidente do Banco Central), que dispõe sobre questões de particular relevância, como o ingresso de um novo membro ou o aumento da participação acionária. As reuniões são anuais e as decisões tomadas, em geral, por maioria.
Existe também um órgão consultivo, chamado Conselho Monetário e Financeiro Internacional, composto por representantes de apenas vinte e quatro países, aos quais se agregam os demais membros.
A administração propriamente dita do Fundo fica a cargo de um Conselho de Administração ou Executivo, composto por vinte e quatro Diretores Executivos, cujo Diretor- Gerente exercita a competência de vigilância anteriormente referida, aprova os empréstimos, discute preliminarmente qualquer proposta que depende da manifestação dos Governantes e exerce a titularidade de representação da Instituição. Cada Diretor Executivo dispõe de um número de votos proporcional à quota parte do país, ou à soma das quotas partes dos países que representa.71
A articulação dos interesses dentro desses dois últimos Órgãos é bastante complexa. Também é importante destacar que a orientação geral do FMI é muito influenciada pela pessoa do seu Diretor-Gerente. Essas são, de uma forma geral, as funções e as regras de funcionamento do Fundo.
Interessa analisar, doravante, a forma com que o Fundo desenvolve uma de suas funções: a concessão de assistência financeira, o que, naturalmente, é feito sob rigorosas condições, que serão estudadas em maior profundidade.
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“A Junta de Governadores compõe-se de um Governador efetivo e um suplente, nomeados pelos países-membros por um período de cinco anos, sendo facultada a recondução. O Presidente é eleito pelo Conselho, principal órgão do FMI, que tem competência muito vasta. O representante alterno de cada país-membro é, geralmente, o Ministro da Economia ou o Presidente do Banco Central respectivo. Á Junta de Governadores compete, de forma exclusiva, admitir novos membros e determinar as condições de sua admissão, aprovar a revisão das quotas, aprovar modificação uniforme na paridade das moedas de todos os países-membros, determinar a distribuição de renda líquida do Fundo, exigir a demissão de um membro, decidir sobre a liquidação do Fundo, etc” (MAZZUOLI, 2005, p. 79).
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“Os Diretores-Executivos, por sua vez, são os responsáveis pela administração geral e pelas atividades operacionais do Fundo, tendo seus poderes delegados pela Junta de Governadores. A Diretoria Executiva é composta por 24 membros eleitos ou indicados pelos países ou grupos de países-membros, não sendo necessário que sejam Governadores. O número de Diretores, entretanto, não poderá ser inferior a 12. Entre eles, cinco são nomeados pelos países-membros com maior quota, o que gera, notadamente, certo desequilíbrio, em virtude da hegemonia das grandes potências. São os Diretores subordinados às decisões da Junta, só podendo exercer as funções por ela delegadas. As atividades da Diretoria Executiva estão centradas na análise da situação econômica dos países, bem como no exame de outras importantes questões, como o panorama da economia mundial e do mercado internacional de capitais” (MAZZUOLI, 2005, p. 80).