5. Estudo 2: Investigação das funções executivas em pacientes pediátricos com tumores de
5.1.1. Funções executivas e neurodesenvolvimento
As funções executivas consistem nas mais complexas capacidades cognitivas humanas. O termo se refere a um agrupamento de componentes cognitivos que permitem ao indivíduo direcionar o comportamento a metas, exercer o controle e responder a novas situações de forma adaptativa, apropriada, efetiva e socialmente responsável, formando a base de muitas habilidades cognitivas, emocionais e sociais (Lezak, Howieson, Bigler & Tranel, 2012; Seabra, Reppold, Dias & Pedron, 2014).
O termo funções executivas não se refere a um construto unitário, mas a uma convergência de diferentes processos que permitem o controle, a regulação e o planejamento eficiente do comportamento, tornando os sujeitos aptos a se envolverem com êxito em ações independentes, produtivas e úteis a si mesmos (Flores Lázaro & Ostrosky-Shejet, 2012).
De acordo com o modelo fatorial de Miyake et al. (2000), que postula a existência de fatores relativamente independentes na composição das funções executivas, as principais habilidades nesse domínio correspondem à: 1) memória de trabalho: habilidade que permite manter informações disponíveis por período suficiente para sua utilização e processamento ativos em atividades; 2) flexibilidade: a capacidade de mudar um esquema de ação, estratégia ou pensamento a partir da avaliação dos resultados e das demandas do contexto e; 3) inibição: habilidade que permite regular o pensamento, o comportamento e a atenção através de mecanismos internos de inibição de respostas automáticas ou impulsivas, pensamentos intrusivos e distratores.
Tais fatores apresentam moderada correlação entre si, ao mesmo tempo em que podem ser definidos através de construtos separados. As três principais funções executivas fundamentam a emergência de funções executivas complexas, como o planejamento, o
raciocínio e a capacidade de resolução de problemas (Flores Lázaro & Ostrosky-Shejet, 2012; Seabra et al., 2014).
Flores Lázaro e Ostrosky-Shejet (2012), por sua vez, avançam na proposição de um modelo conceitual das funções executivas, dividido em quatro níveis hierárquicos, a partir da discriminação entre funções frontais e funções executivas: 1) em nível mais básico se encontram as funções frontais básicas, que correspondem ao controle inibitório, controle motriz e à detecção de risco; 2) no segundo nível se encontra o sistema de memória de trabalho; 3) no terceiro nível se encontram as funções executivas (planejamento, fluência, produtividade, sequenciamento, flexibilidade etc.) e; 4) no quarto e mais complexo nível se encontram as metafunções (metacognição, abstração e compreensão de sentidos figurados) (Flores Lázaro & Ostrosky-Shejet, 2012).
Existem evidências que afirmam que estas habilidades iniciam seu processo de desenvolvimento por volta dos 12 meses de idade, com picos de desenvolvimento entre os três e cinco anos, estendendo-se até meados da adolescência, quando atingem nível semelhante ao adulto (Seabra et al., 2014).
Entretanto, segundo Flores Lázaro e Ostrosky-Shejet (2012), cada uma das funções executivas se desenvolve através de curso maturacional próprio, cuja sequência ocorre de acordo com o ritmo e a complexidade inerentes a cada função. Tais autores dividem o desenvolvimento das funções executivas em quatro etapas: 1) funções de desenvolvimento muito precoce; 2) funções de desenvolvimento precoce; 3) funções de desenvolvimento intermediário e; 4) funções de desenvolvimento tardio.
Devido a questões filogenéticas e ontogenéticas, as habilidades cognitivas que dependem do córtex frontomedial e orbitofrontal apresentam desenvolvimento mais precoce quando comparadas àquelas que dependem de estruturas neocorticais frontais, como o córtex pré-frontal dorsolateral (Flores Lázaro & Ostrosky-Shejet, 2012).
Em nível precoce, encontram-se as funções de desenvolvimento muito precoce – como as habilidades de detecção de risco-benefício, que se desenvolvem entre seis e oito anos de idade e são dependentes da atuação do córtex orbitofrontal ventromedial – e as funções de desenvolvimento precoce – como a memória de trabalho visoespacial, o controle motriz e o controle inibitório, cuja execução se dá com importante participação do córtex frontomedial e ocorre entre os nove e 11 anos de idade (Flores Lázaro & Ostrosky-Shejet, 2012).
No que tange às funções de desenvolvimento intermediário, emergentes no início da adolescência, entre os 12 e 15 anos, encontram-se: 1) as habilidades de processamento de risco-benefício, cujo funcionamento requer que o córtex orbitofrontal e o córtex pré-frontal dorsolateral estejam plenamente desenvolvidos; 2) a memória de trabalho visoespacial sequencial, que requer a maturação do córtex pré-frontal dorsolateral e apresenta desenvolvimento máximo a partir dos 12 anos de idade; 3) a memória de trabalho verbal em sua variante de ordenação, a saber, a variante que permite a retenção temporária de elementos verbais para processamento através de ordenação – desenvolvida entre os sete e 13 anos; 4) a flexibilidade, que consiste na capacidade de inibir uma estratégia ou sequência de ação para gerar uma resposta alternativa segundo demandas contextuais e se desenvolve a partir dos seis anos, atingindo o máximo desempenho por volta dos 12 anos, com a maturação do córtex pré- frontal dorsolateral; 5) a capacidade de realizar sequências inversas, como subtrações consecutivas; 6) o planejamento visoespacial, associado à atuação do córtex pré-frontal, cujo desenvolvimento é acelerado na infância e alcança desempenho máximo a partir dos 12 anos e, por fim; 7) o planejamento sequencial, que consiste na seleção e no sequenciamento de esquemas de ação com vistas à resolução de um problema através da atuação de movimentos contraintuitivos e ordenados, que envolve a participação do córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo, completando seu desenvolvimento entre os 13 e 15 anos de idade (Flores Lázaro & Ostrosky-Shejet, 2012).
Entre as funções de desenvolvimento tardio encontram-se aquelas cujo desenvolvimento ocorre entre os 16 e 30 anos de idade, que correspondem a: 1) a fluência verbal, que consiste na geração ativa e eficiente de material verbal segundo instruções e se desenvolve gradativamente na adolescência até aproximadamente os 16 anos de idade, requerendo a maturação do córtex pré-frontal dorsolateral; 2) a geração de categorias abstratas, que consiste na habilidade de processamento de informações apresentadas em forma abstrata, exigindo o funcionamento do córtex pré-frontal anterior, iniciando o seu desenvolvimento a partir dos 11-12 e concluindo entre os 15 e 17 anos; 3) a compreensão do sentido figurado, cujo desenvolvimento tem relação com a maturação do córtex pré-frontal anterior, iniciando o seu desenvolvimento por volta dos 12 e 13 anos de idade e alcançando o máximo desempenho aos 14 anos e, por fim; 4) a metacognição,que se refere ao julgamento da própria aprendizagem e desempenho através do exercício do controle executivo ao longo da execução de uma tarefa e requer a atuação do córtex pré-frontal dorsolateral, com desenvolvimento concluído entre os 12 e 15 anos de idade (Flores Lázaro & Ostrosky-Shejet, 2012).