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Os Seguros aplicados ao Mercado de Arte

2.6 Sinistros e Propensão ao Dano

2.6.1 Furto e Roubo

Alguns dos principais riscos a ter em conta desde o momento em que é adquirida uma obra de arte - que são exaltados nos momentos de transporte e exposição -, e não poderíamos deixar aqui passar sem uma ressalva mais aprofundada, são o furto e o roubo, situações em que ocorre o desaparecimento do bem. De facto, estes são um acontecimentos de grande perigo e nos quais se concentram as maiores prevenções. São fenómenos que se prendem principalmente - para além da segurança em volta da obra -, com as características físicas do bem, nomeadamente, dimensão e nível de popularidade.

A dimensão - a par da segurança - vai determinar até que ponto a obra será passível de ser furtada e transportada; enquanto a popularidade, vai definir a possibilidade de venda - se bem que, o perigo de furto ou roubo de um objeto de arte aumenta de forma proporcional em relação ao valor da mesma, “como as obras de arte de grande importância são fáceis de

identificar, as possibilidades de venda são menores.” (Rück, 1984: 46)

A venda de obras de arte roubadas constitui uma das maiores redes de tráfego ilícito mundial havendo uma secção específica para combater estes crimes nas maiores agências nacionais e internacionais de forças policiais (PJ, FBI, Interpol). No mercado negro, as obras são vendidas a um décimo do seu valor e para a sua recuperação tem especial relevância a existência de fotografias que as identifiquem - o Getty Information Institute desenvolveu um sistema de identificação de obras de arte, designado Object ID (aprovado pelo ICOM), que tanto pode ser usado por profissionais como por leigos no assunto, onde é sublinhada a importância de possuir fotografias reconhecíveis dos bens.

Nos casos de furto ou roubo, acresce ainda o perigo de dano sobre as peças, pois estas são manuseadas sem os cuidados necessários - se bem que os delinquentes tentem evitar que se produzam danos nas obras, porque isso implica uma diminuição do seu valor. Muitas vezes são pedidos resgates pelos assaltantes - incluídos nos acordos de seguro, pois geralmente, o resgate não chega ao ‘valor real’ do bem - para a recuperação dos bens. Será também importante, após um furto ou roubo, a rápida comunicação do ocorrido a possíveis compradores de obras de arte, e outros agentes, de modo a diminuir as possibilidades de venda.

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As questões de furto ou roubo representam as situações mais delicadas em termos de seguro. Imaginemos uma peça roubada cujo valor foi ressarcido ao segurado - sem nenhuma objeção porque a peça estava devidamente peritada e avaliada. No entanto, o bem foi recuperado. Mas, entretanto, o valor de bens daquela classe subiu e a peça em causa duplicou o valor (Fischer, 2010: 208). Tendo em conta que a seguradora pagou pelo bem, ele agora pertence- lhe. Mas será correto a companhia ficar com a peça agora que ela é muito mais valiosa? O segurado tem o direito de escolher se pretende readquirir a peça - em troca do montante recebido -, mas como ela agora vale mais, que valor é que o segurado terá de pagar? E se o seu valor tiver diminuído? O segurado terá de restituir, à companhia de seguros, apenas o montante correspondente ao novo valor do bem ou terá de restituir a soma total recebida? Isto são situações que geralmente não constam nas apólices de seguro, mas que se podem verificar, e para as quais não há ainda uma solução definida. No entanto, o esclarecimento do valor do bem na data do sinistro (e assim, na data em que vigora a apólice) irá, com certeza, atenuar a situação.

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2.7 Depreciação

Após um extenso estudo do mercado de arte, conseguimos compreender como os seus bens estão sujeitos a oscilações de valor. Tendo em conta que os seus valores assentam numa forma física, facilmente conseguimos perceber como esta situação se complica, quando a sua integridade material é comprometida. Deste modo, a sua constituição física e geralmente frágil, exige vários cuidados, nomeadamente cuidados de conservação e projetos de restauro. Assim surgem as depreciações de obras de arte.

As depreciações são desvalorizações económicas de bens artísticos, que ocorrem a partir de fenómenos internos ou externos que, a certa altura, possam ter comprometido a integridade física dos bens e sobre os quais terá de ser executada uma ação de restauro.

De acordo com o que falamos no capítulo anterior, o ajuste de danos no sector de obras de arte pressupõe precisos conhecimentos da matéria. Regra geral, a obra de arte danificada ou desaparecida é objeto de reposição ou restituição. No caso dos restauros, deve ser cuidadosamente analisado o dano para se poder proceder à sua ‘correção’. Aqui entram os conservadores-restauradores.

As possibilidades técnicas e a capacidade profissional dos conservadores-restauradores têm uma importância decisiva relativamente à quantia da indemnização. Os métodos aplicados na atualidade atingiram um elevado nível e continuam a ser melhorados. Em colaboração com eruditos em ciência, arte, história, etc. os conservadores-restauradores desenvolveram procedimentos e instrumentos que, hoje em dia, permitem uma restituição quase completa do estado original (Rück, 1984: 50).

É fácil de entender que nem todos os museus podem ter uma oficina de conservação e restauro, pelos elevados custos que tal acarreta. Mas cada vez mais recorre-se, para a conservação e restauro de objetos de arte, a ateliers de conservação e restauro que estão em condições de levar a cabo as ações necessárias, servindo-se de um grande número de meios de que hoje se dispõe. Com o desenvolvimento que experimentam a química, a radiografia, etc., têm vindo a refinar-se e a aperfeiçoar-se cada vez mais os métodos de conservação e restauro (Rück, 1984: 50).

Mesmo em questões de seguro, a conservação e restauro permanece um dos momentos mais críticos na existência de uma obra de arte. Os atuais seguros de arte têm este facto em consideração e por isso consta como um dos casos de indemnização na maioria das apólices de seguro. Assim sendo, as companhias de seguro reconhecem que as ações de conservação e restauro, por muito bem feitas que sejam, têm como consequência a desvalorização de um

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bem artístico - no entanto, estas ações minimizam a desvalorização após o dano (Baptista, 2012: 153). Por isso, as seguradoras acarretam os custos do processo de conservação e restauro e indemnizam o segurado na diferença de valor correspondente - claro que isto só se verifica, até ao limite do valor segurado.68

A depreciação vem corroborar o facto de que é preciso uma prévia avaliação para poder ser atribuída uma justa indemnização. Portanto, se a peça não está corretamente avaliada à partida - avaliada por um profissional - o mais normal é a seguradora confirmar o seu valor à data do sinistro. E, nesta reavaliação, o profissional terá de confirmar o valor do bem à data do sinistro e a desvalorização que ele sofreu: “Como é natural, as partes implicadas tentam fazer

valer os seus interesses pessoais na hora de valorizar as obras de arte restauradas. Mas, sob nenhum pretexto, devem tomar-se em consideração depreciações do valor que tenham a sua origem nas tendências assinaladas pela moda, em flutuações do mercado ou numa excessiva oferta, pois não se inserem nos danos aos bens.” (Rück, 1984: 33)

68 Como já dissemos, os profissionais do mercado de arte são reconhecidos e reconhecíveis como tal, em função do seu bom-nome, o que só se consegue através da aplicação de boas práticas no seu trabalho. Os conservadores- restauradores não são exceção e por isso, de acordo com o que M. Rück (1984: 29) afirma, na eventualidade de um restauro, os bens correm o risco de sofrer uma ação imprudente ou dolosa. Desta forma, é muito importante conhecer o posicionamento no mercado dos agentes contactados, de forma a reconhecer o seu nível de experiência e profissionalismo.

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