4. Do Armistício à Travessia Aérea do Atlântico Sul (1919-1922)
4.4 Travessia Aérea do Atlântico Sul
4.4.2 Génese do projeto (1919)
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conseguia ser uma atividade sustentável sem subsídios do governo195. A aviação comercial não progrediu com a rapidez e o fulgor que se esperava.
Apesar de tudo, nos anos 20 e 30 a aeronáutica continuou a evoluir e a ser extremamente popular. Por todo o mundo, independentemente da dimensão ou riqueza do país, tentavam-se grandes feitos de aviação, pelo que muitos investigadores internacionais designam este período como a “Idade de Ouro da Aviação”196. Foi também uma época em que predominaram os nacionalismos e muitos Portugueses viram nos raids e travessias protagonizadas pelos seus aviadores um renascer do espírito pioneiro dos navegadores do Século XV, uma forma de recuperar a autoestima nacional.
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britânicos manifestam interesse em utilizar os Açores para instalar infraestruturas aeronáuticas (supostamente) para apoio à sua navegação aérea transatlântica.
Em 4 de setembro de 1918 o embaixador britânico em Portugal solicita autorização para instalar nos Açores uma estação meteorológica para apoio às operações. Neste âmbito seguiu para o arquipélago o Major Maurice R. Buckland da RAF que, para além de estudar a localização da estação meteorológica, estudou também quais seriam os melhores locais para instalar pistas de aterragem, locais de amaragem e estações radiogoniométricas de apoio à navegação aérea. Em novembro de 1918, já com a informação do Major Buckland na sua posse, a embaixada britânica informou o Ministério dos Negócios Estrangeiros que tencionava pedir a Portugal concessões de terrenos nos Açores para instalar as referidas infraestruturas. Na opinião do Alto Comissário dos Açores, o General Simas Machado, o deferimento desta proposta desviaria de Portugal muitos benefícios fiscais da exploração do tráfego aéreo; para além de que constituiria uma perda de soberania, já que seriam os britânicos a controlar e a autorizar os movimentos aéreos internacionais nos Açores.
Contudo, reconhece que diplomaticamente não seria conveniente recusar tal pedido ao aliado inglês em vésperas das negociações de paz. Simas Machado propôs então que o Ministério da Marinha lhe concedesse um crédito para adquirir, através do almirante comandante da base naval americana de Ponta Delgada, todo o material necessário para concluir a edificação do Centro de Aviação Marítima dos Açores e as restantes infraestruturas de apoio à navegação aérea. Desta forma os Açores proporcionariam todos os serviços necessários ao tráfego aéreo sem ter que conceder terrenos a estrangeiros, mantendo-se assim a soberania e dividendos aeroportuários da rota aérea do Atlântico. Esta proposta permitia que todos os intervenientes atingissem os seus objetivos, pelo que teve bom acolhimento do Ministério da Marinha e, a partir daqui o processo começou a encaminhar-se neste sentido201.
Este assunto só vai chegar ao conhecimento da Aeronáutica Naval em 25 de fevereiro de 1919, quando Adolfo Trindade, numa vinda a Lisboa em serviço, informou Sacadura Cabral sobre o estado avançado do processo de negociação em curso.
Sacadura Cabral reage rápida e energicamente chamando a atenção ao Ministro da
201 BCM-AH, Gabinete do Ministro da Marinha, Documentação diversa do Gabinete do Ministro da Marinha, Núcleo 419, Cx.344 (vários documentos).
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Marinha para a sensibilidade diplomática deste assunto, recomendando que ele seja internacionalizado para aliviar a pressão inglesa, pois assim:
deixará de haver rasão para que a Inglaterra nos faça pedidos ou imposições disfarçadas favorecendo os seus súbditos, pedidos que, numa altura em que não se sabe ao certo quaes as suas consequencias visto que a navegação aérea internacional está ainda no começo, nos poderão acarretar dificuldades futuras.202 Este assunto passará então a ser tratado pela Comissão de Aeronáutica, na Conferência da Paz. Posteriormente, em 5 de março203, tendo como referência a proposta de Simas Machado, Sacadura Cabral recomenda que seja a Direção da Aeronáutica Naval, e não o Alto Comissário, a gerir qualquer crédito atribuído ao Ministério da Marinha; caso contrário, estar-se-ia a criar uma aviação privativa dos Açores e a regionalizar um assunto que deveria ser encarado como estratégia nacional, para além de que a aquisição de material aeronáutico da Marinha era uma competência sua.
Apesar das suas alegações, Sacadura Cabral não vai conseguir influenciar a decisão final como pretendia. Em 20 de março de 1919 o Conselho de Ministros promulga o Decreto nº5300, que autorizava o Governo a contrair um empréstimo de 1800 contos, 900 dos quais para organizar os serviços de aviação nos Açores; na prática, nos termos propostos por Simas Machado. Os outros 900 contos ficaram “(...) consignados para a organização dos portos aéreos conforme as conveniências do tráfego aéreo internacional.”204, ou seja, uma verba que poderia ser utilizada para financiar um projeto (fundamentado) de desenvolvimento da aviação comercial.
Entretanto, na Conferência de Paz, Afonso Costa em desacordo com a política seguida pelo anterior Chefe da Delegação Portuguesa (o Dr. Egas Moniz), dá instruções para se suspender qualquer negociação sobre concessões de terrenos para aviação nos Açores até se produzir um parecer fundamentado. Este parecer foi elaborado pelo chefe da Comissão de Aeronáutica, o Coronel Norton de Matos, e aconselhava a rápida edificação de um programa de desenvolvimento da aviação comercial nacional que incluísse uma rede de aeródromos para se estabelecer ligações aéreas entre o
202 BCM-AH, Gabinete do Ministro da Marinha, Nota confidencial nº133 da DAN à Secretaria da Marinha 1ª Direção Geral, 26 de fevereiro de 1919, Núcleo 419, Cx.344.
203 BCM-AH, Gabinete do Ministro da Marinha, Nota nº144 da DAN à Secretaria da Marinha 1ª Direção Geral, 5 de março de 1919, Núcleo 419, Cx.344.
204 Ministério da Marinha, Decreto nº5300, Diário do Govêrno, Série I, nº 60, 24 março de 1919, p.460.
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Continente, Ilhas e Colónias, assim como para efetuar “(...) experiências de correios aéreos que, por via Madeira e Cabo Verde, nos liguem com o Brazil e que, via Açores nos liguem com os Estados Unidos”. Para atingir estes objetivos, Norton de Matos recomendava, entre outras medidas, que o estado reduzisse o investimento na aviação militar em detrimento da aviação comercial e criasse prémios pecuniários para os primeiros aviadores portugueses que realizassem as viagens aéreas de ligação com as ilhas atlânticas ou com as colónias. Este parecer foi expedido para Portugal no dia 28 de abril de 1919, a fim de ser apresentado no Conselho de Ministros205.
Em 10 de maio, quando o desenvolvimento da aviação comercial portuguesa estava na ordem do dia e se incentivava os aviadores militares a empreender grandes travessias aéreas, foi então promulgado o Decreto nº5787-MMM, que cativava uma.
verba de 200 contos do fundo gerado pelo Decreto nº5300, para “(...) auxiliar a tentativa de travessia aérea entre Lisboa e o Rio de Janeiro” e atribui um prémio de 20 contos ao primeiro aviador português ou brasileiro que efetuasse este voo em menos de uma semana. Nasce assim, oficialmente, o projeto da Travessia Aérea do Atlântico Sul.
Este Decreto foi promulgado pelo Ministério da Marinha quando era tutelado pelo Dr. Vítor Macedo Pinto. Este ministro tomou posse a 30 de março de 1919 e não se lhe conhece qualquer ligação anterior a projetos de aviação, nem consta que fosse um entusiasta da aeronáutica. A sua biografia refere inclusivamente que quando Sacadura Cabral lhe expôs o seu projeto de travessia aérea, ficou agradado com a ideia e procurou contribuir para a sua concretização, publicando um decreto autorizando os créditos necessários e instituindo um prémio.206
Esta versão é também confirmada por Sacadura Cabral numa carta sua para um jornal de Lisboa datada de 27 de junho de 1919, onde descreve que:
S. Exª o ministro da Marinha, querendo auxiliar esta ideia, pediu em Conselho de Ministros que fosse autorizado a distrair da verba de 1800 contos pertencente ao Ministério da Marinha e destinada aos seus serviços de aviação, até à quantia de 200 contos para fornecer aos seus aviadores os meios de realizarem este raid.207
205 AHD, Delegation Portugaise - Congrés de la Paix, Nota Confidencial nº33 (P.9) Parecer sobre a aviação em Portugal e Colónias, 28 de abril de 1919, PT/AHD/3/MNE-SE-DNPEC/DGNPD-RNP/038/000011.
206 Carla Sequeira, Vítor José de Deus Macedo Pinto, Lisboa, 2012, p.139.
207 Pinheiro Corrêa. Sacadura Cabral, Homem e Aviador. Lisboa, 1964, pp.64 a 67.
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Sacadura Cabral conseguiu assim obter uma fonte de financiamento para um projeto que na sua opinião “(...) permitirão que se origine a aviação civil a qual alem de ser fonte de grandes receitas, está destinada a constituir reserva da aviação militar tanto em pessoal como em material.” 208. Em 26 de maio de 1919 submete um requerimento ao Ministro da Marinha para autorizá-lo a tentar a travessia, que obviamente foi aceite. Em 6 de junho é exonerado da Direção e “(...) nomeado para nos termos do arto 3º do dec 5787-MMM (...) organizar a tentativa da travessia aérea entre Lisboa e o Rio de Janeiro em 168 horas”209. Em 20 de junho de 1919, Afonso de Cerqueira é nomeado novamente Diretor dos Serviços de Aeronáutica Naval210.