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6. Elementos funcionais da Aviação Naval (1917-1925)

6.7 Material

Para além dos recursos humanos, outro componente essencial para o funcionamento da Aeronáutica Naval era o seu material, em particular as aeronaves.

Eram também relevantes as diversas máquinas e ferramentas para reparação dos hidroaviões e seus componentes, as embarcações de reboque e salvamento e os transportes terrestres.

No período deste estudo, observou-se que a aquisição de grandes lotes de material ocorria na sequência da aprovação de projetos com um objetivo específico.

Porém, não era planeada a necessidade de periodicamente regenerar o material para assegurar a continuidade e sustentação desses mesmos projetos. Só mesmo em 1926, com a promulgação do Decreto nº12690, é que encontramos a atribuição de uma verba anual específica para a aquisição ou regeneração do material aeronáutico.

A edificação ou aquisição dos centros de aviação de Lisboa em 1917, de Aveiro em 1918 e dos Açores em 1919, foram os projetos que permitiram adquirir uma maior quantidade de material. No que diz respeito a máquinas e ferramentas, trouxeram para a Aviação Naval o que de mais moderno existia na altura e, durante vários anos, satisfizeram em quantidade e qualidade as necessidades deste material. Já relativamente às aeronaves o caso foi diferente, pois estas tinham uma vida útil bastante curta.

Na Aviação Naval os hidroaviões eram retirados de serviço assim que exibiam sinais de falência iminente do material ou, na sequência de um acidente, a sua reparação era impossível ou injustificável. Assim, o tempo de vida útil das aeronaves era bastante variável uma vez que dependia da qualidade do seu projeto de construção, dos materiais utilizados, das condições de armazenamento, intensidade da utilização e da ocorrência de acidentes. Para estabelecer uma referência, nos Movimentos de Hidroaviões da Ordem da Armada, analisámos os registos dos voos da frota dos Curtiss HS-2L, por ser a única que dispõe de dados completos dentro do período deste estudo433. Verificámos que os HS-2L voaram entre 1923 e 1930 e

433 Até setembro de 1923 não é possível contabilizar as horas de voo por aeronave pois apenas são indicados o número de voos mensais por piloto. A partir daqui os registos passam a indicar a data do voo; registo da aeronave; tripulantes; duração do voo; altitude máxima e perfil do voo.

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efetuaram entre 68 e 158 horas de voo434. Uma vez que o Curtiss HS-2L era considerada uma aeronave robusta, supomos que a vida útil das restantes frotas contemporâneas não seria superior.

As primeiras aeronaves operadas pela Aviação Marítima foram dois F.B.A.

encomendados em 1916, quando eram ainda aeronaves de uso corrente nos centros de aviação marítima franceses; porém, quando começaram a operar em Portugal em dezembro de 1917, eram já obsoletos. Efetuaram ainda patrulhas para deteção de minas e submarinos ao largo de Lisboa até meados de 1918; uma solução temporária até à montagem dos Donnet-Denhaut e dos Tellier. Foi ainda construído um terceiro F.B.A. pelo pessoal da Aviação Marítima, que foi utilizado como hidroavião de treino até se perder num acidente com Sacadura Cabral e Santos Moreira em abril de 1919435. Muito provavelmente por ter sido a primeira aeronave da Aviação Naval, preservou-se um exemplar que na verdade era constituído pela fuselagem do FBA 2 e as asas do FBA 1436, e que ainda hoje se encontra em exposição no Museu de Marinha.

Imagem 16 - F.B.A. de 100cv. (Arquivo Nacional Torre do Tombo)

De acordo com a convenção estabelecida com a França em 1917, aquele país comprometia-se a fornecer o material necessário para a montagem dos centros, o que, de certa forma, condicionou a escolha das aeronaves a modelos franceses. Sacadura Cabral encomendou em 1917 quatro Donnet-Denhaut com motor A.M. de 150 cv e

434 HS21, 158h entre julho de 1923 e setembro de 1930; HS22, 80h entre dezembro de 1923 e setembro de 1925; HS23, 88h entre agosto de 1924 e setembro de 1930; HS24, 68h entre julho de 1925 e junho de 1929.

435 BCM-AH, CAN Lisboa, Ocorrência: FBA nº3, 24 de abril de 1919, Cx.4067.

436 BCM-AH, DAN, Relatório de entrega de Director da Aeronáutica Naval, 12 de abril 1929, Cx.4596-B.

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dois Tellier com motor Hispano-Suiza de 200cv. Os D.D. foram escolhidos por serem os hidroaviões que na altura eram utilizados nos centros de aviação franceses, embora fosse já sabido de antemão que os seus motores A.M. eram de má qualidade. Assumiu-se por isso que assim que estes chegasAssumiu-sem ao fim da sua vida útil Assumiu-seriam substituídos por Hispano-Suiza. Ainda durante a guerra foram adquiridos mais seis novos D.D. com motor de 200cv e no processo de aquisição de Aveiro a Aviação Naval ficou também com os cinco D.D. de 200cv existentes naquele centro. Desta forma, a Aviação Marítima possuiu 15 Donnet-Denhaut, que estiveram ao serviço entre 1918 e 1923.

Eram consideradas aeronaves com a (má) qualidade típica da construção massiva durante a guerra: frágeis e com problemas mecânicos frequentes. Identificámos pelo menos três perdas por acidente com D.D., dois dos quais devido a falhas de material (falha de motor437 e falência da estrutura de suporte do motor438). Uma nota de Sacadura Cabral de 1923 descreve sucintamente a operação com os D.D.:

No entender desta Direcção alguns dos pilotos que têm voado com os D.D. esquecem-se de que eles nunca foram aparelhos de uma resistência extraordinária e de que já têm 5 anos de existência, circunstâncias que ambas deviam levá-los a não fazerem com eles o que se faz com aparelhos novos e solidamente construídos porque a resistência dos D.D., que já inicialmente não era grande, se encontra actualmente diminuída pelos anos de serviço.

Isto não obsta a que eles possam ser empregados em voos em bom tempo e sem voltas ou espirais cerradas.439

A maioria dos D.D. foi retirada do serviço em 1923, após cinco anos em operação. Esta longevidade está relacionada com o facto de não se ter tido toda a frota ativa em simultâneo devido à falta de espaço nos hangares. Normalmente estavam sempre três a quatro hidroaviões desmontados e armazenados.

437 BCM-AH, DAN, Nota nº194 do CAM Aveiro à DAN, 2 de agosto de 1923, Cx.4175.

438 BCM-AH, DAN, Nota ao comando do CAM do 2º tenente piloto aviador Adelino dos Santos Mota, 24 de fevereiro de 1921, Cx.4172.

439 BCM-AH, DAN, Nota nº444 ao Comando do Centro de Aveiro, 17 de agosto de 1923, Cx.4186.

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Imagem 17 – Donnet-Denhaut de 200cv

(Museu de Marinha – Arquivo Histórico de Imagens da Marinha)

Também em 1917 adquiriram-se dois hidroaviões Tellier de 200cv. Na altura eram ainda aeronaves muito recentes e segundo Sacadura Cabral:

Apesar de o Tellier ser um aparelho que não tinha prestado provas correntes e de não haver por isso relatórios dos resultados em serviço do mar, achei-o bom e não pedi 6 Tellier apenas por saber que seriam recusados alegando a pequena produção e a necessidade de os experimentar nos vários centros. O futuro deu rasão às minhas previsões pois o Tellier está hoje reconhecido como um bom aparelho.440

A opinião generalizada sobre o Tellier indica que efetivamente tinha boas qualidades hidrodinâmicas e boa qualidade de construção, embora fosse demasiado pesado para o seu motor de 200cv. Até 1924, os Tellier e os D.D. constituíram a linha da frente da Aviação Marítima, sendo-lhes atribuídas as mesmas missões sem diferenciação de frota.

Para além das aeronaves, Sacadura Cabral adquiriu também a licença de construção dos Tellier e matérias primas para produzir 10 hidroaviões deste tipo.

Embora um relatório indique que em dezembro de 1918 estavam já construídos três cascos441, só em agosto de 1920 avançou a montagem final do Tellier 12, o primeiro

440 MM, Fundo Sacadura Cabral, Nota à Majoria General da Armada, s/d.

441 BCM-AH, Doc. avulsa, Nota nº726 da DAN à Secretaria da Marinha 1ªDireção, de dezembro 1918, Cx.1346/1347.

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construído em Portugal. Em dezembro de 1920 e fevereiro de 1923, montaram-se respetivamente os Tellier 13 e Tellier 15, também construídos no CAM Lisboa442.

Após 1924, estas aeronaves foram utilizadas na instrução do primeiro e segundo curso de pilotos ministrado no CAM Lisboa, acabando por ter também uma longevidade notável. Só foram retiradas de serviço em 18 de janeiro de 1928, e todos eles com mais de 100 horas de voo, o que é um forte indicador da qualidade de construção destas aeronaves.

Imagem 18 – Tellier de 200cv

(Museu de Marinha – Arquivo Histórico de Imagens da Marinha)

Na transferência de Aveiro para a Marinha Portuguesa, para além de cinco Donnet-Denhaut, a Aviação Marítima adquiriu os dois hidroaviões Le Pen com motor Renault de 280 cv lá existentes. À semelhança dos outros operadores, a Aviação Naval também os considerava hidroaviões perigosos. Tiveram muito pouco uso e de má memória, principalmente devido ao acidente com o GL58 em 11 de março de 1920, onde desapareceram os três elementos da sua tripulação. Em 1921 foram comprados mais seis destes hidroaviões nos excedentes de guerra franceses, mas devido aos danos que sofreram na viagem acabaram por ser abatidos em 1923 e os seus motores foram cedidos à Aeronáutica Militar em troca de três biplanos de treino Avro 504K.

Durante a Grande Guerra, no processo de edificação do Centro de Aviação dos Açores, foram adquiridos quatro hidroaviões americanos Curtiss HS-2L. Neste caso a escolha de aeronaves esteve relacionada com o contacto próximo com o comando da

442 BCM-AH, DAN, Relatório de entrega de Director da Aeronáutica Naval, 12 de abril 1929, Cx.4596-B.

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base naval americana de Ponta Delgada. De acordo com o War Diaries da companhia de aeronáutica dos Marines estacionada em Ponta Delgada443, terá sido montado e experimentado um destes hidroaviões em novembro de 1918, contudo não encontrámos mais registos de voos destas aeronaves nos Açores. Após a desativação do centro dos Açores em 1921, os HS-2L foram montados entre 1923 e 1925 e estiveram ao serviço até 1930 em Lisboa e em Aveiro. Foram utilizados com alguma intensidade em 1924 e 1925, mas doravante a sua utilização diminuiu bastante devido à dificuldade em se obter sobressalentes para os motores Liberty. Eram aeronaves bastante robustas e não encontrámos relatos de acidentes ou incidentes graves.

Imagem 19 - Curtiss HS-2L

(Museu de Marinha – Arquivo Histórico de Imagens da Marinha)

A partir de 1919, na sequência da ida de Sacadura Cabral para a Grã-Bretanha começa-se a ter acesso a material britânico. Aproveitando a venda dos excedentes de guerra, foram adquiridos dois hidroaviões bimotores Felixstowe F3. Foram também considerados aviões de grande qualidade, mas que pouco mais serviram para além dos voos Calshot-Lisboa e Lisboa-Funchal. O 4018 perdeu-se no regresso da viagem ao Funchal em abril de 1921; o 4017 em janeiro de 1922, num temporal que destruiu parte das instalações e aeronaves de Aveiro.

443 Marine Corps History Division, 1st Marine Aeronautic Company, Azores, War Diary, junho 1918 a janeiro 1919.

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Imagem 20 – Felixstowe F3

(Museu de Marinha – Arquivo Histórico de Imagens da Marinha)

Também na Grã-Bretanha, mas já em 1921, foram adquiridos três Fairey IIID;

dois para iniciar o treino de lançamento de torpedos e um especialmente modificado para efetuar o voo Lisboa-Rio. Acabaram por ser todos empenhados na Travessia Aérea do Atlântico Sul, na qual se perderam o Lusitânia e o Fairey 16. O Fairey 17 que terminou a Travessia, foi batizado de Santa Cruz. Em 1923 adquiriram-se mais três Fairey IIID, mas esta frota acabou por ter pouco uso em Lisboa, pois apenas efetuaram cerca de 50 voos até à sua ida para Macau em 1927. Naquela colónia serviram até 1932, mas também não tiveram muita atividade. De acordo com um relatório, efetuaram apenas 86h55m entre novembro de 1927 e abril de 1929444 e muito provavelmente terão voado ainda menos até terem sido desativados.

444 BCM-AH, DAN, Nota s/n da Aviação Naval de Macau – Comando, s/d, Cx.4230.

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Imagem 21 – Fairey IIID.

(Museu de Marinha – Arquivo Histórico de Imagens da Marinha)

Contrariamente às aeronaves, existem bastantes dados sobre os seus motores.

No período deste estudo o motor mais utilizado na Aviação Naval foi o Hispano-Suiza de 200cv. Em 1921 existiam 28 motores deste tipo, “(...) 3 são novos, 4 inutilisados e os restantes com bastantes horas de voo.”445. Note-se, no entanto, que estes motores tinham de ser revistos ao fim de 15 horas de funcionamento e dificilmente efetuavam mais do que 60 horas. Assim, um motor com mais do que 30 horas era já considerado

“cansado”. Já os motores Rolls-Royce Eagle que equipavam os Felixstowe, os Fairey e os Fokker tinham uma qualidade bastante superior. Constatamos que com 50 horas de funcionamento estão ainda em bom estado, para além de que existem diversos comentários sobre a sua grande fiabilidade, sobretudo de Sacadura Cabral que tinha uma clara predileção por estes motores. Encontrámos pouca informação sobre os motores Liberty que equipavam os HS-2L, mas seriam também bastante fiáveis, o seu principal problema foi a morosa aquisição de sobressalentes.

Observa-se também que não existia uma preocupação em manter uma uniformização do modelo de aeronave empregue tal como existia relativamente aos motores. Por exemplo, em finais de 1924, a Aviação Naval possuía no seu inventário 17

445 BCM-AH, CAN Lisboa, Nota à Direção dos Serviços de Aeronáutica Naval, 5 de julho 1921, Cx.4087.

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hidroaviões de patrulha marítima distribuídos por 5 modelos diferentes; mas apenas 3 tipos de motor.

Consideramos que esta heterogeneidade de aeronaves está bem descrita num relatório de Santos Mota:

(…) não há nem houve um aparelho que tenha sido adquirido para desempenhar esta ou aquela função militar. Todos foram comprados com fins especiais e ao arbitro de quem esteve em condições de o fazer.

Assim temos os H.S., os Fokker e tivemos os G.L. e os F.3. (…) houve ou há que procurar função para os aparelhos quando deveriam antes procurar-se os aparelhos para a função.446

Só a partir dos finais dos anos 20 encontramos frotas de aeronaves diferenciadas por tipo de missão; ou seja, os Hanriot para treino básico, os Macchi para treino avançado e os CAMS 37 para missões operacionais.