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Marinha Portuguesa na Grande Guerra (1914-1917)

2. Formação da aviação naval portuguesa (1916-1917)

2.2 Marinha Portuguesa na Grande Guerra (1914-1917)

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Após uma sucessão intercalada de efémeros governos de cada um destes grupos, vai ser o governo “guerrista” de Afonso Costa que, aproveitando a intenção da França de solicitar a Portugal que aprese e lhe ceda navios alemães refugiados nos portos nacionais, consegue levar a Grã-Bretanha a antecipar-se e efetuar este mesmo pedido em nome da Aliança. Desta forma, em 23 de fevereiro de 1916, numa operação conduzida pela Marinha, vão ser apresados 72 navios alemães e austro-húngaros nos quais é imediatamente içada a bandeira portuguesa. Na sequência deste evento, a Alemanha declara guerra a Portugal no dia 9 de março de 191661.

Na origem do apresamento destes navios das Potências Centrais está a crescente perda de mercantes aliados devido à guerra submarina, algo que tinha vindo já a ser percecionado por Portugal. O próprio Pereira da Silva admite que os planos de 1912 e 1914 são impossíveis de realizar, para além de estarem desajustados à nova realidade da guerra naval. Surge assim um novo plano em 1916 (ainda antes da beligerância) mais orientado para fazer frente à ameaça submarina, dando prioridade à construção de contratorpedeiros e submersíveis. Apesar da coerência deste plano, todos os restantes aliados tinham já os seus estaleiros a produzir intensamente aquelas classes de navios para as suas marinhas, pelo que Portugal só poderia depender do seu pouco eficiente Arsenal de Marinha.

Torna-se prioritária também a defesa dos principais portos portugueses, nomeadamente Lisboa e Leixões. Até aqui, a defesa portuária passava quase exclusivamente pela utilização de artilharia costeira e o conceito de “esquadra fortaleza”. Em Portugal, este conceito defensivo era materializado por unidades navais como torpedeiros e submersíveis e, sobretudo, pelo Campo Entrincheirado de Lisboa, o conjunto de fortificações que contornava os limites terrestres da cidade, numa linha que se estendia de Sacavém a Caxias e constituía o sistema defensivo da capital portuguesa, tanto contra ataques terrestres, como contra ataques marítimos.

Todavia, a guerra europeia cedo introduziu novas tecnologias de armamento que para a defesa portuária implicava também a utilização de campos de minas defensivos, capacidade de rocega para neutralizar as minas colocadas por U-Boats

61 Ibidem, pp.19 a 21.

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(uma das táticas mais utilizadas por estes submersíveis em 1916), baterias de torpedos, sistemas de comunicações e um comando central para coordenar esta variedade de meios. Recorre-se ao aliado britânico para adquirir conhecimento nesta área da guerra, que destaca para Lisboa o Contra-almirante William de Sallis e uma equipa de instrutores para dar formação em guerra de minas a um pequeno número de oficiais portugueses.

Paralelamente contacta-se com a França que está interessada em usar a costa portuguesa para completar a proteção dos navios que asseguram a ligação entre o Mediterrâneo e os seus portos no Atlântico. É assim estabelecido um primeiro acordo com Paris nos finais de 1916 para a criação de um depósito de combustível no Lazareto e a utilização de Leixões por patrulhas franceses. Como contrapartida, a França fornece também grande parte do material de defesa das barras do Tejo e do Douro, nomeadamente torpedos fixos, minas, equipamento de rocega e de barragens62.

Também o Algarve vai merecer especial atenção, sendo a sua esquadrilha de fiscalização reforçada, mas com navios sem capacidade para enfrentar os submarinos alemães que frequentam cada vez mais essa costa para atacar a navegação em trânsito para o Mediterrâneo ou o Atlântico Sul. Na prática, vão ser os aliados a reforçar a partir de fins de 1916 o Algarve com esquadrilhas que se mantêm na zona cerca de uma semana antes de regressarem às suas bases de Casablanca ou Gibraltar63.

Embora tenham ocorrido em Lisboa lançamentos de minas por U-Boats em 1916, os ataques mais marcantes vão ocorrer nas ilhas atlânticas. Em 3 de Dezembro desse ano, o U-83 aproxima-se do Funchal onde vai torpedear três navios aliados e bombardear a cidade com a sua artilharia, em especial a zona da estação de cabos submarinos; isto sem ter tido uma resposta minimamente eficaz das defesas portuguesas. O choque provocado por este ataque a um porto é imenso, pela constatação da vulnerabilidade dos portos nacionais e a impunidade dos U-boats64.

No dia seguinte ao ataque ao Funchal, em Cabo-Verde, um U-Boat semi-submerso aproxima-se do porto do Mindelo para atacar o paquete Moçambique. Por

62 António José Telo, História da Marinha Portuguesa. Homens, doutrinas e organização 1824 – 1974, pp.258 a 260.

63 Ibidem, p.267.

64 Ibidem, p.272.

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sorte, foi detetado atempadamente e repelido pela ação corajosa da canhoneira Ibo.

Em fevereiro de 1917 é feita uma segunda tentativa, que falha igualmente, mas na noite de 2 de novembro são torpedeados pelo U-155 dois navios brasileiros.

Também os Açores vão ser alvo de investidas de U-Boat, contudo, a importância estratégica deste arquipélago será mais aprofundada no próximo capítulo.

Outro vetor relevante da ação da Marinha Portuguesa durante a Grande Guerra foi a proteção à navegação nacional. Este apoio materializou-se sobretudo nas escoltas que começaram logo em 1914. Embora tivessem sido formados alguns comboios, não havia em Portugal um sistema regular semelhante ao dos aliados; na sua maioria estas escoltas eram esporádicas a navios isolados com cargas de interesse militar.

Vai ser no mar que Portugal vai sofrer as maiores perdas para os U-Boats, no entanto, nas poucas vezes que os enfrentaram, os navios da Armada tiveram um desempenho surpreendentemente superior ao que lhes seria exigível65.

Os anos de 1916 e sobretudo 1917, constituíram aqueles em que a ação dos U-Boats se tornou mais perniciosa para Portugal. Embora no Atlântico português tenham sido afundados 275 navios, isto representa apenas cerca de 5% do total de navios e de tonelagem perdido durante a guerra. Esta menor intensidade de incursões nestes mares, permitiu que o esforço de coordenação e os de sistemas de defesa instalados, se tenham constituído como medida mitigadora relativamente à ameaça submarina alemã.