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2 SEGUNDA PARTE

2.1 GABRIEL DOS SANTOS GENTIL

Figura 2 – Capa do livro “Povo Tukano, Cultura, História e Valores”. Foto da autora

Gabriel dos Santos Gentil, Séribhi Tëonãri-Kũmu, filho de Cândido Gentil e de Amélia dos Santos, descendentes da sociedade exolinguística “Tukanoan”, nasceu em 16 de agosto de 1953, nas imediações do rio Tiquié em Pari-Cacheira, localidade situada no município de São Gabriel da Cachoeira, 1.601 km a noroeste de Manaus (GENTIL, 2005).

Gabriel (GENTIL, 2000) relata que o início de sua trajetória como intelectual indígena se deu no momento em que foi submetido ao ritual de iniciação dos Kumuã38, que acontece logo após o nascimento das crianças. Quando criança aprendeu com os padres salesianos a escrever em português e em Tukano/Yepamahsã. Mais tarde em

Manaus, Gabriel é pago para escrever os Mitos em Tukano/Yepamahsã e em português.

Seu principal apoiador nesta tarefa é o padre Kazys Jurjis B÷kšta39, que lhe possibilita acesso ao acervo de fitas, gravadas pelos padres, com conversas entre os salesianos e os velhos Kumuã mitos da criação do mundo. Um dos resultados deste trabalho é publicado em 2000 em Zurich40, uma narrativa dos “Primeiros Quatro Tempos de Antiguidades” do “Mito Tukano”, acompanhando pela tradução em português. Posteriormente Gabriel também publica seu segundo livro pela editora da UFAM, que compõe a imagem da foto acima.

Como disse, Gabriel participa das reuniões de pajés, que ganham expressão como movimento social, com projeção e reconhecimento nacional e internacional, a partir do encaminhamento das cartas que reivindicavam a propriedade intelectual sobre os conhecimentos tradicionais41, o que define negociações diretas entre os pajés e agências transnacionalizadas 42. A lei de propriedade intelectual, conforme elaborada pela OMPI, abre precedentes para a atuação de laboratórios de biotecnologia, no sentido de roubar os conhecimentos tradicionais sobre identificação, uso e beneficiamento dos recursos naturais, através de receituários, fórmulas e procedimentos técnicos de beneficiamento, apropriando-se destes conhecimentos sob a égide dos registros de patente, como se esses conhecimentos tivessem sido desenvolvidos pelos laboratórios.

As reuniões de pajés assumem importante papel no embate político e econômico onde, de um lado, estão os países em desenvolvimento que não conseguem acompanhar o ritmo de

39 Casimiro Jorge Beksta; tanto o padre como o Kũmu apresentam essa informação numa comunicação pessoal, momento em que nos reunimos na biblioteca onde trabalhava o padre, em agosto de 2003.

40

Gabriel dos Santos Gentil. Mito Tukano. Quatro Tempos de Antiguidade Histórias proibidas do Começo do Mundo e dos Primeiros Seres. Zurich: Waldgut, 2000.

41 Em 1998 Gabriel participa da primeira Reunião de Pajés e assina, junto aos outros, a “Carta de Princípios da Sabedoria Indígena” dirigida à Organização Mundial do Comércio e Organização Mundial de Propriedade Intelectual. Em 2001 acontece a “reunião de Pajés ‘curandeiros e líderes espirituais’ de povos indígenas da Amazônia, em São Luís do Maranhão que resultou na Carta de São Luís do Maranhão – Encontro A Sabedoria e a Ciência do Índio e a Propriedade Autoral. Em 2002 e 2004 acontecem a primeira (em anexo) e segunda Conferência de Pajés da Amazônia – Biodiversidade e Direito de Propriedade Intelectual, Proteção e Garantia de Conhecimento Tradicional, (Almeida et. all., 2008).

42

Organização Mundial do Comércio – OMC, Convenção sobre a Diversidade Biológica, Organização Mundial de Propriedade Intelectual – OMPI, Comissão das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento e Comitê Intergovernamental de Propriedade Intelectual relativo a Recursos Genéticos, Conhecimentos Tradicionais e Folclore da OMPI.

patenteamento dos conhecimentos tradicionais e, de outro lado, os laboratórios de biotecnologia, sediados em países desenvolvidos, que introduziram pesquisadores nas comunidades locais com o objetivo de se apropriarem dos conhecimentos dessas populações sobre os recursos naturais .

O envolvimento de Gabriel nesses processos que reivindicam propriedade intelectual dos saberes tradicionais, assim como sua atuação como escritor dos mitos Tukano, conforme ele próprio denominou, lhe permite participar de um campo fértil de reflexões sobre direitos equitativos para saberes tradicionais e científicos. Seu trabalho intelectual repercute nos espaços de produção de conhecimento da sociedade nacional e redes transnacionais, mas especialmente nas instituições de ensino e pesquisa, produz reflexão e transformação das concepções e dos espaços sociais implicados nas relações que envolvem conhecimentos tradicionais e científicos enquanto partes de um único processo de produção de conhecimento.

A trajetória de Gabriel nessa relação entre conhecimentos tradicionais e científicos inclui sua atuação junto a instituições de ensino e pesquisa do estado do Amazonas e do governo federal, ministrando cursos e palestras43.

A partir de cinco de agosto de 2004 é reconhecido como Pesquisador Honorário “pelas relevantes atividades de pesquisador autodidata no campo do saber tradicional” (Foto 1), pela Fundação Oswaldo Cruz em Manaus e passa a trabalhar para o Centro de Pesquisa Leônidas e Maria Deane – Fiocruz, até junho de 2006, quando acontece seu falecimento.

O diálogo entre conhecimentos exercitado em nossa parceria de trabalho para minha pesquisa de mestrado ganha oficialidade com a participação de Gabriel na apresentação do artigo “Educação Intercultural e Transcultural: povos indígenas da Amazônia brasileira e propriedade intelectual” 44.

Assim, a trajetória de Gabriel dos Santos Gentil explicita quais são as redes sociológicas mais amplas que contextualizam esta tese. Este

43 Entre esses está o curso “Cultura e Língua Tukano”, cujos certificados foram emitidos pela UFAM, sendo realizado na sede do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e a 1ª Oficina Pedagógica Amazonas Indígena no Instituto de Educação do Amazonas – IEA. http://pib.socioambiental.org/c/noticias?id=5825

44

Artigo apresentado no Grupo de Trabalho Educação Indígena, coordenado pela Dra. Antonella Tassinari e pela, então doutoranda, Beleni Grando, realizado durante o II Seminário Internacional de Educação Intercultural na Universidade Federal de Santa Catarina, em abril de 2003. http://www.rizoma.ufsc.br/pdfs/544-of10b-st4.pdf

indígena atravessa o momento histórico e social contemporâneo para as relações entre conhecimentos tradicionais e científicos a partir de um lugar onde nenhum outro indígena ocupou até o momento presente na Amazônia. Segundo seu texto autobiográfico (GENTIL, apostilado s/d), ele nasce em meio a conflitos entre rituais católicos e indígenas. É o quarto filho homem de uma família, sendo rejeitado por ter nascido homem. É educado num internato salesiano onde aprende a escrever em Tukano/Yepamahsã e em português o que lhe dá condições de ser escritor e tradutor de mitos para a língua portuguesa.

A trajetória de Gabriel apresenta um movimento contemporâneo às relações sociais que compõem a discussão para legitimidade e direitos equitativos para sábios/Mestres e cientistas, saberes/conhecimentos tradicionais e científicos. Trata-se de um conjunto de situações históricas relevantes para as relações entre conhecimentos tradicionais e científicos para além desta pesquisa e nela inscrevem um debate constituinte. Simultaneamente à minha inserção nestes contextos, a partir da pesquisa junto a Gabriel Gentil, também acontece a minha entrada no campo etnográfico desta tese.